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Full text of "Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo"

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HARVARD UNIVERSITY 




LtBRARY 

PFABODV MUSEUM OF AMERICAN 
ARCHAEOLOGY AND ETHNOLOGY 

r;i> 1 OF 

Alfred Vlnoent Kldder 
Reecíved PebruaTy 1, 1939 



Cxxo-^^ itf/n 



ESTADO DE 8Â0 PAULO 



Revista do Instituto 

Historieo e Geographieo 



VOLUME I 



SLIMMARKJ 

I. A devtmnnnçáo «íSerrH \fn \{ttiift 
queíra^t, pelo dr. Orviík A. iH rb> . 

II. Origens rcjjublirnnax tUt BttuiL 
pelo dl. l>omingos Jay,ii.inlji', 

III. fhsciirno do *lr. JtjiV^. Múnioirtj, 
lido na sis.Não <k) dia 4 Av JUtíl^ii 
dt' iStí5 (.'in honi(*nag<«ni ^ liíUc^n-M'- 
den< ia ilos Kstados Lnifin^. 

IV. A<:ta.s âas .sess-ÔPS^ até a íImi iin.i iri- 
ceira. 



IV.I Cc-.. '•*-• !•■ ' . ■ '^kj 






189.Õ 

Typ. d' Ci Município - Rua do Rosário, 5 



L.Scc. /Ç./^í,, ¥<í>''.7ú 



Ao leitor 



A historia de S. Paulo é a própria historia do 
Brasil. 

A necessidade de uma associação que promovesse 
os meios de estudar tantos documentos com os quaes 
se pode vir a conhecer a origem dos mais impor- 
tantes feitos dos nossos antepassados, ou esclarecer 
noções erróneas sobre factos que merecem ser devi- 
damente conhecidos, era uma destas lacunas que se 
afigurava difficil de ser preenchida. 

Felizmente a nossa iniciativa foi coroada do me- 
lhor êxito e estamos actualmente gozando do mais útil 
convivio dos nossos homens de lettras, que concorrem 
com suas luzes para assegurar ao Instituto Histórico 
a mais brilhante carreira. 

A « Revista do Instituto » é já uma prova de que o 
trabalho fortiíica-se no estudo da historia, que tem va- 
lor inestimável, e muito pode ser\âr para que os moços 
aprendam a conhecel-a e bem assim para c[ue outros 
estudiosos companheiros possam no futuro continuar 



II 



a obra, que é bem pequena, era relação a importân- 
cia do assumpto. 

Todavia o molde íica traçado, restando a outros 
modifical-o e aperfeiçoal-o até que a nossa historia 
seja a fiel interprete dos acontecimentos, c o ensina- 
mento útil dos patriotas. 

O Instituto Histórico, iniciando a publicação da 
primeira parte da « Revista » com alguns trabalhos ap- 
provados pela assembléa geral, afim de serem publi- 
cados, continuará a publicação de outros que já foram 
lidos. E' tão interessante o assumpto destas publica- 
ções, que será certa a procura da « Revista » para leitura 
dos que desejam conhecer o modo sério e conscien- 
cioso pelo qual o Instituto vae-se desempenhando dos 
seus patrióticos intuitos. 

Aos leitores compete julgar se nos desempenhamos 
dignamente do encargo. 



Oirvlll© A» I>©jrt>3r 



A denominação "SERRA DA MANTIQUEIRA" 



A DENOMINAÇÃO "SERRA DA MANTIQUEIRA" 



(Obville a. Derby) 



A pula\Ta < serra» (jue, pelo menos na linguagem po- 
pular do Brazil, tem 8Upj)lantado quasi todos os outros ter- 
mos da nomenclatura orographica, acha-se empregada com 
(luas signiHca<;5es bem diversas. A primitiva e mais correcta, 
suggerida pela semelhança ao instrumento do mesmo nome, 
é applicada a um conjuncto de montanlias constituindo um 
macisso com|>osto de diversos picos, como a serra dos Órgãos ; 
ou a uma cadeia ou systema de monttuihas, ou cordilheira, 
como a Serra do Mar. A outra significação refere-se a mon- 
tiudias isoladas ou aos membros de um systoma de monta- 
nhas consideradas isoladamente. Bem á vista da cidade de 
Sáo Paulo teiiios exemplos desta dupla significação na Serra 
da Cantareira, um macisso composto, e na Serra de Jaraguá, 
mn pico, ou montanha isolada, pertencendo as duas ao sys- 
tema, ou cordilheira, da Serra da Mantiqueira. 

Na linguagem popular, que tem fornecido a maior parte 
das denominações geographicas, é a segunda significação que 
predomina. Qualquer desigualdade da superfície de certa 
importância recebe o nome de serra, e sendo generalisada 
para abranger mais de uma feição topographica. é raro que 



o nie.sino nome seja a])[)liea(l() a mais de uma secção liiiú- 
tada de um systema montanhoso, como, por exemj)lo, a (jiio 
a vista abrange de um ponto dado. Os nomes systematicos 
em regra geral não sâo dados pelo i)ovo, mas ])elos geogra- 
phos (jue. reconhecendo a necessidade de uma denomina<,ui<^ 
geral para incluir todos os membros de uma mesma cadeia 
ou systema, ou inventam termos novos, como sejam Serra 
do E.s])inha(,'0, Serra das Vertejites. etc. ou dào nuiior exten- 
são aos nomes (|ue òntre o ]')ovo têm appli(*a(,'ão limitada c 
local. E' só (juando o povo começa a se preoccui)ar com no- 
ções geographicas. ou (juando uma feijão toj)ogrophica adiiuire 
importância excepcioi\al por sua riíjueza natural ou por mar- 
car uma divisão politica, (jue ha tendência na linguagem po- 
pular a generahsar os nomes <iando maior extensão ás de- 
nominavões locaes. 

No lirazil a Serra da Manli(|uen'a é imi dos poucos 
exemplos de um nome popular se tornar systematico. é isto 
não somente entre os geogi-ajJios como também entre o ])ovo. 
liste ultimo facto se ex[)lica pela importância dada a esta 
cadeia <le montanhas na demarcação das duas ('a])itanias de 
São I^uilo e Minas (leraes. Nos mappas do século ]>assado. 
tanto de Minas como de São Paulo, o único noníc systema- 
tico (ju(^ se encontra é este <la Serra da Manti(iueira. e em 
documentos de 1740 a ITõO vè-se (jue o termo foi tand)eni 
empregado entre o povo mais ou menos conforme o seu uso 
entre os geographos, e não com Hmitação a uma parte de- 
terminada do systema. 

Nos primeiros mappas em cjue se encontra o nome de 
Mantiíjueira, este abrange ioda a cadeia desde as visinhan- 
CHs de São Paulo até as de l^arbacena, de modo' (pie não 
se pode determhiar nelles a ])osivão da primitiva Serra da 
Mantiípieira. Na epocha da confecção destes mappas (17()5- 
,17()7), a serra nelles representada era cortada por três estra- 
das que do litoral davam ingresso na ('ai>itania de Minas 



(leraes. Eniiu estais a estrada do Rio de» Janeiro [)elo valle do 
l^inihybuna para Barbaceuu. ete .; de (Tuaratiii<?uetá para Sfio 
João (rElí*ei. e de Siio Paulo para o valle do Sapucaliy. 
píissaiulo i)or Atibaia. EsUi ultima tinha sido abertit de- 
lH>is da descoberta das minas de SanfAuna do Sapucaliy 
em 174(), (|uando o nome de Serra da Mantiijueira já estava 
muito em evidencia nas contendas entre as duas ('aj)itaniaí< 
sobre limites. A (juestão da origem e emprego ])riniitiyo .do 
nome é portanto limitada ás duas estradas mais antigas de 
Barbacena v (Uiaratinguetá. 

A primeira menção do nome (]ue se tein encontrado 
nos documentos ottíciaes é nos autos de posse (pie tomou a 
Camará da \'illa de São João (feirei de diversas localidades 
no districto da Campanha do Mio W>rde. íístes autos lavra- 
dos em fins de Fevereiro e principios de Março (le 174;í 
attirmam a posse antiga da dita Camará «pela estrada ge- 
rai que vai «leste districto para a cidade de São Paulo até 
o alto da .serra chamada \binti(pieira». Ahi o termo é applí- 
eudo a unia serra na antiga estrada de" >São João (VElrei i? 
Guaratinguctá e. ai)])arentemente em seiiti(lo limitado a" esttC 
locaUdade, não estando porém excUiida a hypothese de que o, 
nome já era generalisado, podendo neste caso ter-sc originado 
na outra estrada, a do liio de Janeiro a Barbacena. De facto 
na mappa do sul de Minas de 1 705 ha nesta estrada o nomo 
^Pé da Manti(|ueiríi > não havendo nome geral i)ara á" cordi- 
lheira; e no map[)a geral da Capitania de. 17<>7 (os dous ma]>- 
pa$ são ])rovavelment<? do mesmo auctor, e nas i)artes corrcs- 
])ondentes são quasi idênticos) a mesma localidade tem o no- 
niedc «Rocinlnada j\huitiqueira> , apparecendo tand)em o nome 
systcmatico de Serra (hi Mantiípiejra abrangendo toda a ser- 
rania entre São Paulo e Villa Rica. 

E SíUjido que a primeira (Uvisão entre as villas <le (jiiia- 
ratinguetá e São João d'Elrei foi estabelecida no morro de Ca- 
xambu, ouile a H) de Setendn-o de .1714 a Camará (laquella 



() 



villa coUocoii um marco de pedra e lavrou um auto formal de 
posse. 

Quando mais tarde, em 1720, foi creada a Capitíuiia de 
Minas Geraes, esta mesma divisa foi designada para separal-a 
da de São Paulo. Alguns annos mais tarde os habitantes de São 
João d'Elrei removeram o marco do morro de Caxambu collo- 
cando-o em outro ponto cujo nome não vem mencionado nos 
documentos archivados em São Paulo, porém era provavel- 
mente o referido nos autos de 1743 com o nome de Serra da 
Mantiqueira. A duvida a respeito da identidade deste ponto 
provém da Pro\âsão Re^a de 23 de Fevereiro de 1731 que 
mandou ajustar de novo a divisão entre as duas villas de modo 
a dar mais largueza a Guaratinguetá, nada constando porém 
sobre a execução dada a esta ordem que provavelmente ficou 
letra morta. 

Não estando conhecido actualmente o antigo marco da 
Serra da Mantiqueira e havendo diversas estradas (jue coi^m 
a cordilheira hoje conhecida com este nome, é preciso determi- 
nar qual de.stas estradas .seja a mais antiga para poder identi- 
ficar a primitiva serra da Mantiqueira na estrada São Paulo e 
Minas. 

Assim, pois, temos em meados do século passado o nome 
de Mantiqueira generalisado por toda a cordilheira, e também 
empregado como termo local em ambas as estradas. Sendo pou- 
co provável que o nome se originas.se independentemente nas 
duas localidades, é de presumir que o nome local de inna da.s 
estradas se generalisou primeiro e que em virtude deste facto 
foi depois applicado na outra. Não é, porém, claro qual das 
duas estradas teve a primazia do nome, parecendo porém pelo 
testemunho dos mappas que esta deve caber á de Barbacena. 
Felizmente para tirar estíi duvida e a outra já referida sobre a 
posição do antigo marco na estrada de São Paulo, temos o pre- 
cioso opúsculo de Antonil, intitulado «CHiltura e Ojmlencia do 
Brasil» publicado em Li.sboa em 1711, e por consequência pou- 



(íos tuuios apenas depois da i)rhneira abertura da estrada j)ara 
Miiiíis. Esta obra dá um roteiro minucioso da estrada de S. Paulo 
até ^''illa Uica (ioni detallies topographieos que permittem iden- 
tificar quasi todas as localidades mencionadas. A parte deste ro- 
teiro que interessa ao presente estudo é o seguinte, sendo esta 
provavelmente a primeira vez que o nome Mantiqueira apparece 
impresso : 

« De Guaratinguetá até o porto de Guaipacare, aonde ficão 
as roças de Bento Rodrigues, dous dias até o jantar. 

«Destas roças até o pé da serra afamada de Amantiquira, 
pelas cinco serras muito altas, que parecem os primeiros mor- 
ros, que o ouro tem no caminho, para que não cheguem lá os 
mineiros, gastam-se três dias até ao jantar. 

«Daqui começáo a passar o ribeiro, que chaman passa 
vinte, porque vinte vezes se passa; e se sobe as serras sobre- 
ditas: para passar as quaes, se descarregâo as cavalgaduras, 
pelos grandes riscos dos despinhadeiros, que se encontrão: e 
assim gastão dous dias em passar com grande difficuldade estas 
serras; e dahi se descobrem muitas, e aprasiveis arvores de pi- 
nhões, que a seo tempo dão abundância delles para o sustento 
de mineiros, como também porcos montezes, araras e papagaios. 

«Logo passando outro ribeiro, que chamão passa trinta, 
porque trinta e mais vezes se pa.ssa, se vai aos pinheiros: lugar 
assim chamado, por ser o principio delles : e aqui ha roças de 
milho, abóboras, e feijão, que são as lavouras feitas pelos des- 
cobridores das minas, e por outros, que por ahi querem voltar. 
E só disto constão aquellas, e outras roças nos caminhos, e 
paragens das minas: e, quando muito, tem de mais alginnas 
batatas. Porém em algumas delias hoje, achão-se criação de 
porcos domésticos, galinhas, e frangões, que vendem por alto 
preço aos pas.sageiros, levantando-o tanto mais, quanto he maior 
a necessidade dos que pas.são. E dahi vem o dizerem, que 
todo o que passou a serra de Amantiquira, ahi deixou depen- 
durada, ou sepultada a consciência». 



o j)()rti) (Tuaii»a(*arc aclui-so mu pouco al>aixo <1a actuai 
cidatlc (Ic Loreua. A autiga estrada, portanto, sc<^iia do (íuara- 
tiuouetápclauiargeui direita (lo l*araliyhii ate ahaixo de Lorena 
onde passou pai'a a niartí(^nies(|uei'dacontinuandopelo vallealuii- 
xo por unia distancia representada poi* três dias de niarclia. sendo 
a de (fuaratiniíuetá ao porto ivpresentada ])or dous. As cinco 
scj-ras muito altas referidas no roteiro sào provavelnierile con- 
tra Lortes da serra (pie a estrada ia contornando na i)rocura da 
i^aríi^anta do Cruzeiro, onde lioje passa a Estrada de ferro Rio 
e Minas , cjue (' com effeito a mais baixa (pu* se encontra nesta 
sec(,'rio da Serra da ^fantiíjueira. O ribeirão (jue desce desta 
íj;ar<i:anta ainda lioje conserva o nonu» de Passa-Vinte .ao pas- 
so (pie o do lado op]>osto mudou o nome de Passa-Trinta 
para Passa Quatro . 

A mesma obra de Antonil dá dous roteiros do Kio de Ja- 
neiro i)ara Minas; mu. o caminlio vellio, ])elo porto de Paraty 
a 'raul)até i)ara ii;anliar o caminlio acima dt^scripto; (* o outro, 
o caminho novo. pelo valle do Parabylmna. isto é. a estrada de 
l>arbacena. Na d''scri[>(,ào desta jilfiiiiA não vem mencionado o 
nome da serra, e é ]>rovavel (pie nesta epoclia não era conhe- 
cido nelle o nome de Mantiípieira. Seja como fôr.é evidente (jue 
o em|)re'^o do noiíKMio caminlio velho de São Paulo data da i>ri- 
meira abertura deste. (» <pie dahi o luaiie tem-se ésj)alliado, co- 
mo uma mancha de azeite, sobre a cordilheira int(*ira. Como na 
rmíi;ua<i;em popular dá-se o tratamento de serra ás sec(,H">es Ín- 
gremes das estradas, é provável (pie jírimitivamente o nome 

Serra da MantiípK^ra s(* referisse á ^aroanta e não aos picos 
elevados ao lado. 

E' digna de nota a forma i)rimitiva da palavra Amanti- 
(piira - (jue é j)rovavelmente mais ai>proximada do (pie 
^ Mantiípieira ao original nonu^ indio. se i\ como ))arece. de 
origem indígena. Ainda hoje os habitantes da sei-ra dizem ge- 
ralmente Mauiiípiira . Tm documento de ITíK) conserva o 

A inicial dizendo Amantiípieira > . A forma Maiiti<pdra 



calia-se tíunt)eni no nome dado a um córrego nas vizinhanças 
<la cidade de S. Paulo, tributário do Tietê, (juasi em frente á 
Penlia. ('•') Seria interessante sal »er se este ultimo nome vem da 
extensão dada ao nome da serra ou se teve origem indepen- 
dente. A ultima liypotliese parece a mais provável, visto que em 
São Paulo é raro ouvir-se o nome de Manti(|ueira aj>])licado ã 
serra ao norte, universalmente conhecida i)elo nome de Sen\a da 
Cantareira. 

Com a extensão do nome da ,\hmti(iueira tem desap|>are- 
cido. [íclo menos dos majipas, nuiitos nomes locaes applicados 
aos diversos macissosou secções do systema. Algims destes no- 
me.^ íiguram nos map[)as anti,í>:os, e (|uando ior levantada topo- 
í^raphica mente a região serão encontn^idas dezenas de outros 
conservados na linguagem })opular das diversas localidades. Um 
systema montanhoso como o da Serra da Manti<iueira. no sen- 
tido lato em (pie 6 hoje empregado, con sistede macis.sos mais 
ou menos indivi<luolisa<los alinhados em diversas series suhpa- 
rallelas. Ntr nomenclatura geogra]>hica ha grande conveniência 
em ciHiservar os nomes destes macissos cujas rela<,*ões entre si 



{*) o digno cDnsoeio, dr. Thujdoro Sampaio lupofferece gentilmente a seguinte KUg- 
go^tão qiie sp su^mettc» ú. eon.si leravãi dos entendidos na matéria da linguistica in- 
dijnn.i. 

<\ palavra Mantiqucim. antigamenjo pronunciada Amniifiquira, pronuncia que 
ainda s? conserva entre o povo de municípios vizinhos da serra, parece derivar-se da 
íapy nmantt/ ou amandi/ que .significa vhnvn, e ntiitire que na lingua Tupy do 
Amazjnaa significa flormir. Atnnnft/qulrf viria a significar, portanto, dormida ou 
pouso da chuva, o que bem so explica pela pre.sença das nuveus quasi permanentes 
ííjbre o cume daquella serra. 

O que corrjbora ainh ejta interpretação é a existência de outros vocábulos de 
origem tupy contendo o mesmo elemento etymologico nas vizinhanças da mesma re- 
gião, comi Buqnira. logar numa gargantíi da mesma ser]*a, na estrada conhecida em 
outro tempo por Caminho do Rio, pouí^o de tropeiros, e que evidentemente se ori- 
gina da palavra tupy lujuivp pronunciada hiuinira, que quer dizer dormida, pousada. 
O vocábulo Oamhuquira, significando folhas tenras da abobom, ou os brotos, que 
são folhas fechadas e como que dormentes, vem também do tupy: raa, folha, ?í//kíV^. 
que dorme, iáto é: Cambuquira. ou ntauf/tiira quer dizer litteralmente folha qu^ 
dormem. 



10 



só podem ser fletermiiiadas pelo estudo detalhado. topogi*aplii- 
co e geológico, do S3\steina. C-onio est^s macissos ix)dem estar 
ligados entre si de diversos modos haverá, sempre que falt<ím 
conhecimentos topographicos mimioiosos, divergência de vistas 
sobre o emprego do nome systematico. Jí nos casos em que uma 
divisão i)olitica corre por um systema montangoso, esta diver- 
gência pode assumir grande iviiportancia politica e social. 

Ainda hoje os conhecimentos topographicos da região da Ser- 
ra da Mantiqueira são tão imperfeitos que é impossivel dizer 
com rigorosa precisão onde é que começa ao norte e onde ter- 
mina ao sul o systema, bem como a sua largura e o numero e 
disposição dos membros suboniinados que a elle pertencem. 
Não é, portanto, de estranhar que tivesse havido a mesma in- 
certeza a respeito da divisão politica por ella traçada, l^m sys- 
tema montanhoso de largura indefinida nunca pôde constituir 
uma divisão politica. Esta tem necessariamente de ser uma li- 
nha seguindo por um ou outro dos membros do systema, e quan- 
do este membro for mal definido ou mal conhecido sempre ha- 
verá duvida a respeito. No caso presente o membro subordina- 
do que serve de divisa é o (jue tem o mesmo nome do syste- 
ma, isto é, o prolongamento natural da primitiva Serra da Man- 
tiqueira nas vizinhanças da garganta do (Vuzeiro. Deste ponto 
para o sul, na parte (|ue corresponde á divisa das aguas entre 
o Parahyba e o Rio \^erde. este membro é bem definido; ]^o- 
róm depois na secção quo corresponde ao Rio Sapucahy ha 
uma espécie de bifurcação.e tem havido discussão sobre ser um 
ou outro dos ramos desta bifurcação o verdadeiro prolongamen- 
to da Serra da Mantiqueira. Hoje em dia o nome é geralmen- 
te applicado ao alto espigão que limita o valle do Parahyba, e, 
conforme os Mineiros, é este espigão (|ue deve ser considerado 
como a Serra da Mantiqueira no sentido restricto em que é 
preciso empregar o termo quando se trata da divisa. Os Pau- 
listas do valle do Parahyl)a, pelo contrario, mantiveram, pelo 
menos até o tim do primeiro quarto deste século, que o nome 



11 



proi)rio deste espigão era Serra do Parai lyha. e (pie a verdadei- 
ríí Serra da Mantiqueira era a rainificaçào mais i)ara o oeste 
que limita os Campos do Jordão e (pie nos mappas antigos mi- 
neiros figura com o nome de Serra do Caim. Nesta (piestão 
muito discutida nas contendas sobre divisas no districto de 
Pindamonhangaba e do alto Sai)ucaliy. a opinião mineira está 
mais de accordo com a nomenclatura (pie seria empregada i)or 
topogi-aphos sem preoccupa(;5es i)oliticas. A nomenclatura mi- 
neira, porém, se afasta da topograpbica para incluir o Morro 
do Lopo que se aclia n'uma ramifica(,ão, e não sobre o natural 
prolongamento topogi^ai)bico da i)rimitiva Serra da Mantiípiei- 
ra, que é o grande resalto (pie limita o valle do Parabyba até íi 
grande volta em (xuararema, e depois o valle do alto Tietê. As- 
sim tanto a nomenclatura mineira como a paulista ambas ba- 
seadas sobre preoccupa(;:(')es politicas, se afastam da topogra- 
pbica. A actual linba convencional da fronteira na parte cor- 
respondente ao valle do Parabyba é resultante dos conflictos 
entre estes diversos modos de ver, e n'uma i)arte afiusta-se no- 
tavelmente da linba natural to])ogra])iiica. Come(;ando na gar- 
o-anta do Picú entre os dous j)icos altos do Itatiaia e Picú col- 
locados .sobre a Serra da Mantiqueira no sentido restricto deste 
nome, segue pelo cume desta seiTíi até quasi em frente de 
Guaratinguetá onde a deixa para ganbar jmr uma linba irregu- 
iai- e mal definida a Serra do Caim dos antigos mappíis para 
depois voltar por uma linba ex(juisita em zigzag para o cume 
da Sen-a da Manti(pieira no sentido topograi)bic(). ou a Serra 
do Parabyba dos antigos Paulistas, seguindo \)oy esta até o [)i- 
co da Pedra Sellada onde ba uma bifurca(;ão abrangendo o val- 
le do Atibaia, da qual bifurca(^ão o ramo esquerdo deve con- 
servar o nome de Manticpieira, tomando outro nome o direito 
que a linba divisória segue até o Morro do Lopo. 

Nesta pai-te da fronteira as duvidas a respeito da divisa 
nasceram de differenças de nomenclatura e i>()dem ser resolvi- 
das por um apello franco e leal ao conbecimento topograpbico 



12 



(lo terreno, estando ambas as partes de accordo em traçar a di- 
visa por uma certa distancia pelo cume da Serra da Mantiquei- 
ra. O desaccordo versa sobre o ponto onde a divisa devia dei- 
xar esta serra para se dirigir para o norte em i)rocura do Rio 
(xrande, (jue é o outro trecho nâo contestado <la divisão. Con- 
forme as idéas i)aulistas a divisa devia sahir da serra nas calje- 
ceiras do Rio Sapucaliyguassú e seguir pelo leito deste rio até 
a confluência do Sapucahy com o Rio Grande. Conforme as 
idéas mineiras a divisa devia continuar i)elo cume da Manti- 
(pieira até o Morro do Loi)o píu*a d'ahi se dirigir para o norte 
de um modo (pie nunca foi claramente definido, estando na 
actualidade, [)or(^m, determinado pela evolução irregular dos li- 
mites de posse dos habitantes de um e outro Estado na zona 
contestada. 

As duvidas a este resj>eito provêm da confusão (pie tem 
havido, e que ainda hoje i)ersiste, entre a Berra da Mantiquei- 
ra em .sentido restricto e o mesmo nome emi)regado como ter- 
mo systematico. Como já foi referido, ha ainda incerte/,a sobre 
os verdadeiros limites topogi^aphicos do systema monfanho!=?o 
da Serra da Manti(pieira. Atraz do grande resalto (pie define o 
systema pelo lado do valle do Parahyba existe um grande phi- 
nalto montanho.so cujas feições topographicas só podem ser con- 
venientemente cla.s.siticada.s depois do levantamento topogra- 
j)hico detalhado e o estudo geoh^gico de toda a região. Neste 
|)lanalto acham-.sc re[)rcsentados e de certo modo fundidos uns 
com os outros, além do systom:i da Serra da Manti(pieira. dous 
outros mais ou menos (hstinctos. o da Serra do EspinluKo e o 
do Seira da Canastra. Ao norte do Rio (írande estes três syste- 
mas são mais (m men(\^ destacados e deíhiidos pelos valles dos 
rios Doce e São Francisco; porém ao sul daípielle rio não é pos- 
sível, com os limitados conhecimentos de hoje, distinguir sys- 
tema algmn. A margem occidental do ))huialto s(.' de.^^faz em (\<?- 
pig(')es sub|)arallelos entre si e a Serra da Ma';di(jueira (Serra 
do Parahyba). estendendo se como dedos de uma mão entre 



13 



o.s valles tributários <lo Piracicaba o Mogyguaasú. aíi^ morro- 
rein de eiuíontro á j)lanicic elevada nào inoutanho.sa do interior 
do Estado de Sao Paulo. 

E possivel (jue todos os referidos esj)i^r)es possam ser con- 
siderados como ])ertencenti^s ao systema da Serra da Manti- 
queira, ])orém nào ha possibilidade de referi-los a esta serra 
no sentido restricto em (jue é ])reciso empregar o nome (juando 
se trata de divisas. Havendo ainda boje confusão devida aos 
dous empre<^os <lo nome. não é de a(buirar <|ue a houvesse 
na occasião de se tentar travar por ahi a divisão das duas Ca- 
litanias. Com a idéa. basea<la nas informações extremamente 
incompletas daijuelle tempo, de (pie a Serra da Mantiqueira do- 
brando para o norte continuava em linha continua at(5 o Rio 
(Trande. e (jue a assim chamada Serra do Mogygua.ssú perten- 
cia a esta linha, o (íovernador (íomes Freire de Andrade, man- 
dou, em 174U. tragar a linha divisória pelo cume desta serra 
imaginaria. 

Se, como convinha, ÍTomes Freire tle Andrade tivesse en- 
carregado um engenheiro do levantamento da linha que ellc 
mandou correr á bússola (agulhão), este logo .s(» teria visto em- 
baraçado em executa-lo estrictamente conforme a lettra das suas 
instnicvõeà?. Para alcançar a Serra de >rogyguassii. seguindo 
sempre pelo cume da serra, teria sido obrigado a d(Mxar a Serra 
da Mantiíjueira pro])riamente (hlta mais ou menos na altura da 
Pedra Sellada, para ir pulando de um esi>igão secmidario para 
outro (*ontornando as cabeceiras do Jaguary, Camandocaia e 
Mogygua.ssú, e depois a seguir ])elo espigão entre este rio e o 
Pardo até a Serra do ^[ogyguassú. Seguir d' ahi pelo cume das 
.serras seria ir cahir no ]>ontal na confluência do Mogyguassú e 
Pardo sem se/iiuimento pelo cume das serras ])ara o Rio Ciran- 
de. A outra sabida, contrariando as instruc(,-ões. seria atraves- 
sar o valle do Rio i^irdo i)ara ganhar a linha de altos (pie di- 
\\<\e íis aguas do M(»zambinho e Jacidiy das do Rio Pardo e Sa- 
pucahyniirim. Ao advogado. Ouvidor da comarca do Rio das 



14 



Mortes. (*) u (iiieni foi encarregada a divisão, estns minudeu- 
cias topograpliieas e os iiiysterios do a^dlião não offerccerani 
difficuldades (|ue nâo fossem, no momento, fucil mente removi- 
das por um tra<^-o de penna, íieando porém accumuladas e ex- 
traordinariamente multiplicadas para todas as auctoridades que 
so lho seguiram durante seeuloe meio. O introduzir elle na ques- 
.tão o Morro do Lopo e a castrada de São Paulo i)ara (loyaz, 
facto (|ue de nenhum modo pode ser Justiticado pelas suas ins- 
trucçõese menos ainda pela dispJsi<;ão topograpliica do terreno, 
comi)Hcou de tal maneira a quentão de Hmites que esta até hoje 
espera solução. 

Na discussão supra a Serra do Mogyguassú das instruc- 
VÕes de Gomes Freire de Andrade tem sido identiticada com a 
Serra de Caldas, um macisso meio destacado, de forma circu- 
lar e caractiT especial, (jue se eleva na margem do planalto 
montanhoso sem ligavão inunediat^i c<mi o systema da Serra 
da Mantiqueira, nem com (pialíjuer outro até hoje reconheci- 
do. Este nome de Serra de Mogyguassú tem dado origem a 
grandes discussões, e com effeito não é uma designarão po])U- 
lar nem uma designação geralmente acceita pelos geographos. 
Nos mappas em que se encontra o nome é nuiito evidente que 

(*) A parte puramente techniea «la ordem dada ao Dr. Thomaz Kubim de Ilarros 
Barreto é a seguinte: - «Chegando V'm. ao marco dito, que esti no alto da referida 
serra da Mantiqueira, e servirá de balliza para a demarcação, do alto, em que cile 
se aclia, se tirará uma linha i>elo cume da. mesma serra, seguindo toda até topar 
com a Serra de ilo^i-guassii, e o nimo que pelo Agulhào se achar, fará Vm. ex- 
pressar no termo da doinarcavão, a sena de Mogi-gaassú se deve seguir como divi- 
são dos dito3 Governos até findar nos que se lhe seguirem, fazendo-se sempre pelo 
cume delia a divisão, até topar no Kio (írande, etc». 

Chegando o Dr. Thomaz Kubim, nilo ao marco indicado, porém no arraial de 
Santa Anna do Sapucahy, pelo caminho de Hào JoAo d-Kl-Rei donde nem por um 
óculo podia elle avistar a Serra da Mantiqueira, foi alli lavrado o celebre auto de 
demarcaçôo. Os rumos que deviam ser achados pela bússola (Agulhào) foram com- 
modamente substituídos pelas declarações juramentadas dos '(homens mais practico;? 
e de verdade que poderão descobrir se» estando já descobertas, desde Sào Joào d'El- 
Rei, a verdade e a practica de grande parte d'elles, visto serem offlciaes daquella 
villa a terça parte, pelo menos, dos signatários do auto. 



15 



esto figura por motivos politicos c não ^çeograpliicos; porque 
estes mappas não dão nomes íts montanhas senão quando estas 
entram em questões de limites. Na reunião de 12 de Outubro 
de 176Õ da Junta do Rio de Janeiro para tratar dos limites díts 
íliias Capitanias, os melliores conhecedores da região (incluindo 
neste numero o próprio conselheiro de (íomes Freire de An- 
drade, o guarda-mor das minas Pedro Dias Paes Leme) decla- 
raram que não ha\na serra alguma com este nome. julgando 
alguns delles que Gomes Freire de Andrade queria se referir á 
Serra de Dumbá na região de Jacuhy. Diversos mappas poste- 
riores a esta data trazem, porém, o nome e uniformemente na 
posição da Serra de Caldas, nuts com a circumstinicia já nota- 
da de ser esta quasi a única serra distinguida com nome. Os 
mapi)as mais modernos e mais minuciosos, em que quasi todas 
as serras vêm com os nomes i>elos cjuaes são localmente conhe- 
cidas, não trazem o de Mogyguassú: 

Embora seja e\idente que a identiticavão da Serra de Mo- 
p;\'gufcissú com a de Caldas nos mappas antigos é uma simples 
hj^othese dos seus auctores sem conhecimento da designarão 
local, ha fundados motivos para se acreditar (jue seja íicertada. 
Xa epocha, em que o nome foi cmpregadc) por (touics Freire 
de Andrade, a região só era conheciíhi vista de longe, da estra- 
da de Goyaz que a sahir da villa de Mogyguassú fraldeia o 
macisso de Caldas na parte hoje conhecida pelos nomes locaes 
de Serra do (?aracol e Serra dos Poços de Caldas. Ninguém ti- 
nha penetrado nestas serras, e 6 provável que nem tivessem 
nome próprio. Gomes Freire de Andrade, querendo designar 
uma serra nesta região como halisa da sua demarcação, e sa- 
bendo que perto de Mogyguassú se avistava uma serra alta á 
direita da estrada, naturalmente lhe applicou o nome da villa ou 
rio mais próximo. A supposição de ({ue esta serra formava par- 
te da Mantiqueira era, com os conhecimentos da ei)Ocha. nmi- 
to natural, tendo mesmo persistido até unm e|)ocha relativa- 
ínente recent<?. 



OBIGINS BIPFBUCàRãS SO BBàSIL 

ANTES DO XIX SÉCULO 
DEDICADO 

ÁS VICTIMASDA PREPOTÊNCIA DOS GOVERNOS 



(I)r. Domingos Jaguakibe) 

PARTE I 

Para avaliar de quanta oppressào se fez cercar a orjnjanisa- 
çâodo Brasil [>ela metrópole, é preciso saher-se (lue ao lado <lo 
estorvo para aiii<|iiilar os hoiiiens patriota^, esteve sempre o tra- 
balho ])aciente dos educadores do ])ovo. escolhidos pelo governo 
I>ortiigiiez. 

Esta lucta <los sórdidos interesses coloniaes offerece o tris- 
te espectáculo de uma população laboriosa ter vivido á mins^ua. 
no meio da terra mais rica do numdo! 

Educan<lo os trabalhadores só i»ara j)apu' o dizimo, o quinto, 
a derrama, e (juantos outros conluios se faziam para íjueo povo 
estivesse sempre convencido do muito (|ue devia ao Rei. pela 
concessão (pie se lhe fazia <le o deixar viver, o governo da Co- 
roa não era entretanto menos oppressivo para os seus próprios 
delegados, alj^ozes dos súbditos. Pond)al tratava os agentes de 
nomeação, fazendo-os meros instrumentos <le dilação do crime 
em nome (hi lei. (jue abripiva á sua sond)ra todos os actos .do 
governo, verdadeiras estorvões. (íom aípielle lindo rotulo. 

O Ministro de D. Maria I, Martinho de Mello ('astro, obte- 
ve o celebre alvará re^o de 5 de Janeiro <le 1780. no (jual se 
orílenava • (^ue fossem destruidas todas as fabricas (pie hou- 



18 



vessem no Brasil e todos os esUibelecimentos iiidustriaes, e que 
^ fii^eisse uma dovastaçào a . ferro o fogo, l)ara que fossem co- 
brados os impostos atrazados » ! 

Nao lia moio mais effieaz de fazer nascer a liberdade do 
que dominar uma terra virgem ]>eia tyrannia. 

Minas Cieraes, onde o clima ameno e a altitude das serras 
dão ao homem imia rolmstez e vitíilidade que lhe imprimem o 
saneie puro e oxygenado nas veias, por isso mesmo que era o 
lugar mais prospero, também foi o mais explorado. 

A observavão nos ensina (pie assim na terra como na so- 
ciedade, todos as vezes que não se aproveitam os elementos na- 
turaes da ri(jueza, seja da natureza bruta ou da imimada, estes 
elementos se voltam contra o homem, como cpie bradando con- 
tra elle i)ela sua inépcia. 

É assim que vemos, junto das mangueiras ou curraes onde a 
superabundância da esterqueira accumulada se perde, quando 
não é aproveitada para hortaliças e culturas, nascer a cicuta, 
veneno terrivel com o qual os tyraimos de Athenas manda- 
ram matar Sócrates no anno de 468. antes de Jesus Christo. 

Também os povos quando soff rem o martyrio, a persegui- 
ção, a fome. a faltíide dinheiro, a crueldade da lei, fazem brotar 
a revolução, veneno benéfico quando acaba com a tyrannia. 

O uso bom ou máu desta droga, tem sido sempre a origem 
dos males que não se extinguem senão com a cultura, o tra- 
balho, a justiça e a liberdade. 

Descoberto o veneno, é precâso descobrir o mitidoto ! 

Tirai do homen a consciência, o que fica é nada. 

Tirai do governo a Justiça; o que fica é a força bruta, é a 
tyrannia. porque o governo em si é sempre o representante do 
mando, que está para a sociedade como o instincto está para os 
animaes. 

A educação, que faltava ao governo da metrópole, refinava 
os espíritos dos algozes e das victiinas, cnd^ um em sentido op^ 
posto ao outro, 



19 



O gm^riíador de Minas, Luiz da Cimha e Mello, apertou 
quanto poude as suas victinias. mas o marquez de Pombal ob- 
sen'OU que elle viera i>obre ao Brasil e voltara rico para o Reino. 

Xáo se fez demorar uma denuncia contra o ladnlo que, 
recem-chegado a Lisboa, foi logo condemnado a pagar 90 mil 
cruzados, embolsados criminostimente em Minas. 

A rapacidade cios delegados igualava a sacra fames auri 
dos governos; (^) 

A gloriosa inconfidência teve um berc^o digno. 

O ouro que ia do Bnisil constituía a origem da fortuna, e 
aqui se acluiram estas novas fontes de riqueza que se julgavam 
inextinguíveis por sahir do solo, e perennes, por serem adquiridas 
como povo, esta eterna \'ictima do despotismo dos poderosos, que 
se servem delia como os rios das aguas das suas nascentes, para 
engrossarem as caudaes das inundações que fazem a devastarão 
e a miséria, e depois (jue seceam, deixam no ar os miasmas 
mais deletereos que so encarregam de matar os (pie vêm ob- 
servar os estragos feitos na super ticie da terra. 

Razão teve o mallogrado mestre e grande escriptor portu- 
guez Oliveira Martins, quando escreveu, apreciando as riquezas 
que iam do Brasil : Poude D. João \ dar largas á sua ostentação 
fradesca. e o Marque? de Pombal reconstruir não só Lisboa, 
mas todo o Reino *. 

Para manter o direito de cobrar os dizimos, verdadeiras 
tisanas com as ipiaes Portugal curava todas as enfermidafles 
do seu thesouro, era ])reciso manter um exercito, a titulo de ga- 
rantia do povo ! 

Em 1775 foi feito um recrutamento n moeio da escassa 
popula<;áo livre. 

Seis mil homens foram recrutados em Miims Geraes. pro- 
vindo dessas prisões de innocentes, adoçadas com o nome de 

(M o Padre António Vieira, consultado pelo Rei si convinha dividir em duas par- 
tes a administracçào do Brasil, respondeu - que era melhor conserval-a unificada por- 
que era mais difflril encontrar dois homens de bem do que um, e menores males cau- 
sava um Itdrfto do que dois. (Carta do padre Vieira.) 



20 



recrutaniento, tanto horror para o povo que ainda hoje o mhieiro 
c refractário ao serviyo militar, e foi alH (]iie se tornou popular 
esta ])hrase do povo : — Deus é grande, mas o matto é maior. (M 

O Decreto de D. João lU para colonisar o Brasil, é talvez 
o documento mais vergonhoso que se pode ler em lingua por- 
tugucza. ei-lo: 

« Attendendo El-Rei (jue o Brasil i)recisa de novo ser po- 
voado, ha por bem decretal-o couto e homisio para todos os cri- 
minosos (jue noUe (|uizerem ir morar, ainda ijue já condemna- 
dos em sentença até em i)ena de morte, exceptuados somente os 
criminosos de heresia. trahi(;ão, sodomia e moeda falsa.» !!! 

Por outros (iuaes(juer crimes nfio serão de modo algimi in- 
commodados.» !!!(2) 

A este tempo alguns pais humanos niandaram seus Hlhos 
estudar na Europa; desde então, estes movosjndignados como 
modo ])erverso. cruel e tvrannico, (jue tornava tão ])recaria a 
vida do cidadão, de modo que o escravo era um ente feliz, com- 
parado com o cidadão (pie pensava, principiaram a x>rganisar 
as idéas revolucionarias, (pie mais tarde deviam fazer do 
Brasil uma Republica. 

Pense-se nas palavras do Padre Anchieta, em uma de suíis 
cartas, publicadas na Chorogra])hia do Brasil por Mello Moraes, 
na qual diz atiuelle varão illustre ao Pro\nncial da Companhia 
de Jesus: 

« Parece-me coisa nuiito conveniente mandar Sua Alteza 
algumas mulheres, (pie lá tem pouco remédio de casamento 

(i) Quando se fez a guerra do Paraguay, por mero capricho do imperador que 
qulz civllisar e libertar aquelle povo infeliz, esquecendo-se de que havia noRrasil 
um milhào de escravos para se libertar, os mineiros foram os que mais deserções fi- 
zeram, e os que menos soldados deram para a ífiierra. Estas informações ohtive-as 
de um audictor de guerra. - 

(á) Oá governos ineptos (em nos seus próprios actos o castigo; as leis sociaes co- 
mo as leis no mundo physico tèm determinado fatalismo na sua marcha, infringidos 
os princípios básicos de toda sociedade organisada, a própria natureza humana incumbe- 
80 de reparar as faltas dos governos. facto de ter sido o Brasil declarado couto de 
criminosos e terra de degredo, trouxe ao seu seio elementos de rebeldia contra o seu 
governo. Estes elementos maus, trazidos do reino pela resistência ofTerecida ás leis. 
se melhoraram consideravelmente no meio americano, mas lançaram germens pode- 
rosos contra as autoridades representantes do poder que os condemnára, 



21 



a estas partas, porque castunani todas muito l)ein. eonitaiito que 
uão tenham de todo perdido a vorgonlia de Deus e do Mundo. »(i) 
Três séculos se haviam decorrido sem que o novo mundo 
ílésse outras provas de sua grandeza, que nâo fossem o oiro, as 
pelies dos animaes selvagens, íus cascíis das arvores jiara as tin- 
turarias européas e os preciosos diamantes. 

A historia do Brasil colonial podia ser dividida em dois pe- 
ríodos : 

1.® — Exploração das Minas. (2) 
O 2.® — Exploração do captiveiro. («) 
(Quanto mais se avançava no tempo, mais se recuava no 
pit^resso. e entretanto este producto do próprio temjio ficava 
intenso, embora latente, nas consciências dos patriotas e dos 
martyres. 

Era o Maranhão uma das capitanias mais ricas e popu- 
losas, e a grande Companhia do Maranhão fez mais conhecer 
o Briisil no velho mundo do que o governo portuguez que o 
ocultava para melhor exploral-o. 

O decreto de D. João III, acima publicado, era a prova. 
Com uma tal sementeira o governo estava certo da colheita. 

Aecresce que a mi.seravel exploração da carne humana, 
fez com que os próprios senhores explorassem os filhos. (**) 

Os fazendeiros ricos do Maranhão entraram em conflicto 
com o vulto grandioso do Padre \'ieira, capaz só elle de encher 
unia epocha, de modo que nós chamaremos o século X\'l, no 
Bnisil — o século do Padre Vieira. Este heroe, tendo aberto lucta 



(i) .Apí»:»ar disto a uiulhor brasileira faz exi-opcâo ao inundo polo culto intimo da 
Tirtudo. M estatistioas foitas uitimanionte pelos adeptos da e.scola antropoioj^ica eri- 
minal sobre a mminolojçia da mulher, encontrariam no Brasil #uito pouco subsidio. 
A nialhor brasileira concorre para a eUatistica criminal de mcd) multo in:$ignitioan te. 

r^ Periodo mineral. 

(^ Periodo agrícola e monarchieo. 

{*) Vide «Herdeiros de Caramurú». Propaganda abolicionista, do autor, 1880. 



22 



contra o captiveiro dos iudios. teve <le ser forçado a retirar-se 
para Lisboa. 

Lá eile escreveu as celebi'es cartas do l*adre \'^ieira. modelos 
de eloqticiieia e sabedoria portii^çiieza. 

Logo os fazendeiros trataram de se organisar, e a estas con- 
trariedades dos que se queixavam, juntaram-se as excessivas co- 
branças de impostos. 

A população augmentada (*om o elemento francez, que 
viera primeiro ao Brasil i)ara aquella capitania em 1590, não 
quiz se submetter e promoveu uma revolução. 

Sem perderem de todo o respeito ao governo da metrópole. 
estes homens visavam tornar-se os árbitros dos negócios do seu 
paiz, que mesmo na linguagem otticial elles chamavam Repu- 
blica, e as manifestações de origem popular asseguravam ser 
para aquella forma de governo j>o{)ular que tendiam todas as 
tentativas (jue lhe <lavam um cunho nacioiíal, patriótico e repu- 
blicano. 

Diz o doutor Joaquim Manoel de Macedo em sua 
<Historia do Brasil», á pag. 21() : « nnus lavrava o desgosto e a 
Companhia faltava aos seus compromissos a respeito dos afri- 
canos e agigantava os seus lucros, vendendo por um maxi- 
iw;/w elevado géneros de ruim <jualidade e em máu estado.^ 

l^rdiu-se uma revolta de (jue fonun chefes Manoel Beck- 
man, poi*tuguez e rico fazendeiro, e cabeças princii>aes Thomaz 
Beckman. irmão do precedente, e Jorge de Sampaio, que roni- 
j)eu na madrugada de 2() de Fevereiro de 17()4, sendo Bal- 
thazar Fernandes preso e depo.sto do governo, exthicta a ('om- 
panhia do Commercio, e expulsos os jesuítas ])or imia «Junta» 
chamada dos «Três Estiidos) — clero, nobre.sa e povo — que im- 
mediatamente se installou, distribuiu i)ostos militares, proveu- 
se íle meios de defesa e despachou Thomaz Beckman para 
Lisboa afim de representar ao rei conforme as idéas da 
revolta. 



áâ 



Po(le-se ilizer que desde que se formou a sociedade brasi- 
ieira ella imo se submetteu jamais ao regimen da monarehia, 
sináo pela força. (^) 

Documentos antiquíssimos o attesíam como o seguinte: Ten- 
do sido nomeado, em KMl, Salvador Corrêa de Sá e Bene\ndes 
goveniador da Capitania do Rio e Sao Paulo, aconteceu que 
o povo se desgostasse com a sua administração, allegando vio- 
lências, rigores e extorçoes, e como o governador partisse para 
São Paulo, deixando nomeado interinamente Thomé Corrêa de 
Alvarenga, (2) a quem o povo, querendo dar prova do seu des- 
agrado, e resolvido como estava a não mais prestar obediência 
senão ao eleito por elle povo, destituiu-o das altas funcções em 
que estava e bem assim depoz igualmente o próprio general Sal- 
vador Bene\ndes, homem digno e que havia abrilhantado o go- 
venio colonial. 

A acta que o povo revolucionário fe/ huTar para constar 
este seu acto, em bem da Republica, prova que o povo se 
impacientava pela liberdade e que não supportava o dominio 
dos portuguezes, senão depois de esmagado pela força. 

Sendo muito extensa a acta, nos limitamos a fazer os ex- 
tractos que vôm ao caso. 

«AniM) do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de 
mil seiscentos e sessenta, aos oito dias do mesmo mez e anno. 
nesta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em casa da 
Camará delia, onde se ajuntaram o povo desta Cidade e seu l)es- 



(M A guerra hoUandexa no Brasil foi um poderoso factor do espirito democrá- 
tico, porque a metrópole, entregando os brasileiros aos seus próprios reeursos, oa fez 
conhecer sua força contra uma nação poderosa e temida e poz em evidencia a fraqueza 
da metrópole, peia remessa de recursos ridículos e pelo desejo que teve, a conselho do 
Padre Vieira, de abandonar a Capitania de Pernambuco aos Batavos. Apczar do desejo 
raaoifestado no Reino nessa occasiâo. a guerra foi continuada com os próprios recursos 
bnsileiros, nascendo em Pernambuco a idéa de independência. 

(^ O infonanio que acompanha os paizes explorados pela força e pela oscravidfto 
Tdio aggravar a sorte do povo com a epidemia da bexiga, que explodiu em toda a 
Cotíâ do Brasil, em 1665. 

Foi esU a data do apparecimento (Vid. Southey, vol. 4. pag. 2S6). 



24 



trieto, Hs cinco horas da inanliã. e todos assim juntos na dita 
etisa, como fora e recinto delia. fez. vir os ofticiaes da Camará, 
que de presente servem, e (|ue maguados. (jueixosos e^ oppri- 
midos das vexações tiranias, tributos, fintas, [)edidos, destitui- 
ção de fazendas que lhe havia feito o general Salvador Corrêa 
de Sá e Benevides (jue governava esta ])ra(;a, tratando só^de 
suas conveniências, sem attender ao bem comnuim delle, dito 
povo, descompondo aos liomens. e a elles mesmos ditos ofticiaes 
da (-amara de palavnus injuriosas e affrontosas, coni que^^odos 
se vião ])recipitíidos, vexados e o])])rimidos e (|ue jjortanto re- 
correram a Thomé Corrêa de Alvarenga, (jue de presente . esta- 
va governando, e ven<lo elle ditopovo (pie <)s (piatro procura- 
dores (|ue haviam enviado a Thomé Alvarenga, não surtiam elTei- 
to, vinham em pessoa pelas ditas rasões a excluir e remover, 
como com efteito excluem e removem ao dito Ceneral Salvador 
Benevides do cargo e posto de governador desta ])raça...>^ 

«E logo foi approvado pelo ])ovo (pie se chamasse a este Tri- 
bunal o dito Thom('^ de Alvarenga ju.ira declarar si estava. i)or 
estii resoluc(;ão do povo, como a haviam já re))resentiido e 
queriam sabcM* si a ac(*eitiiva ou não. e como resj)ondes.se por 
escripto ([ue não podia convir na renux^ão ou expulsão a bem 
da Iiepul)hca, de que eu tabellião dou le. o que ouvido e sa- 
bido pelo dito povo todo junto e congregado, todos a uma v(')z 
aclamaram (pie elegiam e (pieriam. como (íom efteito disseram 
e elegeram ])or govêrnadoí* desta pi*a(,*a e seu districto ao Ca- 
pitão Agostiiiho Bàrbalho 15eserra, por ser i)essoa em (piem 
concorriam todas as (pialidades e partes necessárias para o dito 
cargo, ])ara.(jue o governasse com justi(,'a assim na guerra co- 
mo na politica e foram juntos a casa do Capitão Beserra que 
mostrando escrujailo O povo (hsse (pie acceitasse, senão tinha 
que morrer. Declarando em tim (pie acceitava o cargo de 
Cíovernador da Pra(.*a e seu destricto logo o dito )K)vo em lio- 
menagem ao ('apitão Beserra novamente o elegeo e aclamou. >^ 
(Vide R. Instituto Histórico). 



25 



(Viito e doze homens, além <lo (loveruador eleito e ecle- 
siásticos, a.ssigiiHram est^i acta, 

, Ora, se isso iião é um dos meios rovolaccionarios jielos quaes 
o povo 11S41 de sim soberania para kc fazer governado por si, 
como é da missão dos governos republicanos, nâo sabemos 
como se possa contestur o sentimento que animava estes i)atrio-. 
tas. (|ue. un\\ se constituindo em sociedade, já aspiravam lhe 
(lar a iornia a inais livre. . 

Uma vez instalado o ^(xverno popular, foi lavrado o edital 
seguinte, public^íido pelas ruas: 

<()uvi o Mandado (jue manda o povo desta cidade o seu 
nomeado, (jue toda a pessoa de (juaUjuer qualidade que seja, 
parente o\\ nào parente do (leneral Salvador lienevides, cria- 
do, amigo, affeiçoado, (jue lhe (juiser ir para a sua companhia 
irá manifestar ao senado da ('amara, j)ara se-lhe dar lic^ínça 
e toda a boa i)assau:eni (|,ue lhe for necessária pam se ])artir. 
pam í|ue dentro em dois ílias o possam faser sem se lhe faser 
offensa alj^uma; e passado o <lito imiso se virem manifestar, e 
constando ao depoispor (jualcjuer via (juealguem se cartí^a com o 
dito General ou serene a sua vós, será preso e dciíjradado para An- 
gola, e haverá mais a pena (|ue o povo lhe quizer dar. 
Rio- de Janeiro, 1 de Fevereiro de 1()H1. 
E eu António Ferreira da í^ilva, tabelliào do publico judi- 
cial e notas d(m fé manda-lo assim o dito povo. — António Fer- 
reira da Silríf.^^ 

No dia seguinte o povo, sabendo (|ue algun í cidaíhtos se 
bandeavam para o general, convocou nova i-euniâo e se lavrou 
uma acta na <iual. além da destituirão de alguns capitães, se 
nomearam outros. 

Ne-sta acta se diz xcpie temendo o dito povo (|ue houvesse 
alginna conspiração em "^banuio desta liepiiblica e contra o povo. 
nomeavam para coronelO mesmo <]ue de presente serve. Fran- 
cisco Sudré Pereira, para. Sargento. MórDannngos de Faria. 
puraCaj>itãe3ÇluústovíU> Leite, Francisco V^irgas, Máthias de 



26 



Mendonça, Matliens Corrêa Pestana, Manoel Maciel, Sebastião 
Pereira, Miguel Maehado, Sebastião (-oelho, António Sardinha, 
Francisco Dermundo, Francisco Brito, Francisco de Macedo 
Freire e Francisco Martins Soares. » 

Estas manifestações não conduziam, na verdade, a nenhum 
resultado pratico. Seria ignorar os Hmitados recursos da po- 
pulação brasileira e os poderosos agentes da força publica por- 
tugueza; mas nós as extractamos para mostrar bem claramente 
quanto o sentimento republicano era intenso e delle não 
duvidavam os próprios governadores, como veremos neste 
estudo. 

Uma prova desta verdade achamos ainda na narrativa 
dos acontecimentos do Rio de Janeiro, durante o governo de 
Salvador Benevides, a qual se acha na bibliotheca do Rio, onde 
se vê que depois dos esforços ingentes para acalmar o povo, 
é o próprio chronista, narrando os acontecimentos passados em 
São Paulo, em apoio do (leneral BeneN-Mes, que emprega a pa- 
lavra republicana.(^) 

Os documentos a que nos referimos, mostram portanto 
que em São Paulo havia republicanos. 

A revolução do povo no Rio prova que elle conhecia co- 
mo se chegava a ser republicano. 

Os leitores verão de nossa exposição, em ordem chronolo- 
gica dos acontecimentos, que em cada uma das capitanias os 
germens republicanos se faziam distinguir no meio do nia- 
rasma em que \\\ia o governo. 



(1) Expedida a carta, se juntaram os panUsta3 com os Repoblicanos á sua no- 
breza c prelados das religiões, para obterem a resolução do Governador que pretendia 
regressar para o Rio... 

Embora á palavra Republicana nÂo fosie dado na(|uelle omesmo sentido que tem hoje, 
ella era. todavia, a expressão offlcial própria para designar o povo brasileiro patriota, que 
n&o se submettia á influencia da metrópole e por conseguinte realmente republicano. 



27 



As origens reimblicanas no Brasil s^o como os raios do 
sol que appareceni ao observador que entra nas trevas á i)rocu- 
ra de alginn objecto (|ue lhe é caro. (^) 



\i) A corrente da democracia no Brasil foi nrnito avolumada pela legifltcfto referente 
ái sneceâsõei. A divis&o da propriedade territ)r]ai e da fortuna movei pel(« herJeiros 
tem poilero3am?nte influi lo sobre as idéas republicanas, pelo nivelamento que produiiu, 
impedindo a constitulç&o de grandes riquezas, sempre prejudicíaes ao regimen das liber- 
dades. Maiores seriam os beneflcios produz.idos por essa sabia legislaç&o que ainda perdu- 
ra sobre a Índole, idéas e costumes do povo. si os legisladores actnaes imposenem oomo 
medida obrigatória nas sncces^^ões a subdivisão da propriedade territorial por todos os 
herdeiros, sempre que ella ultrapassasse um minimnm legal. Por esta fórmt chegariamoi 
miis depressa á pequena propriedade sem o impost) territorial e de^temodo se rea- 
lisariam praticamente asmauifestavões do socialismo no nosao pai7<, porque sendo o proprie- 
tário essencialmente conservador, subdividir é tornal-a ao alcance de todos. 

Estamos convencidos de que com a polit4ca e a liberdade, liarmoniosamenteasiooiadM. 
nada teraoáquv^receiar do socialismo, com ) muito bem disse ogrande e.scriptor Oliveira Wftr- 
tini em ama carta que tivemos a honra de recpber e está piblicada na Rev. Ttil. de 1894: 
<A vastid&o das riquezas naturaes e a e^assez relativa de popula^ito permettiram ao Brasil 
realísar typos e formas do organisavão civil, a qne se chama socialistas no velho mundo, e 
qoeporcáa tradic&o. os interesses creados o a exiguidade da riqueza, provocam com* 
moções graves.» 



PARTE ir 

Quando ^ pensa nos meios oppressivos do governo do 
Brasil e principalmente no tempo do regimen colonial, quando 
se considera a educação portugueza, cercada de um ãespoiismo 
paternal y que degenerava em pancada á menor contrariedade, 
é que se avalia o mérito destes patriotas republicanos, que sur- 
giram ora no interior das províncias, ora nas capitães, e que ao 
Sul e ao Norte do Brasil disputavam o seu ideal em paciente 
perseverança, no ignorado silencio da vida domestica, onde 
se educam os bons caracteres. 

Minas foi o tlieatro das mais risonbas esperanças e tam- 
bém dos maiores supplicios. 

Quando o ouro não chegava para as dissipações monarchi- 
cas, se fazia uma derrama no rico estado e a capital Villa Rica 
era o centro <líi indignação do povo, que achou em Felippe dos 
Santos, niorto e esipiartejado, o primeiro Martyr ! 

' A religião explorada sob sua forma mais indigna fez 
prender os padres companheiros de Tiradentes e os levou para 
as masmon*as do Reino, para que morressem com os suppli- 
cios que a inquisição inventava e que só no velho Reino se 
sabia bem guardar e praticar. 

\'eiga Cabral, o companheiro de Fellippo dos Santos, tam- 
bém foi para lá. para que o povo do Reino tivesse oecasião de 
aprender na applicação dos supplicios o modo de se punir a 
pretençâo de ser livre no Bra.sil. 



29 



Estes rigores faziam l>rotar da terra opprimida, como um 
novo Cadmus, as legiões da victoria. 

Abafava-se o crime de ser republicano, mas a idéa de 
Bernardo Meira de Mello, apresenttuido em 1710 ao Senado 
da Camará de Pernanbuco um plano para se fazer uma repu- 
blica como a de Veneza, nasceu mais fulgurante, em 1 789, com 
as bandeiras de Tiradentes o dej>ois com o ideal da Confedera- 
ção do Eijuador e em 1 835 com a Republica de Piratinim, 
evoluções da gloriosa tentativa de Tiradentes. 

Estas idéas não morrem, mas para que ellas possam ger- 
minar, crescer e florescer, dando fnictos, é preciso muita paz, 
muita justiça, nmito progi*esso. 

Si faltam estes elementos, falta também a atbmospbera 
onde somente ellas jK>dem vjver: porque a lif^rrãade ó uma planta 
mimosa que nào rive twm nos atidos desertos da intriga nem no 
domínio da corrupção. 

Mas 9\ a despeito destes elementos se faz o sangue das 

\ictima8 humanas aj)parecer e regar a terra, então este sangue 

^para aquellas idéas o melhor propidsor. elle apressa o seu 

apparecimento mais rai)idamente, j>or que fere a imaginação 

dos homens, (pie lhe serve de vehiculo. 

A liberdade surge embravecida, tal como a <mda quando 
atira os fracos bateis sol)re as rochas. 

A revolução franceza attrahia naturalmente para a França 
os homens livres da America. Entre elles não se pode deixar 
esquecidos os nomes dos três distinctos brasileiros que faziam 
seus estudos em MontpelUer e Bordeaux, os cidadãos José Joa- 
quim de Maia, José Alves Míiciel e \'ital Barbosa. 

Terminados os estudos de medicina ein Montpellier e em 
Bordeaux. Maciel e Vital Barlx)sa foram para Minas, sua terra 
natal, afim de fazer a propaganda republicana. 

Lamentamos que a mocidade bra.sileira não tenha ainda 
fonnado clubs com os nomes que incontestavehnente exerce- 
ram H maior influencia na i)ropaganda <las idéas republica- 



30 



nas^ do Brasil, e eram òs dignos companheiros do immortal 
Tiradentes, que apesar de t^r este nome, pela habilidade que 
empregou neste officio, eta hábil ourives e disso sim. fazia 
proHssâo. (^) 

Narra o Senhor Oscar de Araujo em seu livro — «Idéas 
Republicanas» — que foi José Joaquim da Maia quem intentou 
corres|)ondencia, em fins do século passado, com o grande Jef- 
ferson. que depois foi ])residente da Republica Norte Ame- 
ricana. 

Nós tivemos que averiguar o assumpto, e a])ezar de ter o 
conselheiro Lopes Netto mandado verificar na lista da matri- 
cula dos estudantes de medicina, em MontpeÚier, se havia algum 
estudante brasileiro, o cpie não foi continuado, não temos a 
menor duvida em confirmar o facto, ponjue coincide a sua 
permanência em França com a de Jefferson. 

Os homens que tinham instrucção no Brasil, não podiam 
pretender annunciar os seus pensamentos, porque a delação an- 
dava atraz do homeU. como a sombra do corpo. O celeber- 
rimo alvará régio de <> de Julho de 1747, prohibindo o uso da 
imprensa no Brasil, sob ]»enas as luais severas, havia feito 
a ruina de algiuis patriotas (jue ousaram mandar vir alguns 
tv^pos, para o innnenso prazer de verem em letras ini])ressas as 
idéas que se aninhavam nos seus cérebros op])rimidos. 

Não podemos deixar de recordar neste estudo o esforço 
empregado pelo padre Viegas de Menezes, a quem se deve o haver 
conseguido do governador de Minas. Visconde de Condeixas. a 
permissão i)ara ser interposto o seu valimento para a obtenção 
de revogação de tão cruel lei. Para prestar homenagem a este 
acto que marcou uma éra nas conquistas da civilisaçáo. o pa- 
dre, que (íomo Tiradentes era hábil ourives, gravou o frontes- 
picio do joriud. onde appareciam as figuras do general gover- 



(1) Tiradentes nfto era só hábil ourives. Os primeiros estudos sobre a canalisaçáo de 
agua potável na Capital Federal foram por elle feitof? para canalisaçào da agua da Carioca: 
nftô «onsegiilu levar a eíFelto sua.s tdéas, raals tarde reallsadas por T). Jofto VI, 



31 



nador e da sua esposa. Humilhação desculpável em tempos 
.táo remotos, em que para.se dar um passo para a frente era 
preciso retrogradar tanto! 

Mas para que a imprensa apparecesse no Brasil era pre- 
ciso algum sacrifício, e ella largamente tem reivindicado os 
males causados pelos oppressores. 

O pseudonvíuo Vendek, de que elle se serviu, foi inven- 
tado para occultar o nome do distincto Dr. Maia. 

Em seguida publicanxos esta correspondência, copiada dos 
archivos do Institut4) do Rio, obtida pelo Sr. Lopes Netto. 

O diplomata brasileiro I^opes Netto, quando ministro do 
Brasil em Washii^gton, obteve pennissáo para copiar as cartas 
dirigidas a Jefferson por um patriota bra^^ileiro que se assig- 
na\-a Vendek, e que como já vimos era o doutor José Joaquim 
da Maia. 

Estas cartas fazem jmrte dos documentos do archivo do 
ministério dos estrangeiros de Wasliington, que por consenti- 
mento do governo americano foram copiadas, tendo sido verifi- 
cadas as copias authenticas, legalisadas pelas respectivas secre- 
tarias. As cartas trocadas entre o grande republicano, que foi o 
terceiro presidente da republica, e o ])atriota brasileiro dão uma 
idéa tão fiel dos sentimentos republicamos dos brasileiros, que 
julgamos prestíir um serviço á mocidade reimblicana transcre- 
vendo-as, para que ella possa sempre achar no cumprimento do 
dever, em quaesquer circumstancias, um modelo digno. 

As cartas de Jefferson eram dirigidas da Europa ao se- 
nlior John Jay, presidente do Congresso Americano. 

As idéívs manifestadas não soem relação ao Brasil, como 
a outros povos da America do Sul. provam que antes do XIX 
século, a tendência de toda a America era uniticar-se no regi- 
men feliz da Republica. 

Eis a copia da corres|>ondencia : 

Vendek a Thomaz Jefferson. — Senlior — MontpeUier. 
2 de fhitubro de 178(), — Tenho um assumpto da maior impor- 



32 



tanuia para cominunicar-vos; mas como o estado da minliasaude 
não me permitte a honra de ir encontrar- vos em. Paris.pectV-vos 
digneis ter a í)ondade de dizer-ine. si ]>osso eom segíirança 
commnnic4n*-vol-o por carta. |)ois que son estraní3;eiro, e^por isso 
pouco inteinulo dos usos do paiz. *'« 

Pe(;o-vos perdão da liberdade cjue tomo e rogo-vos tam- 
bém que mandeis a resposta a iír. \'igarens, conselheiro do^ 
Rei e professor de Mcíhcina na Tniversidade de ^íontpelher. 

Sou com todo o respeito. Senhor, vosso muito humilde 
e obdiente servo. — Ven<lpl\ . 

Vendek a Thomaz Jefferson. — Seidior — Acabo de re- 
ceber a honra da vossa carta de 1(> de ()utid)ro e nniito nic 
penalisa não a ter recebido mais cedo; mas tive de íicar no* 
campo até agora ])or causa damiidiu saúde; e já (pie vejo que 
as minhas informações vos chegam ás mãos com segurança, 
vou ter a hom'a de communicar-vol-as. Sou brasileim. e sa- 
beis, (jue a minha desgi-açada pátria geme em atroz es(*ravidão. 
.pie se torna todos os dias mais insup])Oii:avel depois da vossa 
gloriosa independência, pois (pie os bárbaros portuguezes nada 
poupam ]mra tornar-nos desgravados com medo cpie vos sigu- 
mos as ])isadas, e como conhtM^-emosí pie esses usurpadores, con- 
tra a lei da natureza e da humanidade, não cuidam sinão de op- 
primir-nos, resolvemos seguir o admirável exenq)lo (piea(íabais 
de dar-nos, e por conseguinte. (piel>rar as nossas (nuleias e fa- 
zer reviver a nossa liberdade, (pie está de todo morta e (^ppri- 
mida pela força. (]ue v o único direito. (|ne os euro])eus têm 
sobre a America. 

Mas cumi)re (pie haja lima potencia, (pie dê a mão aos 
brasileiros, visto como a Hespanha não deixará de unir-se a 
Portugal; e a])esar das vantagens (pie temos para defender- 
nos, não o poderenu^s fazer, ou pelo menos não seria ]>rudente 
aventurarmo-nos sem certeza de serin(\«< bem succedidos. 

Isto po.sto. Senhor. ('* a vossa Nação, (pu» julgamos mais 
])ropria para ajudar-nos. não sonumti' ponpie foi (}iiem nos 



33 



(leu o exemplo, mas também porque a natureza fez-iios ha- 
bitantes do mesmo continente, o jmr conseguinte de alguma 
sorte compatriotas ; pela nossa parte estamos promptos a dar 
todo dinlieiro que fôr necessário e a manifestar a todo o 
tempo a nossa gratidão para com os nossos hemfeitores. 

Senhor, aqui tendes pouco mais ou menos o resumo 
das minhas inte^nções e é para desempenhar esta commissão 
(\ue vim á Fran<;a, visto como eu não podia na America dei- 
xar de suscitar suspeitas naipielles (jue disso souhessem. 

Cumpro- vos agora ajuizar si ellas são realisaveis ; e no 
caso de quererdes consultar a vossa nação, estou habilitíido 
jwira dar- vos todas as informações (jiie julgardes necessá- 
rias. 

Tenho a honra de ser, com a mais j>erfeita consideração, 
senhor, vosso humilde e muito obediente servo. 

Em Montpelier, 21 de Novembro de 178(5. — VemJek. 

Thomaz Jefferson a Vcndek.-— Paris. 2() de Dezembro de 
178(>. — Senhor — Espero a cada momento fazer uma NÍagem 
I)ehis provindas meridionaes da França. 

Demorei a resposta á vossa carta de 21 de Novembro, 
esperando poder annunciar-vos a data da minha partida, as- 
sim como o dia c o logar em <jue eu poderia ter à honra de 
encontrar-vos ; mas até agora este momento não está deci- 
dido. 

Todavia terei com certeza a honra de participarvol-o, e 
pedir-vos uma entrevista ou em Montpelier ou nas visi- 
uhaiiças. 

Por emquanto t<ínho a honra de ser, com muito res- 
deito. senhor, vosso humilde e nuiito obediente servo. — Th, 
Jefferson. 

Vendek a Tliomaz Jefferson. — Senhor — A noticia que 
acabo de terá honra de receber da vossa viiigein a essa parte 



34 



da França, deu-nie o maior prazer, e felicito-ine j)or isto; por- 
((ue eu ^^a, tjue me era essencialissimo ter a honra de fal- 
lar-vos, e o estado da minha saúde nâo me permittia fazer a 
viagem a Paris. 

8i eu pudesse saber o dia da vossa chegada a Nimes e 
o vosso alojamento, nâo me privaria da honra de aUi ir en- 
contrar-me comvosco, o que estou prompto a fazer em qual- 
quer outro logar (jue vos ai)rouver ; e para isso não esjM^ro 
mais (}ue as vossas ordens. 

No entretanto Hsonjeio-me de ser com o maior respeito, 
senhor, vosso muito humilde e obediente servo. 

Em MontpeUer, 5 de Janeiro de 1787. — Vetulelc. 
Thomaz Jefferson a John Jay. — 4 de Maio de 1787. 

Na minha viagem a esta parte do paiz, pude colher in- 
formações, que tomarei a liberdade de comnmnicar ao Con- 
gresso. 

Em Outubro próximo passado recebi uma carta datada 
de MontpeUer 2 de Outubro de 1780, annunciando-me que o 
autor era um estrangeiro <jue tinha assumpto de nmi grande 
importância para connnunicar-me, e desejava (pie eu lhe in- 
dicasse o meio de levar avante o seu intento com segurança. 

Assim fiz. 

Pouco de|)OÍs recebi uma carta, (jue passo a transcrever. 

(Thomaz Jefferson transcreve atjui ipsi-rerhis a carta de 
Vendek de 21 de Novembro de 178(). omittmdo ajicnas a as- 
signatura e nnidando a j)ali\vra de Monsenhor por Senhor. 

Como por aípielle tempo me tinham aconselhado as aguas 
de Aix, escrevi á<|uelle cavalheiro connnunicando-lhc a nu- 
nha intenção, e accres(tentando que eu me desviaria do meu 
caminho até Nimes, sob ])i*etexto de ver as antiguidades 
daquella cidade, si elle ([uizesse vir encontrar-me alli. Elle 



3.^ 



veio, e o que se segue é o resumo da informação que elle 
me (leu. 

O Brazil contém tantos habitantes como Portugal. 

Constam: — l.« de portuguezes; 2.*^ brancos nacionaes ; 
i.^ escravos pretos e nuilatos ; 4." Índios eivilisados e sel- 
vagens. 

Os portuguezes sâo j>oucos, castulos alli pela maior parte; 
perderam de vista o paiz em que nasceram, a.ssim eomo a espe- 
rança de tornar a vêl-o, e estão dispostos a tornarem-se inde- 
pendentes. Os brancos naeionaes formam o eor])o da nação. 
Os escravos são tão numerosos como a gente livre. 
Os Índios eivilisados não têm energia, e os selvagens 
não se hão de intrometier. 

Ha 4().()00 homens de tropits regulares. A principio eram 
portuguezes; mas a medida, ({ue foram laorrendo, foram sub- 
stituídos por naturaes. de forma que estes compõem presente- 
mente a massa das tro])as, e o paiz pôde contíir com elles. 

Os ofliciaes são em |)arte portuguezes, em parte brazi- 
ieiros. Não se pôde duvidar de sua bravura, e entendem a pa- 
rada, mas não conhecem a sciencia da sua profissão. 

Não têm inclinação para Portugal, nem energia para 
cousa alguma. 

O clero é metiide portuguez. metade brazileiro. e não se 
ha de interessar muito pelo movimento. A nobreza é apenas 
conhecida como tal. Não se ha de distinguir do povo em cousa 
nenhuma; os homens de lettras são os (|ue mais desejam uma 
revolução. O povo não se acha nuiito na dependência de .seus 
padres; a maior parte sabe lêr e escrever, possue armas e 
está acostumada a scrvir-se deUas para caçar. Os escravos hão 
de acom])anhar os senhores. Em .summa, pelo que toca a 
revolução, a o|)inião do paiz é unanime, mas lulo ha quem 
seja capaz de conduzir uma revolução, nem quem (pieira ar- 
riscar-sc á frente (Vella, sem o auxilio de alguma nação pode- 



3() 



rosa, visto que a ^eiite do pai/, pôde ser mal succedida. Nâo 
ha tv-jM^^apliia no Brazil. 

C'onsidera-se alli a revolução Norte-Americana, como um 
proeedenk^ jmra ser imita<lo. 

Os brazileiros contam que os Estados-1'nidos nuiito pro- 
vavelmente hão de prestar-lhes auxilio, e por uma variedade 
de considerações mitrem a nosso favor os mais fortes i)recon- 
ceitos. 

O meu informante é natural do Rio de Janeiro, a pre- 
sente metrópole, onde elle mora, cuja cidade conta õO.OOU 
• habitimtes. 

Elle conhece bem São Salvador, a antiga (^)ital, assim 
como as minas de ouro que se acham no centro do paiz. 

Tudo é favorável á revolução, e como isto mesmo forma 
o corpo da nação as outras partes hão de seguir o movimento. 

No producto das Minas o (juinto do Rei dá 13 milhões 
de cruzados ou meios doUars i)or anuo (^). 

O Rei tem outras pedras preciosas, o (jue llie dá cerca 
de metade daquelle rendimento. O producto destas duas ver- 
bas rende-lhe por anno cerca de dez milhões de doUars; mas 
com o resto dos productos das Minas, que orça por 2(\ mi- 
lhões, pôde contar-se para effectuar a revolução. 

Além das armas que existem nas mãos do povo, ha os 
arsenaes. Os cavallos abvmdam, nuvs uma ptirte somente do 
terreno jiermitte o serWço da cavallaria. Precisariam de arti- 
lharia, munições, navios, marinheiros e ofticiaes, que estima- 
riam receber dos Estados-Unidos, ficando entendido que qual - 
(juer serviço ou fornecimento seria bem pago. Tém elles 
carne fresca na maior abundância, a ponto (jue ha lugares 
em (]ue se matam os bois somente i)ara aproveitar o couro. 
A |)esca da baleia é toda feita por brazileiros, não jmr por- 
tuguezes, mas em eml>arcações nmito pequenas, de maneira 
que os pescadores não sabem manobrar navios gran<les. 

0) o cniznUo forte portuniueA vale 800 réis e o meio dol lar vale mil réis. 



3? 



A t<xlo o teini)o hão de precisar que lhes forneçamos 
embarcações, trigo e peixe salgado. 

Este peixe é um grande artigo, que recehem actual- 
mente de Portugal. 

Não tendo Portugal nem exercito, nem marinha, não 
poderia tentar uma expedição antes de um anno. A' vista 
(los elementos de que essas forças teriam de compor-se não 
haveria muito que receiar delias, e, falhando o primeiro es- 
forço é provável que nunca Portugal tentas.se o segundo. Ha 
mais: hiterctíptada aquella fonte da sua riqueza, Portugal 
/.lal poderia tentar um primeiro esforço. A parte sen.sata da 
nação está tão persuadida disto (]ue uma próxima separação 
é tida por inevitável. 

Reina entre brazileiros e portuguezes um ódio impla- 
cável. Para acalmal-o, um antigo ministro adoptou o meio 
de nomear brazileiros ])ara alguns empregos públicos; mas 
os gabinetes que se seguiram voltaram ao antigo cfostume de 
conservar a administração nas mãos dos portuguezes. 

Existem ainda nos empregos públicos alguns nacionaes 
antigamente nomeados. 

Para a Hcspanha tentar uma invasão pelas fronteiras 
(lo sul, estão cilas demasiado distantes do núcleo dos seus 
e.stal)elecimentos, além de que uma empreza hesj)anhola nada 
teria de formidável. 

As minas de ouro acham-se no meio de montanhas ina- 
cessiveis a um exercito, e o Rio de Janeiro é tido como o 
porto mais forte do mimdo, depois de (tibraltar. 

Si a revolução fo.sse bem succedida, estabelecei*-.se-h ia pro- 
vavelmente um governo republicano, em um só coipo. 

Durante toda a nossa entrevista tive o cuidado de fa- 
zer ver ao meu interlocutor, que eu não tinha nem insti-uc- 
ções, nem auctoridado i)ara dizer uma palavra a quem quer 
que fosse sobre este assmnpto, e que podia somente com- 
muiiiear-lhe as minhas idéas como simples particular. Dis- 



38 



se-lhe que na miiilm opin:â> nfio estávamos i»resenteiiiente 
em estado <le nos intrometter em uma guerra nacional ; que 
desejávamos particularmente cultivar a amizade de Portu^l 
com quem entretinl íamos um (íommercio vantajoso; que to- 
davia uma revolução bem suc-edida no Brazil não jxidia dei- 
xar de interessar-nos ; í|ue a esperanva do lucro pmleria at- 
trahir-lhe certo numero de indivíduos em seu auxilio, e mes> 
mo guiaílos |)or motivos mais j)uros, ofticiaes nossos entre 
os quaes não faltavam militares excellentes; <}ue os nossos 
concidadãos tçndo a faculdade de deixar individualmente o 
seu próprio i)aiz sem consentimento do governo, têm tam- 
bém a liberdade de ir para (jualcjuer outra terra. 

Pouco antes de receber a primeira carta do brazileiro, 
um cavalheiro informou-me (jue havia em Paris um mexi- 
cano, que desejava ter alguma conversa commigo. Em se- 
guida i)rocurou-me. A informação (|ue colhi delle foi em sub- 
stancia coiiio vou dizer. 

É natural do México, onde moram os seus parentes. 

Deixou o .seu i)aiz na idade de 17 annos e mostra ter 
agora 33 ou 34. 

Classifica e caracterisa os habitantes do México como 
segue : 

l.« Os naturaes da antiga Hespanha possuidores da 
maior parte dos empregos do governo, e que lhe são firme- 
mente dedicados. 

2.** O clero igualmente dedicado ao governo. 
3.** Os naturaes do México, geralmente <lispostos a re- 
voltarem-se, mas sem instrucção, sem energia e debaixo do 
dominio dos seus ])adres. 

4.^^ Os escravos nmiatos e negros, sendo os primeiros 
emprehendedores e intelligentes. os segundos bravos e íle má- 
xima importância, quahjuer (jue seja o lado a (jue se atirem, 
mas (|ue ficarão provavelmente do lado dos seus senhores. 



39 



ô.** Os Índios domesticados que é provável não tomarem 
partia por ninguém, e que não têm importância. 

G." Os Índios livres, bravos e formidáveis, si intervies- 
sem, o que não é provável, por se acharem a grande dis- 
tancia. 

Perguntei-lhe o mnneix) destas differeutes chusses, mas 
iiào soube responder. Pensa que a primeira é poxico consi- 
derável, que a segunda forma a massa da gente livre ; a ter- 
ceira é igual ás duas primeiras; a (juartii ás três j)receden- 
tes; e quanto á quinta não pôde fazer idéa do seu numero. 

Parece-me que as suas conjet^turas (juanto á sexta, não 
ítósentavam em |)ase solida. 

I)isse-me saber de fonte segura (|ue na cidade do Mé- 
xico haviam 300.000 habitantes. 

Mostrei-me ainda mais cauteloso com elle do que com 
o brazileiro. Disge-lhe que . na minlia opinião i)articular (sem 
est{\r auctorisado de proferir palavra sobre o assujnpto) uma 
revolução bem succedida no México, ainda estava muito lon- 
ge; que eu receiava, (pie [)rimeiro ijue tudo fosse preciso es- 
chu-ecer e emancipar intellectualmente o povo; que, quanto 
a nós, si a Hespanha nos desse condições favoráveis ao nosso 
conunercio e aplainasse outras difticuldades, não era prová- 
vel (]ue abandonassemo.s vantagens certas e presentes, ainda 
que peíjueníus, por outras incertas e futuras, por nuiiores 
que fossem. Fui levado a ser cauteloso por haver observado 
que este cavalheiro fretiuentava intinuunente a casa do em- 
baixador hes[)anhol e (jue estava então em Paris conunissio- 
nado jHíla Hespanha para iixar os limites com a França nos 
Pyrinèos. 

Tinha ares de candura, mas esta podia ser tingida, e 
não pude julgar por mim mesmo o que elle era. 

Levado j)ela associação de idéas e pelo desejo de dar 
ao Congresso uma apreciação geral das disposições das nos- 
sas conterrâneas meridonaes, tanto (juanto posso, accrescen- 



40 



tarei uni artigo, que, por antigo e izolado, não julguei assaz 
importante para fazer delle menção quando o recebi. 

Estareis lembrado, senhor, de que, durante a ultima 
guerra, os periódicos inglezes davam pormenores da rebcllião 
do Peru. 

Essas folhas duvidaram da veracidade da informação ; 
mas a verdade é, que as insurreições eram geraes, e que o 
resultado ficou nmito tempo indeciso. 

Si o commodoro Jonhson, esperado então naquella costa 
tivesse alli levado 2.000 homens, estava acabado o dominio da 
Hespanha naquelle paiz. 

Os peruanos precisavam somente de um' ponto de re- 
união, que este corpo teria formado. Faltando-lhes est€, obra- 
ram sem harmonia e foram .subjugados separadamente. Esta 
conflagração foi extincta no sangue. 

Morreram de ambos os lados 200.(KX) pessoas ; mas o que 
resta ainda dá alimento para novo incêndio. Tenho esta in- 
formação de uma pessoa que estava na occasião no logar da 
acção, e cuja boa fé, intelligencia e meios de saber as cousas, 
não deixam du\âda sobre o modo porijue se deram os factos. 
Observou, todavia, que o immero acima referido das pessoas 
que pereceram não passa de conjecturas, que elle pôde colher. 

Importuno o Congresso com estes pormenores, porque, 
por mais afaí^tiidos que estejamos, tanto em condição como 
em disposições de tomar ])arte activa na.s (tonmioções da- 
quelle paiz, a natureza coUocou tão perto de nós, que os seus 
movimentos não podem ser indifferentc^s aos nossos interes- 
ses ou á nossa curiosidade. 

Consta-me que ha outro decreto deste governo augmen- 
tando os direitos sobre o bacalháo extrangeiro e o j)remio do 
francez, importado das ilhas francezas; mas não o tendo visto 
ainda, nada posso dizer de positivo a este respeito. 

Espero que o effeito dessa medida fique anullado pela 
pratica (|ue me consta existir nos bancos da «Terra Nova» 



41 



de pormos o nosso peixe nas enibareuções franeezas, ambas 
lis partes rei)artin(lo o premio enlre si, em vez de nós pa- 
garmos o direito. 

Tenciono segnir amanhã para Bordeanx (pelo canal de 
Lan^iedoc), Nantes, Lorient e Paris. 

Tenho a honra de ser. com os sentimentos da mais 
perfeita estima e considerarão, senlior, vosso muito obechente 
e muito humilde servo — Th. Je(hrson, 



PARTE IH 

Não se pôde avaliar a extensão dos soffrimentos dos ou- 
|/. tros não se conhecendo bem os sentimentos de que estão ani- 

mados. 

pj y Animados pela revolução franceza os patriot^is hrasilei- 

^ vv , ros tinham pressa em mostrar que o espirita) que animava a 

^>: liberdade no velho nmndo, era ainda mais intenso no meio 

*^>V da athmosphera tropical do Brasil. 

Nascidos em logares ignorados, se junttivam entretanto 
os repubUcanos, tal como as aguas que fazem as origens dos 
grandes rios do mundo. O Amazonas e o Rio da Prata, tão gran- 
des no seu majestoso curso eram, imagino, pe(|uenos ainda para 
|> a comparação do grande ideal (^ue elles sonhavam. Ud como 

í i, -:- o admirável plano exposto a Jefferson. 

>|; ■ ' A imaginação não estava longe da realidade, porque 

(yi.:^ ella tinha o Brasil, immensamentc rico, para termo da com- 

ír^ paração, 

i ' Era portanto licito que os patrioUis republicanos de 

" Minas, tendo á sua frente o mais modesto dos homens, um 

^" ourives, fizessem recahir sobre elle a chefia do movimento 

que caminhou como a religião christã. atra vez do tem[)0, (jue 

j, tem sido o factor de sua grandeza. 

L Apreciemos na sua simplicidade histórica o martyrio 

^* . das victimas. 






43 



Olhando para a iinmortalidade, não viam os heroes bra- 
sileiros da inconfidência a sepultura, nem o corpo das victi- 
mas que ella encerra, porque aquelles que se dedicam ao bem 
do género humano, sem ambição de mando e de gloria, que 
só tratam de alcançar a felicidade dos seus patrícios no futuro, 
porque o presente ó èheio de misérias, hão de sobreviver tam- 
bém nos tempos, porque viveram muitos annos antes a \4da 
que lhes estava destinada, (i) 

Alimentando-se de idéas grandes, taes como a de li- 
bertar seus patrícios, estes martyres se aqueciam ao sol da 
pátria, An\nlicando todos os que se chegavam a elles, anima- 
dos pelo calor dos trópicos, que i>roduziu sempre, tanto fjuanto 
era preciso para desfazer os males que a metrópole espalhava 
em tempestades. 



(^)X Republica sonhada pelo Grande Heroe da conjnrav&o mineira não se fez em 
1789 porque houve um Judas Iseariote que se chamava Joaquim Silvério dos Reis. 
Mas antes que um século se completasse depois da execução de Tiradentes. o Mar- 
tjr da liberdade, o lõ de Novembro de 1H89, veio abalar pela base os fundamentos 
do Império, proclamando-se a Republica dos Estados Unidos do Hrasil. 

A propbecia dos conjurados, impressa na bandeira da futura Republica — que 
devia ter por divisa as sefçuinte» palavras: «libertas qute será tamen», (liberdade 
iiiida mesmo tardia) realisou-se 97 annos depois; mas elles. pagaram bem caro a sua 
teBtathra, e. um delles, o mais audacioso e intrépido, aquelie que tçve a honra, o 
valor, o heroísmo e a coraigem de confessar que era um dos conjurados, e que o fim 
dl eo^juraçài) era banir do solo da pátria o predomínio da monarchia; a(|uelle que 
Dâo tremeu e nem vacillou diante da sentença de morte, era o Alferes Joaquim 
José da Silva Xavier; era o Grande e (Jlorioso heroe da conjuração mineira. 

A sentença condemnatoria que levou o |?rande patriota mineiro ao patíbulo, foi 
lavrada nos termos seguintes: 

SENTENÇA 

«Portanto condemnam o réo Joaquim Josá da Silva Xavier, por alcunha Tira- 
dentes, alferes que foi da tropa pa:^ da Capitania de Minas, a que com baraço e pre- 
gão seja conduzido pelas ruas publicas ao logar da forca e nella morra morte natu- 
ral para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vil la 
Rica, aonde em o lojçar mais publico delia, será pregada em um poste alto até que 
o tempo a consuma; o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregado em postes pelo 
caminho de Minas, no sitio da Varginha e Cebollas, onde o réo teve as suas infames 
praticas, e os mais nos sitios de maiores povoações, até que o tempo também os 
consuma. 



44 



Querendo escolher uiim só victiiua, a <|ueni se tiraria a 
vida eraquanto, no desterro, os outros ])uríj;asseni os seus cri- 
mes soffrendo misérias, o governo não fez sinão augmentar 
a aureola do grande Martyr, porque um ser que soffre ]»or 
tantos outros, não pôde deixar de se sentir engrandecer com . 
as dores na proporção dos bens j)essoaes, que ellas geram ! 
Ahl (Quantos tem Hcado innnortaes, não tanto pelo ([ue 
escreveram como i>elo (jue soffreram! 

Sem os supplicios e as dores não se santificam os gran- 
des liomens. nem suas idéas i)assam a ser o património e 
o alimento dos espíritos patrióticos que lhes succedem. 

Como se i>oderia na livre America, nas altaneiras mon- 
tanhas de Minas destruir a liberdade? 

Quem ousaria an*ancar as gigantes figueiras, j)erobas e 
giquitibaes das florestas troi)icaes, que medem dois e trcs 
metros de diâmetro em seus troncos! 

Destruir os germens da liberdade em taes regiões é pre- 
tenção igual a que acabamos de indicar. 

Com effeito, o governo se encheu da alegria que geram 
os festins do ódio e de vingança ; mas não vive só um anuo 
(juem vive para fazer o mal e o crime. A vida intima dos 
governos que sui)primem a liberdade, é talvez a mais fértil 
de festins, de oppressões e tyrannias. 

Foi nos pântanos Pontins de Roma (jue os Neros e os 
Caligulas fizeram trabalhar as victimas do catholicismo, que 
mortas pelos miasmas pestilenciaes. ficavam insepultas. 

Aquelles que escondiam nos sxibterraneos das catacumbas 
de Roma os corjHXs dos martyres, mal ])odiam pensar que a 

Declaram ao réo infame, infames seus filhos e netos, tendo-os; seus bens 
appli<'am para o fisco e camará real, e a casa em que vivia em Vil la Rica será ar- 
raiada e salgada e que nunc^i mais no chào se edifique e não sendo próprio será 
avaliado e pago a seu dono pelos bens confiscados e no niesmo chào se levantará um 
padrào pelo qual se conserve em memoria a infâmia deste abominável réo.» 

Nós agora dizemos: fazem hoje cento e três annos que esta infame e abo- 
minável sentença foi proferida contra o immortal Tiradentei». 



45 



justiça havia de fazer sahir destas profundas e tctrieas ga- 
lerias, a fé, e a verdade (|ue os tyraunos julgavam destruir 
com as suas vietiinas, que aíinal vieram dominar intelleetual- 
uient(\ não só Roma mas todo o nuuido. 

Não era muito para a nossa eivilisação es])erar um sé- 
culo ! 

Bem haja a aeção l)emfazeja daíjuelles (jue tiveram a 
teni[)era rija para as luetas ipie sustentaram e que no meio 
(los mais inaeeessiveis lugares levaram a eivilisação e planta- 
ram as idéas da lil)erdade. 

Montem eomo hoje. i)em hajam aijueiles (jue não se jul- 
«^ani eom direito aos bens dos (pie gozam, si não para i)romo- 
ver. sem ambições, a felicidade de seus patrieios! 

A historia da Ineontidencia Mineira tem sido eseripta 
por outros e já é eonheeida dos moços estudiosos. 

Não é nosso lim re[)etir o (pie já está na eonseieneia de 
tixlos. porém sim narrar o modo ponpie a justiça castigou as 
vietinias. Copiámos dos documentos dos juizes o (pie elles julga- 
nim ser uma st^ntença (wempUu\ ])or(pie nella se vô de que 
exemplo (»ra ea])az tal ju.stiça. 

Envenenado pela fal.^a dilação (pie os confessores leva- 
vam aos ouvidíxs de uns j)ara outros pnísos, é j rovavel (pie a 
jiaixAo e a fra(pieza das victimas, tivessem feia) as revelações 
<|ue se queriam. A honra da descoberta, não é porém digna de 
.*<er eommentada. 

A Revista do Instituto Histórico do Brasil, pul>lic()U em 
1881. tomo XLI\\ a memoria escrii>ta por Joaquim Norberto, 
sobre TiradvnUs, perunte oí? hif^/oriafJorrs ocuhors do seu tempo. 
No mesmo volume vem também os últimos momentos dos in- 
coiitídentes de 17S9 j)elo frade (picos a.ssistiu de coníissão. 

Dest^? trabalho co])iámos a lista dos ])resos (tal como se 
contóin nos autos). 

'^Listii dos cumpliívs na projecta(hi revolução de Minas 
Ueraes, e (jue foram sentenciados na Relação do Rio de Ja- 



46 



neiro em maior alçada, conforme as ordens de S. M. F., por 
ministros graduados nomeados i>ela mesma Senhora : 

P — O Alferes Joaquim José da Silva Xavier (O Tiradentes) 
Enforcado. 

2o — O Tenente Cbronel Francisco de Paula. 
Degradado para Ancoeha. 

3" — O Dr. Ignacio José de Alvarenga. 
Degradado para Dande. 

4^* — O medico Dr. Domingos Vital Barbosa. 
Degradado para Santiago. 

í> — O Cap. José de Resende Costa. Pai. 
Degradado para Brissan. 

6° — José de Resende da ( 'ostii. Filho. 
Degrailado para Caho Verd^. 

1^ — O Sargento-Mór Luiz \'az de Toledo. 
Degradado para Camhamhe, 

8** — O (Coronel Francisco António. 
Degradado para Bilw. 

9^^ — O Dr. José Alves Maciel. 
Degradado para Mucango. 

10« — O Cirurgião Salvador José de Almeida. 
Degradado para Catalo. 

11» — O Ten. Coronel Domingos de Abreu. 
Degradado para Mu.rimho. 

«Os dez acima foram igualmente condemnados á morte, 
porém foram perdoados e degradados para presídios respecti- 
vos por ordem de S. M. F. » 

12^ — C) Doutor Thomaz António Gonzaga, autor da «Marilia 
de Dirceu » . 
Degradado para Pedras Negras. 



47 



13^ — Cap. Vicente Vieira da Motta. 

Degrada<io para Anpoln. 
14'* — Cap. João Dias da Motta. 

Degradado para Angola. 
lõ*» — Ten. Francisco José Ribeiro. 

Degradado para Angola. 
16<> — Coronel José Ayres. 

Degradado para Angola. 
17® — Vigário Correia de Toledo. 

Degi*adado para Lisboa. 
18® — Pad. Manoel Rodrigues. 

Degradado para Lisboa. 
19^ — Joaquim Faustino Soares dos Anjos. 

Solto por ter descoberto a Conjuniçâo do deputado se- 
cretario interino da R. »hnita do Connnercio. 

«Todos os acima eram os cabeças da revoluvão, tinham 
leis já feitas, e embaixadores nomeados para irem [)edir soc- 
corro a diversas potencias, e a maior parte delles homens inte- 
ressados e que estavam ao serviço de S. M. F. ^> 

O denunciante destes homcuí^ martvres chamava-se 
Coronel Joaquim Silvério dos Reis Leiria ( Hiites ! 

Na véspera do Natal do anno 1790 chegaram ao Rio de 
Janeiro os dezembargadores António Diniz da ( .'ruz Silva, ag- 
gravante, António Gomes Ri})eir(). aggravisUi e Sebastião Xa- 
vier de Vasconcellos, Juiz da alçada, com cartíi do Conselho, 
l)ara exercer o logar de ( 'lianceler da Relação. 

Os réos foram considerados como homens monstruosos e 
que inspiravam horror pelos seus crimes. 

Em Janeiro de 1792 conduiram-se as conferencias e de- 
vassas. 

José de Oliveira Fagundes foi o advogado encarregado 
de arrazoar a causa, 



48 



A sentoiva rios réos foi lida ; diziíi assim: 
« Que sejam sentenciados e eondemnados (;om pena iilti 
nui os cabeças da conjiira^rio e os (jue (•ome(;aram e mantive- 
ram os (hnventicnlos'. 

'- (iue os sacerdotes réos fossem sentenciados sej^inido a 
qualidade de seus crimes, ])orém (jue a sua sentença não fosse 
declarada; e (jue retidos em ])risAo forte, es[)erariam a sua id- 
tima e real determinação. 

O dia do julgamento foi solemne. 

Sob a presidência do conde de Resende, f(»charam-se os 
Juizes ás 8 horas <la manbà. e s(') as 2 horas da madrugada se- 
guinte o dezembargador Francisco Luiz Alves da Rocha, 
como escrivão deputado, rodeiado dos inferiores, ministros da 
Justiça, e acompaidiados <le onze religiosos do Convento de 
Santo António. íizeram todos entrada na sala dos julgamentos, 
para (pie os réos tivessem com a [presença dos juizes e dos 
frades uma pallida idéa d<rs tormentos <pie os esperavam. 

Os réos foram para a sala chamada Orniorio. todos alge- 
uíados!! A guarda era de um aspecto terrível, toda ella arma(hi 
de fuzis embalados. E tudo isso, jxmjueV! 

Da .sentença constif (jue os réos (jueriam levantar uni a 
Reimblica livre e indei>endente. cuja Capital seria a Villa de 
São João dEl-Rey. 

Os réos sacer<lotes eram: Luiz Vieira da Silva, cónego, 
(hl Sé de Mariana; ( 'arlos ( \>rrêa de Toledo Riza, vigário (hi 
Freguezia de São José; Ahuioel Rodrigues da Costa, Joí<é Lopes 
de Oliveira e José (hi Silva Oliveira Rolim. 

A bandeini da Republica teria como armas, três angidos, 
allusão a Santissinui Triníhide. cujo mysterio eia da maior de- 
voção de Tiradentes, se bem (pie o réo Alvarenga (piizesse o 
emblema seguhite: - Tm indio (piebrando as cadeias, com a 
lettra — Libertas qua' scra famen. 

As leis fundamentaes da Republica seriam escriptas por 



49 



Cláudio Manoel da Coèta, que aos hiurmres e soffiâmentos da 
paixão, preferira o suicidio. 

A senha para a revolução seria : 

Tal dia é o baptdsado. (^) 

O dia escolhido para se diviUgar a senha era o da Derra^ 
ma, mechanismo inventado > pelo governo portuguez parar haver 
o oiro do povo, extorquindo-o miseravelmente á sombra da lei, 
e p(»r iâso se tornava a medida mais odienta ao povo victima. 

Alta noite deste dia, se gritaria em toda a ViUa Rica : Li- 
berdade. 

O Coronel Francisco de Paula, á testa do seu regimento 
sahiria á rua. 

Tiradentes intimaria o General que se rendesse e o povo 
tendo Alvarenga á frente, seguiria para Mariana e outras loca- 
lidades, afim de proclamar-se a Republica. 

Eis a summa do plano. 

Os presos estiveram 3 annos incommunicaveis, e a mise- 
rável justiça imaginando e inventando torpes dilações, que fo- 
ram a causa do suicidio de Cláudio M. Costa, não fazia sinão 
imputar a um o excesso de seus crimes por causa do depoi- 
mento dos outros, porque o fim manifesto era que elles, os 
martyres, para cumulo do infortúnio, odiassem-se reciproca- 
mente. 

A religião que era aquella doce mãe espiritual que os 
unira e consolara, foi empregada torpemente para fazer este 
artificiou 

Os acontecimentos, iguaes na origem e no fim deste mar- 
tirologio, acabaram por approximar as victimás. 

(I) TalTcx para imitar o pensamento destes martines os repablleaioe ipoirta- 
guetes eeeolheram na mallograda eoi^nraç&o do Porto em 1892 a senha <A criança 



O goYemo tendo achado meios de se apossar do segredo, oonsenHlt lA é#pe- 
difio dos telegrammas somente para o Porto, cassando-os para os entres lagares^ e 
te o baibaro morticínio e o desterro oonhaeido. no qnal involYea ttatím homens de 
csneter e lealdade, como nfto os t?m ignaes o governo portngnei. 



50 



Que sublime scena, a do Pae Alvarenga, cahindo nos 
braços do filho desvelladol 

Os soffrimentos prolongados haviam reduzido o velho a 
uma apparente estatua marmórea, onde a pallidez revelava os 
soffrimentos profundos da sua alma. (^) 

Emquanto o pai deixava correr torrentes de lagrimas 
abraçando o filho, este animava o progenitor de seus dias com 
estas palavras para sempre memoráveis, narradas pelo frade 
confessor (Revista do I. H. 1881 pag. 175.) 

« — Meu querido pai. ah I não desanimes, o que é o mor- 
rer? Acabam-sé as fadigas, os trabalhos, os tormentos que 
tanto consternam a todos durante a vida. » 

«Nós sempre havemos de morrer, ou mais cedo ou mais tar- 
de; o género da morte não nos deve intimidar. Não é injuria para 
nós morrer deste, ou daquelle modo ; os homens não formarão 
a nossa sociedade depois que morrermos, nem a injuria poderá 
recahir sobre os nossos espiritos. A nossa familia receberá a 
aggravante noticia de morrermos enforcados, já acostumada a 
pensar na nossa hífelicidade. e a Providencia, que lhe deu va- 
lor para soffrer a nossa estrepitosa prisão, a confortará na hora 
em que souber da nossa injuriosa morte: 

Querido pae, sofframos, sofframos estes infortúnios pas- 
sageiros em desconto aos nossos occultos crimes; beijemos estas 
algemas, cinjamos estas cadeias; ellas podem aligeirar os pas- 
sos no alcance de uma feUcidade eterna, si as carregarmos em 
memoria da que carregou o nosso Redemptor. Ah! meu amado 
pai, o que é a vida? Aspiremos a inuuortahdade!» 

Diz o padre, que apezar de suas pesadas algemas, o pai 
poude levantar o braço para abençoar o filho, e elle áproveitou- 
se desta circumstancia para obter de ambos uma verdadeira 
contricçáol 



(i) Admira qne o escriptor Joaqnim Norberto justifique esta derrama, com» 
om direito legitimo! 



51 



Quando se soube do perdão, é ainda linguagem do chro- 
iiista que queremos que íique a(iui, porque tem-se glosado 
com falsas intenções estas pala\Tas : todos os presos diziam a 
uma voz: «Governai-nos Senhora! vós nos captivastes. » Tam- 
bém o Christo quando foi preso e esbofeteado, disse ao seu 
algoz — « aqui tendes a outra face — » 

Irrita os nervos lêr-se os commentarios feitos pelos eseri- 
ptores, achando na resignação das victimas motivos de deleite 
á critica injusta e impiedosa que só comparamos com o acto 
de crueldade que os animaes carnívoros praticam com as suas 
presas brincando com ellas antes de as devorar! — Ah! zoi*n- 
bão da ironia sublime ! Alguns têm ousado dizer que Alva- 
renga foi um covarde. 

Que Tiradentes j)edindo para beijar os pés e as niãos do 
carrasco dera prova de covardia!... 

Mas porque é que o (Jhristo foi heróe dando a outra face 
ao algoz que o atormentava?! 

Três annos de martyrio, de confissões, de misérias e je- 
juns, náo puderam fazer perecer as \ictimas. 

Esta é a força que os animava, e é por isso que ellas so- 
brew^em aos que dizem que Tiradentes não foi um heróe, 
e aos que hoje que a Republica está formada, se- fazem bons 
republicanos ! 

Para sermos íieis á historia transcrevemos as ultimas 
pala\Tas de Tiradentes: 

« Que iigora morria cheio de prazer, pois não levava 
apoz si tantos infelizes, a quem contaminara, e que isto mes- 
mo intentara elle nas multiplicadas vezes que fora á presença 
dos ministros, pois sempre lhes pedira que fizessem delle só 
a victima da lei. » 

Amanheceu o dia 21 de Abril que lhe abriu a immorta- 
lidade. Entrou o algoz para lhe vestir a alva, pedindo de cos- 



52 



tume que lhe perdoasse a morte que iâ fazer e que a Justiça 
é que lhe movia os braços e não a vontade. 

Foi então que voltou-se plâcidamente Til^adentes e disse 
ao desgraçado algoz: 

« Oh 1 meu amigo, deixe-me beijar suas mãos e seus 
pés. » 

« O que feito com demonstração de hmmldade, com a 
mesma despiu a camisa e vestiu a alva, dizendo : 

« Q\ie o seu RedempitQi* morrera por elle também as- 
sim..».(i) 

Tp^s s|k^ i«s fHalavra^ imHHiFredoisus^. de wm v^d^eiso 
martyr e heróe; Jesus Christo a quem elle qu^na^.imiitar^ nã^ 
o ultrapassou ^». bella irouia, única arma que as victimas têm 
para fazer com que o echo de suas palavras passe a «er o ^to 
da consciência dos povos nas reivindicações sociaes, por 
onde a sociedade possa adquirir a justiça e a liberdade. 

Tiradentes subiu os degráos da escada que o levava á 
forca, sem levantar os olhos que sempre conservou fixos no 
crucifixo, sem estremecimento algum; deu lugar a que o car- 
rasco prepairasae a corda, e por tree vene^ pediti pêra qsue abre- 
viasse a execução. 

Em quanto «sta grande alma m elevava, á etornidaáer a 



0) Goo^vein a(^ai recordar o exemplo dado por ChrÍ8to Jai^to dos setu apóstolos 
oonfonne a Esoriptura. 

«Levanton-se Jesus da mesa, e depondo a vestídnra oinglo nma toalha e 
deHou agua em mna bada. Peito isso oomeçoo a lavar os pés dos sens apóstolos e 
os eiungon coma toalha. 

Pedro, o apostolo escolhido depois para ser o alicerce daBgreja Universal e da 
qnal s&o snocessorcs os Pontífices da Divina Egreja, chocou-se com proeedimeiito do 
mestre e dissa-lhe: Pels ^lenhor vós me lavareis os pés? Jesus reapoaden qne ellf 
n&o sabia o qne se estava fazendo e de novo recalcitrando Pedro^ aqu^lle lhe áaelaron 
qoe se n&o lhe lavasse os pés, n&o toria parto com elle. A isso Pedro de prompto 
disse qie n&o só os pés, mas ainda as m&os e a cabeça daria para laniar» Com estas 
belU«i e sigBijfleativas palavras respondeu Ohiiisto: «0 que est^ pnfo só precisa ^^» 
lhe lavem os pés, e assim ficará todo puro. Vós estaes puros mas não todos. 



M 



hiHBaniààdé humilhada via a miaeria desp^vos recitada nestas 
pedavras do padre guardião dó Convento de Saerto Antooto: 

« In cogitatione tua regine detrahas quia et mee toêU por- 
tt^wévoBsem tttam et qui haèetpefmas dabit, sefêéefMam. Nem 
por 'peasameutos critiques o teu rei, porque as próprias Bve& 
levarão os tuas criticas e trahirâo o teu pensamento.* 

Compare-se osta doutrina hypocrita com a linguagem do 
heróe, e ter-se-ha feito o maior elogie dé Tíradentes. 

Nós -que adoptamos a doutrina de Spencer vemos que 
as comparações que a revolução sooial apresenta na «ua 
inoessante marcha paia o progresso, têm uma força ^ enferme : 
aJei dos acontecimentos Bociaes se baseia na raasdma da^fiS^ 
cwptura*: 

Quem com ferro fere, com ferro será ferido. 

É por isso que não podemos ^dôixar de apreciar a drcum- 
stock de ter eido empregado pelo governo Beal para a setemni- 
(fede da eondénmaçâo de Tiradentes, toda a força composta 
dos seis regimentos e duas companhias dé eavàltoia, a q«nd 
pegou em armas para conter o povo e applaudir o enforca- 
mônte do resignado martyr : 

O exercito que havia sido aproveitado p«ra este fim 
como mais tarde o foi para pegar os escravos, revoltou-se con- 
tra eete systema corruptor do poder monarchico, e apressou;^ 
advento da Republica no Brasil, fazendo com qoeo dia 15 -de 
Novembro de 1889 fosse escolhido para synthese commemo- 
ratínra das reivindicações ^ociaes.(^) 

(1) JolipviM de bom parooer pubHear a Carta ^ae tivenes eeeaBifta d€i receber 
qoaiido publicamos o nosio livro faaendo^a pcojH^gaodajda Brasil na 'Bnropa e a|Hfeeia»d9 
ot-periges 4o H^UtaTiamo no Brasil, e porque um. pensailerirroteBéo e eeeiii>tor insi- 
gna teaba. adiado qae: aoe «miUlarea ooabe o medo de^ airreesac a Be|mUifa. nloé 
sem ftmdamento a leitura de tfto precioso doearaeiíte para a histosia. 

Lisboa, 7 de Janeiro. 
Bxm. Snr. — Bstoa ha muito em divida de agradecimento peio offereciroento 
àe seu livro Influente de VWsdavage et de la Liberte^ mas nfto queria escrever- 
Ihe isntâmeiffo o ter lide* 



54 



O próprio ex-imperador promoveu a festa do centenário 
de Cláudio Manoel da Costa feita pelo Instituto Histórico do 
Rio de Janeiro. 

A Assembléa Geral do Império em 1832, mandou en- 
tregar aos herdeiros os bens confiscados em Minas a todos 
os Inconfidentes de 1889. 

Em 1894 o heróico berço do martyr, foi honrado com a 
estatua que deve perpetuar a sua memoria. 

Ao passo que os Inconfidentes foraiti degradados e sua 
memoria considerada indigna e seus filhos infamados o povo 
repetiu em meio de hosannas — Vivas a Tiradentes, o proto- 
typo da gi-andeza d' alma e não se lembra destes bipedes que 
com a" forma humana deshonraram a justiça e a humanidade 
de seu tempo. 

E' pela associação, o progresso, o trabalho e a paz com 
seus semelhantes, que o homem pôde dominar a natureza. Não 
podei:á ser digno de uma tão grande honra se não cultivar 
suas próprias faculdades. 



Paço-o hoje e sinceramente lhe don os meus parabéns pela abundância e pela 
descripçfto das idéas e informações accumuladas no seu livro, e.çe não posso deixar 
de lhe dar os meus parabéns, esses parabéns s&o tanto mais sinceros e vehementes 
qoanto eu..quasi, senfto sempre, concordo com as idéas do autor. A illus&o positi- 
vista de fazer a felicidade do Brasil pelos governos militares, precipitou como não 
podia deixar de ser, essa parte da America Meridional no regimen commum das Re- 
pnblicas Hespanholas. 

Por outro lado, a vastid&o das riquezas naturt^s e a. escassee relativa da po- 
pulação, permittiram ao Brasil realisar typos e formas da organisação civil a que se 
chama socialistas na velha Europa e que, por cá, a tradição, os interesses creados, e 
a exiguidade da riqueza, provocam commoções graves. 

' Como quer que seja, eu creio no adagio que fDens escreve direito por linhas 
tortas?» ou por outra «que todos os caminhos vão a Roma». 

Creio que desta revolução o Brasil sahirá retemperado e fortalecido augmen- 
tando o pecúlio da sua experiência com as penas dos soffrimentos inevitáveis, e a 
energia do .seu braço com o exercício duro das armas. 

Disponha V. Ex. 
Do seu 

Muito obrigado e venerador, 

(Assignado) Oliveira Martins. 



65 



Tiradentes teve a intuição dessa grandeza, e os que o 

acompanharam comprehenderam os seus nobres sentimentos. 

A monarchia marcou o dia de sua morte persuadida 

que seria o do seu esquecimento; mas a justiça social que se 

vivifica na^ consciências dos patriotas, engrandece este, dia 

Felizes os povos que na elaboração pacifica do progresso 
podem quebrar os grilhões dos seus pulsos e levantar os braços 
para bater palmas e entoar hosannas aos seus martyres im- 
mortaes.(') 

O escriptor Major Codeceira, em seu trabalho publicado 
para reveindicar a prioridade da idéa republicana no Brasil 
aos heróes que pagaram com a vida a ousadia de pensar em ter 
uma pátria livre, é injusto para com Joaciuim José da Silva 
Xavier — o Tiradentes. 

Este facto não exclue lus homenagens devidas áquelle 
grande prototypo da liberdade, a quem a lei, por am processo 
regular, condemnou á morte. E' a consagração do marty- 
rio que se mede e se pratica nu razão inversa do tempo e di- 
recta da acção. 

Os factos dos morticínios dos brasileiros que antes de Ti- 
radentes pensaram na Republica, foram antes assassinatos 
infamemente praticados á sombra da lei. 

E' por isso que no nosso trabalho histórico rendemos as 
homenagens devidas a Manoel Beckman, que em 16 de Ja- 
neiro de 1668 teve, na qualidade de vereador da camará mu- 
nicipal do Maranhão, a coragem de fallar em Republica. 

Os factos porém provam que elle teve em vista a questão 
do captiveiro. A ex^mlsão dos jesuitas promovida por elle 
prova que o seu ideal de liberdade tinlia uma origem impura. 
O distincto sr. João Francisco Lisboa no seu livro Apontamen- 



(1) Á historia deste capitulo foi lida no dia 21 de Abril de 1895 em sessão 
magna eommemorativa da data do anniversarlo da morte de Tiradentes, sendo a§ 
palavras do orador cobertas de prolongados applansos. 



66 



io8,.mõti$ia8 e observações para servir a historia do Mara- 
nhão tcaèadO' Assumpto, e as referencias' de outros historifido- 
reanoe obrigam a conolusão a que chegamos. 

^Quando o governador Gomes Freire de Andrade chegou 
ao^Míwranháo a 16 de Maio de 1684, todo o caracter republica- 
no darevolta mudou e o infeliz B^kman, que foi na verdade 
um martyr das idéas liberaes- do seu tempo, teve que pagar 
com a vida o crime de ter f aliado em republicanos. 

Thomaz Beckman seu irmão teve a mesma sorte e Jorge 
deSampaio foi também eondemnado e morto, sendo os seus 
companheiros- desterrados, e o fiel Belchior Gonçalves, chama- 
do* wí^fer, espécie de escravo, condemado a açoites pelas ruas 
do Maranhão !! 

Em seu livro Relação Histórica e Politica do Maratíhão 
Teixeira de Menezes descreveu Beckman como um homem 
perverso e sem as qualidades para merecer a apologia que ou- 
tros lhe queriam fazer. Os documentos fornecidos por Be- 
ckman provam que não era a Republica o seu ideal, e que elle 
trabalhou para manter o captiveiro dos Índios e assegurar á 
coroa de Portugal a sua permanência, ainda que de sua alti- 
vez estejam cheias as paginas da historia. Quem lêr suas car- 
tas encontrará o seguinte: «E não era de esperar que o príncipe, 
com politica e rigores levasse á desesperação vassallos tão fieis e 
beneméritos a quem a sua coroa devia tanto, e que atrozmente 
perseguidos podiam demaziar-se em seus excessos, buscando 
na protecção de algum rei extranho a justiça, quando lhes 
faltava a natural. » 

Outro vulto benemérito para a idéa repubHcana foi Fe- 
lippe dos Santos, que sublevou a Villa Rica, e deixou com o 
seu sangue o gérmen da liberdade que Tiradentes encarnou 
em sua modesta e virtuosa pessoa. 

O Conde de Assumar, governador, é o primeiro a confessar 
no seu relatório o «grande vulto que tomou a revolução». 



57 



O facto de ter sido condemnado á morte, e o modo por- 
que foi assa^ssinado, sendo seus membros amarrados em ca- 
vallos bravios que os de\nam arrancar, em frente aos próprios 
algozes, é um facto (jue asseji^irou a primazia da idéa republi- 
cana a esto mailyr. 

Acontece, porém, (jue os escriptores ({ue para serem agra- 
dáveis á monarchia têm pnxíurado tirar do martyr da liber- 
dade, a (juem as leis por um processo bárbaro, indigno e refle- 
ctor do tempo haviam escolhido para único exemplo, a priori- 
dade (la i<léa rei>ublicana, augmejitam hoje este mesmo ser\iço 
íjue elle prastára á Rei)ublica ! 

Deixamos bem provado (pianto elle fez, a sua habilidade 
na pmpiíganda, sua.s \iagens, seu papel modesto, mas por isso 
mesmo mais digno para inspirai confiançii aos seus compa- 
nlieiros, que tendo alia» mais trabalhos anteriores e principal- 
mente o (la propaganda pela palavra, haviam dailo a Tiraden- 
tes esta fei<;ão, que a lei mesma veiu conseguir, fazendo-o um 
martyr. 



PARTE IV 

Depois do XIX século 

A revolução frunceza deu aos homens de todo o mundo 
civilisado, os meios de conhe(*or a razão pela qual os povos se 
deixavam governar pelos Reis. A revolução económica que 
veiu ao mesmo tempo, fez com que passasse para os povos de 
origens saxonias a preponderância no equilibrio do mundo, 
transformando-se as condições do trabalho e do trabalhador. 

Os paizes novos, muis do que os outros, foram influencia- 
dos por esta (Uipla e salutar transformação, na qual os filhos 
dos europeus, vindos ao novo mundo, em poucos annos ou vol- 
tavam ou ficavam como cidadãos destes paizes novos, provando 
que era nelles que o homem podia ser o auctor de sua própria 
fortuna, e também viver e ganhar, mais do que seus pães no 
mesino espaço de tempo. 

A vida intensiva e feliz se traduzia pelo dominio da natu- 
reza selvagem e pela coníjuista da terra e do espaço. 

Deste modo a posso- da terra píissou a ser propriedade, e 
com ella se formaram as collectividades sociaes, que rapida- 
mente se engrandeceram á sombra da liberdade. 

Deste modo o liomem foi nuúto cedo influenciado para o 
regimen republicano, que era a([uelle que melhor permittia 
aos innnigrantes realizar na America, estas formas sociaHstas, 
(pie na velha Europa não podem ser postas em pratic4i, sem 
provocar abalos pn) fundos, perturbações graves e destruidoras, 



59 



e que aqui na America, sáo a própria essência das leia e 
dos costumes. 

Só esta circumstancia mostra a vantagem que ha na vida 
(los paizes americanos, que têm entretanto como único ele- 
mento pernicioso, que serve de fermento ás agitações que per- 
turbam a paz, a politica partidária, geradora do3 partidos, que 
sem idéas e sem programma só visam o poder, e quando náo 
dispõem delle provocam todas as perturbações no interesse dos 
partidários, que fazem as chapas para obter a governação dos 
Estados com um agrupamento, filho d'este jogo de eternos in- 
teresses, chamado politica. 

Tempo virá, não longe, em ([ue a evolução das idéas 
será no sentido de ehminar esto systema péssimo, perigoso 
e desiguiil, que fere a felicidade dos que trabaUiam, pontue 
nunca lhes pennittc ter outro valor (jue não seja o de ser 
instrumento vil e cego dos (]ue os entretém com illusorias 
esperanças, cargos de eleições para deputados, impostos e 
penalidades. 

Apenas foram proclamados os direitos do homem pela re- 
volução f ranceza, o Brazil principiou a receber os benefícios das 
idéas republicanas. 

Descrever o modo como se originaram estas idéas, quaes 
os que cultivai-am, em tempos tão críticos, as sementes imix)r- 
tadas pela civilisação, ó o assumpto deste modesto trabalho, 
que servirá para os archivos do Instituto Histórico de São 
Paulo, cuja iniciativa tive e me foi dado ver amparada pelos 
meus companheiros e sócios. 

Talvez que os patriotas possam-lhe dar circulação. 

Foi semi)re dos hoinens livres o (Uzer a verdade, o o me- 
lhor dos meios para se inocular no povo este doce sentimento 
foi a conferencia publica. 

Foi assim que J. Christo operou a reforma social do chris- 
tianismo contra o paganismo, foi por igual modo que se chegou 
a fazer a revolução fraiiceza, foi também com as conferencias 



60 



que no Brazil alguns homens instruídos conseguiram orientar 
nos tempos coloniaes e depois, as (lasses desprotegidas e o 
povo sedento de ensino. 

Os athenienses também cmltivaram este poderoso meio de 
instrucção, e em quanto os livros eram o priv-ilegio dos i)adres 
e dos philosophos, o povo só por este meio poude chegar a ser 
soberano. 

Felizes aquelles que na velhice de uma vida ignorada 
puderam morrei* amparados pelas i<iéas republicanas (^om as 
quaes viveram I 

Admira-se a (constância e leiddade á idéa sempre perse- 
guida. O governo nílo consentia que a colónia prmluzisse 
nem os bons fructos daH arvores da Europa, nem as idéas 
que pudessem levantar o espirit^^ do al)atimento em (jue 
jazia. 

(yViava-se os individuos como se faz com os perus, conser- 
vando-os sempre promptos para produzirem um bom alimento 
e davam má alimentação ao povo, para que elle não pudes.«íe 
pensar nobremente. 

O decreto régio ordenando (pie stí arranca.ss(^m todas as 
arvores fructifera^s ([ue tivessem sido [flautadas no Brazil e fi- 
zessem concurrencia com as da Índia, foi uma das medida^ 
mais elogiadas no llcino. 

O padre Vieira, já expulso do Maranhão, }>orque pretendia 
oppôr-se ao captiveiro, escreveu uma phrase (|ue dá idéa da 
medida rigorosa do famigerado governo da metrópole : « Só 
escapou, diz o sábio escriptor, a gengibre, e isso mesmo, por se 
metter pela t(írra a dentro. » 

Foi semeando o ódio e o aniquilamento (pie o povo apren- 
deu a comprehender a causa de seus iníortunios, e justamente 
nos logares onde se faziam sentir a tyrannia e a oppressão, a 
reacção foi igual a acção. 

E' justo, portanto, que nos retiramos a um documento 
authentico, no qual o Bispo do Maranhão, confessa o predo- 



61 



miuio (los sentimentos republicanos do povo, e o pôz diante 
(los olhos daciuelle (jue primeiro ousou dominal-o sob o funda- 
mento de o emancipar de um jugo mais duro e cruel. 

O Maranhão não havia adherido á Independência do 
Brazil. Só mais bmle <piaiido lá foi o Almirante (^)ckmne, 
esta parte <lo Hrazil s(^ annoxou ao nascente império que 
galardoou o iVlmirante com o titulo <le Maniuez do Ma- 
ranhão. 

Eis como 1). Pedro I se dirigiu ao bispo do Maranhão : 
«Meu caro Frei Joa([uim — Rio de Janeiro, 30 de Janeiro 
de 1823. 

«Como o conhe<,*o desde (jue nasci e lhe coidieço as suas 
nrtudes, é a razão porque pego na penna ])ara dizer-lhe que 
trabalho para unir o Maranhão ao Império a que elle pertence, 
como jirovincia, dizendo-lhe (pie nisto faz um grande serviço 
ao Brazil e a mim cjue não desagrado a meu pae, que está 
captivo de vis carbonários, que são todos contra a religião 
que })rofessámos e ([uc estão excommungados jielo chefe da 
Igreja, a.ssim couk) todos os (jue os seguem e adlierem ao 
seu governo. 

«Espero íjue o bispo concorrerá íjuanto jaider para o íjue 
lhe digo, visto as suas virtudes religiosas. 

«Receba mil abraços e os pingos sentimentos deste que 
o ama. 

Pedro. » 

Por este documento se aprecia de (jue modo o filho tratou 
o pai, e também de quantf)s ódios estíiva dominath) Pedro I, 
contra a maçonaria que veiu a dar-lhe cabo dos (has quando 
elle foi atraz da preza que o pae, de <piem elle assim f aliava, 
achou prazer em legar-lhe. 

Justa recompensa sem duvida para um tal tilho biographo 
que apparece na historia, desenhando-se a si próprio. 

Convém archivar para ensinamento dos leitores, a res- 
posta desabusada do frade, mas tão \nolenta na phrase 



62 



quanto insinuante nas deducções de um bispo, a quem o Im- 
perador por sua vez insinuara os perigos porque passava 
a religião. 

€ Senhor: 

cPenetrado dos mais puros sentimentos de respeito e gra- 
tidão, beijo as mãos augustas de S. Míigestade pela distincta 
mercê com que se dignou honrar-me enviando' me uma carta 
de sua própria lettra, cheia de expressões as mais Usonjeiras 
e affectuosas. 

«Esta carta, Senhor, escripta em 30 de Janeiro e que tinha 
por fim exigir a minha cooperação para o estabelecimento da 
Independência do Brazil, representada a V. Magestade, tão 
interessante á vossa imperial coroa, e a mais vantajosa para 
o bem estar destes povos, £oi-me entregue em 22 de Outubro, 
tempo em que já tinham decorrido quasi 3 mezes depois que 
ella fora acclamada nesta provincia e que eu estava a retirar-me 
a Portugal para onde sou obrigado a fazer viagem dentro em 
poucos dias. 

« Mas Senhor, acaso seria eu capaz de trahir meus conci- 
dadãos, a abjurar a pátria que me viu nascer e legitimos di- 
reitos de V. Magestade ? 

«Um bispo tão devedor ao Sr. D. João VI e tão amante 
da augusta casa de Bragança, pôde elle ter outros desejos, que 
não sejam a sua maior prosperidade e grandeza para assim 
patentear a Deus o seu dever e a fiel gratidão de que fora 
sempre animado ? 

cAh, Senhorl Independência e desgraça são palavras syno- 
nimas entendidas no seu verdadeiro rigor ; ellas se identificam, 
e vêm a significar a mesma cousa. 

«Si V. M. tivesse previsto a alluvião de desgraças que têm 
incendiado este vasto território desde a Bahia até o Maranhão, 
e todos aquelles que ainda estão por vir, sendo mais deíaslrosa 
a actual mina do throno de V. M., por certo que não teria co- 



63 



ra<^ para assignar tantos decretos, feitos talvez de propósito 
para inteiro exterminio e perdição de milhares de seus vas- 
sallos. Estas províncias estão regadas de sangue dos paciíicos 
europeus que a paixão do furor da baixa plebe atiçada pelos 
revoltosos demagogos, tem derramado impunemente para se 
apoderarem de seus bens, que tantos suores lhe custaram, ju- 
rando quasi todos a Independência, e prestando a mais deci- 
dida obediência a V. M. e assim mesmo não cessam de ser 
perseguidos e maltratados por bandidos e assassinos, que os 
obrigara a andar fugidos e a desamparar essas tristes famiHas, 
e procurar seguro asylo na America, França e na Inglaterra e 
muitos mais em Portugal. 

«Em uma palavra, as lavouras estragadas, villas e aldeias 
arrasadas e outras despovoadas : eis os sasonados fructos que a 
Independência tem conduzido a estas provincias e que a 
do Maranhão tem colhido, em pouco tempo, na maior abun- 
dância. 

« Esta desgraçada provincia, como era de tedas a mais 
habitada de europeus e por isso como fora a ultima a ren- 
der-se ao prestigio devastador, tudo se arremessou contra 
eUa. 

« Cockrane, que pareceu ao principio, enviado como anjo 
de paz, passou poucos dias a extrahir dos negociantes mn ca- 
bedal incomparável, deu o maior oórte ao commercio, e foi o 
primeiro a arruinal-o. 

<Seguiram-se os sertanejos do Pará e do Piauhy, aos 
quaes se aggregaram muitos da ralé deste pevo e todos estes 
com mira na rapina e no espolio dos europeus, não têm feito 
mais que devast^ir, perder e matar, tendo a seu favor aquelles 
de governança, que parecem estar animados do mesmo espirito 
ou pelo menos, semelhante em tudo. 

^Senhor, seja-me licito patentear a V. M. toda a verdade; 
si V. M. não qmr ficar insultaão, mo te^' quem lhe obedeça, 
ponha termo a tantos males, dè a mão a seu augusto pae, hatalhe 



64 



com elle a enterrar a Independência^ assim como enterrou a 
Constituição. 

« Veja V. M. qtie o espirito dos povos é todo republicano e 
aqudles que os dirigem conlwcem bem a fraqueza do Uio de Ja- 
neiro, e a nenhuma vantagem que de lá tiram: servem-se do nome 
de V. M. para reunirem^ a gente da plebe e ao primeiro rebate 
clamarão todos a uma voz : Vivam os republicanos unidos e aca- 
l>€'Se para sempre o imperador. 

«Eu não /aliaria com tanta franqueza si mo estivesse ao 
facto destas cousas : e não tivesse notado os seus procedimentos 
qtie são todos filhos de suas malévolas intenções. » (1) 

«Elles porém (lis|>Oc, como l)em lhes parece dos l)ens 
(los empregados, lionra e i»ropriedade dos europeus, sem nada 
se importarem com as leis <le Y. M. a bem dos seus vassallos, 
permittem que por toda pai*te os estejam matantlo e rou- 
bando daudo-lhes uuiita pancada; tem chegado a proferir que 
os hão de obrigar a sahir todos, ou reduzil-os a misera sorte de 
seus escravos. 

«Finahiiente acabou-se a paz, já nâo ha justiça nem espe- 
rança de havel-a tão cedo.» 

«Ninguém vive socegado em sua casa, muitos preferem 
viver ao mar a bordo de algumas embarcai^ões extrangoiras 
para na primeira occasião fugirem. 

«Tal é. Senhor o bem estar destes povos (jue tanto prezo 
pelo que sempre me o[)puz á Indej tendência, (jue jamais ju- 
raria porque temo a Deus e estimo a V. M. como estimo o seu 
augusto pae, e não <|uero a execração de minha pátria e muito 
menos a de meus nacioníies, (pie são meus diocesanos l)ens 
(lueridos. 

«Beijo as mãos respeitosamente a V. M. — Frki Joaquim 
DE Nazareth.» 



(1) Nós grj-phamos estas palavras porque a confissão dos actos é a prova evi- 
dente da existência da idéa ropublicana entre o povo, e da certeza de que Pedro I 
trahia a este mesmo povo. 



6ft 



Este docuiiieuto é caracteristico de fraiiíiiâezu e digni- 
dade. Este bispo foi propheta, lançou em rosto de Pedro I 
o ter renegado sua pátria, para vir atraz d'iimtí cofoa.' ehi 
um paiz rejmblicaiio. como elle confessa, dizendo que o 
povo unido bradaria: — Vivamos republiíjanos. morra para 
sempre o Imperador. Esta sentença era filha do '<íonheci^ 
mento das idéas do i)ovo, e niiiguem com mais autoridade 
para fazer a revoluçfto. ' 

Jamais se ouvnu faHar tâb claro/ e se aqueiles que cercaram 
o throno e lhe deram vida, não fossem os protectores da es-» 
cravidão, ter-se-hia proclamado a Independência e Republica. 

O documento (pie apresentamos e que f«z parte dos 
archivos da Revista do Instituto Histórico a pags. 243 e 244. 
dovol.de 1889, é a prova mids eloquente dos sentimentos 
republicanos do imvo brasileiro, e também da altivez da lin- 
guagem fallada a uu) soberano. 

O frade Nazareth, teve que ver, no fim de sua vida, que 
suas crenças na monarchia, eram uma destas cargas que só 
a educação obriga a se carregar, e da (]ual todo liòmem livre 
se liberta, quando é capaz de ter o espirito culto, a vida 
dieia de experiência e desprendida de preceitos e sem outro 
pensamento que o da felicidade do* género huHaãno." '' ' ' ' 

Estas considerações nós as fa;íemos para render justiça- 
a este honrado e leal portuguez, (pie voltou ' j^ara o reino a 
beijaras mãos de D. João VI, depois de ter "renunciado o* 
bispado do Maranhão, visto não adherir á Independência. 

O frade Nazareth foi nomeado bispo de Coimbra, teve 
o pariato do Reino, o Condado de Arganil e o senhorio^ de 
Coja. A tudo isso este frade honrado reinniciou, e fugindo 
de Portugal, disfarçado em marinheiro inglez para Liverpool, 
dahi veiu para o Maranhão em 1846, onde morreu em 1851. 

Fosse nossa ])atria uma Republica e estamos certos de 
que o frade, (pie fora propheta, teria sido um excellente re- 
publicano. 



66 



Deixando as honras para vir morrer no Brasil, elle attestou 
a mais solemne confissão de arrependimento do que dissera 
contra os brasileiros. 

O sábio Ijeáo XIII acaba de dizer a Castellar, por occasião 
da visita deste grande cidadão republicano e a propósito 
da França: 

«Tenho viva fé no governo da Republica, porque a 
forma do governo nada importa, quando elle é bom. » 

E' muito fácil o elogio daquelles que pelo nascimento 
e heranças de collaçáo nas altas posições se fazem grandes 
senhores; mas não se avalia quanto pode influir para a fe- 
licidade da pátria, a conducta d'aquellas que passam a vida 
no trabalho, pagam o que compram, vendem o que adquirem, 
nunca abandonam a casa de suas familias e ensinam aos 
filhos, no meio das alegrias únicas ({ue têm no lar, — o se- 
gredo de se contentar com pouco! 

A vida do homem sertanejo, no retiix), tal como a pra- 
ticaram os que se afundaram nos sertões, »erve tão bem á 
virtude como a do cidadão que é investido dos altos cargos 
e os sabe honrar. 

E' preciso reconhecer que não se preparam as posições 
eminentes sinão pela consciência, e quem procede amando 
a liberdade, para ella vivendo e trabalhando torna-se muito 
mais digno do que tantos outros celebrados com o conciuso 
da corrupção e do poder de que dispõem. 

Cicero em seu Tusculanos, disse bem: 

« Tirae a consciência do testemunho interior que se presta 
ao vicio e o que fica é nada. » 



PARTE V 



Algumas vezes sabe-se mais da historia de um povo pelo 
que escrevem os estranhos do que os nacionaes. 

Quando se proclamou a independência do Brazil, as na- 
ções européas estavam reunidas no Congresso de Verona, 
onde a noticia chegou em Novembro de 1822. 

Espalhou-se logo na Europa o feliz acontecimento, mas 
o velho Portugal, enviou diplomatas para todos os paizes 
amigos, afim de não consentirem e nem approvarem este 
acto. 

Glosou-se, entretanto, a ph rase que ficou celebre do pae 
dizendo ao filho e deste ao i)Ovo: ' 

< Como é para bem de todos, fico. » 

Para os brazileiros o juizo que se pôde fazer da con- 
ducta de Pedro I, só será justo quando se ligar sua conducta 
ás duas datas — 7 de Setembro e 7 de Abril. 

Portugal estava para com a antiga colónia como um 
polvo para os cori)os em que applica uma de suas tenazes su- 
gadeiras. 

Sujeito á pressão de uma força que impellia o Imperador 
para a frente, ou elle teria que avançar tomando as causas dos 
patriotas, ou recuar para não mais pizar em terras brasileiras 
ua qualidade de pretendente da coroa. 



68 



ConipreheiuHdo o. momento de uma acção decisiva, o 
Imperador deli provas de amar a sua posição e portou-se 
como um interessado na defesa de um poder que lhe está 
confiado, mas tratou de associar ao maior numero, os elementos 
deste interesse, que na Colónia era a exploração da terra e 
das minas, como o infeliz escravo e i)ara este fim tornou-se 
um defensor acérrimo do captiveiro. 

Estas novas victimas da violência e da força, tiveram 
também a sua epocha, e como nos tempos pagãos em que os 
Romanos só consentiam que se sepultassem os christãos nos sub- 
terrâneos, e só nestes as victimas podiam celebrar as suas 
festas, assim também se fez aos miseros escravos, que tinham 
para leito a terra frin, quando não a tinliamlogo por sepultura! 

Mas foi destes - subterrâneos que . brotou a fé christã, 
que derrubou os potentados <le Roma, como também foi deste 
leito , de misérias íjue a mouarchia viu le-vantar-se o espectro 
que, sem demorar^ a demoliu. 

. ; Uran^de lição, sem duvida, pára aquelles que julgam ser 
a liberdade ^o homem uma fontç. de exploração,' equando a 
e;s[ploram não sentçm no gozo «^este hediondo commercio, o 
veneno que lhe prepara a ruina, quando não lhes atormenta 
a^onscienría. 

Não tendo Portugal se a}>ressado em reconliecer a inde- 
pendência do Brazil, ousou entretanto I). . João VI mandar 
emissários que chegaram ao Rio a 20 de setembro de 1823. 
abordo do nayiô Voador. 

O povo que não admittia dependência alguma com a 
Reino, fez logo imponente manifestação exigindo de Pedro I, 
q.ue no caso do navio não vir em missão especial para re- 
conhecer, por meio dos representantes de I). João VI, a nossa 
independência, não consentisse que ficasse* siquer nas aguas 
do Brasil. 

Os emissários não tendo trazido estíi missão, mas sim carta 
ão^^acpara o Jilho. por tal modo irritavam o povo que este que- 



í)9 



brou logo o leme do iia\io e teria mesmo sacriHcado os emis- 
sários se D. Pedro não se desse pressa em decretar não só o 
náo recebimento do navio, como a prisão dos emissários a 
a bordo do mesmo. 

A este tempo teve lo^ar a remiião da primeira Assem bléa 
Constituinte do Império. 

As tendências republicanas que constituiam em todas 
as provindas a grande força dos patriotas fez com que elles 
pensassem em organisar uma constituição livre capaz de 
fazer o povo se governar por si. de modo a poder, pela fe- 
deração das pro\incia.s passar do regimen monarchico para 
o re|)ublicano. no dia em que as leis e o povo estives.sem 
aptos ao fim que pretendiam, como era o desejo da maioria. 

Desde o dia 3 de Maio de 1H28 os conHictos ai)pareceram, 
exigindo os deputados garantias á liberdade, não deixavam 
de pôr em evidencia suas tendências revolucionarias. 

Pedro 1, que tinha então como consultor intimo, Lord 
Cockrane, deliberou a conselho deste dissolver o Congresso, 
para não ser elle mesmo dissohndo e dissolvida a monarchia. 

E' para admirar que o \isconde de C-ayrú annotando a 
biographia de Jorge Tanuing, o ministro inglez, que prestou 
relevantes scitíços á abolição do tniHco, e cuja biographia foi 
esíTipta pelo seu secretario na níesma ejxKdia dos aconteci- 
mentos da nossa independência, diga: «que não havia rei)ubli- 
eanos uo Brasil e sim patriotas liberaes. r 

Entretanto é irrisória esta observ^ação pela origem, que 
é de um aulico e mesmo por(|ue Jorge Canning em muitos 
doeumentos que ticompanham a sua biographia declara (jue 
as tendências do povo bnisileiro eram para o governo repu- 
bliciuio, e quem assegurava em documentos officiaes «que se 
Pedi-o Pnão se resolvesse a abandonar toda a dependência 
de Portugal teria que ver o Brasil abraçar as idéas republi- 
canas», não podia dizer senão o que elle sabia de cei-to, 



70 



isto é que as idéas <loinniaiites do Brasil eram republicanas, 
e quo o meio de os conter era dar lealmente a independên- 
cia, e fazer vida com os brasileiros. 

Jorge Canning queria reconhecer o Brazil independente, 
mas com a condição de se proclamar a abolição. Infelizmente 
Pedro I e os Andradas não queriam isso. 

Esta linguagem é a do diplomata emérito ; verdadeira, 
ella está de accôrdo com a opinião do Bisi)o do Maranhão, 
também amigo do Rei. 

O mesmo viscondt; de Ciiyrú allega também, em unia 
nota que foz á biographia de Canning, em favor de suas opi- 
niões «a circumstiuicia de haverem acceitado aí? hom\as de ca- 
mareiros da ('asa Imperial os cidadãos João Fernandes Lí)pes 
e João da Rocha Pinto, que haviam sido presos por causa 
da propí\ganda que faziam em favor da Republica. ^ 

Ah ! A corrupção ! ! 

Deste facto só se pôde concluir que estes homens eram 
fracos, e que obedecendo á [mlitica corruptora dos Braganças 
só deram provas de que nAo foram tão dignos como tantos 
outros que morreram preferindo o trabalho honrado á hypo- 
crita posição dos altos personagens que cedem as suas idéas, 
fmgindo uma dedicação que não têm. aíhn de occupareni 
as boas posições. 

Um dos actos t^ue mais concorreram para acalmar a pro- 
paganda republicana em 1823, foi o decreto assignado por 
Carneiro de Campos em 19 de Setembro de 1823, acompa- 
nhando uma nota ao Conde de Rio Maior, emissário de 
1). João VI 

A Assembléa ('on.stituintc votou louvores á conducta do 
governo a respeito <lo navio Voador. 

Fez mais, querendo restringir a acção de Pedro I, em 
quem não confiava, decretou que os actos da assembléa se- 
riam leis, inde]>endente de sancção de Pedro 1. 

O golpe era de mestre, e mostra como os brazileiros pa- 



71 



triotas e republicanos estavam decididos a continuar a marcha 
evolutiva da Republica. 

Portugal vendo que a Inglaterra nâo protegia a indepen- 
dência do Brasil nomeou seu ministro em Londres o Conde 
de Villa Real ijue actuava junto do governo inglez c das 
potencias colligadas sob o nome de Santa Alliança, cuja ])re- 
ponderancia cabia á Hespanha. 

Estas dutus forças oppostas actuavam })ara fazer a inde- 
pendência do Brasil, mas a Inglaterra queria o Brasil separado 
completamente do Reino e as outras potencias attendiam a 
linguagem do diplomata portuguez que dizia, como se vô na 
biographia de Jorge ('anuing: «('onvém enq)regar o credito 
das gi*andes j>otencias continentaes, (|ue se ha\iam colligado, 
pai*a opporem-se aos princípios revolucionários do Brasil, e ga- 
rantir os direitos dos successores legi timos. » 

. E' ainda n'este documento do adversário (pie se vô a 
certeza do valor dado ás idéas democratictus dos brasileiros. 

Canning respondeu a estíi nota diplomática do seguinte 
modo: «Que seria bastante fazer saber esta situarão a Portugal 
somente, mas que a Gru-Bretíuiha. nunca admittiria o direito 
de se intrometterem as grandes potencias alliadas nos negócios 
das colónias ; que o governo britannico dejclarara alguns mezes 
antes ao gabinete de Madrid que si a França e os alliados 
interviessem nos negócios das ('olonias HespaidioUus, a (Iríi- 
Bretanha daria immediatimiente todas as providencias fpie 
coutribuis.sem maiè para salvar os seus interesses e que se 
fosse requerida a intervenção das i)otenciíus alliadas. entre o 
Portugal e Brazil, e si a Grã-Bret^uiba procedesse diversamente, 
dir-se-hia que se reconhecia a auctoridade de um tribunal ar- 
bitral, que os alliados queriam crear para regular os negócios 
da Europa. 

Portanto a Grã-Brettuiha não consentiria que elles e-x(T- 
cessem sua influencia no novo mundo depois de ter cons- 
tantemente condennuido semelhante supremacia no velho. » 



72 



Era fallar crlaro paru (|iiein não tinha nmita força. 

Nâo iKxlendo obter pela justiça o que pretendia pela di- 
plomacia, Portugal agarrou-se á pertidia e á manha. 

Enviou ao Brasil o Sr. José António Soares I^eal. para 
tratar de negociações sem (|ue disto desse aviso ao ministro 
em Londres, o qual alli foi aíim de pedir a Inglaterra para 
servir de intermediaria em tal reconciliação. 

Foi então que Canning, sabendo desta perfídia declarou 
em nota diplomática : 

« Que emquanto permanecer no governo em Portugal 
o (*onde de Subserra. que fora autor de tal pertidia não podia 
haver harmonia, fé. nem confiança de sorte alguma entre 
Portugal e Inglaterra. > 

O que ia i>arecendo singular, era esta insistência de 
I). Jí)ão VI em se dirigir Jio filho, já tendo acontecido o que 
se sabe com o navio Voador. Isso prova que i)rocedia hyjH)- 
critamente. 

Feitíi esta nova embaixada, sempre acompanhada de 
cartas particulares descobriam se as intenções ijue ambos tinham 
e que mais tarde o 7 de Abril veiu desmascanu*. Os patriotas 
foram comprehendendo (jue a lealdade não dominava no go- 
verno, e (|uando a a.ssembléa se reuniu os irmãos Andradas 
(jue eram chefes políticos, e também do governo, foram de- 
mittidos e desterrados ! 

í) povo que não julga, senão pelo (jue ve.e a (juem [Mou- 
cas vezes engana o bom senso, comprehendeu que Pedro I ha- 
via mantido a escravidão e os interesses <la sua dynastia e (|iie 
elle fora logrado no apoio que dera para se fazer a indepen- 
dência sem a republica. (^) 



(I) Rstudando-se bem os accontecimentos. vè-se esta condueta na biographiti 
do Canning, e os Andradas que tudo podiam, logo que foram chamados ao poder, nfto 
quízeram concordar com a aboliçào. Deixando Pedro 1 com os fazendeiros o escravos, 
elles foram logo victimas do seu erro. 



73 



Perdendo a es])erança de obter da Inglaterra o apoio 
desejado, o governo poi-tuguez recorreu á Santa Alliança e á 
Áustria, tendo também o aj)oio do Im{)erador da Rússia, Ale- 
xandre I, para manter o Brasil unido ao império russo. 

Deste modo estavam lançadas as cartas na mesa. 

O parentesco de Pedro I. com o Imperador da Áustria 
(|)ois elle era casado com a archiduqueza da Áustria) foi in- 
vocado. Não se fez durante 2 amios senão este fermento da 
dynmastia de Bragança, que se agitou nas cortes européas, de 
modo que para o pae ou para o filho ficasse sempre o di- 
reito de governar em ambos os paizes. Só estí^ facto tira o 
mérito de proclamação da nossa independência por Pedro I. 
A comedia era engi-açada, mas perigosa a execução. 

Era duro para o pobre Portugal deixar a presa que 
elle tanto soube defender, elle (jue havia já expulsado os ho- 
landezes. dando provas de um valor, só digno dos Viriatos 
e dos Camarões! 

Canning, porém, soube tem])eraro appetite dos soberanos 
de Bragança, declarando que « em todas as comnmnicações 
que tivera com o governo brasileiro, nunca permittiu que se 
suppozesse que seria possivel a Grã-Bretanha reconhecer a 
sua independência sinão debaixo da autoridade da dymnastia 
da familia real de Bragança». 

O que se evidencia é o chocjue do interesses: os bra- 
gaiiças atraz da i)erpetuidade de suas (coroas, as nações atraz 
dos lucros que lhe dava a exploração da colónia do Brasil! 
O povo, estt> ficava se foriliando nesta athmosphera de 
interesses, em (pie não era de somenos importância a que os 
aíBigia com a escra\ndão. que tori)enientc os ricos exj>loravam 
no meio do povo victima. 

(Iiegou-se até a criar viveiros, onde as mães procriavam 
para augmentar o numero dos escravos (pie os pro{)rios pães 
vendiam ! 

Também os indios guyanazes tinham uma pratica se- 



74 



melhaiite, (jue consistiu em fazer engordar os prisioneiros, 
dando a elles as suas mais lindas filluis. e íjuando da união 
provinham Hlhos, estes eram, depois de devoradas as victimas. 
nos dias de festa, tíimbem comidos, sendo íjue as mães tinham 
que sal>orearo primeiro boccado desta innocente victima, tíhui 
do prisioneiro escravo. (^) 

A morte, tendo a faculdade de niveUar os grandes e pe- 
quenos, entra como factor imf)ortante na descoberta dos planos 
que alguns homens escrevem e íicam archivados nos papeis 
velhos, os quaes, dejmis da morU; destes indivíduos, nâo ser- 
vem nmitos vozes nem para ampnrar o nome com o (fual se 
abriga a re[)Utação. 

Nós tivemos uma prova deste nosso modo de j)erisar 
lendo as Memorias jiradcas sohre os ahusos geracs, e modo de 
08 reformar e pretxnir a rerolnrão popular. 

Este trabalho foi ridigido no Rio, em 1814, por ordem 
do príncipe regente. 

Muita gente dizia durante o regimen monarchico (jue 
no Brasil não havna espirito republicano. 

Nós, porém, temos por costume, quanoo queremos tirar 
uma duvida, consultflr os interessados. 

Até com os animaes usamos e aconselhamos este modo 
de avaliar a importância dos fenos e gramas que (juerenios 
acclimatar no paiz. 

Pois bem, é o que vamos fazer para se avaliar das ori- 
gens rejmbhcanas no Brasil, e já tivemos o melhor resultado 
deste methodo, estudando os actos das camarás, as re})reseii- 
tações do povo, as notas diplomáticas do Ministro da Ingla- 
terra, lord J. Canning, as narrativas de lord Cockrane. a res- 
posta do Bispo do Maranhão a Pedro I e tíuitos outros velhos 
documentos que neste trabalho vão citados, e por esta razão 
queremos tirar partido das revelações intima*? com (pie os au- 



(1) Sonthey — Historia do Brasil. 



1Ò 



liws ex})nnliani á Coroa os meios de acabar com os p^iri- 
tços, seiulo que estes consistiam só e exclusivamente em 
não se consentir (|ue o povo se governasse por si. 

Silvestre Pinheiro Ferreira foi o confidente esclarecido 
deD. João VI e do filho, o principe regente, e, (juando apresentou 
a estes a resposta dos quesitos que fez e deu os planos para 
que se fortiíicasHe a realeza no Brasil, teve a oíiutella de es- 
crever em baixo deste seu trabalho o seguinte : 

* Nota — Tiuito este aviso como os quesitos serão impres- 
Hos debaixo de todo o segredo, na i)resonç4i de um criado par- 
ticular de V' . A. R., só com o administrador de impressão regia 
e os artiíices necessários, queimadas ali mesmo as provas, 
desinaiicluubis as formas, e tirailos unicamente os exeniplares 
prtHMsos para as seguintes [)essoas: 

ih conselheiros de Estado; 

O Bispo ( 'apellíio-Mór ; 

Os titulares maiores de 30 annos. » 

Estes papeis, poi"thn, foram achados nas gavetas do pobre 
Silvestre, e logo levados j)ara os archivos e entregues á col- 
leeçáo do Instituto Histórico do Rio, onde podem ser lidos. 

Na exposição que precedeu a re[)resentação do seu es- 
tudo. Silvestre IMnheiro diz, entre outras considerações: 

Por (juanto luio se trata simplesmente de saber em 
qual (los víistos dominios de sua real coroa convém mais que 
V. A. R. se digne de fixar f-ua residência; trata-se de nada 
meuos qi4e mspeyider p dissipar a forrenf^ de males com 
que a reríigem revolucionaria do século, o exemplo de povos risi- 
nlwa p a politica que vae d/^vasfauão a Europa, a^neaçam de uma 
próxima dissolução e de total ruina os estados de V. A. R. » 

Ora. não se pôde deixar de reconhecer nas phrases que 
nós g^iTphamos o medo e o pensamento de (jue a Republica, 
este phantasma dos reis, (pie não intimida aos homens livres, 
a[>{)arecesse no Brasil. 

Entre os planos íjue Silvestre Pinheiro aj>resentou para 



76 



fazer a felicidade do Brasil e extinguir a i)raga que devasla 
a Europa, isto é, a Republica Fraiiceza, notamos o seguinte, 
do qual felizmente escapamos, ponjue seria ter muitos senhores 
juntos para tão poucos escravos. 

« Lei sobre a nobreza e os grandes do Império do Brasil 
e do Reino. 

« 1.** Que todos os dominios actuaes de sua real coroa 
serão di\âdido > em archiducados, marquezados, condados, vis- 
condados, baronatos, regulando-se na forma especificada na 
mesma lei os deveres da inspecção e protecção que cada um 
daquelles titulares tem de preencher junto de V. A. R., e 
bem assim os respectivos territórios, assim como as honras e 
vantagens que lhe deve competir e as formalidades de sua 
promoção. » 

« 2.^ Que vindo a vagar qualquer destes titulos, lhe sue- 
cederá o grande, immediatamente inferior... 

« 3.** Que ás l)aronias vagas lhe succederão os vassalos 
beneméritos... » 

Ora ahi está um meio fácil de aconselhar, porque na- 
turalmente o rei reservaria para o conselheiro o melhor qui- 
nhão, e nós teríamos que vêr, não as 20 provindas do Brasil, 
mas uns 50 manjuezados com seus súbditos, e naturalmente 
com os seus escravos, porque delles não prescindiam os f>or- 
tuguezes, de modo que politicamente ficaria o paiz um vi- 
veiro de grandes duques e marquezes. physicamente um paiz 
doado aos aduladores, moralmente uma escraAddão de bran- 
cos, feitos escravos dos grandes, mas tendo por compensação 
os pretos para seus escravos e a })obreza como apanágio deste 
systema. 

Aos quesitos íjue em numero de 14 foram apresentiidos 
em forma de ladainha, naturalmente para que todos dises- 
sem — Amen, o que mais convém transcrever aqui é o se 
guinte : 

«Perdida a esperança que unicamente alentava o povo 



7*7 



110 ineio de tantas desgraças, não haverá perigo de que a 
vertigem do seeiílo, o exemi>ro e as suggestões dos visinhos, 
o induzam na perigosa tentação de cortes, e com ellas em 
todos os horrores de (jue as rcjvoluções no meio dia d^ Eu- 
ropa tem dado tão fmiestos exemplos?» 

«Como se poderá conseguir a obediência das capita- 
mos do norte do Brazil ? » 

Também tem graça o quesito sobre o modo de povoar o 
Brasil: 

« (bmo se {>ódc organisar um systema de estabelecer 
povoações e de fazer vir colonos europeus com pouca despeza, 
sem despeza nenhuma, trazendo riqueza? 

Como se pôde trazer asiáticos, africanos, americanos 
ci\ilisados, americanos bravos?» (^) 

Depois destes (quesitos só as instrucções dadas a Domin- 
gos Jorge Velho, para extinguir os Palmares, pôde dar uma 
idéa da facilidade com ípie se promettia e da difficuldade 
com que se púgava. 

Quem poderá reflectir sobre estes temores régios, 
sem vêr que elles assentavam sob a intima convicção de não 
se poder dar a liberdade ao povo, sem que elle delia se uti- 
lisasse para acabar com os oppressoros? 

Quem duvidará (|ue estas medidas que produziram di- 
latados annos de soffrimentos asseguravam ao povo brasileiro 
dias de reivindicação. 

Quem não poderá concluir que sô uma Republica ho- 
nesta, justiceira e profundamente amiga da instrucção, da 
economia e da virtude o inimiga da politicagem, poder-se-ha 
firmar no Brazil? 

Uma prova deste asserto está em que mesmo durante n 
mouarchia, os homens que tiveram sempre por norma de con- 



Pela leitura destes quatro quesitos, se podem avaliar os intuitos do seu autor. 
O rei queria achar riqueza de modo barato. 



.18 



ducta dizer a verdade, amar profundamente a justiça e a 
pátria mais do que os partidos, foram sempre o alvo de todas 
as homenagens populares. 

feijó, resignando o poder para favorecer èlle mesnio a 
escolha de um senador serio, tornou-se digno da gratidão dos 
brasileiros, porque deu provas de possuir o sentimento da 
abnegação, que é a qualidade mais rara do homem politico. 

Paranllos (Visconde do Rio Branco), foi outro cidadão 
amigo da liberdade, e que considerou a escravidão como uma 
anomalia a viciar todas as outras leis. 

Taes liomens tinham na sua vida o ideal da felicidade 
da pátria e seriam dignos cidadãos da Republica. 

Quando estas sementes eram (íultivadas com tanto cui- 
dado, o excesso do mal produziu o seu bom, veriHcando-se 
ainda uma vez o provérbio francez^ — «A qiielqup chose malhem' 
est hon». 

Convém aqui uma analyse : 

C-onfonue se vê da biographia de Jorge (■aiuiing a que 
nos temos referido, escripta {)elo seu secretario Augusto (íran- 
ville Itapleton, foi só em 4 de Dezembro de 1823. <|ue 
aquelle grande ministro soube das perfidias de Portugal, (pie 
enviava um questionário para os seus (h[)lomataH obterem 
a approvação do mesmo, junto das jmtencias da Santa Al- 
liança e da Áustria. 

Este questionário continha lõ artigos, dos (juaes os 4 
primeiros, não podiam soffrer alteração. 

O 1 .» dizia assim : 

« í) Brasil renunciará a sua independência. » 

A Inglaterra que nos auxiliando, não (pieria menos nos 
desfructar, vendo accedidas as suas tíxigencia^, fornuilou tam- 
bém umas bases })ara o accôrdo entre o reino e o novo im- 
pério. 

Por este accôrdo. cujas instrucções foram dadas ao mi- 
nistro da Inglaterra no Brasil, sr. Chand)ertani, ^as duas 



79 



corôius, (lo Brasil e Portugal, se reuniriam iia pessoa de Fe<lro I, 
depois (la morte de D. João \'I, e o governo dos dois reinos 
se devolveria ao chefe da casa de Bragança, em successáo re- 
gular, com residenc^ia alternada do soberano em Lisboa e no 
Rio de Janeiro. » 

Pedro I não era extranho a tudo isso, mas homem sagaz, 
compreheudia cjue convinha guardar reserva e tirar [)roveik) 
lias circumstancias. 

Quando alguém se julgava garantido com a amizade de 
Pedro I. podia ticar certo de (|ue seria trahido. no meio de 
risos e abra<;os. 

Não exageramos e os seus mais íntimos amigos nos dão 
estes dados em linguagem positiva. 

Para se vêr como se governava o Brasil, e como se ten- 
teavam os mais sérios negócios resolvidos [)elo governo, f)ara 
satisfazer ás exigências do povo, transcrevemos uma das 
paginas das narrativas do maríjuez do Maranhão. 

Tendo o governo em virtude de denuncia sabido (jue a 
uáu de commando do almirantado. auconido no Rio. estava 
com sonimas fabulosas adquiridas pelo maniuez do Mara- 
ubão. na occasião em (jue íizera a pacificação do Mara- 
nhão e Pará, ordenou Petko I (|ue se Hzesse uma parada em 
Nitheroy, e que emquanto esta se realisasse se desse a mais 
rigorosa busca ao navio do almirante. 

Avisado o almirante (|ue se achava no Rio de ([ue ia 
passar [>or esUi desfeita, e (jue sua casa estaria cercada du- 
nvnte a busca, este digno oíticial, (|ue a altas horas da noite 
tivera este aviso dado por Madame Bonplande, mulher (juc co- 
nhecia os segredos do paço, proce<leu como se ve de sua pró- 
pria narrativa : 

< Agradecendo a sua excellente amiga aviso tão opponu- 
no. saltei por cima da parede de meu (juintal. e só, camhiho 
desembaraçado para a cavalherice, escolhi um cavallo. e não 
obstante o tardio da hora. [larti para S. Christovam, palácio 



80 



do imperador, onde assim que chcíjiiei requeri fallar com 
sua magestade. 

Sendo meu pedido recusado pelo camarista de semana, 
de maneira que confirmava o que me annun(;iara Madame de 
Bonplande, disse: que visse ao que se arriscava, recusando- 
me a entrada, accrescentando que o negocio porque alH vinha 
podia ter as. mais graves consequências para S. M. o Impe- 
rador. 

« Mas, tornou elle, S. M. ha muito tempo se foi deitar. 
« Não im{)orta, respondi eu. deitado ou não. quero vel-o 
em virtude do meu privilegio de t^r accesso a elle a (jualquer 
hora, e se o recusa permittir-mo — lembre-se das conse- 
quências. 

« Porém S. M. não estava a dormir e como a camará real 
era immediatti, reconheceu elle a minha voz, na altercação com 
o camarista. 

« Sahindo ás pressas de seu quarto. n'um deshahilli que 
em circumstancias ordinárias houvera sido inconveniente, per- 
guntou-me : 

« Que acaso podia alli trazer-me a taes horas da noite ? » 

« A minha resposta foi que constando-me que as tropas 
estavam com ordem para uma revista destinada a ir á náu da 
capitania, em busca de suppostos dinheiros, vinha requerer a 
S. M. nomear inmiediatamente pessotis de confiança para me 
acompanharem a bordo, onde as chaves de qujmt^is caixas a 
náu continha se lhe entregariam e se lhes abriria tudo para 
sua inspecção ; mas que se alguém de sua administração, anti- 
brasileira, se aventurasse ir a bordo em perpretação do ten- 
cionado insulto, os que o fizessem seriam olhados como })iratas 
e tratados como taes. 

« Esteja V. M. certo de que não são mais inimigos 
meus do que são seus e do império, e uma intrusão tão in- 
justificável, é obrigaçãt) dos oftíciaes e da tripulação resis- 
tir-lhe. 



81 



« Bem, respondeu S. M., pareceis estar informado de 
tudo, mas a trama uâo é minha ; estando, quanto a mim, 
convencido de que se nâo acharia mais dinheiro do que o por 
vós mesmo já declarado. 

s Supliquei então a S. M. para tomar por minha jus- 
tiíicaçáo taes medida-s que satisfizessem o pubUco. De ne- 
nlimuas ha precisão, respondeu elle. A ditficuldade ó como ha 
de tal revista dispensar-se. Estarei doente pela manhã, assim 
ide para casa e não penseis mais n'isso. 

« Dou-vos a minha palavra de que não será ultrajada 
a vossa bandeira pelo i)rocedimento contem}>lado. 

2 O desfecho da farça é digno <le relatar-se. 

« O imperador cumpriu a sua palavra e durante a noite 
achou-se de improviso doente. C'omo S. M. era realmente que- 
rido por seus súbditos brasileiros, toda a gente de bem do 
Rio de Janeiro estava na manhã seguinte em caminho de 
palácio por saber da real saúde e fazendo pôr os cavalos em 
ininha carruagem, parti para o palácio tinnbem, afim de não 
parecer singular a minha ausência. 

« Entrando no salão, onde o imperador cercado de muitas 
pessoitô hifluentes. estava a explicar a natureza de sua doença 
aos anciosos perguntíidores, occorreu esse extranho incidente. 

Dando com os olhos em mim, desatou S. M. sem poder 
conler-se, n'uma risada em que eu o acomi>anhei, julgando 
sem duvida os circumstantes, pela gravidade da occasião, que 
ambos tínhamos perdido o miolo. Os ministros pareceram atto- 
nitos, mas nada disseram. 

S. M. guardou .segredo, e eu calei-me ! » 

Eis ahi uma boa peça para a politica e para o theatro 
que deve tomar conta delia, afim de (jlie o povo possa a})render a 
instruir-se quando considera o modo i)<)r(iue é governado. 

Como as aguas que fazem mover os engenhos do mundo, 
nascem em lugares solitários e ignorados, assim também são 
as origens republicanas do Brasil, 



Estes novos Marcos Antonios, do Brasil, ao inverso do 
Romano, não mediam a grandeza do povo pelo que elles 
recebiam, mas pelo que elles lhe davam. 

Dahi provinha que o juizo que formavam era avaliado, 
não pela extensão dos males do povo, porém, sim pelos sen- 
timentos que emprestavam a estes males ! 



PARTE VI 



A este tempo tomou-se notório o modo pelo qual os 
brasileiros tratavam os emissários portuguezes, e o govenio 
inglez mandou instiiicções ao sr. C?haml)ertaini, ministro no 
Brasil, para que, desvanecida a idéa de que Portugal rehaveria 
o Brasil pela força annada, fizesse com que os portuguezes 
abandonassem esta tentativa. 

< A guerra, disse Canning, cessa de ser justa quando deixa 
de ser necessária. » 

E* singular esta doutrina que mais se coaduna aos in- 
dignos do que a um povo, que quando quer fazer a guerra 
a faz necessária e portanto justa quando a julga necessária! 

Estando lord Amhert, em Fevereiro de 1823, prompto 
para partir para a índia e tendo de tocar no Rio de Janeiro, 
indo a Bengala, julgou Canning que não de\ia perder a op- 
portunidade de aproveitar tâo hábil emissário. 

Foram dadas as seguintes instrucções, que por serem as- 
saz honrosas, queremos deixar archivadas para vergonha dos 
que não quizeram logo abolir a escravidão no Brasil. 

« A Inglaterra pôde reconhecer a independência do Brasil, 
mas para ter amizade com este paiz dependia de uma preli- 
minar: — que fosse abolida a escravidão, porquanto existia 
uma differença obvia entre uma politica colonial e a inde- 
pendência, o intuito de uma colónia era a cultura e commercio ; 



84 



e emquanto a inâi-]>atria onra-vos de sua defeca militar e ma- 
ritima, sentiam-se menos os i)erigos e incommodos dos tra- 
balhadores importados do que em um estado que depende in- 
teiramente dos seus recursos internos. Vu\ estado desta cathe- 
goria não pôde com segurança e dignidade confiar em uma 
população artificial, em vez de nacional. » 

«Que pugnar o Brasil entre tantos estados de todo o 
continente americano pela continuação de um trafico coudem- 
nado solemnemente pela voz unida da America e da Europa, 
offenderia os seus interesses; assim como mancharia a reputação 
do império, que novamente defendia sua liberdade e indepen- 
dência. Como colónia o Brasil não tinha responsabilidade se- 
parada, mas os estados cultos do mundo, qualquer que fosse 
a sua constituição politica, hesitavam bem em admittir em sua 
communhão uma nação que pela primeira vez aspirava ser 
tal, mas que conservava a nódoa do caracter nacional, de 
*que estava isenta toda nação indei)endente do mundo ci- 
\ilisado, com a única excepção de Portugal. » 

«Portanto a (rrã-Bretanha só ])odia ter amisade com o 
Brasil quando elle tivesse abolido o trafico abominável. » 

A athmosphera que cercava os homens do Brasil, fora 
e dentro da pátria, estava muito carregada porque os portu- 
guezes apertavam a independência por fora, e esta se fazia 
cada vez mais necessária dentro do Braí^il. 

Estava então bem presente ao aspirito de todos, a ban- 
deira dos Inconfidentes : Lilm-tas qwe será famen. 

Ninguém deixava de narrar aos seus filhos e aos ami- 
gos o supplicio inflingido a Felippe dos Santos, o mai-tyr a quem 
a covardia e a tja-aimia do verdugo conde de Assumar fez com 
que em Villa Rica, como elle dizia aã petpetuam rei memo- 
riam, se sacrificasse aquelle repubhcano, mandando-se escolher 
dois bellos cavallos bravios, sendo então amarrado Felippe 
dos Santos na cauda dos possantes animaes. e logo fustigados 
estes com o estalar do chicote, sendo em pouco tempo espe- 



m 



daçado o corpo do m»rtjT, na presença e no raeio do regosijo 
do algoz e outros immundos observadores. 

As ruas de Villa Rica receberam o sangue da victima, 
e logo nasceu no espirito de Tiradentes a idéa de vingança, 
da qual elle era apenas uni fraco echo da opinião publica, que 
pedia vingança e liberdade. 

Tiradentes morreu na forca, e quando se lhe tirou os 
ferros que ligavam as suas mãos aos pés, elle soube encarar 
a morte, de modo que pôde ainda proferir estas palavras 
memoráveis : 

«Morro cheio de prazer, pois nâo levo após minlia 
pessoa tantos infelizes a que contaminei, e que isso mesmo 
intentava nas múltiplas vezes que fora á presença dos mi- 
nistros, pois sempre lhes pedira que fizessem somente delle 
a victima da lei.» 

Si foram assim trucidadas as victimas do despotismo 
com sua lei, não admira que o sentimento do mal pro- 
duzisse a liberdade que pouco a pouco ganhou todos os es- 
pirites e fez com que a idéa repubUcana, por isso mesmo 
que era opprimida e corrompida pelos poderosos, desse em 
resultado que mais tarde a Repubhca appareoesse, quasi sem 
esforço, como um fructo maduro caliido da arvore. 

Cíomo podia o povo esquecer a morte de Cláudio Ma- 
noel da Costa, expirando na masmorra, no meio de cruéis 
mart}TÍos de Maciel e Alvarenga, morrendo no exilio afri- 
cano, desta Africa da qual Portugal tirava os negros para 
virem soffrer o captiveiro, na terra onde aquelles heroes 
sonhavam com a liberdade! 

O enforcamento em 1817 do Gei%eral Gomes Freire de 
Andrade, em Lisboa, e mais 12 réus de l^^sa magestade^ V«io 
activar e fazer renovar a historia de tantos martyrios que o 
drama nefando de Villa Rica tornava sempre intenso e triste 
no espirito do povo. 



86 



E era em uma tal situação que a independência era 
reclamada, e que o povo a exigia não mais como um meio 
de se libertar do reino, mas do rei. 

Feita ella por D. Pedro I, as manlias, os subterfúgios 
constituíram a sua norma de governo. 

Os leitores já conhecem a historia do navio Voador. 
Admira que o visconde do Cayrú, analysando este acto, 
num trabalho publicado na «Revista do Instituto Histórico», 
ache inqualificável o procedimento do povo quando quebrou 
o leme do navio Voador. 

Com as noções actuaes do direito internacional, seria 
até ousadia pretender que fosse recebido por um paiz que aca- 
basse de emancipar-se e cortava todas as relações de depen- 
dências com a metrópole. 

Não admiro pois que o sr. Carneiro do ('ampos, nosso 
ministro, tivesse respondido ao sr. Conde de Souto Mayor : 

« Pelo que toca ao procedimento havido, com a corveta 
portugueza Voador que V. Exc. trata de hostil e inhospito, 
cumpre observar que elle não foi mais que o fructo das cir- 
cumstancias e do systema adoptado, visto que além de vir 
ella artilhada e petrechada, contra os estylos dos parlamen- 
tares, deixou de usar, quando caminhava e era opportuno, o 
signal próprio. » 

Prova evidente do adiantado estado das idéas republi- 
canas no Brasil é o facto confessado na biographia de Jorge 
Canning, escripta na mesma occasiâo (1822) em que se davam 
os acontecimentos. Neste documento se apreciam as duas opi- 
niões dos diplomatas portuguez e inglez. 

•í Quando o Conde de Villa Real allegou os seus receios 
de que, a não ser mantida no Brasil a autoridade do rei de 
Portugal, as províncias brasileuus se formariam em RepultUeas 
independentes, disse Jorge Canning lhe parecer que a vista do 
que tinha acontecido, era assaz claro (juo a aeelamação do ti- 
tulo imperial de D. Pedro 1, foi considerada pelas partes eou- 



87 



teudoras no Brasil, como uma sort« de meio termo, entre a 
consen^ação da antiga Monarchia v a instituição de uma forma 
democrática de governo; (jue portanto qualquer tentativa de 
recorrer a um dos extremos, restituindo a preponderância a 
Portugal, ao que era antes da revolução, levaria ao extremo 
opiK)sto o partido que tinha por alvo não só a independência 
mas a sepiu-ação; e que na discussão da alternativa, perder-se- 
hia o meio termo, sem remédio.» 

Eis alii a linguagem da verdade, ella brota expontânea 
dos corações sinceros, e jamais em toda a nossa historia pôde 
haver melhor prova das tendências centralisadoras e obser- 
vantes do poder do povo do que esta confissão do represen- 
tante da dymnastiade Bragança, na occasião em que se discutia 
com o poderoso governo da Inglaterra as bases para o que 
devia ficar feito com o sello da força, porque o da Uberdade 
tinlia sido quebrado com o cadafalso de Tiradentes e de outros 
martyres. 

Toda vez (jue em uma revolução se fizerem victimas 
desta natureza, sem (|ue pelos processos da lei ellas soffram 
as consequências de suas faltas, a idóa que os fez morrer, 
ganham por milhões em valor e energia. 

Esta i)ro[)OSÍçáo real, e que se vê na historia confirmando 
mesmo as reivindicações que não estavam de accordo nem 
com as idéas do tempo, nem com as con(|UÍ8tas do povo, é 
a prova mais evidente do quanto é sagrado o direito da li" 
herdade, quer elle pereça nas catacumbas de Roma, sob o 
alfange do paganismo, para explodir destes subterrâneos em 
formas organisadas da sociedade civil e triumphante (jue des- 
truiu todos os poderes que a haviam amordaçado, quer ella 
86 chame revolução brasileira 

A Uberdade está para a sociedade como a electricidade 
para os corpos que a attrahem, o invisivel em suas causas, 
mas terrível em seus effeitos. Sempre a mesma identidade, 
o mesmo poder, o mesmo cunho da natureza, equilibrando 



88 



os desrvios e as difEerenças feitas pelo homem, que se julgando 
muito poderoso desconhece suas leisl 

Parece bem confirmado este ponto das tendências re- 
publicanas perfeitamente acceitas pelo povo. Fazendo-se echo 
dos desejos e direitos do i)ovo, nâo para proclamar a nossa 
inteira liberdade, mas só a independência do Brasil, Pedro I 
foi hábil, porque na (quantidade dos direitos elle tirou para si 
o melhor quinhão. 

E todavia foi evoluindo que o Brasil pôde chegar dos 
annos 1822 tvos ÍWS, em que fez cahir a pr^inejada escravidão 
que o interesse dos proprietários explorava, com o da monar- 
chia que entreteve os partidos liberal e conservador, fazendo 
os seus chefe» MUrtinho de riampos e Cotegipe mostrarem-se 
irreconciliáveis na politica, mas Íntimos no interesse da 
escravidão. 

Uma vez organisada a nossa independência, não morreu a 
literdade, e nas primeiras reuniões das assembléas proraovia-se 
a abolição <lo trafico, mas então os poderes legislativo e exe- 
cutivo orgaíiisados de modo a poder amaiTar as rodas do ma- 
chinismo governativo, fingindo adaptar-se á influencia das 
idéas, não fizeram mais do que as abafar. 

Nisto consentiu toda a força da monarcliia, e nada é 
mais fácil do que illudir, estando de posse do poder, os j)lano8 
que se tem, seja para a destruir seja para fructificar. 

Não fosse este o systema, não tivesse havido a escravidão 
e a republic^a não teria surgido auxiliada pelo patriotismo dos 
militares no meio da representação eleita por um ministério 
qu« acabava de sahir das fontes olympicas como o raio de 
J-npiter, e entretanto viu baquear as suas forças e serem 
applaudidas as que surgiam com a Republica de 1889, como 
se não houvessem outros homens e outras idéas sinão as re- 
publicanas ! 

E' esta a verdade histórica e por tal modo se impòe que 
achar-se-ha sempre a historia dos erros da niotiarchia, estu- 



89 



dando-se as conquistas e as origens republicanas, que agora 
aqui em traços largos fazemos. 

Esta lição aproveitará a todos os governos porque ella é 
filha da lógica e será sempre verdadeira em todo o logar em 
que a sociedade progredir, cercada da justiça e da liberdade. 

Não podendo durante o período colonial se fazer repre- 
sentantes da Republica, o povo denominava a municipalidade 
com aquelle nome: — As camarás mimicipaes se reuniam nas 
cidades para tratar dos negócios da Republica, como ellas 
chamavam e escreviam sob esta rubrica as suas deliberações. 

O procurador da Camará do Maranlião o sr. Guedes 
Aranha, em notável documento, deixou archivado este modo 
de tratar os negócios da corporação, única que estava ao 
alcance do povo. 

Nos convites feitos aos eleitos se dizia sempre ; 

« Gonvião-vos a vos reunir a tratar dos negócios da repu- 
Uica. » 

Quando as idéas. dominando o meio social em que vi- 
viam os patriotas, conseguiram abalar o throno, D. João VI 
não se illudiu, e como bom Bragança se agarrou á única 
taboa de salvação (jue tinha, que era dar o menos, já que não 
podia dar o mais, e elle se tornou o conselheiro do íillio. 

Isso faz lembrar a fabula do naufrago que indo em uma 
taboa com um filhinho e um robusto solteirão, quando esta- 
vam todos prestes a se perder pelo peso, disse o pae ao seu 
companheiro bom nadador: «Pedro, olha que eu sou pae», ao 
que elle ouvindo, se precipitou n'agua. ficando assim salvos. 

O illustrado I)r. Rangel Pestana em um notável dis- 
curso proferido a 13 de Maio de 1882. disse: «Ha perfeita 
connexâo entre a constituição social e a constituição poUtica, 
entre a constituição de um povo determinado pela evolução 
natural e a cx^nstituição politica determinada por essa mesma 
causa, mas sujeita a outras condições de momento viciosos 
que sejam». 



90 



^< A feição canictcristica da (\)iLstit\iinte reproduzia a 
tendência para a federarão. » 

« Apenas um ou outro espirito atrazado eon\ândo ainda 
nos j)recoiu-eitos da educação da Universidade de Uoinihra,' 
procuravam conter este movimento. > 

Era lógico que com taes tendências o novo imperador 
tinha que se fazer ou victima ou diri.í;ente, e como se os 
applaudisse seria envolvido e suffocado por(^lla, preferiu cortar 
a (juestão dissolvendo a Constituinte, e dando mna constitui- 
ção muito liberal, é verdade, mas (pie lhe dava os meios 
para tirar para si (xjue ella tinha de hom, e podia, como Júpiter 
fazer sempre fomentai- as tempestades e as moderar por si 
mesmo. 

E não contente coan e.ste poder moderador, elle fez lirotar 
da sua vontaíle a semente (pie mais tarde veiu fructilicar com 
o nome de Conselho de Estado, (pie tanto deleitou o seu tilho, 
que também foi (jiierido dos brasileiros por tantas virtudes 
que possuia, mas que por participai- do mesmo mal d'origens 
teve que soffrer a in^-ata sorte dos que governam cm nome 
do principio hereditário, entre um povo (pie por causa da 
educação pai"tidaria mal pôde supportar o governo dos que 
elle mesmo elege, tal é a sua vontade de ser livre! 

De facto era tão pura a origem das idivis republicanas no 
Brasil, (jue se não fosse a força do des]>otismo poilugucz. e 
das predicas dos padres jesuítas, que ambos associados influen- 
ciavam no animo dos (pie elles escolhiam para vir jmrao Brasil, 
nc^s poderiamos dizer com os fact^>s e a historia íjue s(í e exclu- 
sivamente a estas duas alavancas se d(*ve o ter íicado a(]ui 
implantado o captiveiro africano, (]ue se fez logo irmão gé- 
meo do indígena e com esta negra mancha ficou misturada a 
semente republicana que só veiu a (*xi)urgar-se do mal que 
a uivadiu, tal como apiJocrsa invadiu as UA^as fie Portugal, 
depois que se fez uma lavagem geral e bem desinfectatia em 
cada arvore e semente. 



91 



O que é verdade iiic<)nt>?stavol v esta evolii(;ru) que so 
sente sempre abrindo cauiinlio por si luesnia, eomo íis a^as 
que fazem engrossar nossos grandes rios. 

Assim também cresceu a id(^a republicana. 

Um magnifico resumo dos factos passados para assegurar 
o movei das idéas republicaiias pôde ser apreciado, devido 
a pena do erudito chefe repul)licano portuguez o I)r. Maga. 
IhãesLima, que como brazileiro de origem, mantém no velho 
reino as tradicções gloriosas dos que sempre tral)alharam para 
fazer do Brazil uma re]mblica digna deste grande [)aiz. FiSte 
artiiço escripto i)ara a RepnhJica Porimiueza, merece .ser co- 
nhecido: 

k província cis-platina (actual Kejíublica do Uruguay) 
revolucionou -se em 1820 e sepanm-se do Brasil em lS27,alle- 
gando que se lumvera unido com a condivão exi>ressa de ser 
considerada um i)aiz confederado, e que a constituirão unitá- 
ria, outorgada por Pe(h'o I, havia quebrado esta condição. 

E' conhecida a revolução do Hio (irande do Sul, de ISBõ a 
1H4Õ, contra a tyrannia unitária. A proviucia sepanm-se um 
anno depois, a 12 de setend)ro de 1881). Ahis na acta de pro- 
clumação da in<lependencia, lavrada ]>or uma assembléa de 
notáveis da nova republica, a (> de novembro de 188(>, na 
cidade de Piratinim ((juer dizer rio do peixe branco), decla- 
rou -se que a separação era provisória e (jiie a repiddica vol- 
taria livremente a fazer parte do Brasil, (juando este adoptasse 
os princi]>ios do regimen federativo. 

Em 1843. S. Paulo e Minas (Jciacs, com os seus princi- 
paes homens á fn^nte (\^M-guciro, ]>adre Feijó, Ra]duicl To- 
bias, Theophilo Ottoni, etc.), rcbellarain-sc contra o centro, 
seinse mostrarem ost(»nsivamonte repul)licanos, mas arvorando 
os principios da descentralisação. 

Em 1848 Pernandaico. capitaneado por Nunes Macliado 
e Pedro Ivo, o j>rimeiro morto num combate e o .segundo 
assassinado por ordem do imperador, levoltou-se ainda con- 



92 



tra o centro, proclamando os mesmos princípios descentra 
lisadores. 

Além destes teve o império muitos outros movimentos 
revolucionários, de mais ou menos dura<,^ão, mas obedecendo 
todos á Índole dos antecedentí^s. Km 1829, em Pernambuco; 
em 1831, 4 de abril na Bahia; em 1831, H e 7 de abril, no 
Rio de Janeiro, dando em resultado a abdicação do imperador ; 
em 1831, 5 de maio, em Pernambuco; em 14 de maio no 
Pará; em 25 de maio, no Maranhão; em 7 d'agosto, no Pará; 
em 13 de setembro, no Maranhão; em 14 de setembro, em 
Pernambuco ; em 7 de outubro, no Rio de Janeiro ; em 14 
de dezembro, no C^ará. Em 1821, 22 de março, em Minas; 
em 1833, 16 d'abril, no Pará ; em 2 de dezembro, no Rio 
de Janeiro. Em 1832, no Matto Grosso. Em 1835, 7 de Janeiro, 
no Pará. Em 1837. na Bahia. Em 1838, no Maranhão. Em 
1840, no Rio de Janeiro. Em 1844, em Alagoas. 

Nos dias da independência, segimdo aífirma Clemente 
Pereira, n'um discurso que fez ao principe regente, em 9 de 
janeiro de 1822, dia em que este pronunciou o celebrado «fico», 
havia um partido organisado, disposto a proclamar a repu- 
bUca federativa. 

O próprio Clemente Pereira, conforme elle mesmo o con- 
fessou no parlamento, foi mais tarde accusado de haver per- 
tencido a esse partido. Durante todo o tempo do primeiro 
império, de 1822 a 1831, e durante a regência, (jue termi- 
nou em 1840, a maioria dos periódicos Hberaes das províncias» 
pregava abertamente a doutrina da republica fe<lerativa. 

No segundo império, depois de su[)plantada a revolta de 
Nunes Machado, em 1848, de que já falíamos, e tendo o 
paiz entrado n'uma série de complicações externas — guerra 
contra Rosas, dictador de Buenos Ayres, 1851-52 ; guerra 
com a republica Oriental do Uruguay, 1863-64, guerra do 
Paraguay, 1865-70 — houve um periodo de apparente repouso 
interno. 



93 



Tenninada, porém, a guerra do Paraguay, e no mesmo 
anno de 1870, reunirara-se no Rio de Janeiro algmis dos 
mais distinctos representantes do espirito liberal, organisando 
o partido republicano federal, cujos incessantes e activos tra* 
balhos nas principaes províncias, como S. Paulo, Rio Grande 
do Sul, Minas, Bahia, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco, 
Espirito-Santo, deram em resultado a proclamação da actual 
Republica, a 15 de novembro de 1889. Foram signatários do 
importante manifesto que por essa occasião se distribuiu — 
os srs. Joaquim Saldanha Marinho, Quintino Bocayuva, Fran- 
cisco Rangel Pestana, Lafayette Rodrigues Pereira, Aristides 
Lobo e muitos outros. Este manifesto ainda hoje é conside- 
rado como o documento mais notável do partido republicano. 
N'eUe se fazia o processo da monarchia aproveitando os depoi- 
mentos dos primeiros corypheus do império. 

A doutrina republicana era alU posUi com firmeza e o 
principio federativo destacava com grande nitidez e clareza. 
Desde então foram eleitos vários deputados provinciaes e 
nacionaes por S. Paulo, Mhias e Rio Grande. Todos os jornaes 
republicanos eram f ederaUstas, sobresahindo, entre elles, a Fe- 
deraçào, de Porto Alegre, a Protnncia de S. Paulo, o Pat>, do 
Rio de Janeiro, etc. 

E por tal forma as tendências federalistas se accentua- 
vam no espirito dos repubUcanos brasileiros que o eminente 
publicista Assis Brazil, foi levado a affirmar, n'um dos seus 
notáveis discursos: — «que, se nâo fosse possivel proclamar uma 
republica ferleral, preferia conservíu» a monarchia ; e, se a 
combatia, era principalmente por a reputar incompatível com 
o ideal federalista.» 



PARTE VII 

A Republica do Equador 



A revolução que teve por fim fazer a roi)ul>liea do E(jua- 
dor tem seus prodomos e martvres. No dia (] de Março de 
1817 Pedro da Silva Pedroso no (juartel do seu regimento 
promoveu a independência do Brazil e a forma republicana. 

O povo applandio a tro])a e foz quebrar as armas regias 
e as coroas. Nas representações assignadas pelo povo se es- 
eluio o tratamento V. Exc. que ficou substituido pelo de 
FÓ.V patriota. Novas bandeiras foram inauguradas e em sessão 
solemne ellas foram benzidas. Existe no Instituto Hist^mco o 
discurso do Deão de Olinda, o qual pr(/feriu estas palavnu^: 

«Patriotas, escudados por estas bandeiras não tenbais 
medo nem dos escravos do Norte nem dos sevandijíis do sul ; 
eu mesmo se vos faltar chefe serei a vossa frente, tendo-me 
por míiis feliz morrer com homens livres, do (|ue viver com 
escravos,.. » 

O enviado do governo rei)ublicano teve (pie partir por 
terra para Alagoas, e fazendo ahi os prosélitos seguiu em uma 
jangada para Bahia. Desde este temi)0 a j?nigada fu^ou tra- 
diccional nos ímnaes da liberdade, que ella veio sancti ficar 
depois Cjue se aboliu a escravidão. 

('hamava-se José Ignacio Ribeiro de Andrade este 
emissário (jue ficou conhecido pelo nome de Padre Konja. 
Este sacerdote mostrou -se digno da sua missão. 

E' um facto caracteristico o de haverem sempre os sa- 
cerdotes sido 08 maiores amigos da liberdade e esta, eutretauto 



95 



ser tilo ingiabi nas [)essoas do seus representantes, para com 
o clero. 

Muiiiz Tavares em sua '^c Historia dos MartVTes Pernam- 
bucanos», diz c|ue appareeendo a jangada no dia 2H de Março 
era frente a It^ipoan, tornou-se sus[)eita por nfio (juerer en- 
trar na bailia esperando a noite. 

Patrulhas destacadíis foram ap[>rehender o Padre Roma, 
que ilefez se das eredeneiaes. atirando-se ao mar. 

Preso e encarcerado em segredo de justiça, o Conde dos 
Arcos creou logo uma ccmunissão militíir para o sentenciar 
summariamente. OPadre lloma ctmiparcceu algunmdo perante 
o tribunal, chamado de sangue. Interrogado se conhecia as 
pessoas para (juem trazia as cartas, respondeu (jue nfio. E por 
isso foi condenniado á morte ! 

Ouvida a sentença, o Padre Iloma mostrou-se digno e 
corajoso, e conforme naiTou o seu confessor, as suas ultimas 
palavnis foram estas que vôm no mesmo livro do Padre 
Dias Martins: ^^ Custa-me a comprehender como a misericórdia 
rle Deus poderia salvar-me. Rendo porém graças a Deus por 
ter-me permittido tomar parte na revolução de Pernambuco, 
j>orque assim deixo de ser imi condemnado eternamente ». 

Chegando ao lugar denominado Campo da Pólvora, onde 
devia ser fuzilado, voltou-se [)ara os gi'anadeiros e disse : 

^(-amaradas, eu vos perdoo a minha morte; lembrai-vos 
na pontaria, que aqui (pondo a mão no coração) é a fonte 
<la vida. » 

E' cheia de episódios a e[)Opéa destes heroes. que no meio 
dv uma população de escravos, tinham para chefes o Conde 
ílos Arcos e outros potentados, e os tribunaes militares, os 
quaes uín dia serão banidos na justiça dqs homens pelos Jpro- 
I)rios briosos militíires (jue devem ver em taes tribunaes tis ma- 
cliinas infernaes da perversidade humana ; entretanto estes ho- 
mens lousavani coníiar no povo ao (jualse apresentavam para li- 
bertar a pátria. 



96 



A justiça da Bahia mandou ao encalço dos cúmplices. Do- 
mingos José Martins é preso no Porto das Gallinhas, conjuncta- 
mente com o padre Santo e mais outros companheiros ; todos 
foram acorrentados á presença do general Cogominho sendo 
postos a ferros a bordo do navio Carrasco, que os levou á 
Bahia de S. Salvador. 

José Luiz de Mendonça, companheiro daquelles que se 
achava escondido, sabendo que os que dessem abrigo aos con- 
demnados seriam enforcados, envolveu-se em uma capa, 
tomou mna cadeirinha, vehiculo de conducçfio nobre na Bailia, 
e foi ao pateo do feroz ('onde dos Arcos, onde saliindo, deixou 
nahir a capa e gritou, abrindo os braços :« (Jamaradas, eu sou 
o proscripto José Mendonça, atirae sc.quizerdes e matae-me.» 
Foi preso e posto a ferros a bordo. 

O padre Almeida Costa, entrega-se á prisão depois de ir 
a sua casa onde disse a irmã D. Clara de Castro : « Mana, 
nada de chorar, estás orphã, tenho enchido meus dias, logo me 
vêm buscar para a morte, entrego-me a Deus e nelle te dou 
um pae que não morre; mas ajuda-me a salvar a vida 
de tantos desgraçados, aproveitemos a morte e imita-me. » 
Dizendo isso o padre que era o secretario do governo, entrou 
na secretaria onde estavam os autos e os destruiu na noite de 
20 de Maio de 1817. 

Arrancado dos braços da irmã. é mettido em grilhões e 
conduzido para bordo do Carrasco. 

A 9 de Junho foram todos interrogados. 

Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça, Dr. 
Manoel José Pereira Caldas e Diâo Portugal, portaram-se di- 
gnamente. 

O Padre Miguel ( 'astro ficou conhecido pelo nome de pa- 
dre Miguelinho. 

Narra (Jodeceira que os empenhos para salvar est« padre 
abalaram o Conde dos Arcos, que vendo a victima nada 
negar, disse : « Padre, nâo cuide que somos alguns bárbaros, 



97 



e selvagens que só respiramos; santíue e vingança; fuUe, diga 
alguma cuisa em sua tlefeza. O padre eontinuou silencioso 
eo Conde disse ainda: ^O padre não teve inimigos, não seria 
possivel que »dles lhe íalsilicasseni a íirnia v com ella sub- 
screvessem parW ou lodos os papeis que estão }>res(nitesyí O 
padre respondeu: ^Não, senhor, as minhas ílrmas sãoauthen- 
ticas e por signal (|Ue em uma delias o -o- do meu ultimo 
sobrenome, Costa, hcou metade por acabar, por falta de 
papel. » 

No dia 11 foram todos sentenciado. 

Ouvindo a sentença, José Luiz disse: Juizes malvados! 
cegos e vis instrumen^)s da tyrannia, eu vos emprazo para os 
infernos. » 

Na manhã do dia 12 de Junho d(; ISIT os ti-es martyres 
José Luiz, Martins t^ Miguelinho, revestidos de alva, pés des- 
calços, algemados, sahiram da cadeia para a forca. Ahi Mar- 
ins, voltando-se para os soldados <liss<': Vinde executar as 
ordens do vosso sultão.» 

O anniversario da morte <lestes ík i-oes passa desconhe- 
cido como as aguas dos rios (pie c(n*r(^m nos lugares igno- 
radas. 

i)s algozes aproveitam se destas datas para formarem 
suas epopéas, como os imlu^iriaes d acjUella^ aguas para 
moverem suas machinas. 

Em 18lT houve tand>em no Recife uma victima c<'arense. 
chamada António Ilenriíjue liahello. ( 'onheci<lo como con<pi- 
rador contra a monarchia. foi logo coii(l<'innado i)elo tribunal 
militar e ao ir j)ai'a a forca gritou: ^\'i\a a pátria!^ 

Sua cabeça ])or causa ile ter sido o motivo de um tal 
grito, foi decepada e licou ]»or rnuit^) tempo exposta lía p<nUe 
do Recife, até ser cousumi<la i)eio t<iii[K» Esta execução foi 
feita a õ de Julho de 1817. 

O sangue excita o appelite do< tyrannos.couio o <!as «'('ras. 
Logo depois desta morte, foram feitas outi'as. entre elias a do 



98 



[)a(lre Pedro de Souza Tenório, Josc de Barros Liina e Domin- 
gos Theotonio Jorge. Narra Muuiz Tavares iio seu ciUulo 
livro que ao subir a forca este ultimo, dissera: «Meus patri- 
cios, a morte não me aterra, nterra-mo a incerteza do juizo 
da posteridade; eu deixo um tilho, ensinai- lhe o caniinlio...» 
mas o carrasco o suffocou. 

Todo o norte do Brasil Kcou influenciado pelo espirito 
de independência, e o rigor das leis fez mortes [lor to<la parle. 
No Rio Grande do Norte Albuquenjue Maranhão foi assassi- 
nado. 

Os acontecimentos que fizeram approximar-se a liberdade 
foram sendo explora<los em favor da coroa, (pie para não 
perder o Brasil, queria ao menos gosar das vantagens que 
o paiz podia dar-lhe. 

Estes ligeiros traços que acabamos de fazer bem podem 
trazer a luz que a liberdade infelizmente ainda mal compre- 
hendida pôde permittir, fazendo-se assim com que o senti- 
mento de partidarismo e politicagem, que tanto mal foz a H- 
berdade, não reduza os seus^heroes a meros fructos do tempo- 

Ainda que a independência tenha satisfeito as aspira- 
ções democráticas da época, alguiis patriotas republicanos não 
se contentaram com a conquista feita e queriam ir mais 
adiante. 

Tanto ao sul como ao norte do Brazil dominava Cvste 
pensamento, e se bem que ao sul o movimento houvesse 
achado incremento pida faciUdade de recursos do clima e da 
Índole do povo, é preciso assignalar o esforço feito por Tristão 
Gonçalves, o patriota sob cuja ordem estavam alisUidos ho- 
mens do valor do conhecido Frei Caneca e outros que paga- 
ram com a vida a dura prova de serem republicanos no regimen 
que se inaugurava em 1822. 

No capitulo Vni das Narrativas de Lord ('ockrane, en- 
cima a descripção o pomposo útiúo— Governo Republicana 
proclamado em Pernambuco. Transcrevemos o seguinte : 



99 

« Reulineiito Manoel de Carvalho Paes d' Andrade ha\na 
publicado suas proclamações, denunciando D. Pedro I como 
trahidor, que propmiha entregar o Brasil aos portuguezes. 

« A revolução, diz Lord Cockrane, havia tomado raízes 
vigorosas no espirito democrático dos pernambucanos; não era 
cousa com que se brincasse. 

« Havia-se proclamado a forma republicana de governo, 
cujas vistas eram em mais vasta escala do que as propor- 
cionadas á capacidade d'aquelles que as propimham, sendo 
sua esperança vã o constituir todas lus províncias do Equador 
numa federação sob o modelo dos K. Unidos, projectos for- 
mulados por norte-americanos que residiam no Recife. 

«Para promover este objectivo foram convidadíis as ou- 
tras províncias septentrionaes a repudiarem a auctoridade do 
Imperador e a formarem uma alliançasob o titulo de Confede- 
ração do Equador, sendo a (*onse(juen(;ia (jue uma grande por- 
(;rio dos liabitantes do Parah yba, do Piauhy, do Rio Grande do 
Norte e (-eará se declararam a favor do projecto. 

Eis aqui a concordata das províncias revolucionarias: 

« Anuo do Nascimento de Nosso Senhor Jesus C-lu'ísto 
de 1824, terceiro da Independência do Brasil e no dia 3 de 
Agosto do dito anno na sala das sessões do (ioverno de Per- 
nambuco, estando presente o cidadão Quaresma Ferrão, por 
parte de 8. Exa. o presidente (-arvalho Paes de Andrade, e o 
Dlm. Revd. Pad. Franci.sco da Tostíi Seixas, José Joaquim Fer- 
nandes Barros, o cidadão José Joaípiim Geminiano de Moraes 
Navarro, por parte da província do Hio (Jrande do Norte, em 
virtude do diploma datado de \i\ de Agosto de 1824 e tam- 
bém os deputados connníssionados ])elo governador da pro- 
vijicia de Pernambuco para tratar por parte do seu governo, 
com o fim de pôr termo á dissensão de opiniões politicas, 
que tanto lia retardado o progresso do lirasil, da independên- 
cia o liberdade e ao mesmo ttunpo tratar de banir um espi- 
rito servil, que tende a escravisar o Brasil, por uma preteu- 



100 

(lida Coníítiluirru). doniinaiHlo sohre a iKu;ão hra.*^iloira fonio 
a (lo (rrão Senhor Ottomano. 

A ('oiiiTiiissão (lo iíovíTno íl fsta província e íis iljnstres 
(loi)Uta(,"(*>es supra mencionadas, tendo niaduraniciitc conside- 
rado estes materiaes concordam : 

I. Que esta« {)rovincias de Pernaudmco e Rio (írande 
se unam numa lij^a fraternal, offensiva e defensiva, aíim de 
]>restarem todas as suas í'or(,*as contra (juahjuer a.iíí.ci'essão do 
governo portu^uez ou do Rio de Janeiro, para reduzir esta 
províncias a um estado de servidão. 

IL (iue a dita liira se estenderá ao estabelecimento de li- 
berdade constitucional nas ditas provincias e a supplantar o 
es]>irit() servil de (jue estão infeccionados e afastar assim a 
í^n^ierra civil fomentada ]»elas intri^^as no Rio de Janeiro, cuja 
influencia i>enetra ai^ora em todo o Brasil. 

III. Que para as?>e.i!:in'ar o eifeito deste facto o governo 
de Rio Grande formará um corpo de tropas e o })0stará nas 
bordas da proviucia de I^u-ahyba. para ser empregado 
segimdo as necessidades o exigirem. 

TV. (Jue este coq>o de troj)as será su*^ tentado pela pro- 
víncia de Rernambuco. mas será depois sustentado pela Con- 
fedn^ação do Equador, 

E para que o mesmo seja kvado a Immediato effeito. 
terá esta concorda fn pleno vigor, logo rpie seja assiguada i)or 
S. S. Exs. os prí^^identes das ditas ])rovincias do Rio Grande 
do Norte e Pernambuco. » 

Assignados : 

Padre Fr'nici,ico da Co.^fa Seixas.- José Joaquim Pcr- 
nandps Ban'os. — fos^ Jnaquim (jcmiyiiano de Moraes Xarano. 
IhtsUin Quaresma Frrrào. ^faxocJ de Carvalho Pa^^fi de 
Andrade, presidente. Impresso na Imprensa Nacional. 



101 



Como se haAia espalhado a noticia de que o almirante 
Cockrane o que queria era dinheiro, não duvidavam os revol- 
tosos offerecer-lhes os meios que imaginavam ; poderiam 
v\t em seu auxilio, e para isso logo que chegou este chefe 
pura ahafar o movimento revolucionário o presidente mandou 
ao mesmo a seguinte carta que deve ficar arcliivada : ' 

« Mylord — A fran(]ueza é o caracter distinctivo dos ho- 
mens livres ; mas V. Exa. não a encontrou em suas relações com 
o governo Imperial. O não ter sido recompensado pela pri- 
meira expedição, offerece justificável referencia de que na- 
da receberá pela segmida. 

« Tomo, portanto, a liberdade de assegurar a V. Exa. a 
somnja de quatro centos contos de réis, como indemnisação 
por suas perdas. 

«O serviço requerido a V. Exa. será o de acceitar a causa 
da Confederação do Equador, a qual é a adoptada pela maioria 
das pro\nncias septentrionaes, cujo Hmite será o rio S. Fran- 
cisco do Norte. 

«Tenho a honra de ser de V. Exa. muito humilde criado, 
Manoel de Carvalho Paes de Andrade. » 

O presidente revolucionário ha\na encommendado navios 
veleiros para os Esttxdos-Unidos e os Cvsperava ancioso, por- 
que para uma cidade como o Recife, cortada de rios na- 
vegáveis o não ter os recursos para dominar as aguas, era o 
mesmo que não ter braços. 

O pânico porém, que o navio «Pedro /» (que era o do 
almirant^do), i)roduzira e a habilidade com que Cockrane ti- 
rava partido d'esta situação, dizendo que esperava 30 navios 
de guerra e fazendo espalhar outras noticias, produziram ura 
effeito desastrado em uma cidade em que a lucta se tornava 
desigual, mostrando a consciência dos luctadores o perigo de 
uma tal lucta, amda que tivessem muito valor. 

Com effeito, chegando 800 homens a bordo do Piranga, 
e começando o ataque, o presidente Carvalho fugiu, indo 



.102 



em uma jangada para )>ordo do Twerd, corveta britan- 
nica, que estava no porto. 

O imperador I). Pedro I tinha-se entregado nas mãos dos 
partidários c^ue o povo chamava portuguezes, que govenm- 
vam fazendo politica o[)posta aos Andradas, e havendo grande 
ódio no. norte do Brasil ao elemento portuguez, era diíticil 
acalmar os homens que preferiam dar a vida a ficar sub- 
missos a uma tal escravadâo. 

Entrettuito foi fácil dominar com tão poderosos recur- 
sos os revoltosos e o general Abreu Lima ponde tomar conta 
do governo do Recife, fugindo os revoltosos para o interior. 

No Ceará principalmente, o movimento se tornara intenso 
e foram coUocadas bandeiras republicanas na fortaleza e na*? 
casas, onde reinava grande alegria. 

Infelizmente a chegada de Ijord Cockranc alterou, j)or 
tal modo o povo, que nâo tinha absoluUunente na Capital 
recursos para luctar contra um bombardeio do (junl foi logo 
ameaçado e a consequência foi (jue rendeu-se o governo á 
intimação. 

Tinha sido acclamado presidente da Re[)ublica no Ceará 
o heroe Tristão Gonçalves de Araripe, que soube desenvolver 
uma tenacida<le que confirmou o titulo (jue lhe demos. 

E' preciso não confiar na historia escri[)ta j)elos contem- 
porâneos das victimas. O exemplo de Tristão Gonçalves, (|ue 
como veremos mais tarde foi outro martyr da Republica, é 
mais significativo, ponjue ao passo que outros que estiveram 
sob seu commando tem seus nomes nas praças e ruas. elle foi 
ignorado. 

E' preciso reconlier^er (pie o senador Alencar, seu irmão, 
foi quem o metteu na chefia em (\\\o elle soube sustentíir-se 
e moner, tendo sido também senador e presidente do Ceará. 

O illustrado Cons. Araripe, filho do grande heroe, teve (jiie 
se conformar com a .sorte do ))ovo brasileiro e vindo a accoitar 
a Republica, elle que era um dos filhos da victima mais heróica 



idâ^ 



da Refmblica do Equador, veiíi por uma coincidência da soli^ 
a ser o ministro que referendou o decreto dissolvendo a 1» 
constituinte do governo republicano do Brasil. O seu digno 
piie fez a revolução e a Republica do Eijuador, baseando-se 
justamente em haver Pedro l dissolvido a Constituinte do 
primeiro governo raonarchicol 

A historia deve {)ois ser encanida com a cahna e a 
verdade, que nenhum jKxler do mundo pôde fazer eterna- 
mente ticar occulta. A este respeito devemos notar que os 
documentos que publicamos n'este capitulo — Republicla do 
E(]uador. — dão nmit^i luz. 

Nós temos o prazer de dar publicidade á proclamação 
feitii pelo heroe Tristão (fonçalves. Este precioso documento 
não tem lido a circulação (pie mereina pelas causas que no 
eap. II e neste mesmo podem ser vistos. 

O patriotismo e a acção caracterisam os feitos brilbantes 
do denodado presidente e martyr, tão mal comprehendido 
p€'los homens do seu tempo e pelos seus próprios parêntese 
patrícios. 

Admira que o governo republicano do Ceará nada faça 
para levantar a memoria ao nosso heroe, podendo ser que 
11Ó8 tíunbem sejamos tido por suspeitos, por causa de terríiòâ 
o mesmo sangue do martyr em nossas veias. 



COPIA 

ACTA DA SESSÃO EXTRAORDINÁRIA DE 29 DE ABRIL DE 1824. 

Aos 29 de Abril de 1824 annos, nesLii cidade da For- 
taleza, nas casas da Chamara e [)aços do consellio, aonde se 
achavam o juiz presidente, [)ela lei, Joaquim António de 
Oliveira, o vereador transacto Francisco l^\dix Bezerra de 
Albuquerque, e o republicano Manoel Pereira Vianna, por 



104 



impedimento dos vereadores actuaes e o procurador do con- 
selho José António Machado, commigo escrivão ao adiante 
nomeado, sendo ahi appareceram o Ulmo. e Exmo. gover- 
nador das armas desta provi ncia do ('eará Grande, José Pe- 
reira Pilgueiras cidadãos e officiaes mihtares, abaixo assig- 
nados, ahi pelo dito illustrissimo e ex(íellentissimo senhor 
foi apresentada a falia seguinte que foi lida pelo U. V. 
Elfetevâo da Porciuncula: «Senliores. Todos sabem que eu nâo 
sou orgulhoso e nem jamais me arrojei a offender-vos e muito 
menos ludibriar a pessoa alguma nesta cidade. O meu génio 
e minhas maneiras de proceder, penso, teriam sido sempre 
uniformes até o ponto de já não poder soffrer insultos de 
homens, que eu mesmo (para o bem dizer), eu mesmo esfor- 
cei-me eleval-os, apezar de tudo, a grandes postos : esses 
ingratos conspiraram contra a minha vida, contra a vida dos 
vogaes do governo, contra a vida dos cidadãos benenK^ritOí^ 
e pelo menos contra a integridade de nossas pessoas. Uma 
indiscreta compaixão embotou os tios das leis e deu azo a 
novas desordens. Em clubs e conventiculos secretas tramavam 
nova conjuração ; quasi estive a ponto de ser victima da 
paixão digo traição, como muitos avisos me persuadiram: 
zombei ao principio, mas depois lembrou-me do triste acon- 
tecimento de 14 deste mez. Já (]ue a nada se providenciava, 
arroguei a mim a prisão dos cabeças da (conjuração ; e por 
ultimo vi com horror os abysmos a que se j)retendia arroja^* 
a esta província inteira. O veneno subtil e mortal se espa 
Ihava dentro de pillulas doiradíis ; com ex[)ressões pomposas, 
rasgos brilhantes e com meios capciosos, procuraram illudir 
a minha ingenuidade e a singeleza dos povos. O presidente, 
depois de haver tomado posse <lo governo das mãos da 
camará, e do governo faccioso e illegal, no meio da tropa 
em tumulto nas trevas da noite, não duvidou negar e.sta 
fraqueza no officio que me dirigiu a 15 deste mez. Este 
procedimeK^to é muito feio e persuasivo da falta absoluta, não 



105 



sei de que ! Espalhou duas proclamações, cujos fins eram 
somente respUmdecer o abominável despotismo, e, chegando 
ao crime do mais abatido servilismo, avançou a esta escan- 
dalosa proposição : O Imperador é a fonte de todo o poder. — 
Com effeito, creio que nenhum brasileiro se arrojaria a tanta 
baixeza! I! 

O Imperador mesmo conhece que a soberania reside no 
povo. È, se elle fallou no poder executivo, quem foi que 
conferiu este poder ao Imperador, senão a mesma nação? 
Náo era este só o moio de que se valeu para nos lançar os 
ferros da escravidão? Atiladamente dissemmando a discórdia 
e desconíiança, chamava aos intreindos defensores dos nossos 
direitos inimigos internos ; ponjue temia que os cidadãos li- 
beraes se haviam de oppôr lay novo systema, pelo qual se 
encadeavam as correntes para nos prender a todos nas mas- 
morras da escravidão. Obedecemos, veneramos e cordialmente 
amamos a Sua Magestade Imperial ('. e L., como primeiro 
chefe do Brasil; mas nós exigimos uma constituição liberal 
como nos prometteu, afiançou e muitas vezes tem jurado 
dar-nos. Eis porque nos chama inimigos industriosos, pondo- 
nos de má fé para com o povo, fácil de seduzir e acostu- 
mado a obedecer. Ainda Sua Magestade Imperial C. não 
mandou jurar o projecto de constituição, e havendo cousas 
mais serias da obrigação do sr. presidente, elle não se es- 
queceu de remettel-o para esta (íamara fazel-o, ja se sabe, 
jurar por dez ou doze europeus ou brasileiros escravos. Es- 
perando-áe breve inviísão de Portugal, e devendo nós reba- 
tel-a com força reunida e em taes apertos lembrou-se o Snr. 
presidente de convocar um conselho, no qual propoz si man- 
dasse presidiar as fronteiras contra Pernambuco, negando-se- 
Ihe todo o soccorro. t^ue fomento de guerra civil nestes 
tempos desgraçados! Que deshumanidade de um brasileiro? 
Que nos importam os negócios politicos de Pernambuco? 
Que mal nos fez? Qual é o seu crime? Não acceitar um 



106 



tyranno, nomeado presidente pelo Imperador? Aborrecer ura 
déspota, que acabava de exercitar um sceptro de ferro e de 
roubar com escandalosos subornos contra a liberdade da 
mesma sua pátria? Haviamos reduzir a fome os nossos irmãos, 
os nossos visinlios, donde hoje vem todo o principal com 
mercio? E' por ventura esta a união tao recommendada nas 
proclamações de S. Ex.? Elias são panegyricos de S. Mtiges- 
tade Imperial C. e introducções do snr. presidente no go- 
verno. Não sei porque fatalidade S. Ex. ainda não disse — 
Viva a Naçào Brasileira! — Que toUil abandono? São estes 
os grandes bens que nos traz o Ex.»«« snr. presidente? Final- 
mente, no curto espaço de treze dias o snr. presidente tem 
se feito suspeito e mesmo execravel aos po/os. Os povos 
requerem a sua demissão, desgostosos dos {)rinci[)ios de tal 
governo e eu fui obrigado a annuir ás suas retjuisiçôes. 
Nestes termos torna-se necessário installar um governo, se- 
gundo as leis ou lançando-se mão das votações já reunidas 
de algumas das camarás interinamente, até que cheguem 
as demais da provhicia ou como melhor convier ao estado 
actual das cousas. São estes os puros sentimentos de ura 
homem que sempre se tem dirigido nos negócios de sua 
pátria sem outras vistas mais do que defender o seu direito 
sagrado, em abono dos quaes protesta derramar até a ul- 
tima gotta de sangue. Cidade do Ceará, 29 de Abril de 1824, 
3.*» da Independência e do Império. José Pereira Filgueiras. 
E consultando toda a assembléa sobre os quesitos do seu 
manifesto, propoz-se que se mandasse ao Ex.»»*^ presidente no- 
meado por Sua Magestade Imperial C. L. uma deputação 
para elle responder sobre os mesmos quesitos e foram no- 
meados para a mesma deputação o Rev. vigário António 
José Moreira, o tenente-coronel Tristão de Alencar digo Gon- 
çalves de Alencar Araripe, o capitão ajudante José Ferreira 
Lima, o advogado Miguel António da Rocha Lima, o ca- 
pitão Francisco José Pacheco de Medeiros, o tenente-coronel 



10,7 



José Ferreira de Azevedo o o sargento-mor Francisco Fer- 
reira de Souza, os quaes dirigindo-se a sala do governo e sendo 
recebidos pelo mesmo Ex.°^<* presidente, propoz o Rev. vigário 
Autonio José Moreira, como presidente da mesma deputação, 
que o Ex.»»** governador das armas, vendo a província em 
grande convulsão e temendo males incalculáveis sobre o es- 
tado politico da mesma, se viu obrigado a qhamar as anuas 
os cidadãos da mesma e convoçando-os nos paços do con- 
selho perante a Camará desta capital, fez recitar o seu nvi- 
nifesto já descripto na presente acta e exigindo de todos a 
sua espontânea deliberação, todos unanimemeiíte responde- 
ram que convinha que o actual presidente nomeado por 
Sua Magestade Imperial C. L. desistisae da presider^cia do 
governo, para evitar convulsões politicas e tranquillisar os 
povos, que a vista de seu governo, no curto espaço. de 13 
dias, mostrava querer escravisar a provincia, sujeitando-a ao 
antigo absolutismo, motivo de todo o movimento. E logo 
dito Ex.™" snr. respondeu que estava prorapto a demittir-se 
do governo, comtâuto que se lhe escrevesse o seu proteslp. 
Avista, pois, desta resposta se concordou que se tratasse de 
nomear um presidente temporário para succeder aquelle, até 
que se reúna a votação dos collegios da provincia, já ha 
muito mandado proceder para conselheiros, que, o que tiver 
maioria de votos servirá de presidente na conformidade da 
lei. E procedendo-se com cffeito a votos por todos os que 
se achavam na dita assembléa, sahio eleito o tenente-coronel 
Tristão Gonçalves de Alencar Araripe com 88 ví>tos que se 
julgou phirulidado o que foito compareceu o Ex."»" presidente 
demittido e apresentou o seu protesto e demissão por eS' 
eripto, requisitando se mandasse inserir na presente acta, 
daíido-se-lhe as co])ias necessárias, o qual é do theor e forma 
seguinte: (segue o protesto sem importância e assignado p€\lo 
Presidente da Provincia Pedro José da Costa Barros, no- 
meado por dec. de 20 de Outubro de 1823). E nesta forma 



108 



houveram a sobredita (binara e assenihléa esta sessão |>or 
finda e acabada, do que para constar mandaram la\Tar a pre- 
sente acta em que todos íissignaram. E eu João Lo[>es de 
Abreu Lage, escrivão do senado da ('amara o escrevi. Pedro 
José da Costa Barros, Joaquim Antunes de Oliveira, Fran- 
cisco Félix Bezerra de Albuquerque, Manoel Pereira ^''ianna. 
José António Machado, José Pereira Filgueirac. C-om assi- 
gnaturas da assembléa. O Escrivão da camará João Lopes 
de Abreu Lage. 

COPIA 

SESSÍO EXTRAORDINÁRIA DO GRANDE CONSELHO PROVINCIAL 

Aos 26 dias do mez de Agosto de 1824, 3 o da Indepen- 
dência e 1.0 da liberdade do Brasil e confederação díis pro- 
vindas imidas do Equador, nesta cidade da Foitaleza. capital 
do Cíeará, na sala do governo onde se achavam o Exmo. sr. 
Presidente do governo da província, Triíítão Gronçalves de 
Alencar Araripe, os vogaes do conselho, o Exmo. sr. Gover- 
nador das armas, os srs. ouvidores das duas comarcas, o se- 
nado da camará desta cidade e das villas do Aquiraz e Me- 
céjana, com os procuradores das demais camarás da pro\nneia, 
presentes os Revs. })arochos das freguezias e na sua falta os 
seus procuradores, os chefes dos cori)os militares de l.«, 2.» e 
3.* linha ou seus procuradores, os eleitores de parochia e no 
seu hnpedimento supplentes em maioria de votos, o clero, 
muitos officiaes militares, homens bons e povo, abaixo assi- 
gnados, com a competente notii de seus postos e graduações 
e sendo ahi em voz alta e intelligivel, propoz o Exmo. sr. pre- 
sidente: Que a vista dos perjúrios de D. Pedro, princepe de 
Portugal (chamado Imperador do Brasil) estava roto nosso 
pacto social, tantas vezes assegurado por elle e outras tantas viola- 
do publicamente a face das nações, em affronta daquelles mesmos 



109 



povos, dos quaes elle de niotii f)ro])rio ha\na tomado o titulo 
de defensor perf)etuo. não llies tendo sido lúé agora se não uni 
oppressor encarniçado, não respeitando os foros da liberdmle 
do Brasil, quando despoticamente, e a força de armas, aboliu 
a assembléa geral constituinte da nação inteira, prendendo, 
degradando, ainda para reinos extrangeiros e despedindo com 
ignominia os seus representant^^s, arrogando a si o direito 
absoluto de legislar e constituir por si, como se viu do in- 
fame projecto de constituição, que não só deu, mas também 
mandou arbitrariamente jurar por todas as camarás das pro- 
vincial! do Brasil, reputando-nos escravos ou propriedade sua, 
contra as suas promessas e juramentos.^ — Que além de todos 
estes motivos do mais descarado des])otÍ8mo, accresciam mil 
traições visivelmente ap[)arecidas nos seus decretos, alvarás, 
a\'isos, manifestos e i)roclamações com <]ue pretendia sujei tar- 
nos novamente ao dominio portuguez, não cumprindo assim 
íi^i condições essenciaes pelas quaes bavia subido ao throno. 
Attentas, pois, tan+as circumstancias de justo resentimento do 
povos, (concluiu o sr. presidente) ípie a pátria estava em pe- 
rigo e era necessário salval-a do captiveiro apezar de todos 
os sacrifícios da parte de seus filhos, pelo que o conselho 
deliberasse, lançando mão dos meios os mais promptos e enér- 
gicos e mais plausiveis da sua segurança; e ii?ssim apresentou 
o ST. presidente um plano de nova forma de governo, para 
ser discutido Hvremente com innnunidade de pessoa e de opi- 
niões, de ser ou não approvado pelo congresso. E com ef- 
feito foram lidos doze artigos e a leitura de cada um delles 
resoavam áe todas a? salas cheias de gente' apinhoada vivas 
acclamações de — apoiado — , e um prazer geral se di\âsou 
no semblante de todo o congresso, dando-se uns a outros os 
parabéns da sua mutua feliíndude. Logo que foi approvado 
geralmente o plano offerecido, propoz o sr. presidente que o 
grande conselho elegesse prasidente e secretario para assis- 
tirem as tuas sessões na discussão da matéria sem coacção 



110 



(los votantes; mas o congressc» uniformemente elegeu o mesmo 
snr. {)residente Tristíío (ícmríilves de Alencar Arurij)e para 
presidente e para secretario vlo grande conselho o padre Gon- 
çalo Ignacio de Albuquerque Mororó. Desceu o sr. presi- 
dente devsarmado, assim con o tinha assistido ao acto, com o 
sr. governador dits arnias e grande parte da assemhléa, para 
os quartéis da tropa de 1.» linha, onde igualmente se achou 
o senado da Camará desUi cidade, com o novo estandarte da 
liberdade, já de antemão preparado, e depois voltando 
todos dirigiram-se com o sr. presidente no centro da tropa, 
trazendo arvorado um estandarte igual ao da Camará, para 
a igreja, a render acções de graça; ao Soberano Auctor da 
nossa felicidade e ahi benzeram -se as bandeiras e o si', presi- 
dente digo e o sr. governador das armas foi [)essoalmente entre- 
gai* uma ao corpo de tropa reunida. No Hm de um elegante dis- 
cui-so oratório e patriótico, reíâtado pelo Rev. vigário da Wlla 
de Arronches, cantou-se um solenme Te Denm — ficando 
adiado para hoje o juramento dos Santos Evangelhos rolun- 
iaria e solemnemenfe, digo Evangelhos, cujo theor é o seguinte: 
«Eu F. juro aos Santos Evangelhos voluntíiria e solemne- 
mente defender e guardar a religião catholica e a[)Ostolica ro- 
mana. Juro dar a ultima gotta de sangue para manter e ser 
fiel a confederaçAo do E<juatlor, (]ue *'^ a união díis quatro 
províncias ao norte do cabo de Sapito Agostinho e as domais 
que para o futuro se forem unindo, debaixo da forniu de 
governo que estabelecer a assemhléa constitidnte. Juro fazer 
crua guerra ao despotismo imperiíil, que ])retende usurpar os 
nossos direitos, escravisar-nos e obrigar-nos a fazer a união 
do Brasil com Portugal, a qual jamais admittiremos por ne- 
nhum titulo que seja. Juro emíim fazer guerra eterna a todo 
o despotismo, que se oppuzer á liberdade de nossa {mtria e 
igiuilmente juro obediência ao governo Sui)remo Salvarlor. As- 
sim Deus me ajude. » E reunidos todos novamente na sala 
do governo, com effeito prestaram o juramento na forma 



111 



aciími dita em o livro dos Santos Evangellios, apresentado 
pelo sr. presidente o (juul o recebeu e prestou primeiro (jue 
todos das mãos do primeiro «'onselheiro do governo, o Exm. 
sr. Joaquim de Paula Galvão. E de tudo para constar mandou 
o Exra. sr. presidente lavrar a presente acta, auctorisando 
para o fazer no impedimento do secretario do governo, o 
padre Gonçíilo IgnjRtio de Alhiiquerque Mororó, na qual todos 
assignaram com a competente nota. — Palácio do governo, em 
grande conselho provincial, acs 27 dias do inez de Agosto de 
1824, 3.0 da Indej)endencia e primeiro da liberdade e con- 
federação do Equador. Eu Francisco de Paula Andrade, se- 
gundo ofíicial da secretaria do governo, a escrevi. Tristão 
Gonçalves de Alencar Araripe, [)residente; o coadjuctor Joa- 
quim de Paula Galváo, conselheiro; o ('oronel José Feliz de 
Azevedo Sá, conselheiro; o vigário António José Moreira, con- 
selheiro; o coronel Jo.sé Ignacio (íomes Parente, conselheiro; 
o governador das armas José Pereira Filgueinis; Francisco 
Miguel Pereira Ibiapina, escrivão deputíido; Miguel António 
da Rocha Lima, ouvidor interino da Comarca do Ceará; (tou- 
çalo Ignacio de ^Ubu([uer(]ue Mororó, secretario do governo ; 
Bernardino 'Lopes de Sena, ouvidor do Crato; José da Costa 
Barros Jaguaribe, vigário de Monte-Mor Velho ; Padre Joés 
Martiniano de Alencar, procurador da \nlla do Cnito; Frei 
Alexandre da Purificação, por si e como procurador do pa- 
rocho da villa da Granja; dr. Vicente Domingos Saj)oriti, phy- 
sico da província ; Francisco José de Salles Jerobeba, director 
da typographia nacional; capitão João Franklin de láma, eleitor. 
(Contem 452 assignaturas afora as corporações e cidadãos re- 
presentados por procurador.) 

Nota. — Não transcrevemos as outras assignaturas por 
ser muito longo o trabalho. 

Na reunião do Collegio Eleitoral para eleição dos depu- 
tados que deviam compor o Supremo Conselho Salvador — 
foram eleití)s — (28 de Agosto de 1824) deputatlos : 



112 



Padre José Martiniauo de Alencar 355 votos 

Vigário Manoel Pacheco Pimentel 279 » 

Luiz Pedro de Mello e Cezar 236 » 

Padre José da Costa Barros Jaguarihe .... 220 » 
Ten. (k)l. Francisco Miguel Pereira Ibiapina 158 » 

Marianno Gomes da iSilva 154 » 

Vigário António José Moreira 126 » 

Ten. ('ol. João da Costa Alecrim 108 » 

Est<ís foram os deputados (jue deviam vir a Pernam- 
buco, formar o Supremo Governo Salvador. Os poderes con- 
cedidos aos deputados eram os seguintes : O coUegio elei- 
toral da provincia do ( -eará autorisa aos seus deputados das 
províncias conf<íderadas formarem em Pernambuco o Supremo 
Governo Salvador, gozando nelle de todos os poderes de 
legislatura, decretando tudo, (juanto for a bem das pro\in- 
ciíis confederadas e até jm^ando e adoptando (se julgarem 
necessário) provisoriamente uma cimstituição, que sirva de 
base ao governo das i)rovincias confederadas, debaixo tâo se- 
mente da miica clausula de sempre manterem a religião ca- 
tholi(!a romana e o systema de governo democi'ati('o confedc- 
ratito noramefite adoptado ». 

Est(^ chefe não [)odendo so conformar com as deserções dos 
batalhões commandados pelo chamado General dan Almas^ 
e por Bizarro, retirou-se [)ara o Aracaty, onde contava [)or 
em marcha um numeroso exercito [)ara «lominar a Capital, 
e reliaver os fracos que a al)andonaram. 

Lorde Cockrane sabendo das deserções nos batalhões de 
Tristão (ioncalves, publicou um manifesto dando geral am- 
nistia aos (jue, sendo (íhefes insurgentes ou não, deixassem 
as armas e promettendo dirdíeiro nos índios (jue abandonas, 
sem Tristão Gonçalves. Tristão Gonçalves vendo o perigo 
porque [lassava, não esteve entret^into {>or esta intimação e 



113 



preferio ir luctar pela republica (jue o acclamara presidente, 
a ceder a uma intimação humilhante, como se afigurasse a 
este spartano de puro sangue. 

Uma vez que o presidente da nova republica fora or- 
ganisar forças para combater o governo que C^ockrane ins- 
tiilava em nome do Imperador, o almirante publicou uma 
proclamação na qual punha á premio a cabeça do heroe 
Cearense 1 

Reagente a proclamação como o próprio Cockrane con- 
fessa a pag. 185 dé suas narrativas : «Tenlio o tim de dar 
unia recompensa sufficiente para indemnisar os Índios que 
antes haviam sido sustentadores de Tristão Gonçalves Ara- 
ripe, a se voltarem contra este para o aprehenderem, resul- 
tando desta ordem vir a ser morto com todos os seus se- 
quazes. » 

A evolução das idéas e dos costumes (jue tudo amenisa 
e aproxima na sua marcha incessante para a perfectibilidade hu- 
mana, veio fazer com (jue mais tarde os herdeiros dos no- 
mes que se excluiam, se unissem (^) e que o chronista que 
escreve estas linhas, que também tem nas veias o sangue do 
heroe, não tenha escrúpulos em se referir ao nome ('ockrane 
senão para reconhecer que este almirante foi uma victima 
da sorte que o atirou do velho mundo ao Brasil onde elle 
perdeu a única opportunidade que tivera de ser verdadeira- 
mente um heroe, e não um mero agente ganhador ao serviço 
do Imperador, que como elle confessa na exposição que vera 
no seu livro, « era o primeiro a (juerer desmoralisal-o, dando 
busca no seu navio, e botando-o como um ganhador ordi- 
nário. » 

Conv^ni aqui para esclarecimento da historia, pois que 



(l) José de Alencar, o grande escriptor brasileiro, filho do senador Alencar que 
era irmio de Tristão Gonçalves Araripe, cason-se cora I). (Jeorgiana ('ockrane, neta 
do Almirante Cockrane. 



114 



não temos visto ein documento algum o facto seguinte que 
fomos conhecer somente agora em nossa segunda viagem a 
Europa, e é o seguinte: 

Lord Cockrane quando os inglezes combatiam contra Na- 
poleão, foi o almirante em chefe da armada. 

Aconteceu que elle levava a bordo um agente de negó- 
cios, e na Inglaterra como na França houve uma verdadeira 
febre de fazer fortmia no jogo da bolsa, de modo (jue, não 
se sabe como poude se metter a bordo de um navio de guerni. 
um agente de negócios. 

Como os titulos da Inglaterra e de França constituíam a 
base das fortunas dos que jogavam na baixa, o agente fez 
chegar a noticia da victoria contra Napoleão alguns dias 
antes delia realmente se ter alcançado. 

Os jogadores que compravam os titulos inglezes naquelle 
tempo, chegados ao baixo preço de 15 francos, titulos do 
valor nominal de cem francos, ficaram milionários. 

Quando se soube do modo empregado para este escíin- 
daloso fim, o governo inglez não só foz com que Lord Co- 
ckrane fosse desterrado, como que perdesse o lugar de 
Lord. 

Esta lei de excepção posta em pratica, foi mais tarde 
revogada quando por proposta de um lord inglez se fez 
justiça, depois da morte do almirante inglez. 

Reabilitada a sua memoria e empossado o filho na he- 
rança a que têm direito os filhos mais velhos dos Lords in- 
glezes, parece que não era isso um motivo para que o J^ord 
que depois foi Marquez do Maranhão, não contasse elle mesmo 
as razões pelas quaes veio para o Chile e para o Brasil. 
Para reclamar dinheiro, pubhcou tão longa narrativa, mas 
para se rehabilitar, nada disse. 

Apreciando as cousas que originaram as idóas republi- 
blicanas no Brasil não era possivel esquecer o nome daquelle 



ilô 



que mais mal fizera a ellas, e que podia ter tomado a si a 
causa da Republica do Equador, vindo assim a fundar no 
Brasil uma gloriosa conquista de paz e liberdade queimmorta- 
lisaria o seu nome, em vez de se ter feito um instrumento 
do Imperador e um reclamante de dinheiro, factos estes que 
tiramni de sua pessoa, não só a tradição dos seus feitos, co- 
mo a idéa que o animava. 

Para se vêr o esforço patriótico empregado por Tristão 
Gonçalves é preciso conhecer o terreno pisado por elle na 
lucta titânica que teve. 

Este intrépido republicano foi um verdadeiro spartano, 
fez com poucas tropas em caminhos lougiquos, marchas admi- 
ráveis, carregando peças de artilheria, as priíueiras que tran- 
sitaram nas estradas do Ceará, Piauhy e Parahyba. 

Tendo mandado para Pernambuco Luiz Rodrigues Chaves 
afim de auxiliar as forças rebeldes, este seu emissário a frente 
(los Índios foi peitado por Cockrane, e Tristão Gonçalves 
apenas soube disso partio com pouca gente, levando duas 
]>eçíus de artilheria, para ir se juntar a outnis forças no Ara* 
eaty. 

Chegando lá teve que se enfrentar com o seu infiel 
agente trahidor, feito chefe dos imperialistas! Chegando do 
lado esquerdo do Rio Juguaribe que tem sua foz na ('idade 
do Aracaty, Tristão Gonçalves fez fogo sobre a cidade que 
Be tinha rendido aos inimigos, e como o rio é muito largo, e 
Chaves havia mandado retirar todas as embarcações, não foi 
possível ao heroe Cearense chegar im mediatamente a cidade, 
onde os echos das balas da artilheria não produziram menor 
emoção nas consciências dos patriotas Aracatyenscs, que 
sentiram-se animados, vendo de novo perto de si o chefe 
querido, ('haves fugio vergonhosamente e Tristão Gonçalves 
fazei.ílo passar a nado muita gente comsigo, toma a cidade 
do Anuíaly! Este feito só, merece uma epopeia. 



116 



Tristão fez da Caza de Pamplona que era a mais im- 
portante, o sen quartel general, aprisionou um navio que es- 
tava consignado a esta caza, e mandando uma escolta conv 
mandada pelo capitão Tamunduá, a bordo do Lerfort (tal era 
o nome do navio inglez) este commandante forçou e abriu 
as escotilhas, tomou o dinheiro e os valores ahi depositados, 
não obstante o protesto do capitão do navio e veio entregar 
a Tristão oito contos de reis que achara. 

Tristão exultando de contentamento, porque estava ex- 
hausto de recursos para manter as tropas, declarou ao seu 
exercito : « Com este dinheiro me queriam guerrear, cora elle 
farei a sua guerra. » 

No dia 20 de Outubro seguiu o presidente da Republica 
do Equador para o centro, porque passara pelo desgosto de 
saber da restauração de Pernambuco, e <la chegada de Co- 
krane ao Ceará intervindo do modo porque já expressámos, 
para o matar. 

O desanimo produzido nas fileiras do seu exercito foi 
indiscriptivel. O medo de uns, o desanimo de outros fez com 
que seus amigos augmentassem até o numero dos navios 
de Cockrane : dizia-se que se tinham avistado immensa frota 
do almirante em direcção ao Aracaty. 

As noticias más são sempre de contagio perigoso e sabe-se 
quanto a imaginação nas occasiões de perigo serve como 
se fosse um vidro de augmento. Só Tristão não se acovardava, 
reagia animando os soldados, dando ordens e reunhido o 
conselho dos ofBciaes. Cada qual se mostrava mais firme, 
mas no dia seguinte, os que mais dedicação apregoavam, eram 
os que tinham covardemente desertado I 

(^ombinado a retirada para o Cariry onde o chefe Fil- 
gueira defendia a republica na zona limitrophe do Piauhy e a 
Parahyba do Norte, Tristão poz-se em marcha, mas os acon- 
tecimentos que se passaram em Recife e na capital do Ceará 



117 



então em poder das forças imperialistas, apertavam cada 
dia o circulo das operações. Sendo perseguido por tropas 
que arrebanhavam os transfugas elle t^ve (jue luctar corpo a 
corpo e morrer como um bravo no dia 31 de Outubro de 1824, 
em Sant^ Rosa, lugarejo de sua terra natal, (l) Foi ao alvo- 
recer d'est€ dia que sendo alcançado pelas tropas de Lord 
Cockrane, foi morto, sendo feito prisioneiro os seus poucos 
fieis companheiros. 

O coronel Bezerra, outro bravo repulicano que defendia 
a zona que estava comprehendida entre Baturité e Sobral, 
foi preso no lugar chamado — Itâes. 

O Dr. Teberge, em uma nota que enviou ao Instituto 
Histórico do Brasil diz que Tristão foi abandonado do pró- 
prio irmáo o padre Alencar, e faz justiça ao caracter d'este 
martyr das idéas republicanas nestes termos: «Tristão tevo 
á sua disposição os meios de fugir. Preferiu íicar com os seus 
camaradas. Foi um bello caracter, um homem de convicções, 
e sem duvida o que fez o mais interessante papel nesta mal- 
fadada republica. Estou que se elle não morresse, tinha que 
representar papel importante, porque tinha vontade foite, 
audácia, valor e firme convicção. O bravo Filgueiras teve a 
mesma sorte do seu leal chefe. 

O velho padre Alencar foi mais feliz, pôde sobreviver 
a estas luctas e vir a ser senador, lugar onde prestou bons 
serviços ao paiz. 

Agora copiamos algumas das observações do diário a 
que nos referimos : 

A?/y de Maio de 1H2S 
« Lê-se cartas do tenente coronel, José Bezerra de Me- 
nezes, participando que vinham tropas do Piauhy, mar- 

(D Ha uma coincidência que reputamos notável, é aquella que fez com que 
Tristák) Gonçalves na sua proclamação allegasseque ia fazera Republica do Equador 
por causa de ter sido dissolvida a Constituinte. Seu filho, o i Ilustre conselheiro Ara- 
ripa, foi que assignou o decreto de Deodoro, dissolvendo a outra Constituinte» 



118 



chando sobre Cratins, e que era urgente soccorro, j)orque 
as tropas que tinham \ândo do Gunhamuns haviam sido 
derrotadas, » 

28 Outubro 1823 

Declarou-se que fora estabelecido um governo republi- 
cano no Icó promovido pelo sargento-mór Joaquim Fernando 
de Moura.» 

18 Janeiro 1824 

« E' neste dia que se recebe noticia da dissohicção da 
Constituinte sendo Tristão Gonçalves quem mandou a no- 
ticia.» 
' « Felicitou-se a Tristão por sua chegada a Icó. » 

« Recebeu-se participação da Camará de Quixeramobim 
analysando a conducta de Pedro I, e nesta participação se 
declara o imperador e sua raça decahidas pela sua trahição, 
e declarando que Filgueiras deve tomar o commando das 
tropas. 

Torna-se urgente organisar um Governo republicano es- 
tável e liberal, que defenda os seus direitos com exclusão de 
qualquer familia. 

Participa-se que a Camará nomeou um íjoverno interino, 
tendo para chefe o capitão-mór José dos Santos Lima. » 

19 de Agosto 1824 

« Passou armamento para o Caryry. » 

12 Setembro 1824 

« Propara-se a casa para receber o chefe republicano 
Tristão Gonçalves.» 

23 Setembro 

€ Filgueira achava-se no Icó. E' marcado o dia .1.*^ de 
Outubro para ser proclamada a Bejmblica do Equador >. 



119 



l.« Outubro 1824 

« Foi lida, approvada, lançada e jurada na Gamara, com 
assistência do povo, a acta da sessão do grande conselho da 
Fortaleza. > 

Idem 

« Foi lida na Gamara a portaria do presidente da repu- 
blica decretando um empréstimo forçado para suprimento 
da expedição de Pernambuco. Tocou ao Icó a parcella de 20 
contos que o Ouvidor foi encarregado de cobrar, dando aos 
contribuintes a,s cautellas precisas para que taes quantia? 
fossem pagas com juros quando houvesse dinheiro nos 
cofres.» 

S Nw^en^tro lH2f 

« Recebe-se participação da morte de Tristão Gonçal- 
ves, acontecida na manhã de 31 de Outubro em Santa 
Roza. » (1) 



(l) Sendo deacendente próximo deste grande patriota, talvez nossas conside- 
fações possam ser tomadas eomo filhas da doce satisfação de ter a família tào 
illuatre chefe republicano. Por esta razáo nos limitamos a fazer as nossas refe- 
rendas acompanhadas todas de documentos. 

Lastimamos que outros nào tenham escripto a biographia deste vulto que apparec« 
com mais direito do que tantos outros a consaiçraçào da immortalidade. Quizeram 
que oillustrado Cons. Araripe fosse o aator da biographia do seu illustre progenitor» 
e como chronista, tenho nobre satisfação em fazer estas ligeiras referencias, por que 
minha Santa Mâe nasceu no theaíro deatii revoluçilo, achando-se minha avó foragida, 
no Crato, nascendo minha màe em uma casinha sobre umgirau tosco. 



PARTE Vm 

Republica de Piratlnim 



Ao mesmo Unupo (jue se espalhava no norte do Brasil o 
[íuusamento de autonomia e Republica, o Rio Grande do Sul, 
iuHuenciudo pela visinhança da« Republicas do Prata, tornava 
uma realida(ie a idéa, proclamando a Republica de Pii*atinini. 

O esforço e a prolongada lucta dos heroes Rio Gran- 
den»es, sustentados durante um decennio, constituem a pagina 
gloriosa da dedicação e das convicções populares. 

Iniciada em 1835 em Porto Alegre, teve a revolução rá- 
pida generalisaçáo em toda a i)rovincia, tomando ao i)rincipio 
a forma de uma sedição que bafejada pelo povo e abraçada 
pelos h(»mens ricos, poude dominar o território florescente flo 
Rio Grande do Sul, sendo i>roclamíula em l83() a Republica. 

Em 1842 foi eleita a primeira assembléa da Re[>ublica. 
O desaccôrdo entre os deputados constituintes, reunidos (juaudo 
ainda dominava a lucta e o Império não cessava de enviar 
fortes contingentes jmra debellar os seus inimigos, não per- 
mittiu que os acítos desta assembléa fossem reduzidos a leis, 
impressas e sanccionadas. 

Querendo apressar a orgnnisaçíU) de um corpo social ainda 
embrionário, e medindo o valor dos homens pelo esforço íitii- 
nico de tantas glorias adquiridas contra a Monarchia, os pa- 
triotas Rio (írandenses, attestaram valor, mas não conhoci- 
mento das leis sociológicas que guiam os corpos constituídos. 



121 



Log<i que ex[)lodio a revolução, o presidente da província 
o dr. Fernandes Bni^i^a, fni^iii, deixando abandonado o governo 
que cahiu logo em i)oder dos re>()ltosos que durante (juasi dez 
annos dispuzeram da inaior parte <lo território do Rio (Irande 
do Sul, até que se tíndou a guerra no acani[)anienlo da (*aro- 
lina, em Ponclie Verde, a 28 de Fevereiro de 1845 rendendo se 
as foi\us rebeldes ao general Barão de Caxias. O distineto es- 
criptor dr. Tristão de Alenear Araripe em s(ni trabalbo sobre 
a guerra civil <lo Kio (irande do Sul, não liga a este movi- 
mente o caracter que os Rio (irandenses e os Republicanos 
sempre lhe deram, isso é, de uma das mais enérgicas tenta- 
tivas para a implantarão da Rei)ublica no Brasil. 

Mas quando se pensa na desproporção das forças organi- 
sadaa por cidadãos patriotas contra um governo h^u' liiilrt a 
seu lado todas as outras provin(;ias do Brasil, não se pode dei- 
xar de reconhecer (pie tratou-se dum plano orgair^ad ). pira 
com o sacriticio da própria vida cada um le í^-^ii.-^ guias levar de 
vencida ate alcançar a forma republicana. Qae mais digna 
pode ser a attitude destes bravos! 

O nome que os monarchistas deram a Republica de 
Piratinim foi ^ rev^)]u(,-ão dos farra[>os, > mas hoje que nós 
vivemos no feliz regimen da R('[)ublica, e qu.- os militares 
apressando o advento das idéas rei>uí>licanas deram também 
o seu predominio nos primeiros annos da organisação repu- 
blicana do Brasil, o procedimento dos Rio-drandenses está 
justiticado, e o nome não pode mais ser tido como uma sá- 
tira, mas sim como uma roupagem que traduz bem o mar- 
tyrio c a dedicação dos patriotas. 

O govei-uo revolucionário tratou de nomear ministros, e 
estes praticavam todos os seus actos dictatoriaes, cercados do 
rigor que o i)eriodo revolucionário exigia. 

E' certo que sem processo algum, Onofre Pinto foi 
morto por Beato Gonçalves, ejosé Pedroso, ministro do Go- 



122 



vcrno revoltoso, em novembro de 1842, maudoii matar sem 
julgamento vários inimigos. 

E, certo que se fez o coníisco dos bens destes inimigos, 
por simples actos emanados do ministro em seus decretos. 

Entretanto, na revolta (^ue acaba de ser dominada i)elo 
marechal Floriauo, com ' o apoio do exercito e do povo dos 
Estados do Rio, S. Paulo e Minas, c^uem é que ignora que o 
Barão do Serro Azul e o Barào do Batovi tiveram a mesnui 
sorte, e (^ue quando se apurou a legalidade dos actos do go- 
verno o Congresso os achou dignos da situivção que através' 
sava o paiz ! 

O digno doutor Alencar Araripe, conhecendo bem que a 
republica era o ideal destes revoltosos, nao ponde deixar de 
lhes fazer a justiça, dizendo á pag. 121 da Revista do Ins- 
tituto Histórico de 1 880 : 

« As idéas republicanas estavam disseminadas na pro- 
víncia e a propaganda delia era acoro<;oada pelos homens po- 
líticos das republicas vizinhas, (jue sonhavam com o levanta- 
mento da província e sua união a ella > 

A propaganda dos patriotas de 1H35 produziu um par- 
tido que se intitulava federalista, tendo ])or bandeira a pro- 
clamação da Republica no Brazil, sob a f(')rma federativa. 
C'ada província formaria um Estado independente, e todo? 
unidos pelo vinculo da federação constituiriam um só corpo 
social. 

No intuito de propagar e fortalecer as ideias federativas 
no Rio Grande do Sul, esse partido organisou sociedades secre- 
tas sob o nomee ap[>arencia de maçonaria, e ahi, com applausos. 
se discutiam as reformas projectadas e invectivavam se, como 
verdadeiras offensas e reaes attentados contra o direito da 
provinda, os actos do governo geral, embora justos e razoá- 
veis. » 



123 



Ora, é evidente que se este era o pensar dominante, o 
coronel Bento Gonçalves, que era um cliefe tâo popular, eomo 
foi raais tarde o legendário Ozorio, estava no seu dii*eito de 
fazer a rei>ubliea tal como a queriam os patriotas, e por isso 
não admira que em breve todos os municípios principiassem 
a adherir ao chefe querido, com excepççrio da^^ villas do Rio 
(rrande, S. José do Norte e Pelotas. 

Procedeu-se á eleição, sendo eleitos presidente da Repu- 
blica (io Piratinim o coronel Bento (lonçalves da Silva e vice- 
presidentes Paulo António de Fontoura, o coronel José Ma- 
riano de Mattos, coronel Domingos Jost^ de Almeida e Igna- 
cio José de Oliveira Gomes. 

Tendo Bento ( fonçtdves sido derrotado e preso na bata- 
lha de Fanfa, procedeu-se a nova eleição, sendo eleito e em- 
possado o novo presidente, cidadão João {{omes. que orga- 
uisou a Republica, creando j)ara ella as jnesmas leis do Im- 
pério, as quaes deviam reger o sen governo. 

Entre os mais importantes figurava o decn^o de 6 de 
Novembro de 183(), estabelecendo o ministério. 

Para o interior foi nomea<lo o cidadão Domingos José 
«ie Almeida. 

Para a Justiça — Jos('' Pinheiro de Lllioa Cintra. 

Para a guerra — o coronel José Mariano de Mattos. 

António Netto, David Ganabarro e João António foram 
nomeados Generaes da Republica. 

A nova Republica decretou leis libérrimas e a naciona- 
Ksaçáo dos estrangeiros. 

Na própria sede do (Toverno imperial do Brasil havia 
republicanos. O exercito os tinha entre os mais sinceros. 

Era no exercito que estavam os mais hábeis generaes, e 
tanto entre os mortos como entre os que ainda vivem^ nos 
seus corações sempre pulsou a liberdade da pátria. 

Presos Bento Gonçalves na fortaleza da Bahia e Onofre 
Pires na fortaleza de Santa Cruz no Rio, ambos conseguiram 



124 



fugir e foraiTi para o Rio (íraiulo do Sul fazer nova procla- 
mação republicana. Bento (íonçalves fugiu da prisão em l.*> 
de Setembro de 1S:57. e Onofre Pires fizera o mesmo em 1.^ 
de Marco de 1S:^7, levando em sua eímipauliiaAffonso Corte 
líeal. O facto da fuga prova (juantos auxiliares tinham no 
próprio exercito. 

Em 21) de Dezembro da V^illa do Triumpho Bento (ion- 
çalves fáz nova proclamação e nomeia seus geucraes António 
Netto, David Canabarro, João António, Domingos (Vescencio, 
Onofre Pires e Bento Manoel. J*ara honra das idéa«? republi- 
canas é preciso reconhecer (pie foi no Rio Orande do Sul 
que se fundou a primeira im|>rensa re[)u]>licana, orgam da 
repubUca de Riratinin). diamava-sí» J*oro o novo orgam de- 
mocrático e api)arec(»u em 1." de S(Mend)ro <le 1S3S. 

Este jornal foi p'^rsegnido d(^pois. mas appareceu ainda 
com os nomes de Amorirauo em 1S42 em Porto Alegre, e 
em 1843 com o nome de Eatrclhi do Sul, 

Os nomes não precisam de conunentarios para indicar 
o fim patriótico dos projmlsores da liberdade em o Sul do 
Brasil. 

Uma das maiores vergonhas do Império foi sempre apoiar- 
se na escravidão dos infelizes negros. A republica, porém, 
cjueria a liberdade. 

Vendo (|ue os escravos faziam e a]>oiavam os revoltosos 
decretou o (roverno Imperial (pie os escravos, (jue fossem 
apanhados com as arniíis na mão, soffressem o (castigo de 
SOO a 1000 a(;outes, j>ara dejjois serem entregues aos seus 
senhores!!! (1) 

Para se comparar o caracter dos homens dos dois lados 
da disputa, o governo legal da monarchia decrotíuido esta 

(DConfcssaníos opo/.ar (|ue nos inva Ic a alma por U^r só a>íora doscobertf» esta 
vergonha de m )fl() que no tpnipo de n<Ksa propa;;anfla á favor <la abolivái», nâo po- 
dessemoa usar deste argumento, que felizmente aproveitamos ainda para apostrophar 
os que táo miseravelmente opprlmiam os escravos. 



125 



vergonhosa e infame medida, e os republicanos resistindo a 
ella, publicamos a res[>osta a este decreto assignado pelo pi*e- 
sidente da republica do Piratinim : 

« — Em virtude do decreto que inílinge castigo aos escra- 
vos que defendeiii sua liberdade e a da republica, ordeno (pie 
sejam punidos passando pelas armas tantos otliciaes legalistas, 
quantos forem os solda<los da Republica outrora escravos sur- 
rados pelas forças imperiíves.» (Vid. Ilist. doKio(irande doSul, 
}X)r Araripe.) 

Só este acto merece uma ei)opeia (pie ainda esperamos 
ver escripta, antes de nossa moile ! 

(^nsidere-se (]ue lienSes eram estes (pie assim obri- 
í^jiram a uma nac^ão inteira, a conbecei- o (pie é a liber- 
dade, (piando ella tinha por si homens como liento Gon(.'alvcs 
Bento Manoel e Garibaldi, que por si sc) foi a alma da 
marinha .da nova Republica, e como únicos navios elle tinha 
lanei iões ! 

l)ir-se-ia cjue para se ver imjdantar no Brasil a Itepu- 
blica, (piai novo Guilherme Tell o legendário heróc dos 
Suissos, Garibaldi, também sahindo duma lancha, foi para 
a terra dominar a tyrannia dos (pie queriam esnuigar os ho- 
mens livres. 

Eutretímto este homem cpie a Itália venera teve de ser 
uni dos operários das idéas Republicanas no Brasil e se 
estivesse mais mo(;o e não houvesse sido surprehendido pela 
morte, nfio se teria limitado a fazer a união da Itália, elle 
a deixtu^ia unida e Republicana como ella ainda terá de 
vir a ser, mas só (piando o Papa identiticado com o povo 
italiano puder Ser o chefe dos republicanos e também o 
presidente da Republica Italiana. Este bello ideal está mais 
perto de nós do que se pensa. 

As grandes reformas sociaes teni por execut^)res muitas 
vezes aquelles que eram antes os representantes do partido 
eontrario a ellas. 



126 



Este facto está evidente em toda a historia, desde o 
tempo da grandeza dos Romanos. 

Imitando o exemplo glorioso de (íaribaldi, que auxi- 
liado 'por João Gaban*one depois de liaver recebido do 
commandante em chefe João Manoel de Lima carta de 
corso em 14 de Novembro de 183G, havia tomado uma 
embarcação brasileira, que licou fazendo parte desta esqua- 
dra singular e heróica, o valente general David Canabarro 
a frente de 150 soldados espartanos marchou para Laguna, 
afim de conquistar este porto para a Republica do Piratinim 
que, dominando as lagoas dos Patos, a Lagôa-mirim. o Rio 
São Gonçalo, os rios Cohy, Taquary e Jucuhy, tinha um 
verdadeiro mar interior, com 150 léguas navegáveis mas 
sem meios de fazer com que os navios podessem livremente 
ahi entrar. Era o porto do salvamento da Republica. 

Ao chegarem em Laguna, os heróes republicanos não 
tardaram em proclamar a Republica também na província 
de Santa Catharina; o commandante Vicente Villas-Boas, 
fugiu espavorido e o combate foi uma \'ictoria para os repu- 
blicanos que fizeram 77 prisioneiros, muitas mortes, e toma- 
ram 4 escunas de guerra. 14 embarcações mercantes, 463 
armas de infanteria, 1(5 boccas de fogo, 3().620 cartuchos 
emballados e muitas munições de guerra. 

Proclamada a Republica neste rico território do Brasil, 
só comparável ao sul da Europa no clima c producções, 
David Canabarro, reunido o conselho da Camará, officiou as 
outras municipalidades. Foi depois acclamado presidente da 
Republica o cidadão Vicente Ferreira dos Santos Cardoso. 

Organisou-se ministério composto de João António de 
Oliveira Tavares e António Claudhio de Souza Medeiros. 

José Garibaldi foi nomeado commandante da armada, 
augmentada com os navios tomados por sua bravura. 

Só a idéa republicana poderia ter força para armar e 
dar \âctorias tão assignaladas com tão minguados recursos. 



127 



Para se avaliar o heroísmo dos coml)at^utes da armada 
republicana ao mando de Garibaldi, é preciso não esquecer 
que o Governo imperial mandou 13 navios de guerra, e o 
general Andréa, que foi nomeado presidente de Santa ('a- 
tliarina, tinha um exercito ás suas ordens de mais de 9.000 
homens. 

Pois bem : os navios da Republica quasi venceram no 
ataque, e deixaram mais de 200 mortos entre os marinhei- 
ros da armada do império, perdendo elles 180 homens. 

Em combates destes, só a convicção e a dedicação 
heróica á Republica poderiam ter levado a lucta a um tal 
extremo. 

Foi preciso (jue Bento Manoel trahisse a Republica para 
que o Governo do Império pudesse vencer os heróes. 

A maioridade, apressada para satisfazer os desejos de 
paz no Rio-Grande, fez com que o govenio nomeasse Alvares 
Machado para presidente, e as longas luctas, a escassez de 
recursos, a defecção de Bento Manoel, puzeram fim a uma 
das paginas mais gloriosas da Republica Brasileira nos dias 
perigosos de seu inicio na America do Sul. 

O governo imperial recorreu ao Barão de (Caxias que 
foi nomeado presidente e commandante das armas. 

O combate de Ponche Verde veiu dar os últimos golpes 
aos heróes que se bateram como leões por espaço de dez 
annos. 

Não se pôde imaginar a lucta desigual da Republica do 
Pij;atinim com o Império, sem se admirar o vulto do seu pre. 
sidente Bento (íonçalves. (1) 

A assembléa republicana eleita em Outubro de 1840, só 
pôde se reunir em Dezembro de 1842. Ahi 22 deputados att^s- 



(1) Como é que até hoje o Estado do RIo-Grande deixou de pagar a divida 
que tem para com este grande cidadão ? e nem ao menos se votou uma verba para 
uma estatua, á táo valente general. 



128 



taram com sua presença a fé republicana, Bento Gonçalves 
leu o seu relatório expondo as causas da demora da reunião 
da assembléa (jue liavia eleito para seu presidenta o padre 
Ildebrando de Freitas Pedroso. 

Foi nomeada uma conunissão para agradecer os rele- 
vantes serviços feitos a Republica do Brasil pelo seu pre- 
sidente. 

A Constituição da Uei)ublica Rio-(irandense não foi 
tão sympathica ao Brasil como o martyrio de Tiradentes, 
porque este morreu pela Republica do Brasil unido, grande 
e generoso como o fez a natureza; ao píusso (pie os republica- 
nos rio-grandenses queriam a separação do território constiiu- 
indo-o em uma Republica aparte. O beroismo, porém, de tantos 
reimblicanos tem sido mal comj)reliendido, c os cbefes poli- 
ticos (pie tem d-ominado de[)ois da proclamação da Repu- 
blica de Piratinim s(5 tem querido fazer politica, fazendo exi- 
gências para aquella terra generosa, de modo a coUocar 
semj)re o direito da força contra a força do direito, e dahi 
vem que ellcs licam fortes, mas o Estado fraco. 



Cremos que será lida com interesse a carta (pie em se- 
guida transcrevemos, dirigida pelo glorioso general (niribaldi 
a Domingos Jo.sé de Almeida, ministro da malograda Repu- 
blica de Piratinim, pai do actual deputado dr. Piratinino de 
Almeida. 

Eil-a : 

« J. (íaribaldi a Domingos José de Abneida — Modena, 
10 de setembro de 1859. 

Meu estimadissimo amigo— Quando eu penso no Rio 
Grande, nessa bella e cara provincia ; quando penso no aco- 
Ibiniento, com (|ue fui recebido no grémio de suas familias, 
onde fui considerado íilbo ; quando me lembro das minhas 



129 



primeiras campanhas entre os vossos valorosos concidadãos, 
e dos sublimes exemplos do amor pátrio e de abnegação que 
delles recebi, eu fico verdadeiramente commovido ! 

E. . . esse passado de minha vida se imprime em minha 
memoria como alguma coisa de sobrenatural, de magico, de 
verdadeiramente romântico ! 

Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais 
disputadas ; mas nunca vi em nenhuma parte homens mais 
valentes, nem cavalleiros mais brilhantes que os da bella 
cavallaria rio-grandense, em cujas filas principiei a des{>rezar 
o perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das 
nações ! 

Quantas vezes eu fui tentado a patentear ao mundo os 
feitos assombrosos, que vi effectuar essa viril e destemida 
gente, que sustentou por mais de nove annos contra um 
poderoso império a mais ení^urniçada e gloriosa luta ! 

Não tenho e8crij)to semelhante prodígio pela carência de 
habihtações, porém a meus companheiros de armas por mais 
de uma vez tenho commemorado tanta bravura nos comba- 
tes quanta generosidade na victoria, tanta hospitalidade 
quanto affago aos extrangeiros, e a emoção que minha alma, 
então ainda joven, sentia na presença e na magestade de 
vossas florestas, da formosura de vossas campinas, dos viris 
e cavalheirescos exercidos de vossa juventude corajosa ; e, 
repassando pela memoria as vicissitudes de minha vida entre 
vós, em seis annos .de activíssima guerra e da pratica cons 
tante de acções magnânimas, como em delirio, brado : — Onde 
estarão agora esses belicosos filhos do continente, tão mages. 
tosamente terríveis nas batalhas ? Onde Bento Gonçalves, 
Netto, Canabarro, Teixeira, e tantos valerosos que não 
lembro ? ! 

Oh ! quantas vezes tenho desejado nestes campos ita- 
lianos ura só esquadrão de vossos centauros avezados a car- 



130 



regar uma massa de iufanteria com o mesmo desembaraço 
como se fora mna ponta de gado !. . . Onde se acham elles? 
Que o Rio-Grande atteste com uma modesta lapide o sitio 
em qu»í descançam os seus ossos ! e que as vossas bellissimas 
moças cubram de flores esses santuários de vossas glorias, é 
o que ardentemente desejo — José Garibaldi. y> 



PARTE IX 



O Rio-Grande do Sul com este movimento salutar de 
patriotismo deixou tão profundas raizes no coração do povo 
ferreiro, que nos excessos de uma liberdade sem limites, 
affuelle Estado tem sido presa de caudilhos que exploram, ainda 
hoje, a natureza de um povo digno, mas que não tem tido 
verdadeiros chefes cora orientação da ideia republicana fede- 
rativa. Os chefes se engrandecem a custa da sua terra que 
elles tornam pequena e infeliz. 

Canabarro foi, porém, um bom cidadão, intimamente 
ligado ao popuhir Garibaldi emquanto morou no Rio-Grande, 
e bebeu . com este o chimarrão do Rio-Grande que elles 
apregoam com satisfação como uma bebida que faz amigos 
da liberdade os que d'ellausam. 

Cora as virtudes guerreiras de Garibaldi e Canabar- 
ro, poude-se alcançar victorias contra o governo legal, e ter- 
se-ia estabelecido difinitivamente a Republica de Piratinim, 
se houvesse mais cohesão no modo de se fazer a propaganda 
no Brasil, visto que o veneno do mal injectado pelo Duque 
de Palmella ficou em todo o Brasil. 

Sabe-se do esforço feito por este diplomata para fa- 
zer com que cada provincia se emancipasse da tutella de 
Podro I, por que assim, enfraquecidas, o velho reino podia 
vir a governal-as, contando com o sangue dos portuguezes que 
ficassem morando n'ellas e que, desde o Pará até o Rio Grande, 
estavam donos do commercio. 



132 



Só mais tarde por causa do tratado feito com a Albion 
os inglezes podcram se apossar do commercio do Brazil até 
182G, e rapidamente deslocar os portuj^uezes, e isso explica o 
ódio que estes tiiiliara ao Manjuez do Maranhão Lord Co- 
ckrane, que tantos serviços prestou a independência, des- 
truindo as artemanhas do elemento portuguez, mesmo de- 
pois que o chamado partido portuguez tomou conta de 
D. Pedro I ao ponto de alcançar deste o desterro dos An- 
dradas. 

Estes patriotas brasileiros tiveram uma falta grave, qua 
foi a de não fazer deste paiz em IS22 uma RepubHca sem 
escravos. 

Pelos documentos que vem na biographia de J. Canning 
vè-se que a elles se deve o não ser feita a abolição dç 
escravidão, 

Dominado o elemento perturbador da nossa indepen- 
dência, acabado o fermento que produzia o elemento por- 
tuguez na esperança de fazer o Brasil voltar ao seu dominio 
teve o imperador Pedro I que se ver com os que queriam 
governar com o povo e para o povo. 

O 7 de Abril fez lhe ver quanto se tinha engana- 
do em pensar que com a estima do povo, se tem direito a 
não lhes dar satisfação pela liberdade que lhes falta, ou 
que lhe foi supprimida. 

Seu filho I). Pedro II teveignal illusão, ainda que tarde, 
e quando iniciou o seu governo, sentiu bem que a idéa re- 
pubhcana devia cedo ou tarde tomar conta do Brasil, (1) 



(1) Isso mesmo elle nos declarou, quando tivemos a honra de lhe fallar sobre a 
necessidade de se acabar com os escravoa, porqne o partido republicano estava forte 
era a. Paulo, e era melhor que um governo desse esta grande lição de amor á liberdade 
Elle nos interrompeu, dizendo com bondade paternal : Sr. Jaguaribe, creia que se en 
náo fosse imperaJor. seria republicano, e se eu e minha familia soubéssemos que éramos 
um embaraço a esta forma de governo, eu e ella nos retiraríamos. Esta declaração 
nós a fizemos, quando escrevemos em defeza da Republica na Europa em 1890 e tam- 
bém em nosso livro escripto para o mesmo 1!m em 1894 em Bruxellas : Tm Infltienct' 
de la lihetté et de VaclavOege. 



7 .-=" 



133 



Terminadas as luntas, a ambição do mando engrande- 
cida pela intriga local e a corrupção do império, fez com que 
o chefe Bento Gonçalves fosse provocado por Onofre Pires, 
tendo ambos sido sempre amigos e desafiando aquelle a este, 
que era forte e muito possante, ao passo que era fraco e 
de pequeno porte o legendário Bento Gonçalves, aconteceu que 
em duello singular sem testemunhas, fosse morto Onofre Pires, 
o presidente querido que havia sabido fazer de um punhado 
de bravos um batalhão de heroes, ainda mais ganhou no con- 
ceito dos que admiram a bravura dos chefes immortaes. 

Preso o presidente, o governo da republica o fez soltar 
allegando que a morte fora feita em defesa da honra. 

Entre o barão de Caxias e os republicanos foi estipu- 
lada a paz que se firmou com as seguintes clausulas: 

1.® Amnistia geral e plena para todos os que se envol- 
veram nas luctas. 

2.0 Isenção do serviço militar e da Guarda Nacional 
para todos o.s que serviram a rebelUão . 

3.*» Garantia das honras dos postos para cada um que 
os adquirira. 

4.*^ Pertencerem os escravos que serviram na guerra ao 
Estado que os indemnisariam aos seus senhores. » 

E' preciso dizer que a declaração solemne e categórica 
de David Canabarro, na proclamação feita quando se esta 
beleceu a páz, tem na sua singelesa muita eloquência, por 
que ella não negou aos republicanos a gloria de se terem ba- 
tido para fazer nossa pátria mais cedo do que muitos que- 
riam entrar no regimen geral da livre America. 

Eis as suas palavras: 

Concidadãos ! Competentemente autorisado pelo magis- 
trado civil a quem obedecemos e na qualidade de comman- 
dante em chefe e concordando com a máxima vontade de 



134 



todos os ofticiaes da força do meu eommando, vos (leclaro 
que a guerra civil que por mais de 9 annos devasta este 
bello paiz está acabada . » 

Durante o império a acção do governo monarchico foi 
no sentido de levantar os créditos do soberano, para (|ue 
assim ficasse também conhecido o Brasil . 

Mas nâo ha maior decepção para um patriota (jue viaja 
no estrangeiro, como seja o ver (pianto é desconhecido o Brasil. 

O Imperador bom, justo, íunigo do Brasil, apercebeu 
que com seu longo reinado elle contemporisou de mais com 
os escravocratas, i»roeurou elevar todos os (pie se faziam repu- 
blicanos, até alguns (pie por espcííulação se tizeram secretá- 
rios dos Clubs, foram logo promovidos a presidenta do Con- 
selho . 

Outros foram elevados a altas posições, e por fim, não 
duvidou de entregar o poder áquelle (|ue mais mal i)odia 
fazer as idéas republicaníis. 

Mas assim c(mio viveu, morreu. 

Os que vinliam em seu auxilio apressavam a sua queda 
como se uma lei fatal e ignorada estivesse a arrastar os 
obreiros da politicagem para a voragem da valia commum, 
na qual desappareceram . 

Os que sobreviveram aos acontecimentos também se 
precipiúiram no mesmo aFjysmo, e o <pie impressionou foi 
que alguns chegaram mesmo a exceder os velhos republica- 
nos no zelo de fazer o enterro da monarchia e do Imperador. 

Este facto faz lembrar o caso de Santa Clotildes, que 
tendo se casado com um rei protestante, este pornâogostar «lo 
secretario da rainha que vivia a resar e a ouvir missas 
combinou com o administrador das cocheiras reaes, (|ue 
quando lá enviasse um individuo a saber se ^ estava prompta 
a ordem» o fizesse metter nos fornos para (jue desappai('(.'csso 
para sempre. 



135 



Aconteceu que dando a ordem que o secretario levou, 
com íis palavras que serviriam de senha, o secretario ao pas- 
sar pela Igreja foi ouvir uma missa cantada . 

O rei impressionado por tanta demora em ser avisado da 
perpetração do crime, que a consciência fazia-o ainda mais 
inquieto, disse ao seu ministro em chefe — tomae um car- 
ro, ide indagar o que houve e porque não mandaram me di- 
zer «se estava tudo prompto. » 

Apenas o chefe do gabinete perguntou ao fiel empregado 
se estava tudo prompto, em um minuto foi atirado nás vora- 
^ns das charamas . 

Logo dei>ois da mis.-^a, o secretario da Rainha foi dar o 
seu recado e trouxe ao Rei o resultado de suas ordens. 

O fiel ministro encarregado e cúmplice na execução dos 
crimes pagou o pato . 

Estes e outros factos acabaram por converter o Rei á 
religião. 

A Republica também ia já convertendo o nosso Rei 

No Brasil, os próprios imperantes têm sido as victimas, 
<le sua umbivão, elles temido atrazde um ideal de proven- 
tos para si e familia, mas a familia brazilCira preferiu sempre 
nâo aceitar os pre-sentes, quer elles fossem liberaes como 
a constituição outor-gada, quer de condescendência como a 
liberdade concedida aos escravos . 

Ha no fiHido das cousas luna justiça que só a verdade, a 
sinceridade e a virtude que não transige com estes compa 
obeirospodera vencer e triumphar ; a((uelles que se aproveitam 
das circunistancias para se fazerem grandes homens, não 
passam de pequenos desta lei fatal que os historiadores 
operam com o doce e eterno sentimento do dever. 

S.Paulo, 1Õ-11---94. 






NOTAS 



Joaquim Norberto ein seu trabalho intitulado « Tira- 
dentes e os historiadores oculares de seu tempo»», fez sentir 
que o seu enthusiasmo se arrefeceu quando, estudando o pa- 
triota, elle teve de reconhecer que « os annos que passou na 
masmorra, segregado do mundo, o colóquio com os frades 
Franciscanos, que lhe transmudaram as idéa«, os conselhos 
que lhe deram os seus juizes com fementidas promessas, 
tudo isso transformou o conspirado em um liomem eivado 
de mysticismo. 

c Prenderam um patriota, executaram ?» 

Esta argumentaçílo ó falsa porque para um espirito re- 
volucionário a Religião é apenas um bálsamo, para o pa- 
triota um instmmento, para o martyr um sonho. 

As ultimas palavras de Tiradentes, ao subir a forca, 
revelam que sua alma estava cheia da fé com que iniciara 
a conspiração para libertar o Brasil. 

Elle hoje vive com a justiça da posteridade no coração 
do povo pelo qual morreu e aquelles que têm dito que o 
martyr não teve valor algum, aquelles que não souberam 
honrar a liberdade que elle defendeu, têm sido ou repre- 
sentantes do governo, ou do povo na Republica, ou não 
passam de idolatras de um poder que só tem por fim o do- 
mínio da liberdade dos outros, no próprio proveito. 

A*quelles, as suas consciências servem de castigo, a çste9 
o povo castigará. 



137 



Em ambos os casos a sua meinoria perdura, porque os 
prejuisos e preconceito desappareceram. (1) 

«Acabo de assistir á posse do novo presidente da Re- 
publica—Prudente de Moraes. 

O acto foi solemuissimo e ^audemente concorrido, pre- 
senciaiido-o não j>ude deixar de lend)rar-me da scena que, 
no mesmo logar. contemplei cm Julho de 1840, quando vi 
chegar c prestar juramento o Im|)erador. menino então de- 
clarad(» maior. Mal podia então imaginar, (pie [cassados 04 
aiinos, ali viria também prestar juramento um i)residente da 
liepubliea. Em meus sonhos de mocichide phantasiei sem- 
pre a republica no Bnisil; mas depc^is de 1848 comecei a du- 
vidar dé vêl-a em meus dias, quando de sid^ito élla sur- 
giu. Vejo agora esses sonhos em feivente realidade que tão 
intensamente me satisfazem a alma o mcí alegram o coração. 
Deus fade bem a Ueimbhca em nossa terra, e Hndarei- 
coiitente os meus dias, alias já tão adiantados.» 



(1) Não deixa o de ter interesse histórico a eartii que nosj foi dirigida pelo Çons. 
Araripe, filho do grande patriota Tristão Gonvalves. 



DISCURSO 



lido na se^^ísão de 4 de Julho de 189õ, do Instituto His- 
tórico e Geof/raphico de S. Paulo, em homenagem d 
Independe)ieia dos Estados Unidos 



PlillLiO 



M. (?J^Q//o,z/e 



e9tfeiíi> 



Meus Senliores. 

Escolhendo o dia de hoje, em que se corapletam cento 
e dezenove annos da definitiva declaração da independência 
norte-americana, para, com caracter solemne, celebrar mais 
uma de suas sessões, o Instituto Histórico e Geographico de 
S. Pmdo teve a intenção de patentear publicamente a sua 
admiração pela pátria de Washington, e prestar suas home 
nagens de respeitoso reconhecimento ao illustre presidente 
Cleveland, que ainda hontem replantou na nossa terra a 
sacrosanta arvore do direito, que alguns brasileiros parecia 
quererem á força arrancar do seio deste torrão ubérrimo. 

O nosso Instituto devia este applauso á maravilhosa Re- 
publica Americana — devia também este preito ao integer- 
rimo magistrado que nos manteve nas Missões, de cujo di- 
reito estivemos quasi a fazer doação criminosa. 

Republica e Direito — eis, pois, as duas estrellas, que na 
noite de hoje estão a scintillar no nosso ceo, como si fossem 
o alpha e o ómega, que da constellação americana viessem 



140 



cair na luminosa esteira do nosso Cruzeiro, sem igual nas 
eonstellações da intérmina celeste esphera. Applauso e preito, 
que para corresponderem em grandeza á eollossal grandeza 
do assumpto, igualarem em brilho ao esplendido fulgor da- 
quellas duas incomparáveis quantidades sociaes, só precisa- 
riam passar por palavra mais eloquente do que a do orador, 
(|ue exclusivamente o vosso affecto elegeu em hora de tre- 
menda responsabilidade para elle. 

Mas é tal o seu enthusiasmo pela Republica, a verdadei- 
ra, a pura Republtca. — ara santa em (juo sempre, em todos 
os passos de sua vida, depositou todas as crenças politicas 
de seu espirito — columna hebréa, (jue, menino, já debuxada 
via levantar-se nos incendidos arroubos de sua imaginação 
l)0rbulhante, moço, festejou nas louras estrophes de sua lyra 
intima, homem, acompanhou religiosamente pelo.-í arcaes da 
vida, e ultimamente mais zelava ainda i)or (jue a estava di- 
visando envolta na tétrica fumarada da anarchia politica ; 
é tal o seu culto pelo Direito —([ue elle invariavelmente adora 
como os hellenos a Zeus, os mahometanos a Allah, os roma- 
nos ao humilde philosoi)ho de Bethlem, os escravos a Spar- 
tacus, o polaco a Kosciusko, o húngaro a Kossuth, que é 
para elle a majestosa synthese do humano Kosmos — a mani- 
festação mais activa, efficaz, harmónica e eloquente da sobe 
rania da razão — a própria razão de ser do homem como 
espécie á parte na escala zoológica — que, senhores, a incom- 
petência do orador será attenuada [^ela sinccíridade com que 
vai, por alguns minutos, tediar a vossa complacente attenção. 

Si dos hellenos disse o mais illustre dos académicos ([ue 
Portugal tem tido, 7ido harrr poro, que mais do que ellcs lenham 
um lagar assignalado nos faustos do progresso humano, que <li- 
riamos nós dos norte-americanos, si houvera azo para vos 
fallar da inteira historia daquelle povo, (pie, com quarentji e 
dous milhões de habitíuites, concretisa toda a escala da evo- 
lução humana em sua mais expansiva actividade ? E na im- 



_ . ^,_^-:^t^t.^ 



141 



possibilidade de desdobrar-vos, no breve termo de meia hora, 
a completa pliysionomia dos inrpjadof! do Xoro Mundo, como 
lhes chama P^Uiott, o britaniiico, darjuelles incomparáveis en- 
genhosos, na expressão do t^aulez Laboulaye, dos predomina- 
dores do mundo, na escaldada phrase de ('astellar, o eastellia- 
110— com (jue ]inluu< mais sahentes (arei a construcvão do 
meu discurso V Filian<lo-nu' particularmente á Índole do nosso 
bistiluh, <lever(M tni<,'nr-vos o di^seidio geogra])hico d'a(juelle 
prodigioso solo. <jue do La^o Superior aos arrecifes da Florida, 
ede Nova York a 8. P^rancisco, tem la^os que, como o Mi- 
cliigan, arreniedam o mar; rios que, como o Mississipi, che- 
fiam a desafiar o Amazonas ; l)ahias (jue, ccmio a Long Bmj,2i 
Massachuseffs Hay, a (Jhesapeake Bny. confundem-se com o 
próprio <K*eano que as íorma ; montanhas que, como as Ap- 
palachians, são ])ara os Estados-Unidos o que os Ilimalayas o 
suo para o Hindostão, os Andes i)ara a nossa America; va- 
riedades geológicas inexgottaveis, a enriquecerem cresamente 
os proj)rios desertos das çjreat ivesiem plains : inexhaurivel 
fertilidade de terras, como as do valle do Mississipi, onde, 
durante cincoenta amios successivos, cresceram copiosas co- 
lheitas de cereaes diversos sem que o homem lhes levasse o 
miiiiino cultivo ; riquissima producção agrícola — vigoroso 
feno, succulento trigo, doura(Ui avea, a (trena safira de Lin- 
iieo, algodão único no commercio iiiternacional ; fauna abun- 
dantíssima, desde os mais humildes representantes da demo- 
cracia animal, como o rat^), o ultimo dos plebeos damninhos, 
até os mais arrogantes dictadores da ferocidade brutal, como 
ojíigiiar, o terror dos carnívoros; mineralogia variaihi e ri- 
quisshna : ouro, prata, coldre, IVrro, elunnbo, carvão de pedra, 
hoje o mais poderoso elemento da internacionalisação dos 
povos. ... que sei eu ! um nmn<lo de ri(]uezas physicas 
eternas? Deverei íiinda narrar- vos a historia dos Vnited 
Staies of America '^ Que thesouro de úteis ensinamentos ! 
quanta lição proveitosa, evidenciada na irrespondivel lógica 



142 



dos resultados práticos — imita vel, quando estes levaram di- 
reito ao caminho do bem estar social, repellivel, quando, 
oriundos da prevaricação governamental ou da deturpação 
moral do povo, por vezes estorvaram elles a marcha evolu- 
tiva da vida americana ! E no supposto de vos rasgar aos 
olhos o magico scenario de tão o[)ulenta historia, que feição 
me deverá ser a predilecta ? Irei, como na historia dos gran- 
des impérios das remoUis antiguidades, mergulhar-me nanoute 
dos tempos para buscar as origens do povo, que hoje, no 
meio da admiração universal, celebra o anniversario da sua 
independência politica ? Terei antes de sorprehendel-o já no 
momento de iniciar -se, com as j)rimeiras immigrações, pelos 
séculos XVIe XVII, nos princípios da já vetusta e, por isso, 
reformavel civilisação européa V Ou basta-me decantal-o na 
vigorosa pujança <le sua constituição actual ? 

Mas, senhores, historiar a vida politica dos Estados Uni- 
dos equivaleria, como disse Story, a fazer o curso completo da 
historia dahumanidndc ])rogressiva. The histary of viankind 
is aJl Ac/v;— repetiu Rolx^rtson, como si nesta única linha tives- 
se o grande historiador da America tido a idéa de compen- 
diar todos os passos da progressão histórica universal. 

E assim é. 

AHespunha e rortugalpelaafortunada caravellade Chris- 
tovam Colombo, tinham plantado, nas virgens terras do novo 
continente, o marco material da posse, que Alexandre VI, por 
intermédio de Fernando e Izabel, lhes permittira que tomas- 
sem. Naípielles tempos de ingénua simplicidade, o reino da 
egreja estava também, e quiçji principalmente, assentado in 
hoc mundo. A palavra do Christo não passava de um versí- 
culo biblico, etherea abstracção de raystico poesia . 

A Inglaterra foi a primeira a protestar contra a famosa 
bulia de 1495 : que direito tinha o papa de favon^-or as 
cortes de Castella e Aragão com o monopólio do nov > mundo. 



143 



então livre como o próprio sopro do divino croador de todos 
os mundos ? Henrique VII, o primeiro da dymnastia dos 
Tudors, investiu João Oabot na mesma missão que Colombo 
recebera das mãos da Rainha Catholica, e' com a descoberta 
da Terra-Nova, emergiu para a Grã-Bretanha o continente 
que hoje festejamos . ^ 

Era elle acaso alguma re.s nuHiiis ? Não : centenas de 
milhares de indigenas ali assignalavam o primeiro periodo 
da vida coUectiva» a primitiva cellula do organismo social : 
a industria pastoril debuxava os traços rudimentares da pro- 
priedade. A tribu anida não cedera logar ao estado. 

Depois, os Índios das poderosas tribus da Virginia, da 
Nova Inglaterra, dob Iroquezes, ao norte, da nova Jersey, 
Pensylvania, Maryland, ao meio dia, e dos Creeks, Cho- 
ctaws e Chi(;kasaws, ao sul, para não fallar senão das mais 
activas e fortes, foram os primeiros a banhar-se, como disse 
Morgan em sua Ancient Sockty, na alvorada de uma organi- 
sação politica. A evolução seguia a linha da sua normalida- 
de physiologica ; a biologia sociológica passava invariável por 
uma das provas da theoria dEspinas. Depois, na primeira 
década do século XVII, as duas grandes Companhias de Lon- 
dres e de Plymouth porfiaram no levantamento das mais fér- 
teis e ricas regiões das possessões inglezas, e mcíhante bem 
encaminhada colonisação, trouxeram-lhcs noções mais níti- 
das do direito, despertando a noção typica da propriedade pe- 
la funcção económica do capital . 

O sentimento jurídico já servia de base ás relações crea- 
das no dominio da vontade livre. Era a evolução (jue ascendia, 
heterogenisando as actividades e os institutos consoante a 
múltipla heterogenisaçâo dos órgãos e das necessidades. O es- 
tado começara a patentear sua constructura anatómica pela 
accentuação do funccionamento regular de sua existência ne- 
cessária. Mas só ao longe, ainda atufada na nebulosa de um 



144 



fiitiiro incerto, levantíivntn-se os róseos albores da naríonn- 
lidade, supremo degráo da escala evolutiva. 

A enérgica vitalidade americana, altamente apurada ao 
vasto cruzamento de muitas e variadas raças o castas, que ali 
se talhavam em crenças religiosas, em princípios j»oli ticos, cm 
costumes e hábitos, em cores v. preconceitos, na massa enorme 
de mil factores diversos, subia de intensidade consciente, como 
que intimando o século X\MII a retirar de seus lagos, de seus 
rios e inontuidias o ultimo annel da cadeia l)ritannica. Com a 
decapitação <le Carlos I fervera mais einditivamente o sangue 
da almejada liberíladtí no corarão das colónias; a Virginiu. 
sobre todas as outras, resistiu com altiva dignidade aos de- 
cretos do rei inglez, ea propósito da tentativa real para niono- 
polisar, em proveito exclusivo da Inglateri-a, a cultura do ta- 
biUíO, teve o governo da metro))ole i)rova eloípiente de (jue no 
novo mundo o sentimento da liberdade é tão indomável como 
as próprias terás de seus desertos virgens. 

As insólitas provocações de (iuilherme de Orange e seus 
successores, as pesadas exigências do Parlament\>, a vexatória 
regidaraentiiçâo dos imj)ostos, ás vezes levada até a maiscy- 
nica desfaçatez, como aconteceu com o slamp far, o suíjnr 
ar/, e outro.s, tornando intolerável o jugo da metro])ole, até 
então a custo supportado, furam o vendaval decisivo; e coju 
a mesma altivez das gigantescas e indomáveis quedas do 
magestoso Niágara, a 4 íle Julho de MlCy rebentou indómita, 
a lavar do solo pátrio, (piaes outras tantas nodoa.s aviltantes, 
os oppressores vestígios da cruel e orgulhosa realeza d'alem- 
Atlantico, a onda da sol)erania nacional. 

Estava feita a indei)endencia, e com esta, inij>lantada 
a nacionalidade norte-americana. K' (jue, como dos árabes 
disse John Adams, que bem [)odiam elles vender á Ingla- 
terra a própria actividade, mas nunca a soberania da Algéria, 
porque esta era da pátria, puderam os inglezes longo tempo 
traficar sobre o tral)alho americano, mas suffocar-lhe eterna- 



145 



mente a liberdade, não: esta era ali tão enérgica como a 
própria natnreza. Tinha de ser como foi, e já onze annos 
antes o annunciara um dos mais fogosos oradores inglezes, 
o famoso Barke, que Laboulaye chama o verdadeiro renovador 
da sciencia politica. aquelU qm a retirou do mundo dos sonhos 
para fundal-a sohre a observação. Em 1775, quando mais ar- 
rogante se tornara o 0(Uado filho e successor de Jacíjues II, 
aquelle a (|uem, com a mesma facilidade com (jue ura século 
mais tarde I). João \'^I de Portugal mandara que o filho 
piuesse sobre a cabeça a coroa do Brasil, dissera o famoso 
aliciador do parlamento, o devasso corruptor do grande Pitt, 
seginido a vibrante sentença de May, ao sentir visinho o termo* 
do seu reinado de sessenta annos : Jorge, sede rei ! ; quando 
aquelle temerário, que ainda enraivecido pela insolente 
emancipação americana, teve vinte annos depois a pasmosa 
insânia de tentar i-eprimir a volcaniea Revolução Franceza, 
procurava perturbar a natural evolução da liberdade das co- 
lónias, o fogoso Burke, apostrophando Jorge III, fazia-lhe 
vêr que, antes de governar uma colónia, preciso é lhe co- 
nhecer o caracter. E acrescentou : « No caracter dos americanos 
o amor da liberdade é o traço predominante, visto em todas 
as relações; e, assim como uma affeição ardente é sempre 
uma affeição ciosa, vossas colónias tornam-se suspeitosas, in- 
dóceis, intratáveis logo que percebem a menor tentativa de 
se lhes arrancar pela força ou se lhes subtrahir pela astúcia 
a única vantagem* pela qual vale a pena viver.» E como a 
America, senhores, não podia morrer, fez-se a independência, 
e com esta irrompeu de uma vez a vida americana. 

Já vedes, senhores, que o tempo não me chegara si eu 
tivesse de deter-me sobre qualquer dos grandes capitulos de 
tão grandiosa epopéa. 

Eil-o agora, o nosos irmão do norte, a nos servir de guia 
na nossa nova vida republicana. Sob que aspf.cto nos appa- 
recerá maior? Si fossenaos obrigados a percorrer-lhe a historia 



146 



contemporânea, qual devera ser. lepito, a linha predilecta? 
Efstndal-a pela l>io^raphia dos seus niaiores homens? pelo seu 
uommercio? pela sua industria? pela sua jurisprudeneia? pela 
sua instriicçâo? pela sua litteratura? pelo seu exercito einii- 
rinha? Mas (tada um destes pontos daria para um discurso 
ca{)az de encher- vos a attencão inteira. 

Seus grandes homens ! Desde Washine:ton até Cleveland, 
que luminosa galeria de varões ilJustres! Vede-os. os mais ce- 
lehres, a passarem pelo inlallivel trihunal da historia: 

Jorge Washington, <lescendente de fervoroso realista do 
tempo de Carlos I, aprendera, nas decepções <lo sou aiite- 
' passado, (jue se vira coagido, pelas violências do fatal emulo 
de Cromwell. a emigrar para a Virginia. eoino é que o ho- 
mem nascera para ser livre: sõ elle hastitria ]»ara dar ,á Ke- 
j)uhli(ía a seiva da liherdade. VítqiUf^tionahJii ihe (freatcst 
mari. como delle alHrmava Patrick Henry. Firsf itt peare. Jirst 
in ?rar, and fiVHt in ih(* hfdiis of his counirimvfK como reza a 
lenda virginiana, o primeiro ]»residente da federarão uneri- 
cana tem na historia o logar dos grandes symholos da huma- 
nidade. Foi, na eloquente expressão de Marshall, em sua Ufe 
of WasIiÍNf/fon, o (/hristo do século XVllí. 

João Adams, de outra famiha de emigrados, jurisconsulto 
eminente, como patenteara i*om o seu tiatado st»l)re a ('anmi 
Ldtr iind FcmJaJ Jau(\ foi um dos mais activos j)roi)agandishis 
da iiulependencia, e, ao lado de Franklin, Jay, Jefferson e 
Laurens, assentou as hases da tentativa *de paz com a In- 
glaterra em 1782. Seu i)assamento assignala-se por uma coin- 
cidência notável: morreu no dia 4 de Julho da 1826, justa- 
mente quando se comi)letava meio século da independência, 
que elle tão cuidadosamente cultivou. A sua ohra Drfenre 
of the (^oní^tiUdions of (hrrnwind of tlw United Statps, pu- 
l)lica(la em Londres, é ainda hoje um dos mais ricos manan- 
ciaes do direito puhlico moderno. 

Thomaz Jefferson, (jue por maioria de um voto vencera 



147 



contra a re-eleição de Adanis, era um Uilento de primeira or- 
dem: pliilosoplio e jurisconsulto de aprimorado cultivo, dis- 
pondo de invejável fortuna e solida in<lependencia, com co- 
piosa instrueçâo do direito internacional, que particularmeute 
cultivara como ministro na França, o terceiro presidente da 
Republica, e um dos productores da sua Constituição, é uma 
(las mais bellas e impressionadoras figiu^íts do século, que vai 
morrendo. E como o seu antecessor, morreu naquellc mesmo 
dia 4 de Julho de IS2(), sorrindo ao (juinípiagesimo anni- 
versario da sua forrd (Iniighter, (;omo elle chamava a sua 
Constituição querida. 

James Madison foi, na justa expressão de Story, one the 
most ciiiincnt, arcompUshcd, and rcspected of Amnican 
Meíimen. Paradeixal-o em plena luz na historia da civilisação. 
hasta lembrar (jue elle, com Jay e Hamilton, redigiu o Fede- 
rnJistn, o moderno evangelho da emancipação politica dos 

|>OVOS. 

James Mom'oe, alistado, como cadete, no exercito revo- 
lucionário com dezoito annos ai>enas, sentiu (jue o amor pela 
America mandava-o que estudasse a juris[»rudencia, e com 
JeiTerson iniciou-senoc(mhecim(Mito do direito. Tanto bastou pa- 
ra que em seu espirito, aperfeiçoado nas luctas diplomáticas 
que teve de sust^jntar na França e Hespanha, se formasse a 
idéa(|ueo immortalisou. Re-eleito presidente em 1820, hon- 
rando a imponente popularidade que o aureolava, foi\im dos 
seus primeiros actos o reconhecimento da independência do 
México e da« rei)ublicas Si d- Americanas, lógico ])refacio da 
promulg{iç*ão (jue se segniu <1a cliannida Monrors Docfrine, 
cujas theses culminantes (Micheram a historia do seu nome. 
Xa primeira se (Undarava <|ue - lhe American j^olirt/ of neither 
entamflwf/ o///-.sv7/rx in f/ie hroi/s of Fãirope, nor snffering the 
}ioi(Trs of l/te Old WorJd to Interfere with the affairs of the 
Npk'—: na segunda, que - ang attempt to e.vtend their siji^tem 



148 



to any poriion of thiii lieniisphere, ivould he dangerou^ to our 
peace atid safcty. 

André vv Jacksoii foi o prototypo da energia executiva, 
posta era prova nas varias crises económicas (jue embaraça- 
ram o seu per iodo presidencial. Vetando varias leis vindas de 
grandes maiorias, vencendo reiteradas luctas. e afinal acaban- 
do com o Bank of ffie United í^tates. Jackson foi um dos pre- 
sidentes que mais honraram a popularidade americana. 

Abrahão Lincobi, o segundo Washington da grande Re- 
publica, é a mais sympathica Hgura do mundo moderno. Was- 
hington subtrahiu a America do jugo metropoHtano : fez 
uma pátria — Lincoln, redimiu (luatro milhões de escravos : 
fez uma nova humanidade. A democracia achou nelle a íie 
expressão da própria majestade. 

E mais Andrew Johnson, Ulysses Grant, James Garfield, 
e finalmente Cleveland — eis ahi, senhores, quanto chegaria 
para glorificar o mundo. 

O commercio americano ! mas nelle tem o mundo mer- 
cantil moderno o mais correcto modelo da actividade honestai 
que é apropria essência, o principio vital desse Ashavero 
eterno. E tanto mais notável é a superioridade da grande 
Republica neste assumpto quanto é certo nâo haverem os 
artigos da federação regulado explicitamente as relações mer- 
cantis. Haja vista o ultimo meeting de Annapolis, que pro- 
moveu a convenção de Philadelphia, onde se devia tratar da 
regulamentação do commercio com as nações estrangeiras, 
com os diversos Estados da União e com astribus Indianas. 

E si nos detivessemos, senhores, na apreciação da indus- 
tria daquelle incomparável povo ? Applicai bem o ouvido — 
tanto, que possa elle prodigiosamente vencer o Atlântico e 
chegar a Nova York, Washington, Chicago,Philadelphia, Nova 
Orleans, Columbia, Nova Jersey, até qualquer cidade daquelle 
pandemonium do trabalho, e ouvireis o mais grandioso uni- 



149 



sono de quantos silvos podom irromper de quanta niachina 
o engenho humano possa hiventar jamais. A in<histria ame- 
ricana! mas si é aU (jue nasceu Edison, esse portento, que 
um século antes não passara de embusteiro necromante ! 
xV sua jurisprudência ! Mas o povo que esculpturou a 
Constituição de 17 de Setembro de 1787, <]ue jurisprudência 
pode t^r senão aquella sobre a qual Jhering muito mais tarde 
construiu a sua profunda definição : a jurisprudência é o 
precipitado da sã razão humana em matéria juridica — ? E, se" 
nhores. phenomeno admirável é esse observado por Thimoty 
Walker : a despeito da diversidade, entre vários Estados da 
União Americana, do direito material ou da substantive 
hw, natechnica de Jeremias Bentham, ha muitos e caractoris- 
ticoH traços de uma juris[>rudeneia americana. E si ponderarmos 
ainda, que a guerra da independência não podia apagar de 
chofre o amalgama do direito inglez, ali colomsado como o 
homem — aquelle informe mosaico, de que eram copiosíssimas 
incrustações a common law e a equitij law, proteicas formas 
do direito não escripto, e o quasi incommensuravel direito 
escripto, na phrase de Bishop, direito que só pouco a pouco se 
foi aut<:)nomisando nos Estados mais adiantados — nacionalisa- 
Ção juridica esta que, por sua Índole e extensão, mais avolu- 
mava a confusão do direito, repartindo-se nos estatutos colo- 
uiaes, nas constituições dos 42 Estados federados, nas nume- 
rosíssimas leis que cada um delles separadamente ia pro- 
mulgando, nas variadas consolidações das differentes fontes 
legaes da legislação — collecções de arestos, opiniões de juris- 
consultos, digestos, compêndios, formando tudo um milhar 
íle volumes, segundo o testemunho do já citado Walker, On 
American Law — si não perdermos de vista tão intrincado 
labyrintho, quanta admiração nos infunde a jurisprudência 
Americana quando vemos que toda ella se esteia reiterada e 
imperturbavelmente no primiâro cânon da Declaração dos 
Direitos de 1787 : Temos como verdades demonstradas por si 



150 



mesmas, que todos os homens foram creados eguaes e dotados 
pelo rreador de certos direitos inaliena reis, entre os quaes pri- 
mam a rida, a lil>erdade e o bem estar ! 

Não está acjui inteiro o código <lo direito luiivei^sal mo- 
derno ? 

E que admirável simplicidade lógica no completo des- 
dobramento- de todos os principion básicos do direito ame- 
ricano, assim compendiados por aípielle illustre professor do 
Cincinnati College : 

Primeiro : O poder pul)lico só age sobre a couducfa. 
nunca sobre as oinniòes dos homens. E a raxão é, diz Wal- 
ker, porque meras opiniões, emquanto não se manifestam por 
actos, nOo influem íd)solutamente uímu sobre as pessoas, nem 
sobre os bens. liesides, pondera elle. the rery attempt to regu- 
late opinions wouJd tte preposteru^ : for thoagh (forernment ^nay 
enforee oídward cottformitg, it camtot, iu t/te uatare of things. 
reach the inrard thoughts. E' quasi o brocardo romano: panam 
cogita tionis nemo patitar. 

Segiuido : E só age sobre a cawiacta ciriJ, nunca sobre a 
conâucta moral . A razão é, porque o governo nada tem com os 
homens senão na quahdade de cidadãos. 11 V cannot Ite good or 
had npon compulsio . Não podemos ser bons ou máos compul- 
sí>riamente. 

Terceiro: Os poderes públicos podiam ser ad lilíitnm revo- 
gados pelo povo. que os outorgou. A razão é. porque peri>e' 
tual powers ivonJd t>e incompatihle with liltertg. Poderes perpe' 
tuos são incompativeis com a liberdade. 

Quarto: todo systema de governo deve se fundar sobre 
perfeita egualdade de direitos. A razão (^ j)orque um [»ovo 
inteliigente não consentiria em outra cousa. Knjogivg this e- 
qnalityin the state of natnre, ne cauuot doutd that theg iroutd 
insist npon retaining it auder the compaef. 

Quinto: Em (|ual(|uer divergência deve jín^valv^cr a 
maioria. There is a fair presamption, that of two .<~id(^ of n que- 



151 



sfioít. thaf i>'it]p ou fvhich /li'' qrraU^^it nnmhor of free minfh con- 
eur. iíi th'' rifjh^ íiifh. Já líí soc^ulos antt^s ('hrisLo dissera aos 
apóstolos a mesma cousa. 

E sobre taes cânones assenta ainda a pedra angular de 
todas as lil)erdades: a perfeita, a nititla, a inceusuravel tliscri- 
miuaçâo dos três poderes constitucionaes, assim accentuada 
porTIiomaz ('(Ȓ)1(\v. reproduzindo Marshall, (Jonstitucio.ial li- 
mifaliom : o legislativo faz. o executivo executa, o o judiciário 
apjilica a lei. 

K (M>m() chave íle ouro para tAo opulento c c<»rrecto edifí- 
cio juridico. rememoremos a sentença de Iloffman. Tjetfnl ont- 
liwfc Thf' onhj eipiftlitfi fhat caii crisf amomi m^u /< an equali- 
h/ of vi<ihts a)i(l ohJi(iafio)iP. 

Já vê«lcs mais. senhores, (pie não me bastara o temjio si 
eu lae ])re<lilectassc ])(>r este lado da grande lU^publica. 

E a instrucvão publica americana? Para dar- vos uma idéa 
tio modo como os amcM-icanos consideram esse primeiro de to- 
ílos os factores do progresso social, bastaria pòr-vos diante dos 
ollios o seguinte artigo dn constituição <lo Estado de iMassa- 
ilaisselts. ali inserido a instancias de .John Adams: 

'O sal>er e a insti-nceão assim como a virtude es|>alhadas 
em geral ])elo povo. sendo necessárias a conserva(,'ão de sííus 
direit4>s e de suas liberdadi^s. e visto dependeiem das íaciliíla- 
(les (Ic educaeão espalhada pelos diversos ponto-? do paiz e 
classes diversas, é do dever da legislatura e dos magistrados 
cm todos os )>eríodos futuros desta Rejaiblica promoveremos 
interesses da litteratura e das sciencias e respectivos institutos, 
especialmente a Tniversidade de ('and)ri<lge. as pt4hlic sch oh 
^•à^ijmmmar achooh das cidades; animarem as sociedades pri- 
vadas e as instituições publicas [)or meio de i>ren)ios e immu- 
[lidades para a j)ropaga(;ão da agricultura, das artes, das scien- 
cias, (lo (ronnnercio, dos oíHcios, das mamifacturas e da histo- 
ria mitural do paiz; manterem entre o povo os |)rincipios de 
Inimauidade, de symi)athia geral de caridade publica e pri- 



152 



vada, de industria, de fru^alidade, de honestidade e exacção 
nas transacções, de sinceridade, deixam lunuor, assim como to- 
das as affeições sociaes e todos os sentimentos generosos. » 

Não é um [)rogramma completo de no})ilita<^âo intellectual 
e moral ? 

E' tão considerável o interesse (|ue os americanos ligam a 
tal assumpto, que este é ali verdadeiramente popular. Cpsí un 
objrf popukiire entre íons. attirma Carlier; e accrcscenta, que o 
relatório do coinmissario da educarão para o anno de 
1885 — 8(j lisonjeia o sentimento publico fazendo notar que 
os Estados e territórios desj)enderam na(juelle anno (*oin 
essa verba 111,304,027 doUars. ou mais de 222 mil contos de 
reis brasileiros, cand)io ao ]>ar, ou mais de õíV) md contos ao 
cambio de 10. si ali a Republica ainda estivesse a tactear iias 
ditficiddades de uma transic(,'ão, <jue não finda, de uma tíonso- 
lidação, (|ue não chega ! 

Ali, parallela á mais conq>]eta liberdade de ensino e de 
profissão, corre senq)re activa e vigilante a beneHca, a impre- 
scindivel inteiTenção do poder publico em (jual(|uer dos gráos 
da instrucção; e i)i)sto ([ueem [)arte alguma do uumdo tão am- 
plo seja o sentimento da liberdade como ali, onde o self gorer- 
nmcnt baniu de todo a antiga auctoridade cesariana, tanto mais 
asphixiante ([uanto mais pretenciosamente arrogantes são os 
seus inseparáveis pretorianos; ali. onde a vontade legislativa éa 
vontade do povo. onde a força do judiciário é a forca do j)ovo, 
onde o bra(;o do executivo é o braço do povo, porque o y^re- 
sidente da Republica é o seu serranf; ali. onde a verdadeira 
noção da liberdade não é a(iuella t|ue Michel Chevalier calum- 
niosanícnte lhe attribue (piando, nas suas fje/frcs sur V Amvri- 
qiie du NonL escreveu o seguinte: Para «pie não haja tyran- 
nia, preciso é cpie a ordem social reconheça um {)oder qu.e 
se interponha entre os dous typos em ([ue se divide a espécie 
humana sob o ponto de vista da liberdade (isto é. o activo, 
cujo primeiro movimento, em pi^esença da forçai, é resistir, e 



153 



opaí^sivo, que se resigim e espera), e tratando ca<la qual se- 
gundo seu temperai neuto, empregue, com um, a rédea, com 
o outro, a espora — medonha blasphemia, que não parece viiv 
(la (la ]>enna de um francez; ali, onde tudo é impetuosamen- 
te livre, toílos os Estados, todos os munici[)ios, toda,s as ci- 
(Imlos. todius as aldeias teem como intlispensiivel a interven- 
ção í!:ovemàmental na educarão e instrucção publica. 

(^uem se lembraria de dizer em pleno Congi^esso, na exe- 
(ii(;â() do mandato popular, esta . . . esta monstiiiosidade, cu- 
jo éeo ainda talvez esteja plangentemente vivo na sala do par- 
lamento federal : K preciso abolir os cursos ofticiaes. pon|ue 
elles estorvam o [)rogresso das scienciasV! Aipii taes cousas 
se dizem. ])or(iue entre nós, por decreto caprichoso de um 
rei já valetudinário e condescendência de inn ministro amá- 
vel, se confimde a liberdade do ensino com a liberdade da 
vadiavão. 

Mas ah ! o deputado que não vacillou em jogar aíjuella 
affronta ao magistério publico do meu paiz, accrescentou, 
felizmente para os nossos créditos, ((ue si sua meneia se hou- 
vpm^ limitado cío que aprenãea nas academias, muito pouco sa- 
bnia. Senhores, nunca foi tão franca a confissão de um 
péssimo estudante. 

E tu, ó bella terra de Washington e Lincoln, perdoa 
tão extranha barbaridade, e empresta-nos ainda o brilho das 
tuas lettras. 

A litteratura americm*ia ! só as bibliothecas das school 
disfricfs do Estado de New- York continham, ha 42 unnos, 
1,604,210 volumes ! A livraria de Pisistratus, era Athenas, 
a deTrajano, em Roma, a do Museo britannico de Londres^ 
a Nacional de Pariz, a do Vaticano, a imperial de Vienna, 
a A(Irocaie's Lihran/y de Edimburgo, a cuja vista ficámos um 
dia estáticos, dizendo : Mas deve ser a maior do mundo 1 
i5Óniente reunidas formariam egual. Todos os domínios da 
intelligencia humana estão fulgurantemente representados 



154 



naquella terra prodigiosa. A philosophia, eom C'hanning e 
Browson, a theologia, com Beecber e Emerson, o direito com 
Wheatoii e Hamilton, a jurisprudência. comClioate e Mar- 
shall, a politica, com Story e Dudley-Field, as sciencias ua- 
turaes, com Wilson e Taylor, a liistoria, com Prescott e Ban" 
-croft, a imprensa, com John Habberton e Ballard Smitli, a 
poesia, com CJooper e Longfellow, o romance e o drama 
com Stowe e Bret Harte : rutilante mun<lo de pujante in- 
t^llectualidade . 

Mas tamhem, senhores, terra onde se le, estuda e traba- 
lha mais do que em qualquer outra parte do nuUido— onde 
ha tantos Hvros quantas estreUas no céu e tantos jornaes 
quantas areias no mar — onde os legisladores federaes fauc- 
Oíionam na intimidade de mais de meio milhão de volumes— 
que 513441 tinha ha dez annos a bibliotheca do congi^esso 
em Washington — ha de forçosamente ser í« moderno empó- 
rio do progresso, que é a expressão pratica do direito vence- 
dor, por seu turno a formula exacta da força material vencida. 

A força americana ! mais imperiosamente reside ella na 
soberania da lei do que no poder mortifero de seu exercito 
e de sua armada. Em nome da l^i — vale tanto quanto a força 
bruta do ferro. Esta é uma das feições mais typicas que os 
yankees e virginianos conservaram da metrópole. 

Ijcmbro-me ainda do que vi no Casth-Roch^ da formo- 
sissima cidade de Walter Scott e John Knox. Um bello 
«oldado escossez fazia, ao longo da esplanada frontal do cas- 
tello, o seu rhytmico passeio sentinellar. Procurando ver a 
arma que comsigo devia trazer aquelle denominado agente 
•da força publica, observei que apenas empunhava curta e 
fina vara, tão flexível como o junco das lagoas ou dos brejos. 
A' observação de extranheza que lhe fiz, respondeu me. cora 
visivel orgulho, o meu guia : — Aquella vara representa a lei ; 
nem de mais precisa o soldado para se fazer obedecer e res- 
peitar. — E' assim também na Republica Americana. 



155 



Term feliz, cujo poder está no direito e não na força ! 
terra invejável, onde a força armada, emprestíindo a espada á 
Theniis, fal-f) exclusivamente para defender a balança onde a 
justiça pesa o mérito e demérito das -acções humanas ! terra 
privilegiada, onde o soldado de terra ou mar anda absoluta- 
mente incompatibilisíido com a politica do pmz, ponjue a sua 
única missão, a sua única j)olitica — missão nobre, politica pa- 
triótica — é obedecer ao poder civil, o qual é o poder único 
que faz a lei, a qual é o poder (|ue exclusivamente mantém 
41 vida nacional. 

Ali ! si em toda a pai-te do numdo fosse assim comj)re- 
hendida a acção da força militar !... 

E no emtiuito, a infallivel lição da experiência já deve- 
ra ter levado á altura de dogmas sociaes intangíveis, conhe- 
cidos conceitos dos mais eminentes homens de todos os 
tempos. Desde os rudimentares economistas da Macedónia, (pie 
^gundo Plutarco, dis[>ozeram-se a reformar, no anno 850 antes 
de Cliristo, os exércitos de Alexaiuh-e, até Montesquieu. o evan- 
gelista do século X^"III, que no seu Espirito das Leis teve esta 
phrase maj^Jiifica: Nous sommes pauvres aree les riehesses et 
le commera^de fouf runirers; et hientôi, à force d'avoir des sol- 
dais, noíís naurons phis que des soídafs, et nous serons comme 
des fartares (XIII. XVII); desde Montesquieu até o mais adian- 
tado dos estadistas contemporâneos, lereis phrases como estas : 
«A democracia considera o exercito como incessante ameaça 
contra as instituições populares e uma causa de ruina para o 
paiz » — diz Carlier, o mais profundo dos modernos historia- 
dores da Republica Americana. « O exercito é, para os Estados 
Tnidos, o que uma força de policia bem organisada e bem di- 
^iplinada é para uma cidade.» — dizia o secretario da guerra 
■da Grande Republica em seu relatório de 1877. «A força mili- 
tar, esclamava Thiers, o Messias da França, em um de seus 
mais famosos discursos de 18(37, é a força estática da nação. » 



150 



«A auctoridade luilitiir é essencialmente subordinada ao poder 
ci\nl» lê-se nas constituições de Kentucky, art! 13 § 26, da In- 
diana, art. l.« § 88, do Michigan, art. 18 § 8. o. 

E diante de verdades tâo uitidas. só nos resta rej)etir com 
Júlio Simon, quando discutia a lei francesa de 1H()7, sobre a 
reforma do exercito : Je sais hien quon pritt le contester, parcf^ 
qu'(yn2)('Uttout confesfer:maiss'il f/ a une reritvcridnite.cestcclh-Va. 

E a verdade de todas as veinladcs, senbores. como dizia 
Wasbington em mna <lesuas mensagens, enol-o refere Tocque- 
ville, 6 (pie só a sympatliia traz a \nvi e que sem esta não ha 
felicidade possível. Tois bem: na bistoria do povo cuja indepen- 
dência boje celebramos, resume-se toc^a a suave fres(*ura desse 
dulcíssimo sentimento, que um inspirado poeta nosso disse ser 
quasi amor. 

(íue maior elogio se 11 le poderia tecer? E si o meu discurso 
Hcou feito á força de me ser inqíossivel decantar mais eloíiuen. 
temente cada (jual das variadíssimas e nol)res feivões de tão 
opulento paiz, é (|ue ali cada linba é um livrf». cada Hvro uni 
c()(bgo, sobre todos os (juaes realça a dourada majestade do 
evangelbo da liberdade moderna. 

Salve! Estrellado akuiçar da Liberdade, a soberana rainha 
da Democracia, (pie tu redimiste do intolerante orgulho chi es- 
terlina metrópole para ser um século nuns tarde a gloria das 
duas America>5, salve! Tu. que és o mais fecundo povo da hu- 
manidade conhecida, (pie só com a tua industria e a tua Hber. 
chide enches de deslumbramentos fascinadores o compUciídi.s- 
siino sc(*nario da vida contemporânea, brilha, eternamente fulge 
no rutilante céo Ao Novo Mmido! E si, com melhor direito do 
(pie outro (jual([uer povo do mundo inteiro, podes repetir, na 
bella língua (jue é a tua, a ardente apostrophe de Sbakspeare: 

Thou, Liberty, art iny godess; to thy law 
My 8er\'íce8 are bound! 

- Liberdade! tu és a minha di\nnidade suprema! é a ti 
que emi)enbei os meus serviços! — 

o' terra de Washington 1 consunnna a tua obra — impleta 



157 



a tua(>l)n<íavri< K das 42 estrellas da tua gloriosa bandeira dt-s- 
iKJu muita luz s()l)i-(* as "21 do nossí» aniad(» auri-vcrdc jKMídãí»! 
XíU^ te pedimos nuiito, ])OÍs teus o dobro íl^i luz d(í (juo ainda 
|»n'CÍsiiiiK)s para (Mitrar d(*sass(un brada o dt^liuitivaiiuiitr uo fu- 
turo Píiuthouii díi lií'|>ul)lica ruivorsal! 



i 

v 



Actas das sessões 



Si*M}«â<» de in.stnlla(;a<», om 1 .0 ilo \ovenibro «lo 111114. 



Ao l.- dia (lo mez de Novembro de 1894, ao moio dia. nesta cidade de 
S. Paulo, em uma sala da Facnidade de Direito, reunidos, pi^ssoaimente e por 
procora^^ào, ««idadâos em numero de sessenta e nove, para o fira de se fundar 
nesia Capital o Instifnto Hiatmivo e (ienf^mpJhro de S. Paulo conforme 
convite anteriormente distribuído por uma commissfto composta dos Drs. Do- 
mingos Jajniaribe. Rstevam Leão Rourroul e António de Toledo Piza. o sr. 
Dr. Domingos Jaguaribe expoz o fim da reunião e propoz para presidil-a o 
sr. Dr. Cesário Motta Júnior, que foi unanimemente acclamado Presidente 
da assembléa e tomou assento na Mesa. convidando para senirem de secre- 
tários os sr. Drs. António de Toledo Piza e Domingos Jaguaribe, que 
taml)em tomaram asSenlo na Mesa. 

O sr. dr. Domingos Jaguaribe leu cartas de diversos cidadãos em que, com- 
munieando náo poderem assistir á presente reunião, por motivos imperiosos, 
declaram adherir á idêa da fundação do Instituto e pedem que sejam tidos 
como presentes e considerados como sócios fundadores. O sr. Dr. António 
de Toledo Piza e mais algumas pessoas presentes também declaram os nomes 
de diversos cidadãos que, não podendo comparecer, os encarregaram de dar a 
8ua adiíesão á idéa que motiva esta reunião e solicitar a sua inclusão na 
lista dos fundadores, devendo-se consideral-os como presentes. 

Em seguida o sr. Dr. Jiguaribe leu as bases dos Estatutos da Socie- 
dade, que são po5?tají era discussão. Por proposta do snr. Dr. Garcia Redondo, 
ê deliberado que o projecto de Estatutos seja approvado provisoriamente, 
devendo ser irapresso e distribuído, para era reunião posterior ser discutido 
e definitivamento approvado com as emendas que porventura os sócios apre- 
sentassem. 

Passon-se depois a nomear a Directoria que deve servir interinamente, 
spndo eleitos por acv*lamavão os srs. Drs. Cesário Motta Júnior, presidente. 
Domingos Jaguaribe, vice-presidente, António de Toledo Piza, secretario, Es- 
tevara Leio Bonrraul. Carlos Reis e Cónego José Valoia de Castro. 



IfiO 



P.>r propDsti (io yr. í)r. D.Jiiiiní)^ .í;iíUtiril)L\ uninimiMiiLMUe acopíla, fí>i 
ii(M'lamado Pn^sitlcMUt* honorário do Insiituto o sr. I>r. PriuleiUe «lost* cip 
M(írnps Barros. 

Niiia m\U havpinlo a trat-ir, o sr. I)r. tVíirio Motta d^elaron instal- 
■larto o liislinn4> Hislorieo e (íeojcraphico de H. Taiilo. dando parabéns ao Ks- 
tado, confíralulando-se com o.s fundadores de tíío importante instituição e es- 
pecialmente com os iniciadores de tão ''til idea, cnji brilhante realisavão os 
deve ter enchido de jubilo, e pronieltenilo tanto (|uandt> pudesse prestar seus 
serviços ã sucie<bide. 



H<>hif;ri4> dos s«»«*Í4».<^ 41114*^ roui|»;ii'<M*i'riim á i*<Miiiia<» psirst 
ii iiisliilla^^Ac» ilc» liisliliil«> o «loM «|iio l'«>riini 4*<»iisi«l4' — 
i*a(l4»s |>iM*sonl«».s |M»i* l<»r<»iii í<»il<» .se r«'pi*i»?*«»nl5ii'. 

1 l)r. Alfredo Moreira de Harros (Jlivfira Liuia. 

2 António Augusto da Fonseca. 

;{ Dr. Ai»l«tnir> Dino da Costa Haeno. 

4 I)r. António Ivvaristo Bíicellar. 

õ Dr. António Francisco de Paula Souza. 
G António Moreira da Silva. 

7 í)r. António de Toledo IM/a. 

8 Dr. Ar^emiro da Silveira. 
'.) Artliur ítoulart. 

10 Dr. Aufíusto de Siqueira Cardozo. 

11 Dr. Benedicto Fstellit^i Alvares. 

12 Dr. Bento Bueno. 

13 Dr. Bernardino de Campos. 
U Dr. Carlos Daniel Kath. 

15 Dr Carlos Keis. 

M) Dr. Cesário Motta dunior. 

17 Dr. Cincinato Brapi. 

18 Dr. t'lementino de Souza e Castro. 

19 Dr. Constante AÍTonso Coelho. 

20 Dr. Dominj^os do^é Nojrueira Jaguaribe. 

21 Dr. Fstevam Leão Bourroul. 

22 Dr. líufíenio Alberto Franco. 

23 Eugénio llollender. 

24 Dr. Fergo ()'Connor de Camargo Dauntre. 

25 Dr. Frunci.sco Ferreira Ramos. 

26 Francisco Ignacio Xavier de Assis Moum. 

27 Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo. 



1()1 



2H í)r, ílabriel Osório de Almeida. 
2ft í)r. ílustavo Koenitçswald. 
HO Henry White. 

31 T)r. Hermann von íhering. 
82 Dr. Hora*'? M. Lane. 

42 Dr. .loaé (Jabriel de Toledo Piza. 

43 í)r. José Machado de Oliveim. 

44 Dr. José de Sá Ro.-ha. 

45 Dr. José Valois de Castro. 

4C Dr. Jo.sé Vicente de A/.evedo. 

47 Jules Martins. 

48 Lafayette de Toledo. 

49 Dr. Lni7. de Toledo Piza e Almeida. 
õO Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 

51 Manoel Aupusto (lalvfto. 

52 Dr. Manoel FeiTeira (Jarda Redondo. 

53 Manoel Mareellino de Souza Franco. 

54 í)r. Manoel de Moraes Barros. 

55 Dr. Manoel Pessoa de Siqueira Tampos, 

56 Dr. ()r\ille A.Derl»y. 

57 Dr. Paulo Kpydio de Oliveira Carvalho. 
5« Dr. Pedro Auj^usto (íomes Cardim. 

59 Dr. Pedro Vicente de .Vzevedo. 

60 Dr. Prudente José de Moraes Barros. 

61 Dr. Raymundo l^^urtado Filho. 

62 Dr. Severino de Freitas Prestes. 

63 Tancredo do Amaral. 

64 Dr. Theodoro Sampaio. 

65 Theophilo Barbosa. 

66 Thomaz íSalhardo. 

67 Tiburtino Mondim Pestana. 

68 TristAo Araripe. 

69 Dr. ^*iriato Brandfto. 



Vresidencia do Sr. Th: Cesário Moffa Júnior 



Na sala nobre do edifício da Ks<'ola Normal, ao melo dia, presentes os 
Srs. Cesário Motta, Dominj^os .laj^uaribe, Carlos Reis, Estevara Bourroul. An- 
tónio Pizfi, Paula Souza, Assis Moura, Augusto Cardoso, Souza Franco, Jules 
Martin, Arthur (íoulart. Henry White, Carlos Rath, Theophilo Barbosa, Tan- 



162 



credo Amaral e Osório de Almeida, o Sr. Presidente declarou al>erta a 
sessão, convidando o director provisório Sr. Dr. Carlos Reis a senir interi- 
namente de 2." secretario. 

lí' lida, approvada e assignada pelos sócios presentes a acta da sessão 
de installaçio. 

EXPEDIKNTK 

Offlcio do Sr. l)r. Manoel A. de Souza Sá Vianna offereeendo ao Insti- 
tuto um exemplar da sua memoria historicji ^Oinvoenfa anno.s dr exifitfvcifíy, 
um dito do '(Catalogo da ejpo.st(;no dn,s tmhaJhos juridtcos* e uma medalha 
commemorativa da libertaviVo dos escravos em 13 de Maio de 1888. 

Por parte do Sr. Dr. João Mottn e intermédio do Sr. Presidente, foi 
oflferecido um manusí-ripto inédito contendo a <Oraçào fúnebre do Padre 
Diogo Feijó :í pronunciada por Cândido José da Motta. 

Foram tamhem recebidos dois e.vemplares dos Kstatutos do Instituto (leo- 
graphieo e Histórico da Bahia. 

Todas estas ofTertas foram recebidas com especial agrado. 

Foram considerad<ts sócios fundadoroá, em vista das declarações feitas 
por alguns sócios presentes, os Srs. Alberto Lofgren, Dr. Joaquim Floriaiio 
de ílodoy, Dr, Hypolito de Camargo, Dr. José ICátacio ('. de Sá e Benevides- 
Dr. Rodolpho Pereira, Dr. Augusto Cesário de Barros Cruz eDr. José Maria 
Valle, que, tendo sido convidados, não puderam comparecer á sessão de ins 
tallaç&o. 

0U1>KM DO DIA 

o ST. Presidente declara que achando-se inipresso e distribuído o projecto 
de Estatutos, vai submettel-o A discussão, flni especial da presente sessão, 
e consulta a assembléa si a discussão deve ser feita englobadamente, ou por 
capítulos ou por artigos. 

Usam da palavra alguns sócios, apresentando diversos alvitres, vindo porem 
a prevalecer a seguinte proposta do Sr. Dr. Osório de xVlmeida, a qual foi 
approvada : 

« Que em razão do pequeno numero de sócios presentes f«)sse adiada 
a discussão dos Estatutos para outra ses.são. convocando-se oa focíos por ctin 
vites indivíduaes e declarando-se que a assembléa funccionará com qualquer 
numero que comparecer.» 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a sessão, desi- 
gnando o dia 16 do corrente mez, neste mesmo logar e a mesma h<»ra, para a 
próxima reumão, sendo os sócios convidados imlividualmenle por convites 
especides. 



103 



;^* scsHÍio, t*m íii lie ne%eml»r<» <lc IIMI'i 

l^residencia tf o Sr. lh\ Ce.sario Motfa Jnnior 

Xa sala nobre da Kácola Normal, ao meio dia, presentes os sócios srs. 
Cftíario Motta. Carlos Reis, x\ntí)nio Piza, (rareia Redondo, Angust-o Cardoso, 
Onille Derby, Alberto Irtíf^ren, Pedro VWnte, Osório de Almeida, João Mon. 
ti»iro, Duarte de A/.evedo, Thoodoro Sampaio, Kstevam Bourroul, Domingos 
Jaguaribe. Luiz. Pixa, Paulo l'^'dio. Machado de Oliveira, Bento líueno. Moura 
Ksi-obar, Rodolpho Pereira, Viriato Brandào, Eugénio Franco, Theophilo Bar- 
bosa, Henry While, Carlos Rath, Macedo Soares, Tancredo Amaral, Jules 
Martin, Arihur (ioulart e Souza Pranco, o snr. Presidente declarou aberta a 
sessão. 

Poi lida. approvada e assignada pela Mesa a acta da sessfto antecedente. 

Furam considí^nidos sócios fundadores os seguintes srs. qne. por inter- 
nipilio de alguns sócios presentes, declararam náo torpm compiirocido á sessão 
de instaltação por motivos de for(,*a maior: Drs. Alexandre Plorindo Coelho, 
Padre Joatiuim Soares de Oliveira Alvim. i)r. Martinho Prado Júnior. I>r. Ma- 
noel Ferraz do Campos Sallos, l)r. João Nepomucemo Nogueira da Motta, Dr, 
Camlido Nazianzeno Nogueira da Motta, Dr. Manoel Pereira Ouimarães e Ga- 
briel Prestes. Achando-se este ultimo na ante sala, é convidado a tomar parto 
nos trabalhos, o que faz, ass'gnando o livro de presença. 

Não havendo matéria de expediente, pa-ssou-se á 

Okdkm do dia 

Entra em discussão o projecto de í'IstatuU>s. 

Usam da palavra, fazendo considerações a respeito e apresentando diver- 
sas emendas os so( ios si^s. Garcia Redondo. João Monteiro, Domingos Jagua- 
ribe, Hento Bueno, Carlos Reis. Osório de Almei<la e Duarte de Azevedo. Es- 
tando a honi adiantada, o snr. Presidente lembra a conveniência de ser adiada 
a disclissão para outra sessão, o, que foi unanimemente approvado ; é entáo 
levantada a sessão e convocada a seguinte para o dia 23 do corrente mez, neste 
mesmo logar ao meio dia. 



^,' Scsíi.sào, em ÍHl tl«; Dezembro «Ic IIMIi 

PresUlencia do snr. Dr. Cesário Motia Júnior 

No logar o hora do castiime, presentes os sócios srs. Cesário Motta. Carlos 
Rí^is. António Piza. Orville Derby, Domingos Jjiguaribf. tiarcia Redondo, Osório 
ile Almeida, João Monteiro, líypolito de Camargo, l*edro Cardim, Souza Franco. 
Alberto Lofgren, Henry White, Bento Bueno, Arthur (íoulart, Cândido Motta. 
Viriato Brandão, I^Istevam Bourroul, Tancredo Amaral, Assis Moura, Loiz 
Pi^a. Paula Souza e Duarte de Azeveilo, o snr. Presidenta declarou aberta a 
'«essão. 



164 



Foi* lida e approvada a acta da sessáo antecedente. 

Não houve matéria de expediente. 

Por proposta de alguns srs. sócios presentes, a assem hléa. attendendo ás 
razões apresentadas, deliberou considerar comu sócios fundadore^i os srs. Dr. 
Francisco de Paula Rodrigues Alv?s, August» Cnar Biirjona, LinJorf Rrne^t > 
Pereira de Vasconcellos, Henrique .^(Tonso de .Araújo Macedo, Dr. António .Joa- 
quim Ribas. Dr. José Cardoso de Almeida, Desembargadores Aur.^liano de Sou/J» 
e Oliveira Coutinlio, Dr. Alfredo Rocha e Emannuel Vanoníeti. 

O sr. Dr. Garcia R?dondo, nãj se oppmdo á admissão d" pess »as na 
qualidade de sócios fundadores nesle peri>do de constituição da sot-iedajlc. 
propoz e foi sem debate approvado que fossem admittidos e considerados 
sócios fundadores todos aquelles que o solicitassem até o dia 81 do corrente 
mez, uma vez que tivessem as qualidades necessárias, a juizo da Directoria, 
que ficava autoriseda a acceitar ou recusar até úquella data. 

Achando-se na ante-sala os srs. Augusto César Harjona e Lindorf de Vas- 
concellos, acceitos na presente sessilo, foram convidados a tomar assento na 
assembléa, o que fizeram, assignando o Mvro de presença. 

OiUiEM DO pi\ 

Continua em discussão o projecto de estatutos com as emendas apresen- 
tadas na sessão passada. 

Usam da palavra diversos sócios, sendo apresentadas mais algumas emen- 
das. Encerrada a discussão, procede-se á votavAo das emendas e afinal dos Es- 
tatutos englobadamente. Terminada a votarão, foi nomeada uma commissão 
composta dos srs. Drs. (iarcia Redondo, Domingos Jaguaribe e António Piza. 
para apresentar os Est^tntíjs ordenados e redigidos, fican<lo convocada uma 
reunião para o dia 30 do corrente, ao meio dia, neste mesmo logar, para a 
approva^ da redacção. 

ELEIÇÃO DA DIRECTORIA 

O sr. Presidente declara que, de accordo com a convocaçiU) feita, pas- 
sava-se á 2.* parte do.s trabalhos, que era a eleição da directoria. 

Nomeados os escrutadores, proc^deu-se a eleição, cujo resultado foi o se- 
guinte : 

Premdenfe 
Dr. Cesário Motta Júnior. 

Vice-presidente. 
Conselheiro Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 

/." Secretario. 
Dr. Carlos Reis. 

2.^ Secretario. 
Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo. 

Thesoureirn. 
Dr. Domingos José Nogueira Jagnaribe. 



105 



Kinda a apuração, foram 08 eleitos proclamados eemcossados dos seus caroços, 
agradecendo ne^te acto o sr. Dr. Cesário Motta a sua eleição e promettendo 
empregar totkw os esfor^nw a seu alcance para- a prosperidade do Instituto. 



5/ MCMHuo, em :M> cie ll«'x«*ml>i*o <le lltfl^ 

Presidência do .tr. Ih- . Cesário Motta Júnior 

No logarehorado costume, presentes os sócios srs. íVsario Motta, Souza 
Franco, Tiburtino Mondim, (Jarcia Redondo, Henry Wiiite, Bento IJueno, Osório 
de Almeida, Jules Marlín, António Piza, António Augusto da I^nsei-a, iíste- 
vam Rourroul, Cerqueira César o Tlieodoro Sampaio, o sr. Presidente declarou 
aberta a sessão. 

Foi lida eapprovada a acta da sessão antecedente. 
O sr. Presidente communica á assembléa que, de accordo com a delibe- 
ração tomada na ultima sessão, a Directoria tinlia incluido na lista dos sócios 
fundadores, participando-se-lhes a admissão, os seguintes srs. : 

I)rs. Vicente Liberalino de Albuquerque, José Alves do Cen|ueira César. 
Júlio César Ferreira de Mesquita, Arthur ('esar (.iuimarães, Augusto l«\mim, 
José Ferreira deCJarcia Retiondo, Eduardo Carlos IVreira, íiabricl de Toledo 
Piía e Almeida, Luiz de Anhaia Mello, Jorge Tibiriçú, João Alvares Rubião 
Júnior, António da Silva Prado, Francisco (ílicerio, Alfredo KIlis, Juyme St^rva^ 
Horácio de Carvalho, José Ferraz de Almeida Júnior, Braulio (iomes, Augusto 
César de Miranda Azevedo, José André do Sacramento Macuo, Cesário (Jabriel 
de Freitas, Joa^piim de Toledo Piza e Almeida, Joãí» Cândido Martins. Fortunato 
Martins de Camargo, Manoel Alves de S»m/a Sh Vianria, José Franci.sco Soares 
Romeo, Virgílio de Rezende, Francisco Martiniano da Costa Carvalho, Carlos de 
Campog, Carlos Botelho, António Carlos Ribeiro de A ndrada Machado e Silva e 
Jacob Itapura de Miranda. 

Communicou mais o sr. Presidente que, nos termos do § 2." do art. 20 dos 
Estatutos, e tendo ouvido a Directoria, constituirá as commissOes j»ermanentes do 
seguinte modo : 

I*. ComniÍHs^ào de reiju la mento» e e.^^tatulos 

Dr. João Pereira Monteiro. 
Dr. Severino de Freitas Prestes. 
Dr. Estevam I^eão Bourroul. 

12*. Commiís.^sao de udmi.s.sno de ?<oei<»M 

Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 

Dr. Bento Bueno. 

Dr. Luiz de Toledo Piza o Almeida. 



l(íí> 



T)r. António de TolodolMza. 

í)r. Dominjíos Josó Nof^ueira .Tagiiaril»». 

Dr. Manoel («Vrroira (íarcia Redondo. 

'S." <.'OnimÍNMa<» «le liisl«»i*ia i* (^slali.slÍ4>a <le 

S. I*aiil4» 

Dr. António de Toledo Pi/.a. 
í)r. Jay me Serva. 

Liifa.vetl(' de Toledo. 

7»^ C<»mniÍMsa<» úi^ lii.storia f|ei*al kítt |{i*;ixil 

Dr. José Rstacio Corrêa de Sá e nenevide.s. 

Dr. José Valeis de Casln). 

Dr. Aureliano de Souza e CHiveira C'outinh<». 

<»." |^<»mniiíssao de «|<^<ii|i*a|»lii;i <le S. I*aiil<» 

Dr. Theodoro Sampaio. 

Tancredo do Amaral. 
Dr. Orville A. Derby. 

7.* Coinmi.ssào do «fOo<|i'«i|»liia Ç|ei'al de» ISraxil 

Dr. José Vicente de Azevedo. 
Major Gabriel Presteíi. 
Tiburtino Mondim Pestana. 

iX," CoiiiiiiÍ!!iMac» d«> lil foral lira o inniiiisc*ri|i^^^ 

Dr. Pedro .Uif?nsto fiomes Cardim. 
Horácio de Carvalho. 
Francisco Ignacio Xavier de Assis Moura. 

ti." Commi.sNa«» do «««iiMKMas, iiiiiiii.*siiiali4*a 
<^ aroliCM»l«»«fia 

Dr. Paulo Kíiydio ,ie Oliveira Carvalho. 
Dr. Gabriel Osório de Almeida. 
Alberto Lof^^ren. 

IO." <^<»iniiií.sKà<» «lo arlo.*< o iiidii?tli*iii>« 

Dr- I^Tancisco Ferreira Ramos. 
í)r. Francisco de Paula Ramos de A/.eved<». 
Dr. I^nacio Wallaco da Gama Corhrane. 
V,m seguida passa-se ú. 



107 



OlíOF.M DO DÍA 



LlíIiK os KsUtiitos rorlif^idos jicia nimini^silo para osso fim nomeada e posta 
Hii (liscussilo (' (lopnis t'm voíavJioii r<»s|k'otiva rtulacçilo, é t'sta unanimemente 
approvadn . 

Na'lii mais havendo a tratar, osr. Presidente levantou a >íessrio, deelarando 
<|iio a primeira n'união a reali/.ar-se será a 25 de Janeiro vindouro, dia marcado 
pí^lus Rstatut4)s para com e<,*o dos tral)alhos.. 



I*. S<»»ssio ordinal*!», em líí» ilo .laniMfO ilc IIKI^ 

IW.fitlmna <1o ^tnr. ih-. Ce. sari o Moita Júnior 
No odifioio onde funeeiona o (íymnaKÍo do listado, as 7 l|2 horas da noite 
pre<(>ntes os soeios snrs. (Vsario Motta, Theodoro Hampaio. Maeedo Soares 
Mouni FiSC(d)ar. Antí)nio Carlos de Andrada. Aufjusto Cardoso, Clementino 
Cistro, Bento Hueno, Koares Romeo. Araújo Cintra, AU>erto Líifprren, ÍJabrie 
Prestes, Cantlido Motta, Manoel (Juimarâes, Theophilo JtarlM)sa, Alexandre 
Jíiedol. Henry White, <)r\ille F)ert)y, Tihurtino Mondim, Carlos de Campos, 
.I(»a'|uim Piza, Duarte de A/evedo. Furtado Filho, Augusto Barjona, Viriato 
Brantlão, Kujíenii) Hollender. Vir{íilio Rezende, llorace Lane, Jayme Herva, 
Mathias Valladilo. Si<|ueira ('ampo^, Paula Honza. Eugénio Franco, António 
Piza, Luiz Piza, Krne.sto Cohn. Tancredo Amaral, Moreira da Silva, Pedro 
ranlini, Souza Franco e Carlos Reis, faltando com participação os, snrs. (íar- 
cJA R'»dondo, l)omÍH}^()s Jaguarihe, Alfredo Kllis e Eduardo Pereira, o snr. 
Presidente convidí>u o íínr. l>r. António Piza a (K'cupar o logar de 2." He- 
rretario. e declan>u aherla a sessão, proferindo neste iK'to uma brilhan te al- 
l(M*ução . 

Lida a acta da sessão antecedente, foi approvada. 

EXPEDIENTE 

1." Secretario communica terem sido feitas ao Instituto as seguintes 
0/f'ertas 

Pelo Professor Fival de Teixeira Braga, o 1." fas<Mculo do seu Dirrio- 
nnyio (icofpapfnro, histórico, biofjraphiro v drsrrijifivo da J^oi^iyiria do 
/Vrtnápsete números da Iirrisfa do l*araná, jormú illustrado por ellepu- 
blicudo em IS8T. 

Pelo snr. António ííomes de Azevedo Sampaio, um exemplar da sua 
monographia Saara oit M((i}liu-iiára . 

Pela (aunara Municipal de Santos um exemplar da sua Constituição. 

Pela Sociedade Pharmaceutiea Paulista, um exemplar dos seus Estatut*)S' 

Pfl» SKMo snr. Jules Martin, a Planta da (*idade de São Pauto em 
1^10 (mappa). 

Pela respectiva redacção, o l.'' fascículo da lieriifta Broífileira. 

Toias eitas offertas são recebidas com especial agrado. 



1(58 



O sr. Prosiílent^ e(«inmunií'a que, em virtude da deliberaçàodn assembléa 
na sessiV) do 28 de Dezembro próximo findo, a I)ir?i*U>ria incluiu no quadro 
dos sócios fuudiidores mafe os seguintes snrs. : F)rs. Theodoro Dias de Car- 
valho, Ant4>nio Franoisfo de Araújo CintM, .loAo de Arruda Leite Pent<»ado. 
dosp Haptistii Pereira, Luiz Anionio de Souza Ferraz, Alexandre Riedel,José 
Luiz de Almeida Nojçiifira, \Vt»nceslnu de Queiroz, José Maria Lisboa. Mathias 
Valladão, Martim Franeiseo Ribeiro de Andrada Sobrinho, lírnesto de Moraes 
Oihn, António Pereim Prestes e Oscar Horta, aos quaes foi participada a 
admissão. 

Oll!)EM no DIA 

Da parte do snr. Dr. Domingos Jaguaribe, é apresentado um sen tra- 
balho intitulado 0/'fV/í^«.v lUpuhíiruutts do Iita/>il, o qual vai á CV)mmiss&o 
de historia geral do Brasil para emittir parecor. 

Pelo snr. Presidente são apresentadas a,s seguintes theses, que sôo ac- 
eeitaíí pela assembléa para o fím de serem desenvolvidas em eonferencias pelos 
snrs. sócios : 

1 Das divisai tie S. í*aulo com os KstAdos limotrophes. 

2 Da influencia do rio Tietê na civilisa^fto de S. Paulo. 

3 Missões jesuíticas do (Juayrá. 

4 Da viaviío férrea em S. Paulo, no passado, presente e futuro. 

5 Da geographia meilicii dè S. Paulo. 

6 Da flora e fauna de S. Paulo. 

7 Influencia do estudo do direito em S. Paulo na civilisaçÂo do Brasil. 

8 Das finanças de S. Paulc, no pa.s.sado, no presente e no futuro. 

9 Da língua portugueza e das modiflcaçíies que tem experimentado era 
S. Paulo. 

10 Da imprensa de S. Paulo e de sua inflnencia desde os seus primeiros 
tempos. 

O sr. Duarte de Azevedo lembra que seria conveniente dirigir-se uma 
circular ás (.'amartis Municlpaes do Kstado solicitando a remessa ao Instituto 
<le dociynentos (|He existam em seus archivos que se refiram a pontos da 
nossa historia ou que tenham importância ou interesse geral, porque assim 
obter-se-iam elementos para o estudo das theses a desenvolver e para a or- 
ganisação de trabalhos, tornando-se também uma fonte de material para a 
«Revista» a publicar. 

Osr. Presidente dwlara que a Directoria tomará em considaravão o alvitre 
indicado. 

Nada mais havendo a tratar, foi levantada a sessão. 

2.* SessSo em 21 de Abril de 1895 

Prf.s/í/cwr/rt í/o.sr. ('(m.sefheint Dr. Maimel António Duarte de Azevedo 
No eiliflcio do (iymnasio, ás 7 horas da noite, presentes os so<^ios srs. 
Duarte» de Azevedo, Tristão Araripe. Henry White, Carlos de Campos, Do- 
mingos Ja^uaribe, Augusto Cardoso, Orqueira César, Osório de Almeida. 
Tiburtino Mondim, Theophilo Barbosa, Liberalino de Albuquerque, SôaredRo- 



169 



meo, Paula Sonza. Mathias Valladfto, Augusto Barjooa, Pedro Vicente, 
Arthur Goulart, José Vicente. Evaristo Baeellar, António Piza. Tancredo Ama- 
ral e Carlos Beis. faltando por motivo Justificável os srs. Cesário Motta e 
Garcia Redondo, assume a presidência o vice presidente sr. Conselheiro 
Dr. Duarte de Azevedo, convida osr. Dr. Paula Souza a occupar a cadeira 
de 2.** Secretario e declara aberta a sessio, expondo em brilhante alloouçfto 
o fira especial da mesma, que é commemorar o anniversario da morte do martyr 
da liberdade — Tiradentes. 

Poilida e approvada a acta da ultima sess&o. 
O l.* Secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 
Officios 
Do sr. Dr. Prudente de Moraes, presidente da Republica, agradecendo a 
sua nomeaç&o de presidente honorário deste Instituto, fazendo votos pela sua 
prosperidade e promettendo-lhe seu apoio. 

Dosr, Dr. Benardino de Campos, presidente do Estado, accusando acom- 
municacáo que lhe foi feita de ter-se instaliado este Instituto, fazendo votos 
peia sua prosperidade e promettendo-lhe seu apoio. 

Do sr. Dr. António Gonçalves Ferreira, ministro da justiça, no mesmo 
sentido . 

Do sr. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, ministro da Fazenda, no 
mesmo sentido. 

Do sr. Dr. António Olyntho dos Santos Pires, ministro da Industria, no 
mesmo sentido. 

Do sr. Almirante Elisiario Barbosa, ministro da Marloha^ no mesmo 
entido. 

Peio «Instituto do Ceará» : os dois fascículos da sua Revista relativos ao 
anoo de 1894. 

Pela Directoria do Serviço Sanitário do Estado : Boletim de Estatística 
demographo-ftanitariay fascículos de Janeiro a Fevereiro. 

Pelos respectivos autores : Uma revelação histórica, por Benedicto Galv&o 
de Moura Lacerda ; Compendio de Geographia do Paraná, por Luiz de França 
Almeida e Sá. 

Pelo sócio sr. Alberto Lõfgren : 

Boletim da Commissão Geographica e Geológica do Estado, fascículos 
ns. 9 e 10. 

Pelo Director do «Pedagogium Brazileiro», sr. Dr. Menezes Vieira: Me- 
morias e documentos escolares, ns. 1 a 8 ; Betnsta Pedagógica, 1 a 42 ; (com 
falta dos ns. 11, 28, 29e 80). 

Pelo Director Geral interino dos C'Orreios da Republica, sr. Dr. Martinho 
Vieira de Mello: Guia para a expedição de correspondência e malas ; Itine- 
rário para expedição de malas : tabeliãs diversas : Relatórios dos serviços 
dos correios, IHSO, 1889, 1892, e 1898; InstnicçÕes para o Regulamento 
de 1865 ; Regulamento dos Correios^ 1888, 1890 e 1894 ; Convenções postaes 



170 



1878 6 1891; Jnsfnwt^òe.S' fiirersas : Dísfriofos pnsfuc.s ífo /?{'» de Jntn iro, 
188Í) P 1893 ; liohihn Postal, fnscieulos ns. I, 2 o H dfsíe anno. 

l*ela,s rt»s|)(n»tivas rodacçõps : 

A Mndruf/adn, n. i\(* IH do hVvorciro ; Dinrin 0///*vVr/ do í^slndo, os ns- 
publicados do 1." do Janeiro dosto anflo onídianlo. 

Todas estas oflorlaj» silo recolddas com ospecial agrado. 

(MIDKM no DíA 

o sr. Dr. Jaf^imribe proeedo ú leitura do l)olli.s>tinio capitulo de suu ohm 
intitulada Orú/ens Iiepiihflmna.s do /í/vt://. relativo á Inconfiílencia mineira, 
onde trata com particularidade do vulto glorioso de Tiradenles, «endo ao lor- 
minar muito applaudido. 

Nada inaiH havendo a tratar, o sr. Presidente scieutifica que a T>irect<>ria 
resolveu marcar os dias 5 e 20 década mez para reali/,areni-s(* as sessões onli- 
nariaa do Instituto, convida os sócios a comparecerem no dia f» de Msiio ]»ní\imo 
fntun>, ús 7 horas da noite, neste mesmc» logar, e eiu-erra a sessilo. 



il.» sessão, oiii ri ih' MaÍ4» •!<* Dtlir» 

Prrsidinivin do sr. Dr. (\irlos lieis 

A*s 7 horas <1 a noite presentes os srs. Carlos Keis, Tiburtino Mondim, (1e- 
raentino Castro, Augusto Rarjona, Alberto Lofgren, Orville Herby, Henry White, 
Cândido Motta, Arthur íioulart. Domingos .laguaribe. António Piza, limulio 
Gomes. Valois de Castro, ííama Cochrane e Bento lUieno, faltando com partiei- 
paçjíoossrs. Drs. Cesário Motta e Duarte de Azevedo, assume a presidência, 
na faltado presidente, e vice-presidente, o l." Secretario, sr. Dr. Carbís Reis» 
que convida pahi occuparem as cadeiras do 1 ." e 2." Secretario os sócios srs . Dr. 
António Piza eTiburtino Mondim e declara aberta a sessiVo . 

Koi lidaeapprovada a acta da sessiulo antecedente. 

O 1." Secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE 
Offieins 

Do sr. Dr. Tranquilino Leovegildo Torres, presidente do Instituto (leo- 
graphico e Histórico da Pahia, accusando e agradecendo a parlicipavão (|uelhe 
foi feita da fundação do Instituto Histórico de S. Paulo, fazendo votos pela sua 
prosperidade e ofTerecendo seus préstimos. 

Do sr. Dr. Raul d'Avila Pompéa, director da Bibliotheca Nacional, no 
mesmo sentido e ofTerecendo uma collecçao dos Ant\nes dacjuella bibliotheca. 

Olfevtns 

Pela Directoria do Serviço Sanitário: BolvHm de Estai i st im, fascículo de 
Março . 

Pelo sr. Dr. Mello Moraes Filho: Arrliiro do Districto Federal, oi^ fiMiei- 
culos do anno de 1804 e os de.Ianeiro a Maio deste anno. 

Pelosr. Dr. Manoel A. de S. S.í Vianna : líelntnrio dos trahalhvs do 
Instituto da Ordem dos advogados hrazileiros x\o anno de 1894. 



171 



Pflo sr. I>r. Oscar Leal : 

O Aiiuiztmaw confcn-nciíi |»í»r ellt» realiza dn nu Sociodado do (i(M>^raphia 
do Lisboa. 

Polo sí)olo sr. Dr. ÍRnacio W. da fíaina Coohrano, os seus se^nintes 
traliiilhos : Stinrnmcnfo ifo poito cci/í/Kftufr Sanfns: Saufamviito de S. Paulo: 
A Companhia <le S. J*t(nfo v Jíin dv Janeii o v .stuLs i'(nid'ròi\s frimwnirn.s : 
Uf.síjale d(i K. h\ S. Paulo c h'io df Jnnriro: L{(/itida(;ào da ('ompun/na em 
rirf^ide do resgate. 

Tolo sócio sr. Arthur ííoulart : Kerísf^ Moderna, jí>rnal pedagógico, 
ns. 1 a 7. 

Hdo estíis offortas recebitlas eoiii especial aj^rado. 
, OUDKM DO T)ÍA 

Foram apresentadas, lidas e reinetlidas á Coininissílo dí* admissão do 
sócios as scírninlos pvífpostns : 

l.' Para sócio effectivo o sr. Luiz tie França Almeida e Sji, membro 
do Tnsíituto liihlorico e (íooí^raphico Braz il eiró, auior do «Compendio de ííeo- 
fçraphia «b» l*araná', assi^^nada por Carlos Keis, I)»»mingos Jtiguaribe e Ar- 
thur (íou la r(. 

2." Para sócio correspondente o sr. I>r O.-^car Leal, jornalista e oscrlptor 
bnizileiro. resi<lonte em Lisboa, aíssignada por Arthur (Joulart, Domingos Jagua- 
ribe e Carlos Reis. 

3.» Para s(»cio correspondente o sr. Dr. Krnesto (Joulart Penteado, advo- 
gado, membro do Conselho Superior de ínstrucçào Publica do listado, assig- 
nada por Carlos Reis. Arthur ííoulart e Domingos .laguaribe. 

4.» Para sócio correspondíMile o sr. Dr. Henrique Coelho, chefe da 1* 
Secçíio da Secretíiria de Jusliva do listado, assignada por Carlos Reis, Arthur 
íiouiart, Domingos Jaguaribe e Tiburlino .Mondim. 

r».* Pani s<nio honnjrio o sr. IJarão Homem de Mello, historiador e geo- 
grujíbí) brazileiro, assignada por Domingos Jaguaribe. Carlos Reis. Arthur (Jou- 
lart, Orville Derby e Tiburtin»» Mondim. 

Foi lido pelo sr. Dr. Domingos Jaguaribe um documento inédito sobre 
a revolução para o estabelecinient<» da Republica do Kquador em 1824. 

Nada mais havendo a tratar, o snr. Presidente levantou a sessão. 

Vre.sideiKiin do snr. dr. Carlos Reis 

As 7 horas da noite, presentes os sócios snrs. Carlos Reis, !*aula Houza, 
Theodort> Sampaio. Aureliano Coutinho, banannuel Vanorden, Viriato» Prandào, 
Henr>' VVhite. Kduardo Pereira, Augusto Darjona, Veiga Filho, Soares Komeo, 
António Pizit, Mathiaíí Valladao e Orville Derby, o 1." Secretario, snr. r)r. Carlos 
Keisom falta do president*M> vice-presidente que náo compareceram por justos 
motivtís, assumiu a presidência e decbirou aberta a sessão, convidando para 
1." e 2." sccretiirios os sócios snrs. Dr. António Piza e Soares Komeo. 

Foi lida e approvada a acta da sessão anterior, 



172 



N&o houFe expediente. 

A convite do snr. Presidente, o sócio snr. Dezemhargador Aureliano de 
8ouKa e Oliveira Coutinlio acceitou a incumbência de subir á tribuna para so- 
Jemnisar a data de hoje, e alii proferiu um brilliantissimo discurso que foi 
calorosamente applaudido. 

Dada a palavra ao sócio sr. Dr. Joio Pedro da Veiga Filho, que se 
achava inseripto para fazer uma conferencia na presente sessão, fez elle uma 
importante, interessante e Instnictiva dissertação sobre a these — Das fi- 
nanças de S. FatdOy no passado, no presente e no futuro — sendo ao 
terminar applaudido. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente convidou os sócios a com- 
parecerem á sess&o ordinária de 20 do corren.te e levantou a sessão. 



5.* sesí^âo, em I20 de Maio de-IBOC». 

Presidência do sr. Cesário Motta Júnior 

As 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário Motta, Henrj' White, 
Viriato Brandão, Pereira Guimarães, Augusto Barjona, Paula Souza, Eugénio 
Franco, Theodoro Sampaio, Eduardo Pereira, Jules Martin, Eroannnel Vanordeu, 
Orville Derby, Domingos Jaguar! be, Arthur Goulart, Alberto Lõfgren, Tan- 
credo. Amaral, Vaiois de Castro, José Vicente, Mathias Valladào, Garoa Co- 
chrane. Soares Romeo, Pedro Vicente e Carlos Reis, faltando com participação 
08 snrs. Duarte de Azevedo, Alfredo Eli is e Garcia Redondo, o sr. Presi- 
dente convidou o sr. Cónego Dr. José Vaiois de Castro a occupar a cadeira 
de 2.** Secretario e declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

O I.* Secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 

OlBcio do sr. dr. Joaquim José de Menezes Vieira, director do Pedago- 
gium Brasileiro, enviando o ultimo numere da Revista Pedagógica. 

Offertas 

Pela sociedade Pharmacentica Paulista : fascículo n.® 1 da sua Rfíx^isía. 

Pela Directoria Geral dos correios : Classificaçào das Agencias Vos- 
tnes e fascículo n.® 4 do Boletim Tostai. 

Pelo snr. Olavo de Freitas Martins: Retratos dos arcebispos da 
Bahia (estampa). 

Pelas respectivas redacções : Diário Official do Estado ; O Ensaio, 
n."* J8 e 19. 

São todas estas oífertas recebidas com especial agrado . 
Ordem do dia 

Foram lidas e remettidas a Commissão de admissão de sócios as seguintes 
propostas: 

!.• Para sócio effectivo o sr. dr. Jorge Maia, engenheiro do Núcleo Colo- 
nial de Sabauna, autor de um tratado de trigonometria e de nm trabalho Ine' 



173 



dito sobre a língua fçuarany, assignada por Alberto Lõfgren, Domingos Jagua* 
ribe e Carlos Reis. 

2/ Para aocio eífectlvo o st. úr. Ernesto Young. engenheiro residente 
em Iguape. membro da Sociedade de^Rngenharia ae Londres, autor do melhor 
mappa sobre o Ril)eiro de Iguape, assignada por Alberto Lõfgren, Domingos 
Jaguaribe e Carlos Beis. 

8.* Para sócio effectivo o sr, dr. Luiz Pereira Barreto, eyeriptor e homem 
de sciencia, presidente da Sociedade de Medicina, assignada por dr. Domingos 
Jaguaribe, Carlos Reis e Arthur íionlart. 

4.* Para sócio correspondente o sr. dr. José da Costa Rangel Júnior, 
advogado, membro do Congresso Legislativo do lotado, assignada por Carlos 
Reis. Domingos Jaguaribe e Manoel Pereira Guimarães. 

5.» Para sócio correspondente o sr. dr. Alfredo de Toledo, advogado e 
jornalista, residente em Bragança, assignada por Arthur (Joulart, Domingos 
Jaguaribe e Tancredo Amaral. 

6.» Para sócio honorário » sr. Bellarmino Carneiro, jornalista, redactor 
d'0 Paiz, investigador em assumptos geographicos e historicos, residente na 
Capital Federal, assignada por Tancredo Amaral, Orville Derby e Arthur 
Goulart. 

Poi lido e ficou Kobre a mesa para ser discutido e votado na próxima 
sessão o seguinte parecer: 

< A Commiss&o de admissàt» de sócios, tendo examinado as propostas re- 
lativas aos srs. Lniz de França Almeida e Sá, Dr. Oscar Leal, Dr. Ernesto 
Goulart Penteado, Dr. Henrique Coelho e Barào Homem de Mello, o 1" para 
íocio eftectivo, os três seguintes para correspondentes e o ultimo para honorário, 
veriflcou estarem as mesmas de accordo com os Estatutos e possuírem os pro- 
postos as qualidades exigidas; pelo que é de parecer que sejam as propostas 
approvadas e os candidatos admittidos como membros deste Instituto. — S. Paulo, 
16 de Maio de 1894. — Dr. Manoel António Ihtarte de, Azeredo, — Bento 
Bueno. — Luiz de Toledo Viza e Almeida. » 

Feio sr. dr. Or^•ille Derby foi lida uma carta inédita do Conde de Cunha 
vice-rei do Brasil, escripta no Rio de Janeiro em 31 de Outubro de 1765 e 
dirigida ao governo da metrópole, sobre divisas de 8. Paulo e Minas (leraes. 
sendo os pontos principaes desse documento esclarecidos pelo sr. Derby. 

Consta desse importante documento que o Conde de Cunha, em cumpri- 
mento á ordem do rei determinando que elle mandasse tomar assento dos 
limites por onde deve partir a capitania de S, Paulo com as de Minas e 
(ioyaz. afira de ser resolvido o que ao rei parecesse mais justo, devendo entre- 
tanto ser observado o que fosse assentado até a definitiva resoluçfto da coroa, 
convocara uma junta composta dos Ministres da junta da Fazenda e de pessoas 
praticas daquelles sertões, dentre as quaes salienta o (inarda Mór das Minas 
Geraes Pedro Dias Paes Leme. como a de maior credito, tanto pela sua na- 
loral sinceridade, como pelo seu conhecido desinteresse, sendo esta pessoa a 
que deu a luz que era precisa para a organizaç&o áan cartas geographlcas 
qae elle Conde de Cunha e o Governador de Minas mandaram fazer, nas 



174 



quaes vé-se claramente onde nasce o Rio Grande do Paraná e por onde fa« 
a sua corrente; diz mais o documento que tendo D. João V em 1748 man- 
dado que o governador do Bio de Janeiro e Minas governasse também S. Paulo 
e que dividibse este governo com o de Minas pelo Rio Sapucahy ou por onde 
melhor lhe parecesse, dito governador n&o tendo, como é notório affecto aos 
Paulistas, mandou que tlrando-se uma linha recta do marco da serra Manti- 
queira até a de Mogy-gnassú, deste ponto imaginário e pelos altos delia fosse 
findar a divis&o no Rio Grande ; em consequência desta ordem tirava-se á 
capitania de 8. Paulo todo o grande terreno que medeia entre Rio Grande e 
Sapucahy e todo o grande território entre est« rio e a serra do Dumba, a que 
se dava o nome de Mogy-gnassú, mas a demarcaçáo feita pelo Ouvidor Tiio- 
maz Reby ainda causou muito maior prejuízo á capitania do H. Paulo. Apezar 
de ser claríssima a justiça e razão dos Paulistas pretendendo e esperando a 
restituição de todo o território que até ás margens occidentaes do rio Sapu- 
cahy se lhes tem indevidamente tirado, e sendo o assento da Junta conforme 
e sem a menor discrepância deste parecer, assim como também o bispo da 
diocese entende que pelo Sapucahy devia ser feita a divisão, toda\ia encon- 
trava elle Conde de Cunha um embaraço em enviar a copia de Assento aos 
Governadores de Minas e Goyaz para a observarem até a definitiva resolução 
conforme a ordem do rei, o qual consistia noeguinte : «A capitania de Mi- 
nas julgando-se então excessivamente vexada com a obrigação de pagar 
annualmente cem arrobas de ouro, desejava uma modificação daquella quota 
e poderia ser motivo para exigir dita modificação a tirada daquelles terri- 
tórios úteis de que estava de posse desde 1749, podendo também darem-se 
distúrbios diíficeis de conter e pacificar ; é portanto de opinião que a divisão 
se faça pela forma de>.erminada por D . João V, isto é, pelos rios Graade e 
Sapucahy e que nada se abata na quota das cem arrobas que Minas tem obri- 
gação de pagar, porque quando as ofFereceu não possuía aquelles territórios e 
só os Paulistas tinham delles alguma noticia. » 

Finda a leitura, foi o sr. dr. Derby applaudido. 

O sr. Olavo de Freitas Martins, sócio fundador do Instituto Geographlco e 
Histórico da Bahia, obtendo a palavra, manifesta a sua gratidão por ter-lhe 
sido permittido assistir aos trabalhos da presente sessão efaz votos peia pros- 
peridade do nosso Instituto. 

O sr. Presidente agradece as palavras do sr. Olavo e declara que o Ins- 
tituto de S. Paulo manteria perfeita solidariedade com o da Bahia. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a sessão. 



O.* }4essâo, cm 5 de junho de IB05 

Presidência do *r. dr. Cesário Moita Júnior 

A's 7 horas da ooite, presentes os sócios srs. Cesário Motta, Soares Romeo, 
Manoel Guimarães, Cândido Motta, António Piza, Garcia Redondo, Duarte de 
Azevedo, Emanuel Vanorden, Orville Derby, Henry White, Theodoro Sampaio* 



Ifò 



Cerqueira César, Eu^nio Franco, Tiburtino Mondim, Âugosto Barjona, Tancredo 
Amaral, Paala Souza, Macedo Soares e Carlos Reis, foliando com partíeipaç&o o 
sr. dr. Domingos Ja^arlbc, o sr. Presidente declaron aberta a sess&o. 

Foi lida e approvada a aota da sessão antecedente. 

O 1." Hecretarió dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 
Offinos 

Do Instituto Geographico e Histórico da Rabia commanicando os nomes 
dos cidadãos eleitos para a administra^ que tem de fanoeionar de 1895 a 1896. 

Do sócio sr. dr. (iarcia Redondo enviando um exemplar das Oariria^ 
para os effeitos do artigo 31 dos Estatutos. — A' Commiss&o de Utteratuia e 
manuscriptos . 

Ofertas 

Pela Directoria (Jeral dos Correios : Boletim Postal, eoUecçfto de todos 
os fascículos publicados desde o 1." numero até Dezembro de 1894, e mais o 
fascículo n. 5 desto anno. 

Pelos respectivos autores: 

Consultor doCoimnerrio, por João Cândido Martins; 

Indicnçòes sobre a Historia Nacional, por Tristão de Alencar Araripe. 

Pelo soclo sr. dr. António de Toledo Piza: Documentos interessantes 
para a historia e costume d^S. Paulo, os dez volumes publicados (l até 12) : 
Relatório da Repartição de Estatística e Archiro de S. Paido, relativo ao 
anno de 189S. 

Pela Directoria do Serviço Sanitário: Boletim de EstatisHe^, fíaclealo 
de Abril, 

Pelo sr. dr. Mello Moraes Filho: Árchivo do Districto Federal, fíi3Q\- 
eulo de Junho. 

Pela Companhia Industrial; Abnanak do Estado de 8. Paulo ^an 1895. 

Pelas respectivas redacções ; 

. Diário Official do Estado ; 

A Madrugada. 

São estas oíTertas recebidas com especial agrado . 

O sr. Presidente, recordando oa serviços prestados pelo benemérito cidadão 
dr. Joaquim Saldanha Marinho, declara que vai mandar consignar na acta da pre- 
!<ente sessão um voto de pesar pelo passamento dessa illustre' individualidade, 
suppondo assim interpretar os sentimentos não só dos sócios presentes como de 
todos 08 membros do Instituto. 

Ordem do dia 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o parecer da Com- 
missão de admissão de sócios que flcára sobre a mesa e vem transcripto na acta 
anterior, sendo proclamados membros do Instituto os srs. : 
Luiz de França Almeida e Sá, sócio etTectivo ; 



1 



176 



Dra. Oscar Leal. Rrnesio Ooalart Penteado e Henrique Coelho, soeios cor- 
respondentes ; 

Barão Homem de Mello, sócio honorário. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser discutido na 1.* sessáo o parecer da 
Commissão de admiss&o de sócios concluindo favoravelmente a respeito das pro- 
posta3 relativas á admissão dos srs. dra. Jorge Maia, Bmesto Young, Luiz 
Pereira Barreio, José da Costa Rangel Júnior, Alfredo de Toledo e Bellarmino 
Carneiro. 

Poram lidas e reroettidas á Commissílo de admissão de sócios as seguintes 
propostas : 

Para sócio honorário o sr. Barão de Paranapiacaba, litterato e poeta dis- 
otintlssimo, autor e tradnctor de muitas obras poéticas, residente na Ca- 
pital Federal, assignada por Manoel António Duarte de Azevedo, Carlos Reis 
e Manoel Ferreira Oarcia Redondo. 

Para sócio honorário o sr. Baráo do Rio Branco, arbitro por parti» do 
governo brasileiro no htigio das MlssAes, residente em Londres, assignada por 
dr. Cesário Motta Júnior, Carlos Reis e Manoel Ferreira (Jarcia Redoudo. 

O sócio sr. Tancredo Amaral leu alguns capitules da sua obra — A hiMo- 
ria de S. Pa?t/o, sendo applaudido e felicitado pelo seu trabalho. 

O sr. dr. Or\'ille Derby, explanando-se em considerações a respeito das di- 
visas de S. Paulo e Minas (ieraes. apresenta e ofTerece ao Instituto as copias 
de duas cartas geographicas antigas e ainda inéditas ; uma de 1766, tendo o 
seguinte titulo (^nrtn chorogmyhica da (fayitnniade S.Paido, em que se 
mostra a verdadeira situaçàrj dos lugares por onde se flxeram as sete principaes 
divisões do seu governo cx)m o de Minas (íeraes ; a outra, de 1778, com o seguinte 
titulo — Mappa dn rnpifntiín de Minffs Geines, com a divisa de suas co- 
marcas . 

O sr. Presidente agradeceu ao sr. Derby a otferta que acaba de fazer e 
por nada mais haver a tratíir, levantou a sessão. . 

7.' stcMsao, em 120 ile •liinlii» «It^ IB^IÕ. 

Ptfftidenrin do .vr. dr. Craario Mofia Júnior 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário Motta, Ale.\andre 
Riedel, Garcia Redondo, líugonio Fran«'o. Clementino Castro, Theodoro Sampaio, 
Orville Derby, Henry VVhite. Joào Monteiro, Paula Souza, Pedro Vicente , Oomes 
Cardim, Domingos Jaguaribe, António Piza, Manoel (luimarães, Soares Romeo, 
Tancredo Amaral e Carlos Reis, o sr. Presidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

Comparece e toma assento o sr. dr. Ernesto (Joulart, acceito na sessão 
passada na qualidade de soclo correspondente. 

01.*» Secretario dá conta do seguinte 



ni 



EXPEDIENTE 
Officio» 
Da oommiasão da oolonia franceza desta capital convidando o Instituto a 
tomar parte na roanifestavÃo oommemorativa da morte de Badi Camot a 24 do 
corrente. — E' accelto o -ionvite e nomeada para representar o Instituto uma 
commiâs&o composta dos srs. dr. Jo&o Monteiro, dr. Domingos Jaguaribe e 
Jules Martin. 

Do Instituto Archeologico e Qeograpliico Pernambucano participando ter 
recebido a communicaçfto da fundarão do nosso Instituto, con(p'atulaodo-se eom 
UB seus fundadores, promet tendo todo o auxilio a bem da nossa associa^ e 
declarando ter remettido uma collec<^ da sua Revista e duas obras. O l.<* Se- 
cretario informa que estaofferta ainda n&o chegou ás suas m&os. 

Do Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros accnsando o recebimento 
da communicação da fundaçAo do nosso Instituto e fazendo votos pela sua pros- 
peridade . 

Offertas. 
Pelos respectivos autores : 

A WMoria de S. Paulo ^ por Tancredo do Amaral; tíuia de viagem para 
as aguas mineraes, por Maximino Sensedeilo : Do Tejo a Parix» Viagem a 
Mw pais de selvagens, O AvMzonas, pelo dr. Oscar Leal ; Rochas Nepelinas 
do Brasil, Os picos altos do Brasil, Limites entre S. Paulo e Minas, A 
contributioti to tJ^e geology of the lower Amazonas, Nepheline — Rocks in 
Brasil, Occurence of Xenotime as an avcessory element in rocks^ Magne- 
tite ore distrids of Janipiranga and Ijtanema, Nepheline — Rocks in 
Brasil — Parte II, The Auuumiian upper carboniferous fauna, pe\o ár. 
Or\iileA. Derby. 

Pelo sócio sr. Dr. Orville Derby Meteoritos brasileiro pelo oflér- 
tante, e Ferro nativo de Santa Catharina^ por Luiz K. Gonzaga de Campos 
(em um volume) ; 

As trilobitas do grez de Kreré e Maecurà, por John M. Clarke ; Publi- 
cações da Commissão (ieographica do Estado, a saber : 

Relatório sobre os 8er\iço8 realizados em 1894 ; Exploração dos rios Jta- 
petininga e Paranapanema ; Dados climatológicos — 1891 e 1892 ; Boletim da 
Commisífão, volumes ns. 1 a 10 (faltando o n. 8). 

Pelo sr. Lafayette de Toledo : Oollecção das leis do município de Casa 
Branca— Tomo 1.», 1892 a 1894. 
Pelas respectivas redacções : 

Diário Officinl do Estado; Revista Agricola, n. 1 ; O Ensaio, ns. 
22 e 28. 

Poram estas offertas recebidas com especial agrado» 

ORDEM DO DIA 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o parecer da Commissfto 
de admissão de sócios que ficara sobre a meza na sessão passada, sendo procla- 
mados membros do Instituto os srs. : 



178 



Drs. Jorge Maia, Ernesto Young e Luiz Pereira Barreto, sócios efTectivos. 

Drs. José da Costa Rangel Júnior e Alfredo de Toledo, sócios corres- 
pondentes . 

Foi lido e flcon sol)re a mesa para ser discutido e votado na próxima sessão 
o seguinte parecer : 

« A Commissão de i&d missão de sócios, tendo examinado as propostas 
relativas aos srs . Barão de Paranapiacaba e Barão do Kio Branco para sócios 
honorai4os, verificou estarem as mesmas de acoordo com os Bstatutos e possuírem 
os propostos as qualidades exigidas ; pelo que é de parecer que sejam as ditas 
propostas approvadas e os candidatos admittidos como membros Imnorarios deste 
Instituto, que em suas pessoas fará uma brilhante acquisiç&o. — H. Paulo, 17 de 
Junho de 1895. — Benito Bueno- Lttiz de Toledo Fua ê Almeida. — Deixa 
de assignar o sr. dr. Duarte de Azevedo por ser signatário de uma das pro- 
postasi. 

Foi lida e remettida á Commissão de admissão de sócios uma proposta 
assignada pelos srs. drs. Manoel Ferreira (íarcia Redondo, Eugénio Alberto 
Franco e Carlos Reis propondo para sócio correspondente o sr. J. Maximino 
Serzedello, autor da (luia de viagem para as aguas mineraes de Minas, brasi- 
leiro, residente na Capital Federal. 

O sr. dr. Orville Derby leu e apresentou um sen trabalho a respeito da 
denominação — Sei^mda Manfiqneirn—úfíáa ao systema de montanha assim 
chamado, o qual foi muito apreciado. 

O sr. dr. Domingos Jaguaribe também procedeu á leitura de mais uns 
capítulos da sua obra -Or/yfn.v Beptdtli canas do Brazil, sendo applaudido. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente apresenta o alvitre de 
celebrar-se a próxima sessão, não a 5 mas a 4 de Julho, como uma homenagem 
á Republica Americana do Norte, alvitre que foi accel to unanimemente. Então o 
sr. presidente convidou o sr. dr. João Pereira Monteiro a encarregar-se de 
proferir o discurso oíBcial e levantou a sessão. 



8.* sesj^ao, €^in ^ «le •liiiilio «ie lOOCS 

Preftidevna do m-. dr. OesaHo Motfa Jnnior 
A's 6 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário Motta, flarcia Redondo^ 
Alexandre Riedel, Tiburtino Mondim, Paula Souza, Domingos Jaguaribe, João 
Monteiro, Theodoro Sampaio, Macedo Soares, Soares Romeo, Ernesto Goulart. 
Arthur Goulart, Orville Derby, José Vicente, Duarte de Azevedo, António Piza, 
Gomes Cardim, Liberalino de Albuquerque, Henrj- VVhite, Tancredo Amaral e 
Carlos Reis, o sr. presidente declarou aberta a se.ssão. 
Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

Em seguida foram recebidos os srs. Henry Smith, cônsul americano em 
Santos, dr. George Ritt, cônsul francez nesta capital, os quaes tomaram assento 
na mesa, drs . Arthur Prado de Queiroz Telles e Benedicto Castilho de Andrade, 
com missionados pela Camará dos deputados do Estado para represental-a nesta 
sessão, diversos representantes da imprensa desta cidade e da Capital Federal 
e outras pessoas convidadas para assistir á sessão. 



179 



EXPEDIKNTE 



OfiBcio da Camará Municipal da Conceição de Ilanhaen declarando, em 
resposta ao officio circular deste Instituto, que em sen archlvo nenhum docu- 
mento existe que possa ser útil á nossa associação e qne, com os poucos que 
ainda lá se encontram, o cidadão Benedicto Calixto está organisando um trabalho 
que submetterá á apreciação deste Instituto. 

Houve a offerta do n.** 5 do Boletim de Estatística Vemograplio-Sani- 
taria, que foi recebida com especial agrado. 

O sr. dr. João Monteiro participa que a commissáo nomeada para repre- 
sentar o Instituto na homenagem a Sadi Carnot no anui versado de sua morte 
tinha desempenhado a sua incumbência; o sr. Presidente, em nome do Ins- 
tituto, agradeceu á Commissáo e em particular ao sr. dr. Jofto Monteiro 
pela bellissima oraçáo que proferira. 

Km seguida o snr. l*residente annunciou que se vai passar á ordem do 
dia, proferindo nesse acto uma brilhante allocuçào em que declara ter sido a 
presente sessão mancada para hoje como uma prova de consideração á grande 
Republica da America do Norte, que nesta data cominemora o anniversario 
de sua independência. 

Ordem do dia 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o parecer da Com. 
missão de admissão de sócios que ficara sobre a mesa e vem transcripto na 
acta anterior, sendo proclamados membros honorários deste Instituto os srs- 
Fiarão de Paranapiacaba e Barão do Rio Branco. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser votado na ses-são seguinte o pa- 
recer da Commissáo de admissão de sócios concluindo favoravelmente a res- 
peito da admissSo do sr. J. Maximino Ser/edello na qualidade de soclo cor- 
respondente. 

Poram lidas e remettidas á Commissáo de admis.são de sócios as seguintes 
propostas : 

Para sócio correspondente o sr. dr. Rayniundo Pennaforte Alves do Sa- 
cramento Blake, engenheiro, autor de muitos trabalhos de geographia de São 
Paulo, br^ileiro, residente em Jundiahy, assignada por António de Toledo 
Piza, Manoel Ferreira (iarcia Redondo e Theodoro Sampaio. 

Para sócio honorário o sr. dr. (ieorges Ritt, cônsul de FrançA nesta 
Capital, doutor em direito pela Faculdade de Paris, assignada por dr. João 
Monteiro, M. F. (íarcia Redondo e Carlos Reis. 

Dada a palavra ao sr. dr. João Monteiro para proferir o discurso ofBcial 
de que se encarregara, leu elle um importantíssimo trabalho sobre o grande 
povo que constitue a Republica dos Estados Unidos da America do Norte, no 
qual mais uma vez patenteou a robn.stez do seu brilhante talento e a rica e 
variada iílustraçáo do seu espirito, realçados por uma linguagem fluente, cor" 
recta e elevada. 

No correr do discurso foi o orador por diversas vezes applaudido e, ao 
terminal-o, uma viva e prolongada salva de palmas cobriu as suas ultima^ 
palavras, sendo cumprimentado e felicitado pela assembléa. 



180 



Obtém a palavra o &r, dr. Georges Rltt, cônsul de França para agradecer 
ao InstHvto o seu concurso na manifestação a Sadi Camot e saudar as três 
nações amigas - America do Norte, Brasil e França; foi o orador muito ap- 
plaudido pelo bellissimo improviso que proferiu. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente agradeceu a presença daâ 
pessoas convidadas e levantou a sessão. 

O.* isesAâo em 2M> de Julho de 1B05 

Presidência do sr. dr. Duarte de Azevedo. 

Ã'n 7 horas da noite, presentes Os sócios ars. Duarte de Azevedo 
Augusto Cardoso. Garcia Redondo. Theodoro Sampaio, Trístôo Araripe, Viria- 
to Brandão, António Piza e Carlos Reis, faltando por motivo justo o sr. 
dr. Cesário Motta Júnior, assume a presidência o snr. Conselheiro dr. Manoel 
António Dnarte de Azevedo, vice-presidente, e declara aberta a sess&o. 

Pol lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

O l." Secretario dá conta do seguinte: 
EXPEDIENTE 
Officio» 

Do sr. dr. Pedro Vicente de Axevedo, presidente da Camará Municipal 
deata Capital, declarando, em resposta ao offlclo deste Instituto, terem sido 
dadas as precisas ordens no sentido de ser facultado o ingresso no archivo 
municipal a quem ahl se apresentar em nome do Instituto, assim como para 
serem a este enviados os impressos que directa ou indirectamente lhe possam 
interessar. 

Do sr. dr. Ernesto Guilherme Young, agradecendo a sua admissão co- 
mo sócio effectivo e promettendo seus serviços. 

Do sr. Bellarmino Carneiro no mesmo sentido pela sua admissão como sócio 
honorário . 

Do sr. Libero Braga enviando um exemplar do l.*» volume do seu trabalho— 
Escorço hiofjraphico do Ih- . Alfredo EUín. 

Offertofí 

Pelo soclo sr. dr. António de Toledo Piza, Docuiuentoò imeresnanlef*, 
volume 18.^ 

Pelo Presidente da Camará Municipal desta Capital, Rdatorios de 1898 
e 1894. 

Pelo sr. dr. Mello Moraes Filho, Arvhico do Districto Federal, fascículo 
de Julho. 

Pelas respectivas redacções : 

Diário Official do Estado ; Ketn.tta Afjricokt, n. 2. 

Todas as oflertas foram recebidas com especial agrado. 

OIU)E.M DO DIA 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o parecer da Commissáo 
de admissão de sócios que ficara sobre a meza na sessão passada, sendo procla- 
mado soclo correspondente o sr. José Maximino Serzedello. 



181 



Poi liilo o fiou sí)hr(» a me.sn para ser vota-lo n^i sfi^s^o 8^;^uinle o parecer 
íJa Cominir^sáo ilc ndinissAo do soeios, cuja conclusão ó fiworavol á «dmissào do.s 
srs. drs. R'iymun»lo l^onruiforlM Alvo.s do Sií^ramonlo IJIako o (Jeor^^es Ritt, 
osíe como sócio ht)norario c aquollo como corrospandonte. 

Foi lida e remettlda ã ('ommissâo de admissão de sócios a seguinte 
proposta : 

Para soeio honorário (►sr. dr. íM^IÍo Mtiraos FíIIk», autor de diversas obras 
scientificis e litt^'raria-;, director archivisUí <ltt Cani^ira Municipal do Rio de 
Janeiro, redacior da R'.*vista do An-hivo do Districít» Federai, etc, brasileiro, 
residente na Capital J<'cdcral, assif^nada por rarlosi Reis, Duarte de Azevedo e 
Manoel Ferreira (iarcia Redondo. 

O sr. dr. (rareia Redondo, do acíM)rilo com o art. 2rMlos Kstatutos, propõí» 
que seja subraeltido â discussão o importante trabalho do nosso consócio sr. dr. 
.loáo Pereira Monteirt» produ/.ído na sessão de 4 do corrente, afim de deliberar 
a n»speito da sua pul)Iicavão na Wrriwfti iln lustitufu. O 1" Secretario faz 
igual proposta em relavã^* ao trabalho do consócio sr. dr. Orville I)er])y sob a 
íienominação Svrm tia Mnnfi</iu'h(i, lido e apresentiido na sessão de 20 de 
Juaho. Foram ambas iis pro|n)slas approvatlas. .sendo também approvados os 
trabalhos dos srs. drs. .lojo» Monleiro eUrville Derhy para o fim de serem 
publicados na Ih' vi st a . 

Nada mais havendo a tralur, o sr. pn'sidente levantou a ses.sao. 

IO.* Kt*«<Hrio fiii r» <i<» A4|<»m(<» <it» iiitir» 

l*rfsitli'hviii r/o sr. tlr. <**'s<nio Moffn Juuior 
A's7 h(»ras da noite, prementes os .soeios srs. Cesário Mot ta, Augusta Car- 
dosíj. Soares Romei», Anbrni*» Pi/.a. .Ioa'|uim Piza, Hordec Lane, Alexandre 
Riedel, Theodoro Sampui*». (iarcia Redondo, Orville Derby. Domingos Jaguaribe, 
Ku^enio Franca. João Montein», José Vi<*ente e Carlos Reis, o sr. presidente 
declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da ses.são antecedente. 
O 1.*" Secretario dá conta do seguint** : 

V. X P li D 1 K N T V. 

O/fícins 

Do sr. dr. Oscar Leal agradecendo a sua admissão como sócio correspon- 
dente e promettendo seus serviços. 

Do sr. dose Maximino Serzedello no mesmo sentido. 

Offcrta.s 

Pelo sr. dr. Cândido Motta, Promotor Publico desta Capital. .1 Justii^a 
Criminal — Relatório que apresentou ao Procurador (lera I. 

Pela directoria do Serviço Siinitario. Holefím dr Estafistnn, fascículo de 
Junho . 

Pelo .sr. dr. Mello Moraes Filho, Arv1nv<> fio Vistrivfo FetU^ral, fascículo 
de Agosto. 

Pelo sócio sr. Dr. Domingos Jaguaribe, as seguintes obras de tjue é autor : 
JnteUiifencia e moral do homem; Influence de Vesclavageet de la liffcrte ; 



182 



Homms e ideais no Brasil: Vart des hommes de bien : líein.sta tdil 
Í8.« volnine); e mais : Silca Jardim -Apontamentos para a biographia, por .íosé 
Lefto; A Verdades A Mutuca picante, jornaes antigos publicados no Rio de 
Janeiro, diversos números. 

Pelo sócio sr. dr. António Pixa, Documentos Interessantes, volume \A.* 

Pelas respectivas redacções : 

Ditwio Offieial do Kstado ; .4 Madrugada; A ffístrucçào Fopidar, n. 1; 
Santos Commer ciai : IHario de Taubaté ; O Repórter; 

Foram estas ofTertas. recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

li' lido, posto omdiscnss&oe sem debate approvado o parecer da (^mrols- 
s&o de admissão de socioá que ficara sobre a mesa na sessáo passada, sendo 
proclamados membros deste Instituto os srs. drs. Raymundo Pennaforte 
Alves do Sacramento Blake e Oeorges Ritt, o 1" na qualidade desoclo corres- 
pondente e o 2.*> na de sócio honorário. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser votado na sessáo seguinte o pa» 
recer da Conrmiss&o de admissão de sócios, cuja conclusôo é favorável é admissão 
do sr. dr. Mello Moraes Filho como sócio honorário. 

Foram lidas e remettídas á Commissào de admissão de sócios as seguintes 
propostas : 

Para soclo honorário o sr. dr. Martinho de Freitas Vieira de Mello, sub- 
director do Correio Geral, cidadão il lustrado que muitos serviços tem prestado 
ao palz, brasileiro, residente na Capital Federal, assignada por Carlos Reis, 
Manoel Ferreira (iarcia Redondo e Theodoro Sampaio. 

Para sócios honorários os srs. Sylvio Romero, dr. Tristão Alencar Araripe 
Júnior e Tristão Alencar Araripe, homens de lettras de reconhecida reputação 
no Brasil, brasileiros, residentes na Capital Federai, aijslgnada por Manoel 
Ferreira Garcia Redondo, Domingos Jaguaribe e Carlos Reis. 

Para sócio correspondente o sr. Domingos Leopoldino Fonseca e Silva, 
professor de historia e homem de lettras, brasileiro, residente nesta capital, assi- 
gnada por Manoel Ferreira Garcia Redondo, Carlos Reis e Theodoro Sampaio. 

O sr. dr. Domingos Jaguaribe propõe que seja o seu trabalho— (hif/etis 
Republicanas no Brasil submettido á deliberação na presente sessão para u 
fim de poder ser publicado na /fct*i*ío, caso seja approvado visto como até hoje 
não foi apresentado o parecer da comraissáo á qual foi remettido, K' appro. 
vadoque o dito trabalho do sr. dr. Jaguaribe seja publicado na Retnsta do 
Instituto. 

O sr. dr. Theodoro Sampaio procede á leitura de um seu trabalho histórico 
sobre a fundação da primeira colónia regular dos Portuguezes em S. Vicente, 
finda a qual foi applaudido e felicitado. 

O sr. presidente consulta a casa si o bem elaborado trabalho que acaba 
de ser lido deve ou não ser publicado na Rerisfa; a assembléa, sem dabate 
e por votação unanime, responde aíBnnati vãmente. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. presidente levantou a sessão. 



183 



i^re.sitfrncln fio .sr. (Ir. Ce.sario Mott/i Júnior 
As 7 horas (Ia naitt». pre-t^ntes os soimos srs. fVsario Motta, Carlos Reis, 
Ant )iuo Pi^a. Arthur ííinilart. K. Vauoriion, Augusto Barjona, Viriato Rraadâo, 
Krn.»stj (ioularf, I).)iiiinr;.)-! .JaíuarilM», Aureliano Coutinho, PeJro Cardim e 
Sou/.a Kranro, o sr. pr»*-iiJí»nio «h'i*Ur.»u aherta a sessão. 
Foi lida e approvatia a acta da sessâ> antecedente. 
O 1." SecivUriodá conta do seguinte: 

KX PK hlKNTK 
Ofjicius 

Do sr. Harào de Paranapiacaha agradecendo a uua admiss&o como sócio 
honorário e promettendo seus serviços. 

Do sr. dr. (Jeorges Ritt manifestando iguais agradecimento e promessa 
e fazendo offerla da quantia de 50$(M)0. 

Do 8r. dr. Kay mundo P. A. do Hacramento Hlake agradecendo a sua 
a Imissào como sócio correspondente e promettendo seus serviços. 

Offertan 

Pelo lnstitut4j (ie(»graphico e Histórico da Bahia, asna Herisia, n. 4. 
Pelo soelo sr. dr. António F. d»» Paula Sou/ji. a sua (ifointtrin Su- 
perior. 

Pelo sócio sr. dr. António do Toledo Piza, Documentos Interetcfantes, 
volume X. 

Pelo sócio sr. dr. Raymumlo Blake, Noficia sohre a Provincial do 
Paraná e um Mapim da Prm-incta do Paraná. 

Pela Sociedade Pharraaceutica Paulista, a sua Jtnnsfa. ns. 2, 8 e 4. 

Pelo sr. Paulo Tavares, a ííeriftta Brasileira, fascículos ns. 2 a 15. 

Peh» sócio sr. Horácio de Carvalho, o seu Discurso sobre Floriano 
Peijofo. 

Pela Directoria (íeral dos Correios, lioJeiim Postal, n. 7, 

Pelo Instituto Pedagógico Paulista, A Instrucçih) i*oj>ii/flr, n . 2. 

Pelo sr. dr. Alfredo Pujol, o seu Discurso sohre Floriano Peixoto, 

Pelo sr. dr. Leopoldo de Freitas, o seu Direito de Intervenção. 

Pelas respectivas redacções : 

Diário O Ifi ciai do Fitado ; .SVi»/o.v Commercial ; Diário de Tauhaté; 
O Repórter : Onze de .Agosto -1895, O Municipio ; Retústa do Xorte — n. 9. 

Foram estau offertas recebidas com especial agrado. 

OItDKM 1)0 DIA 

F/ approvado o parecer da commissiio de admissão de sócios que ficara 
stibre a mesa na sessão passada, sendo proclamado so«mo honorário deste Insti- 
tuto» o sr. dr. Alexandre .José de Mello Moraes Filho. 

E' lido e flcft sobre a mesa para ser discutido e votado na sessào seguinte 
o pirtícer dacjmmiiiá> de admissão de sócios opinando pela acceitaç&o dos 



1h4 



iiw-i. (Ir^ M.í:míi'i) dM^^ivit.H Vi.^ir.i «li> M;'ll », Hylvio Uhiumo. Tri.shV) th" Altni- 
cur Ararip' .íuniore Dominfíos LoopoldiíH) «la l'\»nsiH'u c Silva, (tmio sócios ti*» 

IllStitlt). 

(«'oiH-n aj)rer.Mit'i hn. litlas e riMiiottifla' á i")imuissri(» de admissão de 
so<?ios as st»}íuintt's pn^poslas : 

l*aiM S)fi<)S e(T'M*tivos': ((s srs, <lr.s. Alfivdo Piijol t» LeopoMo dt» Krfilas : 
para corn^spondente o sr. Kuri<'o Saldanlia, (• para honorário (• sr. dr. don(|uiiii 
JoMt» dl» Mcnozos Vieira. 

Kiea doliht»mdo qiu' a próxima sessílo ar realise a 7 c imo a r> d*» 
SeUMiibro. 

O ar. lMv.si<li»iUf Itnaut-Jii a sessão. 

III.' st^Msao «Mil 7 dí» Se(<Miil»i*o dr ll)fir> 

Presitlendo tio .sr. t/r. Carlos Nris 

À'& 7 horas da noi ti*, presentts os srs. sorios ins(TÍpt<»s n<» rospoctivo livro 
o soeio sr. dr. Carlos Kels assumiu a presidon«'ia. na falta do TrosidiMit" o 
Vií^p-presiílentM. convidou os sócios srs. dr. Anlonio l*iy.a c AuKU^«t♦> Barjonji 
para S4»rvirem de 1." e 2.'' Secretários e declarou aberta a sensão. 

Foi lida e approva^ln a ariH da sessã<» antecedente. 

O l.*" Secretario dá contíi dosejçuinte: 

KXPKDIKNTK 

Offlcio do sr. Frederio Lisboa, director do archivo publico da liahia, 
offerecendo um exemplar d<» Rpfntwio sobre Aufovio ('Onnelheim. 

Oprtius 

l*el(» sr. Lui/. de Franva Almeida e Sá. o seu Frumptuario commerciol^ 
civH V íiiilifar . 

IVIo sócio sr. dr. I)omin<<os Jaguaribe. o Helotwio do Director da fa- 
zenda deS.Joãoda Montanha. 

Pela respectiva secretaria, o fíriafm-io do dr. Cesário Mottii como Secre- 
tario do lnteri<»r. 

Pelosr. dr. .Moljo .Morae.s Filho, Arrhiro dtt Diatrirto Federal — ffísc\- 
culo n. 9. 

Pelo sr. Paulo Tavare.-i, a lierista Brasileira fa.sciculos ns. Ifi e 17. 

Pela respectiva ommissão. x\. Volt/anUn-a commemoraliva do IS.** anni- 
versario da morte de Lui/. (íama. 

Pelas respectivíis redacvões : 

Diário Offivial do Kstado : Santos (*innmrrrial\ Diário <le Taitf/fif^ 
A Mndrugatla : (> Mnnicipio : O Reporfer. 

Foram estjts oflferlas recebidas com especial agitado. 

»)IU)KM IH) DíA 

Vi' approvatlo o parecer da commisáão de admissão do sócios que ficiíra 
sobre a mesa na sessão passada, sendo proclamados membnís deste instituto 
os srs. drs. Martinho de Freitas Vieira de Mello, Svlvio Uoméro, Tristão de 



185 



Alencar Araripe e Tristáo de Aleu/ar Araripe Júnior eomo sócios honorários 
e o ST. Í)a?nin50á Livipoldino da Konaeca o Silva como sócio correspondente. 
Aohanio-so presente* este ultimo, foi convidado a tomar parle noa trabalhos 
na qualidaile de sócio, o que fez. 

K' lido e flei sobre a m8>!ii para deliberação na sessfto seguinte o pare- 
cer ifn Commissáo de admissão de sócios opinando pela ac^ellaçáo dos srs. 
drs. Alfredo Pujol e Leopoldo de Freitas como sócios effectivos. Eurico Sal- 
danha como correspímdente e dr. Joaquim José de Menezes Vieira como ho- 
norário. 

Dida a palavra ao mmo sr. Domingo-? Le>>poldino, procedeu este á lei- 
tura de um bem elaborado trabalho sobre o facto da independência do Hra- 
sil. citando certos pormenores com o mesmo relacionados. Ao terminar foi 
vivamente applaudido. 

Ficou deliberado que esto trabalho fosse publicado na Rerisfn do Jn- 

Levantou-se a .sessão. 



I ii." sesMào, oní lUí do SoUmiiIiiu» de I llSir». 

Prcsideuna do f^r. dr. Cesário Moita Júnior. 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos Reis, Domingos 
Jaguaribe, Valois de Castro, Augusto Cardoso, Augusto Haijona, Soares Ro- 
meo, António Piza, Rrnesto (íonlart, Thedoro Sampaio e Alexandre Riedel, 
foi a sessão aberta pelo l." Secretario sr. dr. Carlos Reis, comparecendo de- 
pois o sr. dr. Cesário Motta que assumiu a presidência. 

Fd approvada a acta da sessão antecedente. 

O l." Secretario deu conta do seguinte 

KXPKDIENTlí 
Officíos 

Do sócio sr. dr. Manoel A. de S. Sd Vianna agradecendo ter sido con- 
siderado sócio fundador do Instituto. 

Dj sr. dr. Sylvio R)mero, agraioceiído a sua admissão como sócio ho. 
norario. 

Do sócio sr. Tenente Coronel Araújo Macedo enviando dezesete moedas 
e cinco medalhas que offerece ao Instituto. 

0/ferfa.s 

Pelo Professor Fernando Martins Bonilha Júnior, a sua Phonologia Por- 
iitgueza. 

Pela CVtmpanhia Industrial de S, Paulo, o Indicador da Capital para 
l«95. 

Pelo sr. dr. Argemiro da Silveira, a Minuta de aggravo commercial 

de que é signatário. 

Pelo sr. Paulo Tavares, a líensta Brasileira— faacmi\o n. 18. 

Pela Directoria (íeral dos Correios, o Boletim Postal — fascículo de 
Agosto. 



186 



Pe'a Sociedade Pastoril e Agrícola, a sua Eevista Affrieola na. 8 e 4. 

Pelo Instituto Podadogico Pauli8ta, A Instrucção Popui^r n. H. 

Pelas respectivas redacções: Revista do Norte— ns, 5, 6, 7, S, 10 e 11: 
Diário O/ficinl do listado ; O Município ; Snnto/t Commereinl : Dntrio de 
Santo/i: Diário de Tatif/aié : O Repórter: O Enanto. 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

E' approvado o parecer da Commiss&o de admissão de sócios que ficara 
sobre a mesa, sendo proclamados membros deste Instituto os srs. drs. Al- 
fredo Pujol e Leopoldo de Freitas na qualidade de .sócios effectivos, Eurico 
Saldanha na de correspondente e dr. Joaquim José de Menezes Vieira na de 
honorário. 

K' remettida á respectiva Commissào uma proposta firmada pelos sócios 
drs. Domingos Jaguaribe, Carlos Reis e Theodoro Sampaio, propondo o sr. 
dr. Assis Brasil para sócio honorário. 

Dada a palavra ao sócio sr. dr. António Toledo Piza, que se achava 
insoripto, faz elle uma exposição dos trabalhos que vem apresentar ao Insti- 
tuto eem seguida procede á leitura dos referidos trabalhos, a sal)er: Biogra- 
phia do Padre. JeítiUno do Monte Vnrmello, pelo sócio sr. Ant4inio Augusto 
da Fonseca e Oração fnnehre pronunciada pelo Padre Diogo Feijó em Itá a 
2 de Junho de 1821. 

Foi deliberado que estes trabalhos fossem publicados na Revi-nfa. 

Ficju também deliberado que a próxima sesrf&o fosse realisada a 12 de 
Outubro, na qual o sócio sr. Cónego dr. Valois de Castro lerá um trabalho 
a respeito de Frei (íermano d'Annecy. 

Nada mais havendo a tratar, foi levantada a sessão. 



os SELVAGENS DE S. PAULO 



Em três tribus ou grupos podem ser divididos os 
selvagens que habitam os sertôes de S. Paulo : CaynáSy 
Coroados e Chãt^afites. 

Não é nosso fím tratar desenvolvidamente do que 
diz respeito a esses aborígenes, mas dar uma breve no- 
ticia da lingua, usos e costumes e caracteres physicos 
de cada um delles. 

Neste artígo nos occuparemos dos primeiros. 

I 
Os Caynás 

A sua lingua, com leve alteração, é a guaravx^ e 
á familia deste nome podemos, sem duvida, filial-os. 

Como todas a&i linguas dos indígenas da America, 
pertence a sua ao grupo das agglutinantes, em que os 
elementos que entram na contextura da palavra não 
conservam todos seu valor próprio : ha a raiz principal, 
que se mantém inalterada, e a raiz ou raizes secunda- 
rias, que perdem a independência, atrophiam-se e fun- 
ceionam como elementos modificativos da raiz principal. 

Comquanto rudimentar, têm os Caynás sua gram- 
matica. 



2 



Possuem três "pronomes pessoaes, com que desi- 
guam as três pessoas do singular : che^ eu, ^^. tu, e 
uped, elle. Estes pronomes prefixados a substantivos 
denotam possessão. Ex. : juá^ braço ; Chejnày o meu 
braço de/uá^ o teu braço, upeájuá, o seu braço ou bra- 
ço delle. 

Os tempos verbaes são todos derivados do infinito, 
a cujo final agglutinam a terminação agué ou agud^ 
para indicar o passado, e aran ou augave, para ex- 
primir o futuro, sendo as pessoas discriminadas pela 
prefixação do respectivo pronome pessoal «eguido de a 
quanto á 1/ pessoa e de o quanto á 2.' e 3." A forma 
do presente é a mesma do infinito, prefixados a esta o 
pronome e letra euphonica. O participio fórma-se tam- 
bém do infinito, agglutinando-selhe a terminação oinã 
ou ina. Exemplos; sejam os verbos monhá^ correr, e 
mòndó^ mandar. 

Cheamonhá, eu corro 
Deomonhá^ tu corres 
Upeomonhá^ elle corre 
Cheamonháagué ^ eu corria 
Deomonhdãgué, tu corrias 
Upeomouháigiiéy elle corria 
CheamonhdjiPãny eu correrei 
Dcomonháixvau^ tu correrás 
Upeomonhàãvan, elle correrá 
Monhdoina, correndo 
Cheamoudó, eu mando 
Deomondó^ tu mandas 
Upeomonió^ elle manda 
Cheamondóaguá, eu mandava 
Di'omoiidóaguá^ tu mandavas 



Cheamondóangave, eu mandarei 
Deomondóangape, tu mandarás 
\íondoma^ mandando. 

Têm alguns advérbios para as circumstancias de 
tempo e logar ; de tempo : ciicè^ hontem, anugiié, hoje, 
cotramo, amanhã, angave^ loco ; de logar : coèpe^ aqui, 
upèpe^ ali. 

Para exprimirem os sete números simples (um a 
sete), termo de sua numeração, empregam os nomes pe- 
/ew, wochoéfiy boape\ irtmdy, tinhernin^ temopá e boa- 
peva. 

Quanto aos costumes. Os Caynás andam nús; os 
homens completamente e as mulheres apenas velam as 
partes genitaes com uma tanga de embira trançada. 
Usam furar o lábio inferior, coUocando na abertura um 
pedaço de resina. Os homens trazem os cabellos corta- 
dos. Sepultam os cadáveres dos da sua tribu, em posi- 
ção horisoQtal, e são respeitosos para com a velhice. 

Tem uma única industria e ainda limitada ás ne- 
cessidades domesticas — a fabricação de louças de barro, 
a qual é exercida pelas mulheres. 

Suas armas são o arco, a flexa, a lança e o tacape. 

São os Caynás de côr de cobre amarellado. tém a 
fronte saliente e alombada, os cabellos pretos, grossos e 
lisos, os olhos também pretos e bridados, rosto achata» 
do, lábios grossos, orelhas grandes, queixo saliente ; seus 
membros são reforçados, os pés pequenos e as unhas 
chala«?. 

São naturalmente indolentes, ainda que algum tan- 
to robustos e valentes. 



1 



Typos Ttvãitos 



Padre Jezuino do Monte CãrmeUo 

No século XV, quando as sciencias renasciam na 
Itália e as bellas artes floresciam rápida e brilhante- 
mente, nasceu em 1452 na aldeia de Vinci, perto de 
Florença, Leonardo do Vinci, um dos maiores génios 
das bellas artes e das sciencias de que a historia tem perpe- 
tuado o nome e a gloria. Filho natural de um obscuro notá- 
rio de nome Piero, desde a mais tenra idade manifestou de- 
cidida vocação para as artes e principalmente para a pin- 
tura. Seu pae, observando os seus variados e tão precio- 
sos talentos, levou-o a Florença, apresentou-o a Ve- 
rachio, pintor já bem conhecido, e pediu-lho que admit- 
tisse o menino Leonardo como aprendiz em seu atelier. 

Aos vinte annos de idade, o discipulo de Verachio 
era já um celebre pintor, esculptor, architecto e musico, 
e depois de mais alguns annos era também reconhecido 
como um grande homem de sciencias. 

Se Leonardo de Vinci tivesse nascido em^Ytú no ul- 
timo quartel do século passado, como o Padre Jezuino 
do Monte Carmello, de uma familia obscura e pobre, 
não passaria da altura do Padre Jezuino, assim como 
este, se tivesse nascido na Itália, na segunda metade do 
8eculo XV, talvez tivesse alcançado nas bellas artes a 
brilhante reputação de Leonardo de Vinci, se encontrasse 



6 



como e.stc, mu mestre eomo Veraeliio e um protector 
couio Loureuí;o de Medíeis- o Maji^niíico. 

O Padre Jezuiuo apenas ])ode aprender as primeinvs 
lettras, deu-se ao ofHoio de pintor para ganhar o píio 
de cada dia e viveu disso alguns annos. Nmica viu uni 
atelier de pintura, nem teve mn meetre quahjuer; entre- 
tanto chegou a ser um bom [íintor, esculptor, musico com- 
positor e ardiítecto, como adiante se mostrará. 

Jezuiuo casou-se, t<'ve três filhos e uma filha, e en- 
viuvou aos trinta annos mais ou menos de edade. Nesse 
tempo foi procurado paraencarregar-se de fazer na Igreja 
do Oarmo algumas pinturas, de que ella nmito precisava. 
Era então prior do convento do Carmo um frade portu- 
guez, chainado frei Thomé, que, segundo a tradicção, 
era homem illustrado e conhecia Iwm as mathematicas. 
Frei Thomé, emquanto Jezuiuo trabalhava, estava sempre 
ali a palestrar com elle; logo conheceu a sua grande in- 
telligenciae numa dessas palestras lhe dissera Jezuiuo: 
— « Desde a minha mocidade tive decidida vocação para 
o estudo ecclesiastico e nâo me onlenei, como tíuito de- 
sejava, porque a pobreza de minha fnniilia nâo pcrmit- 
tiu que eu estudasse o latim; dei-mo a este oíficio como 
um meio de vida. Agora que estou viuvo, quantius vezes 
me tenho lembrado com magua o não saber latim ; se 
cu o soubesse ainda me ordenaria.» 

Ileplicou-lhe então frei Thomé: « Si é esse o único 
obstáculo, furtai do vosso trabalho de uma a duas honis 
todos os dias e ide a minha cella; e eu vos garanto que 
em dois annos estai*eis habilitiido para vos ordenardes.» 

Jezuiuo assim o fez, e eui dois annos era o Padre 
Jezuiuo do Monte ('arraello, tão celel)re pelas obras de 
arte que fez, como amado e admirado por suas grandes 
virtudes. 



A Igreja do Patrocinio é obra exclusivamente sua 
e de seu filho Elysòo, que o ajudava. Em frente a 
essa Igreja conslniiu i)ara si uma casa, que ainda exis- 
W o tomava toda a largura do pateo^ a qual era uma 
espécie do cenóbio onde residiíi com seus íjuatro filhos 
e com o menino João Paido, ereado e educado por elle. 
A este menino João Paulo ensinou elle muzica, 
fez estudar latim com o Padre Mestre Manoel Floriano 
e ordenar-se. O Padre João Pjado tornou-se mais tarde 
um latinista abalisado e substituiu o Padre Manoel Flo- 
riano na cadeira de latim da villa de Ytú. 

O l^idre Jezuino trouxe t-íimbem para a sua com- 
panhia os seus irmãos José Lniz e 1^'rancisco do Mon- 
te Carmello e a sua irmã Maria, que foram por elle 
creados e eilucados, e tornaram-se pessoas úteis a so- 
ciedade. Na sua casa todos eram bem vindos, princi- 
palmente os pobres, que sempre encontravam nella con- 
forto e agasalho. 

Dos três filhos do Padre Jezuino, dois, Simão e 
Elias, também receberam ordens sacras o foram bons 
sacerdotes, especialmente o Padre Elias, (jue foi um 
santo varão e morreu velho, sempre gosando da maior 
estima e veneração do povo Ytuano, por suas virtudes 
evangélicas e pela pureza de seus costumes . O tercei- 
ro filho, Eliséo, casou-se e foi semi)re o «auxiliar de seu 
{)ai como [íintor e esculptor, e notabilisou-se pela sua 
extraordinária voz de baixo profundo ; nunca nas egre- 
jas do Ytú se ouviu voz mais grave, mais sonora e pro- 
funda. 

I*adre Jezuino emin-ehendeu a C()nstruc(,'ão da 
Igreja do Patrocinio, pedindo esmolas ao povo e tra- 
balluuulo elle e seu filho Eliséo com a perseverança, de- 
dicação, economia e zelo, com (pie trabalha quem edifica 



tiina casa para a sua residência ou constróe uma ma- 
quina com a qual espora ganhar uma fortuna. Entre- 
tanto, estes dois homens nada esperavam receber neste 
mundo em recompensa de tanto trabalho. 

Padre Jezuino organisou, elle mesmo, a planta da 
sua egreja e executou-a tal e qual como existe até hoje. 
Tudo quanto alli se ve de architectura, esculptnra e 
pintura, é obra exclusiva destes dois bravos homens, 
que se não tivessem vivido em Ytú naquelle tempo do 
tanto obscurantismo, seriam celebres architectos e gran- 
des mestres das bellas artes. 

Em 1817 concluiu-se aobra e preparou-se a inau- 
guração para o mez de Novembro. Padre Jezuino 
deixou então o escopro de esculptor com que tinha feito 
as imagens precisas para o templo, o pincel com que 
tinha feito as pinturase quadros, e o compasso do ar- 
chitecto, tomou a penna e escreveu todas as musicas ne- 
cessárias para a festa da Senhora do Patrocínio, 

Este homem, que nunca tivera um mestre de mu- 
sica que lhe desse algumas lições de contraponto, escre- 
veu as musicas para novenas, vésperas, matinas so- 
íemnes, tedeum Inudamus, pangeHngna e missa solem- 
ne a dois coros, que foram executadas nas grandes festas 
da inauguração, com applausos dos melhores mestres 
de musica da Capital, entre os quaes figurava André 
da Silva Gomes, compositor muito estimado naquelle 
tempo, professor publico de latim e rhetorica em S. Pau- 
lo e membro do Governo Provisório de 1821-22. 

Depois compoz todas as musicas precisas para as 

festas da Semana Santa, com matinas de quarta, quinta 

e sexta-feira musicas que até hoje ainda são cantadas 

nessas festas. 

O escriptor e poeta portuguez Einilio Zaluar viajou 



em S. Paulo em 1858, mais ou meaios e nas suas im- 
pressões de viagem, que publicou em jornal do Rio, dis- 
se o seguinte : — «Em Yiú ha o temi)lo da Senhora do 
«Patrocinio, de estj'lo gothico que attrac a attenção do 
«viajante pela sua belleza e elegância; nenhum viajante 
«deve deixar de velo.» 

Em. 1862, mais ou menos, quando eu residia no mu- 
nicipio de Campinas, o finado senador mineiro dr. 
Firmino Rodrigues Silva, que foi jornalista notável e 
um dos luzeiros do parlamento brazileiro, foi a Campi- 
nas em viagem de recreio. Depois de estar dois dias 
em minha fazenda, levei-o para Ytú, e como não hou- 
vesse ainda estrada de ferro fizemos a viagem em troly. 
Caminhamos, pois, sete léguas no mesmo assento e mui- 
to conversamos durante a viagem, que durou quasi todo 
o dia. Então tive occasião decontar-lhe a historia da cons- 
trucção da Igreja do Patrocinio e repeti-llie o que 
desse templo dissera o poeta Zaluar. 

«Pois quero ver esse templo amanha, me disse elle. 
No dia seguinte lá fomos ; estava a egreja aberta, mas 
deserta porque a missa do dia já tinha sido dita. O se- 
nador entrou, parou em baixo do coro e em silencio 
examinou e obseiTou tudo por muito tempo ; seguiu 
depois, vagarosamente, até a capella-mór, continuou a 
observar todo o interior do templo e voltou a encontrar- 
se commigo. Então lhe disse eu: — «Senhor senador, 
<o que acha ? Zaluar tem ou não razão no que disse 
«desta egreja ?» — Não tem rasão, me respondeu senten- 
«ciosamente, «isto nunca foi estylo gothico.» 

«Então que estylo tem ?» perguntei-lhe eu. — «Ne- 
«nhum, me replicou elle ; não é gothico, nem dorico. 
«nem corinthio, não tem estylo algum conhecido ; po- 
«rém, é nisto mesmo que está o seu grande mérito. E' 



10 



«um parto sui generis, um estylo original, que sahiu da 
«cabeça de uni artista, (jue não conJieceu systeina 
«algum de arcliitectura, mas <juc tinlia na cabeça o 
«ideal da arte. E' um tcmi)lo digno de ver-se pela sua 
«elegância e originalidade-. » 

Em Noveni))ro próximo passado estive cm Ytú e 
passando pelo largo do Patrocinio, notei que a Igreja 
estava com uma fachada inteiramente nova e elegante; 
gostei de vel-a assim renovada. Notei também que 
faziam-se obras interiores ; entrei e vi que tinbam sido 
tira<las aquellas bonitas colunmas, que em distan(*iíUí 
regulares subiam unidas ás paredes attS certa altura, onde 
serviam de pedestal ou pontos do apoio para os arcos, 
que atravessavam o espaço de umacolunma a outra, fin- 
gindo sustentarem o tecto com os seus grandes zimbó- 
rios. Eram exac^tamente aípiellas columníxs, aijuelles 
arcos e zim))orios que davam ao tem[)lo a elegância in- 
terior e a originalidade (jue tanto impressionaram o 
[K)eta Zaluar e o senador Firmino Silva. Fi(|uei con- 
tristado e sabi logo, maguado pela ideia que o templo 
ia ser todo reformado e desai)pareceria |)ara sempre o 
monumento (jue attestava (jue em Ytú bouve um 
boniera de génio artistico (pie tinha uma grande ca- 
beça, assim como um grande coração e grandes vir- 
tudes. 

Si bavia necessidade de fazerem-se colunuia.s de 
tijolos, que firmasse a.s pared<\s, deviam fnzel-as, porem, 
sempre recollocando Jis antigas colunniíis nos seus lo- 
gares, unidas as paredes do maneira a ser conservado 
o mesmo original estylo de arcliitectura. Não sei si 
assim se fíirá, mas seni um crime de lesa-arte e de 
lesa tradicção si o não fizerem. A capella-inór não ti- 
nha ainda sido tocada, e si for conservada será isso uma 



11 



atteniiíuito ao delicto <líi dostruiçrio das obras primiti- 
vas do corpo da Igreja. Os bons Ytiianos, amigos da 
?iia terra c zeladores das suas lionrosas tradicções, de- 
viam intervir e obter de (piem dirige as novas obras que 
deixe ao menos a capella-mór intiicta, afim de (|uc por 
ella se possa julgar o que foi a primitiva Igreja do Pa- 
trocínio do Padre Jezuino, esse monumento immorre- 
douro do seu génio artístico. 

O filho Padre Siniâo, que conservou aquella Igreja 
até depois de 1850, guardava com amor filial tudo 
quanto fora obra do seu pai, e tinlia bem conservadas 
todas as musicas de sua com{)Osição. Não sei quem 
foi seu herdeiro, nem onde i)aram, nem si ainda exis- 
tem as differentes peças de musicas próprias para oh 
gnuides festas (jue outrora se cele))ravam naíiuolle 
templo. 

lia cerca de vinte e chico annos tive occasiâo do 
perguntar ao finado Manoel José Gomes, pai do gran- 
de maestro Carlos Gomes, o qual fora amigo e admira- 
dor do Padre Jezuino e todos os annos ia a Ytú tocar 
o primeiro violino naquella festa, si conservava alguma 
das musicas compostas pelo Padre Jezuino. Rcs[)on- 
deu-me que as tinha todas e as conservava com gran- 
de cuidado, e (pie algumas vezes ainda se entretinha 
tocando era sua rabeca longos» trechos dessas musicas 
de tão saudosa recordação. E* possível que os seus 
filhos, Carlos Gomes e SanfAnna Gomes, as conservem 
e tenham nellas feito os seus pi-i moiros passos na subli- 
me arte de Verdi e Mozart. 

Como já disse, a casade morada do Padre Jezuino 
era uma espécie de cenó))io, onde viviam alguns pa- 
dres e outros aggregados á familia Monte Carmello ; 
era também o logar de rendez-vous diário de outros [)a- 



l 



12 



dres e de muitos amigos . Naquelle tempo havia em 
Ytú muitos padres ; não desses que se ordenam por 
officio, mas por vocação natural e desejo de bem ser- 
vir a humanidade^ segundo as suas crenças religiosas. 
Eram esses padres quasi todos filhos dos mais abasta- 
dos e aristocráticos fazendeiros, entre os quaes prepon- 
derava a ideia que toda a familia nobre devia tei^ um 
filho no eocercito e outro no altar. Os padres frequen- 
tadores do cenóbio patroeinista eram desse género. Ytú 
tinha então cerca de vinte e cinco padres, filhos do logar 
e quasi todos notáveis por suas virtudes. Citaremos os 
nomes de alguns: 

O franciscano Frei Ignacio de Santa Justina, perten- 
cente á familia Silveira, era intelligente, tinha estudos 
profundos de philosophia theologica e foi loite dessa 
matéria em um convento do Rio de Janeiro. Este foi 
o professor do grande orador sagrado Monte Alverne, 
que, quando por sua vez tornou-se professor da mes- 
ma matéria no mesmo convento, frequentemente ci- 
tava com respeito, nas suas preleções, as opiniões do 
seu mestre («frei Ignacio de Santa Justina, qtie ainda vive 
em Ytú», accrescentava elle). Referiu-me este facto o 
dr. José Manoel da Costa Bastos, natural da cidade de 
Campos e antigo discipulo de Monte -Alverne. 

O Padre Arrudinha era tão virtuoso que passava 
por santo; era tal a fama das suas virtudes que ao des- 
cer o seu cadáver ao fundo da sepultura, o povo julgou 
ver esta toda illuminada ; a noticia espalhou-se e foi 
geralmente acreditada, e a tradicção deste milagre exis- 
te até o presente. O Padre João Leite Ferraz, ou de 
Sampaio, era conliecido pelo appellido de Padre Sar- 
genfo-mór, porque tinha sido sargento-mor do milícias, 
casado e fazendeiro rico; mais tarde enviuvando e sa- 



13 



bendo seu latim (como qmxsi todos os fazendeiros de 
Ytií), ordenou-se e foi um sacerdote exemplar. O Pa- 
dre António Joaquim de Mello foi homem de intf>lli- 
geucia superior, tomou-se bispo de S. Paulo em 1851, 
voltou a residir em Ytú e alli morreu em 1861. O 
Padre José Galvão de França foi um cidadão distiiicto 
e bom sacerdote. O Padre Francisco Pacheco, que 
sendo fazendeiro rico, ordenou-se, deu tudo quanto pos- 
suia em esmolas e morreu pobre. O Padre Manoel 
Floriano era filho do celebre capitão mór Vicente da 
Costa Taques Góes e Aranha e pertencia a alta fidalguia 
paulistana; dedicou-se ao ensino da lingua latina e 
prestou serviços a sua terra natal. 

O Padre Manoel da Silveira tanto exagerou as 
virtudes religiosas quo inutilisou-se, fazendo-se anacoreta 
e cahindo em verdadeiro nervosismo mystico ; encer- 
rou-se em um quarto do cenóbio, onde passou \nnte e 
tantos annos sem dirigir uma só palavra a alguém e 
sem responder a quem a elle se dirigia, excepto ao 
Padre Elias, filho do Padre Jezuino, que era a única 
pessoa com quem f aliava, em cuja companhia resava os 
officios divinos e ia ouvir missa na visinha Igreja do 
Patrocínio; os padres António Felix, Jeronymo Rodri- 
gues e outros excellentes sacerdotes que foram padres 
de coração e não do oflicio. 

Ainda á este mesmo admirável grupo pertencia o 
Padre Diogo António Feijó, depois senador e regente 
do Império, o qual já nesse tempo não se limitava ao 
estudo da philosophia theologica, mas ensinava a phi- 
losophia kantiana e outras matérias, e já era dos que no 
Brazil mais conheciam a sociologia. Com o mesmo 
ardor com que propagava a doutrina christã dedicava- 
se ao direito publico, e juntamente com o finado sena- 



i 



14 



dor Paula Souza preparava os Ituanos para a rovolii - 
ção de 1822, na (lual teve grande parte como conse- 
lheiro e assessor da camará municipal de Ytú. 

Eram ainda desse tempo os padres Franoisco Lei- 
te Ribeiro (meu tio avô) e Melchior de Pontes Amaral, 
homens virtuosos e intelligentes que, em falta de ba- 
charéis, se deram ao estudo da jurisprudência e a pratica 
da advocacia ; o Padre Campos, ex-jezuita, que a sua 
custa edificou o antigo seminário, com uma boa capella, 
e por testamento legou-o á camará municipal para que 
delle fizesse uma instituição de ensino popular — con- 
dição esta que não foi realisada, porque em vez de um 
estabelecimento de instrucção popular e democrática, 
aquelle seminário esuí transformado em collegio dos 
padres jesuiUis, onde o ensino é todo privilegiado, 
sectário e aristocrático; e, finalmente, o Padre António 
Pacheco da Silva, que será o objecto de um estudo 
especial, em outro artigo. 

Morto o Padre Jezuino, foi o seu cadáver enterra- 
do no convento do Carmo; alguns annos depois foram 
os seus ossos transferidos para a Igreja do Patro- 
cínio. Por occasião dessa trasladação o Padre Diogo Fei- 
jó recitou uma oração fúnebre, que é um documento 
curioso e importante e vai adiante transcripto. Nesse 
discurso disse Diogo Feijó que quem fallava com o Pa- 
dre Jezuino ficava desde logo, como elle ficara, subju- 
gado, como que magnetisado, e desejava sempiovel-o e 
ouvil-o ; seu olhar, sua voz, seus gestos eram attra- 
hentes ; sem ter instrucção philosophica, subia ao púl- 
pito e discorria sohre um ponto qualquer de religião ou 
de moral de modo que prendia a attenção dos ouvin- 
tes, porque as suas palavras sahiam do coraçÃo e eram 
a expressão do que elle sçntia em sua coiisciencin. e:;- 



15 



primiam o mais íiuo l)om senso e uma saiita phi- 
losophia, que lhe era natural e não recebida dos li- 
vros. 

Erasmo, o grande philo.so[)ho liollandez, ao acabar 
a leitura do Tiisculanus, de ( Jicero (que foi a maior in- 
telligencia da antiguidade, segundo a opinião do Padre 
Ventura de liaulica), exclamou: — <Este litro parece 
qiie foi diciado pelo próprio J)eiis\» ílu creio que o 
Padre Feijó podia accrescentíu* a exclamação de Eras- 
mo ao que acima referi e <lizer que, si o Padre Jezuino 
era assim, foi por(|ue as suas palavras eram inspiradas 
pelo próprio Deus. 

António Augusto oa Fonseca 



S. Paulo, Agosto de 1895. 



Oraçam fúnebre ^^^ 

Pregada pelo Padre Diogo António Feijó no ani- 
versario do Padre Jezuino do Monte ('«rmelo, em oca- 
siam que se mudaram os osos do mesmo do coaven}« do 
Carmo para a Igreja da Senhora do Patrocinio, a 2 de 
Junho de 1821. 

Non recedit memoria ejiis — Ecles^. 

«Seu nome nam cairá jamais no esquecimento. 

O malvado, que aproveitando-se das circunstancias 
favoráveis aos seus designeos, tem espalhado a fama de 
suas açoins, e de seo nome. parece disputar ao justo 
o privilegio da imortalidade. 



(1) Esto discurao foi publicado era fuiheto ha muitos annos, sendo a tira- 
gem pequena e distribuída entrd os amiscos do fln^ilo. Cstl exgottada a edi- 
ção, coutando qn) lia uni exemplar na bibliotheoa da Academia. 

(N. da R.) 



^1 

o Eróe, que o inundo aplaude, quando era bem cre- 
dor dè sua execraçani, (jue de ordinário eleva o edifício 
de sua gloria sobre a ruina de seos semelhantes, atrtie 
comtudo quazi sempre os elogios, e a adrairaçam do seu 
século : a posteridade parece empenhada em guardar a 
memoria de seos feitos, e seo nome. Mas que dife- 
rença entre a memoria do justo, e do que o nam é ! O 
primeiro é lembrado com dor, e saudade : o segundo 
comorror, e indignaram; um é sempre lembrado para 
ser objecto de respeito, e imitaçam, outro é apontado al- 
gumas vezes somente, e para vergonha, e confuzam do 
Ímpio e do insensato. 

Meos Senhores, eu nam venho neste lugar santo 
conçagrar louvores a um Eróe, em quem a reUgiam tem 
reconhecido o cunho da santidade. A cadeira da ver- 
dade veda ao orador christam, arriscar esse tributo da 
Justiça ao omem, que nam tem a seu favor os votos do 
Universo ; mas a %irtude tem seos gi-áos, e areligiam nam 
proibe fazer soar em seos templos a voz do amor, da 
gratidam, eda saudade. 

O Padre Jezuino a dois anoos caio no teio da mor. 
te ; seos dias foram cortados de repente ; elle desappa. 
receu de, entrenós. Esta fatalidade ainda é para nós 
um sonho ; não poíhnnos crer, que tal homem nos fose 
roubado, mas é v cidade que o foi; porem a sua memo- 
ria nam o será; sco nome nam cairá jamais no esqueci- 
mento. O amor, a saudade, e a gratidam todos os dias 
nol-o farão reviver. 

Senhores, aproveitemos esta lembrança, façamo-la 
frutífera, tornemos proveitosos nosos sentimentos, e 
tomando por modelo suas virtudes aprendamos igual- 
mente a conhecer a triste sorte das couzas do mundo. 
Este é o. meo destino, e o objeio de vosas atençoens. 



Meos senhores, o reconhecimento nam é um rezul- 
tado da cultura do espirito, é um sentimento inato ao 
ómera, seja qual for o seo estado. Todos os povos em to- 
das as edades tem apresentado brilhantes exemplos desta 
verdade. Quanto mais seos Eróes se tem asinalado 
pelas virtudes sociaes, mais tem sido credores de suas 
lagrimas, e seos elogios. 

Monumentos de gloria se tem erigido á sua memo- 
ria; ritos diferentes se tem inventado para simbolizar 
a gratidam, e transmitira posteridade este tributo do 
mérito, e da justiça. E' verdade que * o tempo, estra- 
gador de tudo, tem muitas vezes querido confundir as 
cinzas do justo com a do impio; tem-se queimado in- 
cenço tanto sobre o tumulo do \àrtuozo, como do mal- 
vado. A vil adulaçam tem em diferentes épocas le- 
vantado seo trono a par da verdade ; mas aquella não 
tem podido sustentar estes direitos uzurpados ; quando 
esta, surgindo por entre o erro, tem recebido o respeito, e 
a adoraçam de todos os séculos. 

Nosos louvores, tam puros oje como nosos senti- 
mentos, nam sam extorquidos, sam livres, ainda que ar- 
rancados pela força do amor, e da gratidam. Quem ave- 
rá de entro nós. que nam tenha retratado vivamente em 
sua memoria os primeiros pasos daqueile Eróe raro? 
Aquele engejiho vivo, penetrante, e atilado, talhado 
para melhores tempos, e que nasid<» em outra época 
mais feliz para a cultura das Artes, seria capaz de pro- 
[>or modelos originaes ao gosto, e ao belo. 

Senhores, a quem se deve o brilhantismo de vosa 
pátria ? Quem espalhou entre vós tantos monumentos 
dessa arte encantadora, que imortaliza os Eróes, que 
salva do esquecimento tantos personagens ilustres, 
(landc-lhes uma espécie de vida, fazendo-os inda mes- 
mo em sombra objectos de imitaçam,e de respeito? 



18 



Na Província inteira,, e inda muito alem, chegam, 
com a fama de seo nome, as obnís de seo génio. Ele 
tem sido o credito de sua pátria, a honra da Provincia, 
a gloria, e as delicias dos Ytuanos. A muitos anos voso 
nome ó proimnciado com respeit), o com inveja : éreis, 
e ainda sois apontados como a primeira vila, onde a 
magestadc do culto, a pompa das festividades, o esplen- 
dor dos templos dam a conhecer voso carater de reli- 
giam, e de grandeza. 

A quem deveis esta gloria senam àquele, cuja 
memoria saudoza despertíi hoje nosas lagrimas? Nasi<lo 
para ornamento da Jgreja, seos cuidados, seos disvelos, 
todo o seo gosto foi ornar os tem[>los, fazel-os respei 
taveis, inculcar a magestane do lugar santo pelos obje- 
tos tocantes, que seo zelo, e sua piedade faziam neles 
depositar. 

Aquela arte divina, de que ele posuia os segredos, e 
que manejavam com tanta destreza, tem asinalado 
os diferentes períodos de sua piedade para com Deus, 
e de seo amor para convosco. Mii vezes retumbaram 
em vosos templos sonoros ecos de suáveis cançoens, 
que nos representavam ao longe esse prazer, com que 
o Senhor tem de inebriar seos escnlhidos ; que elevam 
o espirito, e num santo entuziusmo faziam-nos gozar 
de antemam das doçuras da Pátria dos Anjos. Mil vezes 
sua voz acompanhou a produçam de sua pena ; e 
combinada a devoçam com a melodia, o olhasteis como 
a jóia de mais preço, que entam posuieis, o conside- 
rasteis como o mais firme apoio de vosa pátria. 

Por toda a parte se espalharam monumentos de seos 
talentos, e de suas virtudes. Quantos imitadores nam 
deixou ele ? A uns foi motivo de emulaçam, a outros 
objecto de imitaçam. 



19 



Seiíliores. o Padre Jezuino, com o bom gosto, intro- 
duziu estas maneiras doces, e attrativíis, que umanizam 
os ómens, e que os tomam mais sociaes. Este cara- 
ter duro, e austero, filho da probidade, mas que ao 
longe vos tornava sus[)eitozos, moditicou-se. A inven- 
çam, e a piedade daquele sacerdote mil vezes chamaram 
aovoso paiz os povos circiimvizinhos. Vistes com prazer 
anualmente vosas casas atacadas de ómens desco- 
nhecidos, mas tornados vosos irmaons, e amigos, prezos 
pelos laços da gratidam. Aumentítram-se vossas rela- 
çoens ; o commercio prosperou ; a civilizaçam adquiriu 
um auge considerável. Todos (}uantos aqui entam nos 
achávamos desconheciamos vosa pátria ; a alegria 
transbordava em vosos coraçoens ; invejávamos a vosa 
sorte ; e sendo tu<lo 'devido ao Padre Jezuino, o Padre 
Jezuino por si só era a festa, era a mola real do pra- 
zer, a pedra precioza, que refletia a nosos olhos, e que 
formava as delicias dos que o conheciam. 

Na verdade, senhores, eu nfio sei que tinha aquelle 
semblante de amável, e lisongeiro, que atraia, cativava, 
e docemente arrebatava os que o viam. Eu mesmo, a 
primeira vista, senti os efeitos deste encanto. Eu me 
nam farhiva de vel-o, de ouvil-o, de estar em sua corapa. 
nhia. Eu contava por uma felicidade ter parte em 
seu coraçam. Este fenómeno raro nam foi encontro de 
amor, ou inclinaçam ; foi uma necesidadede admirar, e 
amar a inocência, e a virtude. Todos que o tem visto, 
que o tem tratado, tem sido obrigados a sentir iguaes 
efeitos. 

Vós, que tivestes a dita rio o conhecer, nam estaes 
como ainda vendo aquele rosU) amável, e sereno, onde 
se achavam retratadas a inoccíucia, e a alegria, coni' 
panheiras inseparáveis (|a virt\ide? Aquele ^r mo- 



1 



20 



desto, e carinhozo, aqiielii gravidade de semblante, 
aquelas maneiras respeitozas, que fonuavam soo cara- 
ter ainda no meio dius graças inocentes, com que 
ele fazia interesante, e ao mesmo tempo gostoza a sua 
companhia ? 

A! E que umildade tam rara em nosos dias ! No 
seo conceito ele era o mais cri mim )zo dos ómens ; nem 
uma açam fazia, que para elenam fose um crime; uni 
pensamento ligeiro era uma temeridade; a lembrança 
de um pecado era para ele já um delito. Se ele co- 
nhecia alguns dotes com que a natureza o enriquecera, 
ele ignorava absolutamente as belas dispoziçoens, que 
tinha para a virtude. 

Parece que asas ambiciozo de* amar 9 Autor de 
todo o bem, interesado somente em agradal-o, ele nara 
descobria em seo coraçam senam a semente da discór- 
dia, que S. Paulo notava entre as leis do corpo, e as 
do espirito. Sempre asustado de sua fraqueza, ele ja- 
mais se considerava seguro na marxa perigoza da 
vida; rodeado de caxopos, onde podia naufragar a ino- 
cência, a vista do perigo que ele valerozamente afron- 
tava, parecia-lhe ter sucumbido. Tal era a delica- 
deza de sua conciencia; talera o temor com que ele 
sei via ao Onipotente. 

Que trabalhos nam sofreo, que encomodos nam 
experimentou, quando a sombra do pecado parecia nu- 
blar suas intençoens? Que sustos! Que temores! Quantas 
vezes nam o vistes como um criminoso errante, e fugitivo, 
mârxar a pé, a procurar com sagaz prudência aqueles 
médicos do espirito, que tinham em seo abono os votos 
do publico? Nada era capaz de impedil-o, nem mesmo 
retardal-o a aprezentar-se aqueles Ministros da Religiam 



21 



a quem tinha confiado os segredos, e a direçam de sua 
conciencia. 

Cristaons, vós bem sabeis que ele nada empreendeo 
que nam fose para agradar ao Soberano Bemfeitor ; que 
todas suas açoens se dirigiam a cumprir a lei do creador, 
e para isto como vivia ele dezapegado do mundo I Co- 
mo nada era capaz de prendel-o a estes bens falsos, e 
caducos, que cegam tanto aos mortaes? Uma pobreza 
voluntária, e verdadeiramenie evangélica foi a máxima 
constante aprendida na escola do Salvador, que dentro 
do mundo o conservou separado do mesmo mundo, vós 
bem o sabeis. 

A I E o que direi ou de sua caridade? Senhores, 
ainda que ao Padre Jezuino faltasem estes conliecimentos, 
que fazem oje a gloria do século, ele posuia os segredos 
da verdadeira sabedoria. Ele nam sabia falar esta lingua- 
gem deerudiçam, e ordinariamente de vaidade; mas ele 
sabia obrar como filozofo. Ele nam poderia entrar nas 
questi>ens espinhozas da ciência sagrada ; mas ele co- 
nhecia perfeitamente a religiam, e a praticava. A cari. 
dade, portanto, era sua máxima ; este principio, de uma 
extenção infinita, o ligava com todas as series de entes 
do Universo. Ele se considerava feito para todos. 

Eis aqui, meos Senhores, o momento em que eu 
exijo voso reconhecimento. A gratidam demanda a con- 
fisam de tantos beneficies. 

O Padre Jezuino aparece neste periodo de sua vida 
nam já como um simples ómem, gozando as vantagens 
da sociedade^ apenas ocupado no pequeno recinto de sua 
casa, empenhado nos intoreses de sua famiha. Verda- 
deiro filantropo, as máximas sagradas do cristianismo 
dam uma firmeza inabalável as propensoens sociaes de 
seo espirito. Ele aprezenta-se qual Apostolo, esquecido 



22 



somente de si, e de seos cómodos, tendo somente diante 
de seos olhos a cauza de Deos, e a vosa sal vacam. 

(cadeira da verdade, depõe (juantas vezes, tomado 
de nm santo entuziasmo, levjuitou ele a voz para depri- 
mir o vicio, para atropelar as paixocns radicaes, quesam 
a origem finiesta de tantos males. Mil vozes aprezentoií- 
vos o Evangelho dezenvolvido pelos oráculos da reli- 
giam. A doutrina de Jesus-C)i'isto vos foi pregada com 
forçíi, e com clareza. Mil vezes vos abrio o quadro hor- 
rível da h*a do Onipotente para pordes t^mio a vosos 
errados projectos. 

Quantas vezes nam o vistes sentado no sagrado 
Tribunal da Penitencia, julgando as conciencias? Com 
que prontidam, ao mesmo tempo com que zelo, com que 
temor se nam empregou ele sempre neste importante, 
custozo,e arriscado ministério? Quantos pecados se nam 
dirainuiram, quantas conversoens se nam devem a sua 
caridade? A quem se deve este grande numero de ver- 
dadeiros cristãons, que frequentam vosos templos» que 
fieis a seos deveres aprczcntara em particular, e em 
publico o verdadeiro carater de Dicipulos de Jesus-Cristo, 
e que dam gloria a Igreja, exemplos aos relaxados; que 
diariamente aterram, e confundem os liberthios, sendo 
sua condut^i uma calada r^jpreençam de seos escândalos, 
e da vergonhosa dczerçam, que tem feito das bandeiras 
do Crucificado? 

O Padre Jezuino pode bem xamar se o patríarca 
destas creaturas convertidas, desas almas fervorozas, que 
em tem[)os nam felizes seram com mellior justiça 
avahada. 

Quantos, que jazem oje no seio da moiie, nam ex- 
perimentaram sua caridade nos últimos momentos, sem- 
pre acompanhados do enjoo, e do desprezo, ainda dos 
mesmos domésticos? Quantos nam foram socorridos por 



23 



sua diligencia, quando lutando com a pobreza, miserá- 
veis, apenas faziam xegar a seos c>u\âd(>s o surdo, e fíts- 
tidoso éco da necesidade? 

Senhores, por quantiis maneiras diferentes nam pro 
curou ele dezenvolver sua caridade, que disonçoens nam 
terminou, que ódios nam aj)lacou, que lagrimas nam 
enxugou ele? (Quantos infelizes nam encontraram nele 
o remédio, ou a consolaçíun no meio de suas desgraças? 

Este ómem incançavel, ativo, laboriozo, procurou em 
toda sua vida reunir a virtude á nuigniíicencia: sua pru 
dencia engenhosa vos conduzio, sem atenderdes, ])or 
caminhos sempre suaves á fins do alto intereso. 

Este templo é um dos monumentos de sua [nedade 
e devoçam. Todo ele pode bem dizer-se é obra de suas 
maons. A! E que fms ele se propoz! Ser louvada a ma- 
gestnde do Onipotente de um modo mais digno da I>i- 
vindade,e atrair-vos pelo culto externo á verdadeira de- 
voçam; xamar vos pela pompa das solenidades, que ele 
empreendia a{)rezentar neste lugar santo, a entrardes 
noá verdadeiros sentimentos da religiam (jue profesaes. 
A gloria do Deos, e a vosa utilidade foram sempre a 
mira de suas açoens, o projetos. 

Mas, senhores, este ómem raro, este sacerdote 
zelozo, este Pai da pátria, vosa riquc/a, vosa consolaçam, 
c vosa gloria, terminou seus diíus. (Juando todos nós 
descuidados nam leud)i'avamí>s que ele estava sugeito ao 
império da morte, quando alegres contavauíos com uma 
vida salva dos perigos, (jue nos tinham sele mczes antes 
ameaçado roubal-a; (juando todos descança vamos se- 
guros á sombra do bem <pie gozávamos, O! Providencia 
adorável ! A morte disfarçada em mn sono bt^nigno, ilu- 
dindo nosos disvtílos, repentinamente alscm a fntnl foice? 
e roubou-nos para sem()re tam precioza vida. 



1 



24 



Cadaum de nós perdeo um amigo. Gada família 
perdeu um pai. Esta povoaçam perdeo um protetor. O 
rico sentirá senipre a falta de um ecónomo que o obri- 
gue a fazer justa distribuiçam de seos bens. O pobre la- 
mentará sempre a anzencia de umbemfeitor; sua mesma 
mizeria cada dia fará mais saudoza sua memoria. 

Morreo, senhores, mas nam sentio as agonias do cri- 
minozo; nam experimentou o remorso, que dilacera o 
culpado; nam sofreo o xoque terrível, partilha do peca- 
dor. Pagou o indispensável tributo imposto a espécie 
umana; mas o Deos, a quem ele amava, e a quem sou- 
be servir, o izentou dos orrores inevitáveis á tam doida 
separaçam. Nosas lagrimas derramaram-se; em todos os 
cazos os gemidos formavam a tríste cançam, que an- 
nunciava sua orfandade; todos entre suspiros quizeram 
ver com seos olhos, quizeram por si mesmo certificar- 
se de tam funesta fatalidade. Todos dêmos publico tes.-. 
temunho de nosa dor; fizemos justa confiçam de nosa 
perda. 

Eis aqui, Cristaons, a sorte das couzas do mundo. 
O Ímpio, o malvado, que serve de flagelo a sua pátria; 
o cidadão ímprobo, que perturba a sociedade, este ómem 
vive, e o padre Jezuino morre! O ómem, que por pare- 
cer de bem, mas que invejozo da gloria, que nam 
merece, disfarça debaixo de mentirozas aparências um 
carater detestável, que exaspera a indignaçam dos que 
sabem dar o justo valor a probidade, e a virtude; 
e'?te ómem vive, mas o Padre Jezuino morre! O niizan- 
tropo, que nam se comunica com outro ómem senam 
debaixo das vistas do próprio interese, incapaz do menor 
sacreficio a bem da umanidade ; este ómem vive, mas 
o Padre Jezuino morrei 

Providencia de ineo Deos, eu vos adoro! 



26 



Cristaons, o justo nam morre; separa-se de nós por 
um castigo devido a nosos crimes, porque nam sabemos 
agradecer ao Céo tam caro beneficio. Ele caminha para 
sua pátria, vai receber a coroa da imortalidade; sua me, 
moria é eterna, seo nome é sempre lembrado com amor, 
e com saudade. 

O Ímpio, pelo contrario, se conserva para flagelo d© 
sua pátria, para meter a confuzam, e a discórdia na 
sociedade, para gerar ínil descontentes, para fazer-nos, 
porém, aborrecedores deste caos sempre confuzo, deste 
teatro de paixoens, e do mizerias. Sua vida termina-se 
com a alegria dos que o detestam ; sua memoria sepulta- 
se no mais ignominiozo esquecimento; e se é lembrado 
\ye\o estrondo de suas infâmias, é só para orror, e exo- 
craçam. 

Ali está o exemplo: Aqueles osos sam os restos do 
Padre Jezuino, sam pó, sam nada; mas para nós sain 
uma preciozidade, nós os respeitamos. 

Ali vemos os últimos despojos de um iâ-mam, que 
nos ajudava; de um pai, que ternamente nos amava; de 
um amigo, que fazia nosa consolaçam; de um sacerdote 
que nos conduzia pela estrada da virtude com a voz, e 
com o exemplo. 

Sua memoria nos será sempre saudoza. E vós, co- 
lunas deste templo, paredes do santuário, que sois oje 
testemunhas de nosos louvores, e ainda de nosas lagri- 
mas, guardai para transmitir á posteridade as ilustres 
açoens deste sacerdote; contai a cada ómem, que aqui 
entrar pela serie nam interrompida dos séculos, que nós 
somos gratos a .seos beneíicios, que fazemos justiça a 
seos merecimentos, e que temos dado o exemplo da mais 
nobre gratidam. 

E vós, sepultura feliz, conservai com cuidado esa 



26 



jóia preciosa, que nós vos confiamos; aqui viremos, nosos 
olhos repetidas vezes voltarse-am para vós com respeito 
e com saudade; todos os dias nós, e nosos vindouros vos 
pediremos conta dese caro penhor, que ai depozitamos. 
Sereis de oje em diante o memorial perene dese ómein 
raro, cujo nome, cuja açoens, cujas virtudes eternamente 
estaram gravadas em nosa memoria. 

E vós, Senhores, a quem o amor, a gratidam, e a 
saudade juntaram neste lugar santo á prestar os últimos 
ofícios de religiam^ e umanidade ao Padre Jezuino, des- 
pedi- vos dele talvez para sempre; mas emquanto viverdes 
orai por ele; aprendei neste exemplo fatal quanto sairi 
falsas nosas esperanças, que só na Pátria dos Justos de- 
vemos pôr nosos cuidados, o nosa confiança. Trabalhai 
para serdes imitadores de suas virtudes; só assim esca- 
pareis a uma morte ignominiozn, e voso nome sobrevi- 
verá a vosa ruina. 

Eu nam afirmo que ele ó um santo reconhecido por 
uma autoridade legitima; porem, foi um ómem de bem, 
um cidadão ourado, engenhozo, ábil, ativo, e laboriozo ; 
um crístam, que aprozenta em sua vida muitos rasgos de 
virtudes dignas de serem imitadas. Umilde, caritjitivo, 
piedoso, será sempre amado emquanto no coraçam do 
ómem nam apagar se o instinto do reconhecimento, e 
da gratidam ; obterá sempre o respeito da posteridade, 
emquanto se souber avaliar o merecimento, e a virtude . 

Ministros do Senlior, continuai vosos sufrágios ; nós 
vos acompanharemos; queremos ser comvosco testemu- 
nhas do derradeiro áto, que em nome da Igreja ides 
praticar á bem desa alma. Nós, a borda da sepultura, 
atentos, pela ultima vez saudamos com nosas lagrimas 
os ósos dese sacerdote, que tanto amámos, e que mere- 
ceo tanto nosa saudade, e noso respeito. 



ESTUDO CRITICO 
à FOSSE DO BBÂZIL UBtlDIOlTAL 



niNDACiO U PRIUEUIA COLÓNIA RIGUUR DOS PORTDGIISZÍS BK 
S. VICENTE 



'^=T^ 



ARGUMENTO: Trinta annos depois do descobn- 
mento do Brasil resolveo a Metrojwle colonisal-o^ enviando 
para esse fim c/n 1630- 1 uma esquadra ao mando de 
Martim Affonso de Soma, o qual correo a costa ate' o 
Rio da Prata, donde retrocedeo para o norte, vindo 
assentar a cdoniaem S. Vicente, 

Demonstrase que a armada de 1530-1 mo veio, 
como opina o Snr Vamhagen, com plano assefitado de 
colonisar o Rio da Prata; que o almirante portuguez ti- 
nha amplos poderes para situar a colónia onde melhor lhe 
parecesse; que o regresso do almirante para o porto de 8. 
Vicente não se motivou por haver verificado, apóz observa- 
ções astronómicas dos pilotos, que as tenras do Rio da 
Prata já estavam fára do domínio portv^u£z; essas obser- 
vações não podiam ser concludentes ; e que, ao contrario, 
sempre se julgaram os portugueses, fundados no tratado 
de Tordesilhas, com direito não só a esse rio como ainda ás 
terras da Patagonia ate' o Golfo de S. Mathias; que o que 
trouxe o almirante ao porto de S. Vicente não foi essa 
verifi^cação, mas sim o conhecitnento de qus essa região 
era aurífera, e a fama das grandes riquezas existentes no 
interior. 



ESTUDO CRITICO 

A posse do Brasil meridional. Fundação da primeira colónia 
regular dos portuguezes em S. Vicente 



Trinta aniios eram já decorridos depois que Cabral, 
pela primeira vez, aportara ás praias brasileiras, trinta 
annos de nm^qua^i completo abandono, quando a me- 
trópole portugueza voltou a*^ vistas para suas posses- 
sões americanas e resolveu colonisal-as. 

Essa terra do Brazil que aos primeiros exploradores 
88 exhibira como uma terra pobre, ainda que ostentíuido 
galas de uma natureza incomparável, valia, de facto, 
ainda menos que a própria Africa, adusta e inhospita. 
Simples terra de degredo para criminosos, estação de 
refresco para as armadas do Oriente, paiz de miseráveis 
feitorias para o resgate de escravos ou para o trafego do 
lenho de tinturaria, o Brazil nâo tinha para seduzir o espi- 
rito merjaiitilda época nem o ouro, nem o marfim, nem a 
pimenta da Guiné, nâo tinha, táo pouco, as nações poli- 
ciadas nem as praças opulentas e numerosas dessa índia 
que toJu o mundo conhecia conio uma terra de mara- 
y ilhas. 



30 



Das prodiicções dossa terra da Vera Cruz, já visi- 
tada pelos Piíizoiís, Cabraes, W^spuccio e Coelho, as j)re- 
luissas verdadeiras não eram, de cert«), i)ara enthusias- 
mar um povo de commerciíintes e de audazes navega- 
dores. Vespuccio voltou da sua primeira viagem desen- 
ganado de que no paiz não havia metal algmn, ponjue o 
povo bárbaro e nú que o habitava nem se quer conhecia 
o uso delle (1) Gonçalo Coelho, depois de muito pere- 
grinar, regressou desilludido, porque as mercadorias da 
Terra que levou, no dizer de Damião de (lòes, nam 
eram outras que pau vermelho, a que chamam hrazih 
hogios e papagaios. Jerónimo Osório, relatando os últimos 
successofl do.ssa mesma expedição de Coellio, que voltou 
destroçada, tendo perdido quatro das seis náos com que 
partira, frisa pelo ridículo quando nos dá conta do car- 
regamento com que aquelle navegador tornou ao reino; 
atque duas tantúm simiis in patriam reduxerit (2) 
Enciso ainda em 1518 publicava que a tara do hrazil 
era de pouco proveito. 

Foram, portanto, trinta annos de justificado aban- 
dono. Agora, poróm, as circumstancias mudaram. O 
império commercial dos Portuguezes no Oriente estava 
fundado; a miragem da índia ia se dissipando e a Ame- 
rica, por tantos annos, confundida com apropria Ásia (8) 
desenhava-ae já como um mundo á parto, opulento, 
vastissimo e encerrando cousas extraordinárias. 

Os successos dos Cíistelhnnos no Novo Mundo fri- 
savam pelo maravilhoso e despertavam a emulação. 



(1) Cartas de Américo Vespuccio. 

(2) J. Osório, De Rebns geslis Erainanelis. 

(8) Até 1513 quando Balboa descobriu o mar do Sul ou Oceano Pacifico 
se presumia a America como ura prolongamento da Ásia. Colombo, fallecido 
em 1506, n&o logrou verificar que tinha descoberto um mundo novo. 



31 



O México, esmagado por um punhado de aventu- 
reiros, entregara a Fernando Cortez os Ihesouros d© 
Montesuma; uma civilisaçâo auiocthone exhibia-se extra- 
ordinária no Centro-America e nos planaltos do Bogotá 
e Cundinamarca; no Porú, o iraperio Inca, accommettido 
pelos I^izarros e Ahnagro, estava excitando a cobiça do 
niundj inteiro; Fernão de Magalhães descobrira já no 
extremo austral essa píussagem para o Mar do Sul que 
Unxi o seu nome e íizera a volta do globo. 

Do estreito de Anian á Terra do Fogo, do cabo 
de Santo Agostinho á Califórnia, uma plêiade de nave. 
gadoros audazes tinha feito surgir nitidamente esbo- 
çmlos 03 contornos de um continente enorme abarcan- 
do o mundo de polo a polo. 

As expedií^ões marítimas e teirestres succediam-se 
a miúdo. Estiiva se, com otfeito, n'um período febril, ca- ' 
racteristico das aventuras bem succedidas 

No horizonte ignoto de todaa as soKdões sentia- se 
como íj:ie pairar uma lenda de i'iquezas fabulosas; e 
no coni;ão de cada aventureiro rninhava-sc o vago 
prcsenti mento dessa fortunn, sempre a mesma, sempre 
captiva da audácia, aguçando todas as ambições. 

Foi então que á pohtica portugueza^ como que 
levai. V pelo estimulo que o successo alheio aguça 
ate o ciúme, resolveu occupar e povoar o Brazil. Fsta 
terra, por tão longos annos abandonada, bem podia 
encerrar o se*i império como o de Montesuma, e talvez, 
quem sabe, se não seria mais fácil accommetter o Inca 
do Peru, investindo-o pelas costa? brasileiras ? 

E assiin pelos annos de 1530 e 1531 singrava os 
mires do Brasil u»na expedição portugueza de cinco 
velas e 400 homens de tripolação ao mando de Mar- 



32 



tim Affonse de Sousa para iniciar a coloiiisaçáo das 
possessões americanas. Trazia ella por inissíio: explo- 
rar, proteger e colonisar. 

Ao avistar as terras da America na altura do Cabo de 
Santo Agostinho, segue uma parte da expedição ao maii. 
do de Diogo Leite a explorar as costas do Norte até o 
Maranhão, emquanto o grosso da esquadra, já aug- 
raentada com as náos intrusas, capturadas a traficantes 
francezes, dirige-se para o Sul, caminho do rio de Santa 
Maria ou rio da Prata. 

Na Bahia, onde encontra o Caramuru como um pa- 
triarcha, deixa alguns homens e sementes para prova- 
rem a capacidade da terra. 

No Rio de Janeiro onde se deteve três mezes. e por- 
que sua missão era conhecer o paiz, fez o almirante 
partir para o interior uma turma de quatro exploradores 
« que foram cento e quinze léguas e as sessenta e cinco deUas 
foram por montanhas mui grandes, e as cincoenta foram ])0i' 
um campo mui grande: e foram até darem com um grande 
rei, senhor de todos aquelles campos, e lhes fez muita hon- 
ra e veiu com elles até os entregar ao capitam J, ; e lhe 
trouxe muito cristal, e deu novas como no rio de Pa''aguay 
havia muito ouro e prata. O capitam lhe fez muita honra^ 
e lhe deu muitas dadivas e o mandou tornar pura as suas 
terras. (1) 

Estava, pois, o Capitão de posse de uma informa- 
ção valiosa e ao sabor dos seus intuitos; sabia já que para 
as regiões centraes ao Sudoeste havia muitos metaes 
preciosos. 

A informação correbora-se ainda eraCananéa ondea 
expedição foi aportar e se demorou quarenta dias. Ahise lhe 
apresenta um certo Francisco de Chaves, grande lingoa 
da terra e conhecedor de ?f»itões, offerecondo-se-lhe para 

(l) Do Roteiros de Peros Lopes . 



33 



guiar uma expedição ao interior a qual podia ir e vir em 
dez mezes e tornar ao porto com #>0 esa^aros carregados 
de prata e ouro. Não havia mais duvidar; a noticia des- 
sas riquesas já vinha de longe; as informaçõe? colhidas 
confirmam-se, e, já agora, essa terra de fabulosas rique- 
zas não era mais um mytho; havia ja quem a conheces- 
se de perto e se offerecesso para mostral-a. 

Uma expedição de 40 bestt;iros e4() espingardeiros, 
commandada por Pêro IjoI)0 e guiada pelo aventureiro 
Chaves, partiu então de Cananeaa 1 de Setembro de 1531 
e entranhou se pelos sertões á busca dessa região do 
ouro e da prata, do Perii talvez. Partiu, porém, para não 
mais voltíu*, ponjue todaella pereceu algures trucidada 
pelo gentio feroz em um canto obscuio do valle do 
Paraná. 

Entretanto, desfalcada da sua gente, mas, porven- 
tura, mais avolumada nas suas ambições, a armada por- 
tuj^uesa nuvegou para o sul, caminho do Rio da Pmta, 
completando a exploração da costa 

Atraz, porem, ficava-lhe o melhor das suas espe- 
ranças: essa expedição que se entranhava no deserto a 
busca de o aro ! 

Ao chegar á entrada do grande estuário, ja em 
frente desse cabo de Santa Mai-ia, que Vespuccio fora 
tíUvez o primeiro a avistar em 1502, é a esquadra colhi- 
da de improviso por um desses furiosos pampeiroB, tão 
communs nos mares do Sul, e se perde totalmente a náu 
capitauea com grande co{)ia das suas melhores provi 
soes. O capitão, (jue deu á costa nessa terra areenta e 
agreste que se avisinha do Cabo para o lado do Norte, 
perdidos alguns poucos tripolantes, desanima de prose- 
guir. 

O irmão, porem, dispõe-se a completar os intui- 
tos da ex[)edição. e embarcando n'um bergantim com 



34 



trinta homens de equipagem anima*se a j>enetrar no 
«grande rio. Percorreihe as mariíens do Norte até o 
fundo do estuário, passa a foz do Uruguay, e pelos 
muitos e entrincados l)raços ou eanaes que o Paraná 
despede ao encontro d'aquelle. sobe até o esteiro dos 
Caranilins on<le assenta dons padrões com as arnuts de 
seu lei o toma posso da terra para so to»-nar. 

Pêro Lopes de Souza, que esse era o jovem e es. 
força do connnaníiante do bergantim, estava enUio 
pelo *ò;\'^ 8j4 de latitude Sul, pouco mais ou menos na 
altura do actual rio dos Arrecifes que rei^a a terra 
Argentina pela Inuida direita <lo grande Paraná (1) 

«Esta terra dos ('aran lins, dizia elle ao irraâo, 
é a mais formosa terra e mais aprasivel que p )de ser. 
Eu trazia connn'*;o allemfítM e italianos o homcíus que 
foram a índia o fra:ic(v.es. todos eram espantados da 
formosura desta terra , e andávamos todos pismados^ 
(jue nos nâo lembrava tornar!^ 

O irmáo, todavia, se não deixa seduzir pelos en- 
cantos dessa terra dos Caran<lins, e, dando \nn' termi- 
nada a sua missão no Sul, fez se de vela jiara o Norte 
o veio aportar a S. Vicente, que escolheu para sede da 
primeira povoação (pie vinha fundar no Brasil. 

Se esta expe(hção d<' \hu*tins Affonso de Sousa, 
como opina o sr. Varnhagen (l), vinha de . facto, occu par 



(1) Cândido Meniex dp Alm*»ida. interpretando o roteiro d« Pêro Lo- 
pes, presame o Esteiro dos farandtns á margem .Io rrnuaay. em Pay 
standà pmiro mnis ou menos, qiianio é certo que o toxto do roíPiro aiin- 
dido conduz a p -nto diametramenteoppo<ito. Partindo d h ilhas de Santo André 
qne estAo no UruKuay e seguindo através de eanaes e braços nos rnm>s dp 
Oe-wnloeste. No'o'este e Sudoeste n4'> podia tender pira PHysandú, que 
fica ao Norte sen \o o curso de Urugaay, ne-<fe trech ». Norte Sul. Demii»». a 
terra dos C^randms é d> lado á<* Buenos-Ayres e nâo do Oriental e a lati- 
tude in licada para o Esteiro, onde se assentaram os padrões nfto se con- 
forma coma posiçáo de Paysandú (Vide Atlas do Império do Brazil- pag. 24) 

(2) Historia (leral do Brasil, vol. I pag. l l.S. 



35 



as margens do grando Rio da I>ata o nellas assentar a 
primeira colónia regular portuguoza <la America, to- 
mando posse definitiva don^a região do clima tenipe- 
rado cujo nome rectoidava ri(juezas por ventura ainda 
veladiLs, míis já presentidas, é ítn\"A confessar cjiie o 
principal intuito da ex|.ed:<;ru) ','stjiva perdido. Se as 
instru(í<,*ões do chefe ordenavam lhe de fixar se neste 
rio, nâo seria, por certo, o desl>arato de uma pecjuena 
parte de sua esquadra (pie o demoverii» ile cumprir as 
ordens regias, antes [míIo contrario, o levaria a dar lhes 
execução, permanecendo no seu posto, refa/endose ou 
pedindo soccorro. O almirante, porém, r;paradas as 
avarias da armada, preferiu retroceder, al)an'!')nando 
essas paragens acossvdos dos painpeiros e vindo assentar 
os fundamentoM da povoaçfio de S. Vicent-í no clima 
mais tépido de soh o Trópico. 10 assim procedendo 
não desobedecia elle as onlens do seu rei, nem lhe des. 
prosava as insti ucçõi^s, estavíi, ao contrario, em exercí- 
cio das amplas attrihuições (juo tinlia : explorava, reco- 
nhecia a região e se locaria onde melhor lhe parecesse, 
A carta regia de 2S de Setembro de 1532 dil o positi 
vãmente: -Depois di vo^-;i pirtida se praticou se 
seria meu serviço povoa.- so toda t^ssa costa do Brazil, 
e algumas pessoas me rerpieriam (-apitanias em terra 
delia. Eu quisera, antes de niss(» fazer cousa algmna, 
esperar por vossa vinda para com vossa informação 
fazer o (pie mo bem pareí*er. e «jue na repartição (jue 
dis.v^o se houver de fazer ^^í^coUvw^ tt nwlhor parle.» 

Quem assim escrevia em 1532 não tinha por certo 
plano assentado, nem resoUiçà.) positiva de colonisar 
uma determinada região, quíiudo dons annos antes 
enviava essa expedição cajc;:s successos estamos rela 
tando. 



36 



A politica portugueza, nessa época, não havia ainda 
comprehendido o valor e alcance da posição que íissim 
se abandonava. E' verdade .]ue a presença dos Caste- 
lhanos nas agnas do Prata, onde com um dos Cabotos 
se ensaiara pouco antes um rudimento de colonisaçáo, 
que breve feneceu, tinha, de facto, despertado a atten- 
ção dos conselheiros de João III; mas as vantagens poli- 
ticas e estratégicas do estuário, quer em relação ao 
Estreito de Magalhães, quer em relação ás terras auri- 
feras do Alto Peru não se lhes tinham tão claramente 
patenteado que viessem a motivar um plano politico 
de sabia previsão. 

Ao contrario disso, aguardavam-se ainda as infor- 
mações do almirante para com ellas decidir-se o que 
convinha fazer-se. Para a nietropole, que só cogitava 
da índia, esse paiz da America ora ainda, quasi que em 
absoluto, desconhecido. Das primeiras expedições que 
lhe correrim as costas, baptisando-lhe os logares mais 
salientes, até a mesma tradição se perdera. Demais, 
é sabido, aquellas primeiras viagens de Vespuccio e de 
Coelho nlo visavam senão duas cousas essenciaes á 
pohtica CO nmercial dos Portuguezes : verificar que essa 
terra do descobrimento de ('abral inda tinh i com a 
índia e que ahi, dcutrj do hemispherio portuguez, se 
não encontrava passagem alguma conduzindo aos mares 
ílas especiarias; e se essa passagem algures existia, 
devia ficar tiinto ao sul que o caminho das índias pelo 
Cabo da Boa Esperança, por mais curto, ficava, de facto, 
como uma garantia do predominio lusitano no Oriente. 

Mas agora que mudaram os intuitos políticos da 
metrópole em relação as suas i>ossessões da America, o 
conhecimento mais completo do paiz se impunha, exi- 
gindo novas indagações, precedendo a qualquer plano 



37 



politico que accurretasse dispêndios ou responsabili- 
dades. E foi isso realmente o que veio fazer o almirante 
nos mares do Brasil : exi)lonu\ informar, tomar posse 
do que viesse a deseol)rir e, ]>or ventura, estabelecer-se 
onde e quando llic i)arecesso conveniente, porque na- 
<|uella mesma carta dizia-lhe ainda o rei como que 
querendo renovar-llie os poderes : «por(|Ue eu confio 
de vós, que no (pie assentardes será o melhor, v 

O erro })olitico da nâo occupaçâo do Rio da Prata, 
erro que nem três séculos de ])orHadas luctas conse- 
guiram jamais neutralisar, nem mesmo pode ser levado 
á couta da desidia ou desol)e<liencia do almirante, por- 
que, para es(íusas, até po<le elle alU^gar escrui)ulos de 
leal cavalheiro. 

Conta-seque durante os diíusem que se deteve em repa- 
rosno Cabo de Santa Maria a armada portugueza, os cos- 
mographos de l>ordo fazendo observações astronómicas 
conseguiram verificar que a(|uella costa e com maior 
rasão todo o Rio da Prata, ainda alem para o Oeste, já 
não eram dos dominios de Portugal. O sr. \'^arnhagen 
exhibe mesmo a este respeito argumentos que persua- 
dem. «Muito provável é, diz-nos o illustre historiador, 
(jue no entremeio de t^uitos dias, em que Pêro Lopes 
demarcava o Rio da Prata, não estivessem ociosos 
os pilotos que haviam Hcado na costa com Marti m Af- 
fonso. Em terra tiveram occasiâo de fazer frequentes 
observarões astronómicas sobre a latitude r longitude do 
logar, e is?o lhes daria a convicção, e ao capitão 
mór, do que aquella costa, e. com mais rasão, todo o 
Rio da Prata, já se achí«.vam fora, iste é. mais a 
loeste, da raia até onde se estendia, p(do tratado de 
Tordesilhas, o domínio portuguez naípiellas paragens. 
Ao conhecimento deste facto em Portugal devemos at 



38 



tribuir o não proseguirem em Madrid as reclamações 
acerca desse rio ; o desistir aquelle reino de mandar 
mais frotas ás suas aguas ; e até o não doarj quando 
doou outnis terras, as que ficaram além das de Santa 
Anna, ou da Laguna, onde terminava a courela que 
de direito ainda por ahi lhe tocava. 

«Talvez também pelo conhecimento desse facto, 
continua o mesmo historiador, mais que por serem ahi 
as terras (no httoral) sáfias e areentas, é que Martim 
Affonso não se deixou ficar nas plagas da actual Pro- 
víncia do Rio Grande, onde o lançara de si o próprio 
mar, e decidiu retroceder mais para o norte, a buscar 
outro local onde fixar-se de preferencia.» (1) 

Ainda que plausiveis estas rasões allegadas pelo 
nosso historiador, ellas nâo explicam cabalmente a que 
intuitos obedeceu o almirante retrocedendo para o Norte. 
As observações astronómicas e a resultante verificação 
dos cosmographos ou pilotos de bordo, então realisadas 
como nol-o attesta o mathematico Pedro Nunes, não 
deviam ser precedidas da tomada de posse daquella 
região por Pêro Lopes, effectuada no Esteiro dos Ca- 
randins. Antes esta formalidade, tão essencial naquel- 
les tempos, é que devia seguir-se a aquellas. Demais 
todo o desenvolvimento histórico que se seguio a este 
erro poUtico bera claro nos ensina que jamais os Por- 
tuguezes se convenceram tão cedo da illegitimidade das 
suas pretenções no Rio da Prata e nuiis ainda na Terra 
dos Patagôes. 

Para nós, outras e bem diversas foram íis rasões 
da preferencia de Martim Affonso pela região de sob o 
Trópico ; mas emquanto as não expomos, examinemos, 



(1) Historia Qeral do BrasU, I vol. pag. 121 e 122. 



3Ò 



á luz da critica histórica, a força de convicção que ao 
animo do almirante podiam ter trazido as observações 
astronómicas dos pilotos de bordo. 

Quando em 1494 se negociou entre Portuguezes e 
Castelhanos o tratado de Tordesilhas, corrigindo a bulia 
de Alexandre VI que repartio o mundo entre estes 
dous povos, mas excluia Portugal da America, ficou, em 
definitiva, estipulado que a linha meridiana da de- 
marcaçlio correria a 370 léguas ao poente das ilhas do 
Cabo Verde e não a lOO como a bulia a principio 
estabelecera ; que as duas partes contractantes dentro 
dos 10 raezes que se seguissem á assignatura do trata- 
do en\iariam cosmographos e delegados seus em igual 
numero para, de concerto, demarcarem a referida meri- 
diana na altura do parallelo daquellas ilhas ; que no 
])rocesso de demarcação se empregariam os grãos de 
Norte ou de Sol ou as singraduras de léguas ; e que fi- 
nalmente se compromettiam de parte á parte a nâo 
enviarem navios violando a raia assim solemnemente 
convencionada e acceitu. (1) O tratado, porém, trasia vi- 
cio insanável que, para logo, tornou-o inexequivel. Ap- 
pellando para uma Unha imaginaria que a sciencia 
contemporânea não tinha como demarcar, o tratado 
ficou, desde logo, lettra morta, inútil como garantia de 
direitos reciprocos. 

Para os Portuguezes que, ao negocial-o, nem siquer 
cogitavam do Continente novo, pois ainda não fora 
descoberto e que só visavam resguardar o seu caminho 
da índia, afastando para bem longe delle a nação rival, 
o tratado correspondia, de facto, a uma necessidade po- 
litica. Para os Castelhanos, porem, elle só tinha um 



(l( Carlos Calvo, Colleccion completa de los Tratados, etc. I vol. 
ags. 19 a 36. 



4o 



valor positivo: era o do reconliecimento do seu direito 
ás conquistas do ultramar no mesmo pé de igualdade 
que os Portuguezes os quaes se presumiam senhores 
únicos do Oceano ignoto e de todas as torra por 
descobrir, segundo as concessões anteriores dos Ponti- 
fices. 

Obtidas estas vantagens reciprocas, ninguém mais 
cogitou do implemento do lado pratico das clausulas 
do tratado. Os 10 mezes se esgotaram sem que de 
parte a parte se pensasse no problema da demarcação, 
aliás de solução impossivel. 

De facto toda e qualquer tentativa pelo lado pra- 
tico para se assignalai* então a merkUann não podia 
dar resultado tíingivel. O Continente da America ainda 
era desconhecido, pois só três annos mais tíirde é que 
Colombo descobriu a feira firme na altura da foz do 
Orinoco, e nenhuma ilha algiu^es existia no seio do 
oceano, cortada por essa mendiana e podendo servir- 
Ihe de balisa. Impossível como era de assignalar mate- 
rialmente essa linha por sobre as vagas movediças do 
Oceano, ter-se-ia de appellar para as soluções astronó- 
micas em que, aliás, quasi ninguém acreditava, tão 
absurdos e discordantes eram os resultados que exlii- 
biam; 

Nada havia tão incerto e inconsistente como a 
sciencia dos cosmographos e pilotos desta época. Na 
pratica como na the >ria tudo era informe e rudimentar. 
Ptolomeu era então o oráculo (1), e tod sabemos hoje 
o que valia o astrónomo de Alexandria com o seu ee- 
clectismo na sciencia. A rendondeza da terra era ainda 



(1) As obras de Ptolomeu começaram a círenlar impressa» em 1475. A 
tradacção latina de Jacobo Angelo foi impressa pelo primeira vez, neste 
anuo, em Vioença sob os auspieioa de Xisto IV. 



41 



uma hypotliese repugnante e ha 7 annos apenas pro- 
vada. A grandeza delia um problema que ficou inso- 
lúvel a despeito dos trabalhos memoráveis de Eratos- 
thenes, Hyf)archo, Possidonio e Marino de Tyro. O 
comprimento do gráo terrestre era incerto ainda ; a 
raediçâo delle realisada por Eratosthenes e rectificada 
um século depois por Hyparcho que fixou-lhe o compri- 
mento de 700 stadios gregos ou llOíJOO metros de hoje, 
ficou viciada pelo mesmo Ptolomeu com a adopção de 
um stadio ticticio, cuja i<lcntificação jamais se conse- 
guiu realisar. 

O mundo conhecido ou Ecumeno que Eratosthenes 
e Strabo calculavam então não abranger mais que 2/7 
(la circumferencia do globo, fora pelo mesmo Ptolomeu 
elevado á metíide, donde depois se originarem cálculos 
erróneos como os de Colombo que presumia não haver 
mais de l.UK) léguas entre as costíis da Europa e o 
extremo opposto da Ásia que elle esperava attingir i)or 
occidente. 

As observações astronómicas, a julgar pelos resul- 
tado exhibidos por Ptolomeu, eram simplesmente gros- 
seiras approxi mações. As latitudes calculavam-se com erro 
de um gráo a mais ou a menos; as longitudes davam 
verdíideiros disparates. Quando determinadas por obser- 
vação astronómica como aquella do eclipse do sol rea- 
lisada sinmltaneamento em Oarthago e Arbelles, da- 
vam resultados com erro de onze gráos ! Quando as 
longitudes eram calculadas por meio da conversação de 
elementos itinerários em annotações astronómicas, não 
eram menos grosseiros os resultados. 

Eui 1530 quando navega os mares do Brasil essa 
armada de Martin AlTonso a que nos temos referido, es 



42 



cosmographos, os pilotos ou mercantes sabiam muito 
bem manejar o seu astrolábio, tosco instrumento com 
que mediam a altura dos astros para calcularem a Jati- 
tudc, o corrigirem a derrota do navio, ainda assim eram 
frequentes os erros de um e mais gráos na determina- 
ção desta coordenada, justamente como no tempo de 
Ptolomeu. 

Segundo se vê do roteiro de Pêro I^opes de Souza, 
a latitude da foz do rio de S. Francisco está ali deter- 
minada com o erro de um gráo para mais; {^) a latitude 
da Habia de Todos os Santos com o erro de um quarto 
de gráo a mais; a do Rio de Janeiro com um terço a 
mais, e só a do Cabo de Santa Maria, á entrada do es- 
tuário do Pratii, talvez por ter sido reiterada nas obser- 
vações feitas em terra, accusa, com pequena di ff cren- 
ça, resultado exacto. 

Nas operações em que se requeria maior rigor, de- 
sembarcavam era terra os i>i lotos e tomavam ao meio dia 
a altura do sol. A latitude, uma vez calculada a declina- 
ção do astro para esse dia, deduzia-se então sem mais 
correções. A bordo do navio era-lh<is penosíssima a ope- 
ração, c até mesmo impossível si se tratava de estrellas, 
porque então não sabiam como se liaverem com o ba- 
lanço do mar. 

Mestre Johanes Emeuelaus, um dos pilotos da ar- 
mada de Cabral de 1500, escrevendo a D. Manoel e 
dando-lhe conta de como se dispuabam no nosso coo 
as constellações circumpolares, sem aliás determinar- 



1)0 roteiro ai ludido consigna as seguintes latitudes: 

Foz do rio S. Francisco 11 1|2 

iiahia de Tedos os Santos 13 1 14 

Kio de Janeiro 28 l|4 

Cabo de Santa Maria 84 8[4 



43 



lhes os gráos (1), coraraunicava haver observado era 
17^ austraes a hititude de Porto Seguro, mas como di- 
vergia em muito a opinião dos demais pilotos que uns 
davam lõO léguas mais e outros menos, não havia como 
certiHcar-se senão depois que se chegasse ao Cabo da 
Boa Esperança, porque então, dizia elle, se havia de 
ver quem mais certo andava se os pilotos com a carta 
se ello com a carta e com o astrolábio. Ainda assim o 
calculo do mestre estava affectado do erro de um gráo 
a mais. 

Américo Vespuccio que, aliás, era um cosmogra- 
pho hábil, errava a miúdo nos seus cálculos de latitude. 
Dos seus escriptos, por vezes tão discordantes, se vô 
que calculou a latitude do Cabo de Santo Agostinho 
com nm erro de 1/3 gráo a menos, e a do Cabo de 8anta 
Maria, á entrada do estuário do Prata, onde diz 
que deixou de costear a terra para accommetter o mar 
por outra parte, accusava taes diff crenças (lue o próprio 
Vespuccio ora dava-lhe 32" austraes (2), ora calculava-a 
em l7«l/2 para além do Trópico de Capricórnio, o que 
equivale a 4l<* ao Sul. (3). Discrepâncias estas tâogran- 
desque os mesmos detractores de Vespuccio mais se ser- 
vem delias para provar a má fé ou o descaro de um 
mentiroso do que para demonstrar a imperícia do cos- 
mographo, ou a imperfeição dos processos de observa- 
ção astronómica em uso no seu tempo. 



(1) Dizia em saa carta o piloto: «...quanto senor ai otro pando sa- 
l)ra vosa altesa qoe cerca de Ias estréilas yo hp trabajado algo de lo que 

he podydo pêro non mucho solainente mando a vosa alteza como 

estan situadas las estrellas dei. pêro era que grado esta cada ana non lo 
he podydo saber antes me paresce ser inp<nl)ile en la mar tomarse aliara 
de ningana estrella porque yo trabajè mucho en e^o e por poeo que el na- 
vio enbalance se yerran quatro ó cinco grados de guisa que se non pucden 
faser synon en terra... > 

(2) Lettera ai Solderini em Canovai, vol. II. 
(8) Veja-se o «Summario de A. Vespuccio». 



44 



Quanto lis loiígitudoíá o proíjosso coiinnuminente usa- 
do era o da conversão dos elementos itinerários em anno- 
ta^ões astronómicas. Nenhum processo directo, ol)servan- 
do os astros, era então praticado. 

Os pilotos ou mareantes deduziam a longitude pela 
derrota do navio, para o cjue partindo de um ponto cuja 
latitude era conlieci<la e guanlando upi rumo certo 
vinham, no diário de bordo, assignalando os incidentes 
mais notáveis, as causas (jue, por ventura, perturbassem 
a marcha reguhu' da embarcarão, e, tomando alturas do 
sol ao meio dia para calcular a latitude, corrigiam 
<|ualquer erro na estimativa das singradunts. Este sim- 
ples problema de loxodromia, (juasi sempre resolndo 
pelos marujos por um processo graphico, era o único 
(\ue então possuíam para determinar a longitude no 
mar. 

Mas, quem souber quão fallivel é esse rumo indi- 
cado pela bússola, instrumento imperfeito e de emprego 
(Uividoso por se não conhecerem ainda as leis do magne- 
tismo; quem conhecer como íis correntes oceânicas, cuja 
velocidade aliás não se sabia bem medir, podem viciar 
a derrota do navio, comprehenderá quão erróneo deve 
ser esse processo de determinar longitude, todo baseado 
na marcha de embarcações de vela. abaolutauiente de- 
pendentes da feição do vento. 

As sinffraduras de léguas de que fali o tratado de 
Tordesilhas eram a cousa mais incerta e variável que é 
possível imaginar-se. As .singraduras diárias de uma ca- 
ravella, navio veleiro, dos mais empregados nesse tem[)o, 
tinham-se como valendo 30 léguas, ou 1^ li2: mas como 
tudo dependia do vento, a marcha da embarcação s6 
se calculava bera, quando o teuipo i)ermittia observar o 
sol para determinar a latitude, 



45 



Se a caravella segiiia a direc<jão de um meridiano, 
essa operação auxiliar, repetidamente feit^i. permittia 
attingir alguma exactidão; >i porém a (lerrota se effec- 
tuava na direcção de um [uirallelo, como o tratado de 
Tordesilhas dek^rmiuava (pie se ti/.esse no acto da de- 
raarcaçáo. partindo das ilhas do Caho Verde, essa ope- 
ração auxiliar, não tendo ap|»hcação. deixava a estimativa 
do navio dependente exchisivameiíte da a[)reciação dos 
pilotos, yy fácil de com])rehender (pião susceptível de 
erro é um tal processo de calcular lonçilude por singra- 
duras de le^çuas 

Xa hií^tiM'iíi da navegação íicaiam |)ara sempre 
menuíraveis os ^rraviíssimos <'n*os de lotigituíle em tpie 
incorreram ('ol,n)d)o (* Maícalliães naV''í»'an<lo no sentido 
do parallelo. Atjuelle.por occasião da sua primeira viageu) 
ao Novo Mundo (juerendo usar díMUii estratagema para 
prevenir o tmor da e(pnpai;<'m <pie st via afirstar para 
uma região longimpia sem esperança de tornar, fraudava 
distimcias n»> livro de lM»rdo. at» passo que reservada- 
mente escrevia outr > para sí. tnidc presumia consignar 
o roteiro exacto; sahc se hoje <pie no íim de 24 dias de 
navegação, o primeiro livro indicava resultado mais 
chegado á verdade do t|ue o de seu roteiro reservado. 
O almirante tinha ^eilludidc» a ?5i próprio. 

Magalhães, navegando através do Pacitico n;i pri- 
meira e sempre memorável viagem de circum navegação 
do gloho. accus^ai tào notáveis differenças nas longitu- 
des que a circumferencia da terra ficou dinunuida de 
2U gráo< <l). Erro (t*{(í (pi*- todo,'^ sabemos como a Por- 
tugal saliio tão caro. 



\{) Al^^iaiirtn' «Iv Unflmii^ d z 4'» j^àos d o demonstra fomo mappa qn? traz 
Herwra na sua Hi^t Uan Inénxs On-ififut^teí*. Revista do Inst. Hist. pGeog. 



4(> 



O laiHo-o (";ij»ita«) í «H.l:. <;ai<';.« írabalhos rao de 
unia (-"xaí-tiJàn admiraNoL o piinu-ivo luivrpidor que 
teve a sua «li'|Mr.ii;â() ]»ara «au ular liMigitndf^s Epheme' 
riiKí^ A.-iroianiii<;i> ( 1 1 rht.-^ou a irroiuieeer por occasiào 
de \ntia da» -na/ xíju^u ao., niare • au>tra«^s um erro 
lie mais «li- :;o t:ia'><^ na luiinitude, servirKlo-.-^e desse 
ine^iiiM deíritUM-*' nvh-c--'* A oit-ervavao, dix elle no 
Heii diai'io d'- Imid • iiu l« : i onlive«.T «jue a estima do 
navio liiívia |»rodu/ido uiii vvvj di 'òV' <í na loií^ilude 
desde a i»arlida df Taiti, p à^ «pie. no^j fichamos á esta 
distaiieia ,i ()(-sí<- d;> lon;-;iiadH (pie dava. n loch. *• Xão 
♦) ]>icei>o di/ia- ínai- paí\í i (Makuiiar nm tal processo. 

( oinu poi- t'Mii i\ ii -efio a^ o))^ervai;òv.'- astrono- 

jilieas iU' laliln<^f < inii;;!lude roali^atlas [ndos pilotos de 
Marliio Allo-h-.- (hj ],).)[. 

< ) viji-. \'aiiilia^Mi (jUe iiol-o rt lata apoiandoòe ii'^ 
douio inailiriiiatH-" I*<m1i'«) iNuues não de\ia ignorar que 
por »•-.•>(.• iriiipn jaiiiai- tC li^-erairi ohseivavõe - aftrono- 
jniea< dt' l«aiuiiiidc jM.i'<pu c-la' ;t> def)OÍ. (U- 1(>06, 
dejM.i>^ i\i ílrsrul.rii'i «. iwlr ^(. ('[>a», (jUando Dommijiique 
Gissiiii tíilriiloti n- ral»'>a. paia o (eli pi e^ d*)S satélites 
de dnj»ilrr. é <jiU' '•••!HH(^',iia!ii a m-i* determinadas astro* 
nomieaniait»-; »• aiti !a a-»-im nao eram '-mpre-j^ada^ nos 
Piistí'1'e-; dl ha\ei;a';fH.. »-'ii \l>ta da in»p»Ml'eií;ão ou im- 
pn»[)ri< da l'' do- iii-lru>»ne.Mlo^ Só (!»^p<a- (pie l^aplaee 
apefeieou a- 'ral)oa- da Lua [Wimriro faleulada^ por 
Tol)ia> MaVi^fiii 1 T i"0. f '(Ué o pioM-rna <he^ lomritudoi 
no mal t('\e a sua ^oh^va» verdad» ir;!. 

Antes dio'». tudo ora \:»;;^» e mtli,;rno de in-^^drpr 
coníian(,*a. n^-m mestiaí ao- [»]«>]«ii<)> piloto-: ra/ao porqi e 
imo pod(Mno- adm« íiir -pie devido aos trabalho^ m^Hv 

i\\C) S>"ii-i>-'>^ A-iK-jj-rnit appnf^i^nu ^TM hii;>iMf^íT>i i'»U primeira ve»/ aj** 
•1767. 



47 

noraicos dos pilotos da sua armada é queMartira Affonso 
de Souza abandonou o Kio da Prata e se recolheu a S . 
Vicente. 

Essas ohservav^)e8 antrononucas de que nos falia o 
8r. Varnhagen, si se realisaram, não foram, por certo, as 
razões determinantes do regresso do almirante, como não 
foi por causa dellíis e do reconhecimento de se achar o 
Rio da Prata fora do hemis[)horio portnguez que não 
proseguiram em Madrid as reclama(,'ues acerca desse rio, 
que não foram doadas essas terras do Sul ao tempo 
em que so doaram as demais terras do Brasil ; porquanto 
08 Portuguezes o todos (juanto entres elles escreveram 
até o fim de século IS" sohre a historia e geographia da 
America Lusitana sempre consideraram o rio da Prata, 
e mais ainda unm grande extensão das costas da J^ita- 
gonia, como [íerteneentt^s aos dominios de Portugal. 

Frei Vicente do Salvador (|ue escreveu em 1<)27 ; 
o Padre Simão de \'as(íoncellos, ehronista da compaidiia 
de Jesus <|ue escreveu em 10()2; o P. João de Souza 
Ferreira em 1<)1)8; Frei (íasi>ar da Madre Deus, cuja 
obra foi até approvada pela Academia Real das Scien- 
cias de Lisboa em ITOííe outros mais antigos como 
Francisco da ('unha, Diogo de ('astro e o próprio Pedro 
Nunes, todos accordaram em como as })osse8sôes portu- 
guezas iam muito além do Rio da Prata, até o fundo do 
golfo de S. Mathias 

Para bem avaliar-se (luão discrepantes eram os 
cosmographos contemporâneos ao representaram n^s 
suas cartas o continente do Sul da America, basta atten. 
der para os dados fornecidos* pelos roteiros dessa época 
e por elles constrnir as cartas segundo os processos 
em uso, 



48 



O rontinento do Sul oscillava nessas cartas para 
Oriente ou para Oeci<lenle confonne a naeionalidade 
(los pilotos, 

A lagura do Atlântico entre a Africa e a America 
era reduzida ou ani[)liada seg^mdo os intuitos que \nsa- 
vam esses pilotos ou cosmographos, 

Américo Vespuecio, quando em 1501 veio exj>lorar 
as costas do Brasil, tomara para ponto inicial da sua 
travessia o i)orto de I]i;scne<^ue na costa africana, por 
14^ 1/2 de latitude norte e d'alii fez proa em rumo 
constante de Sudoeste-(|uarta de Sul (H;5" 4n' .WVatra- 
vessando o' Atlântico até avistar terra na la/itude de 5" 
ao sul da Kquinoxial. Pois Ihmu, com taes dados, como 
os consigna Américo em unia das suas cartiis, o conti- 
nento do sul <levia estar figurado no mai)j)a do cosmogra- 
plio com uru erro de lO'' 1/3 para menos na longitude 
em relação á Africa, licando assim o atlântico mais 
estreito entre as duos massas continentaes. 

A costa oriental do Brasil estaria figurada como 
uma linha privada de endenta(,H')es ou sem as saliências 
características; por(}uanto, segundo o mesmo cosmogra- 
pho, toda a costa corre ao Sudoeste desde o cabo de 
Santo Agostinho para o sul. (l) 

Tomando agora 'os dados do roteiro de Vicente 
lanez Pinzou na sua viagem de 14Í>Í>, se vô que a coí^ta 
do norte do Brasil, desde o cabo de la Cofisolacion fica- 
ria deslocado pasa oriente pelo menos uns três grás. (2) 

Construindo-se, entretanto, a carta da costa brasi- 
leira pelos dados do roteiro de Pêro Lopes, se o deslo- 



(1) A carta de Vespncfo diz:"... navegando sempre per líbeocio á vista 
di terra di continuo facclondo di incite scale..." 

ií) HiòtorUi Gerai do Hraiil, doar. Vambagen, vo|. 1. pog, 78, 




iTfyM/* dJC, 



49 



caniento do continente ahi (juasi desai)|)ai-€ce no extremo 
norte, não deixa todavia de sel-o bem senvsivel no snl, 
onde a linha da costa declina mais para Oriente. O 
cuidado que se nota na parte do roteiro, correspondente 
á travessia do Atlântico onde se vêem observações acerca 
das correntes oceânicas, da estimativa das distanciais e 
rumo em relação aos pontos mais conhecidos da costa 
dos dous continentes, e as latitudes tomadas quasi dia- 
riamente, tudo mostra o niteresse dos pilotos em bem 
verificar essa tiavessia e assignalar-llie a distancia com 
a possivel exactidão. A parte do roteiro, porem, (jue 
corresponde ao trecho da costa entre o Rio de Janeiro 
e o Rio da Prata vem mais deficiente nas indicações 
dos rumos: as latitudes sâo ahi mais escassamente deter 
minadas em vista dos constantes nevoeiros, e não pou- 
cos pontos dos mais salientes da costa deixam de ser 
assignalados porque a armada por elles passa sem os 
perceber. 

As longitudes deduzidas de um itinerário como 
este não podiam absolutamente dar resultados decisi- 
vos, capazes de trazer convicção nem mesmo aos ])ro- 
prios mareantes (jue as calculavam. Demais, no roteiro 
alludido não. se lê a minima referencia a operações rca- 
lisadus com esse intuito. 

A palavra longitude, nem mesmo é ahi citada; e 
a uâo ser a lacónica observação do dia 23 de novembro 
de lõí31, onde se lê que nesse dia da partida para 
explorar o estuário do Rio da Prata, o sol estava em 14*^ 
3õ' de Saggittario e a lua em 27^ de Tauro, observação 
que parece lembrar que se acompanhava a marcha 
dessses astros, tudo mais oní relação á esphera celestre 



n 



50 



refere-se invariavelmente ás ol)sorvações da altura do 
sol para o calculo das latitudes. 

Vê se, portanto, que as taes observações astronó- 
micas dos pilotos da annada de l53l para determinar 
longitudes não se podiam ter realisado como nol-o refere 
o sr. \''arnhagen, e que não foram ellas certamente 
que determinaram o almirante de retroceder para o 
Norte. Outras fbram, por certo, as razões que levaram 
Martim Affonso de Sousa ao porto de S. ^'icente. 

E não residia só no defeituoso processo de calcular 
longitudes a diíliculdade ou imix^ssibilidade de taes 
verifica(,'õcis a linhn meridiana, suggerida no tratado a 
que nos temos referido, era outra diíliculdade invencivel. 

O tratado foi omisso na lixarão <lo pontp inicial das 
iMO léguas no Arcliipelju^o de (abo \'erde, sendo certo 
que entre a ilba de Santo Antão, a mais oceidental ea 
do Sal que está mais a oriente ha lun âmbito de mais 
de 2 grãos em longitude. Alem «lisso o typo Ans írguas 
não foi íletermmado como ctaivinba, pois (jue en- 
tre a légua portugueza e a lies[)anli<>la bavia notável 
differença. 

Os fpáoti de Sul a que o tratado se refere, que são 
os gráos do Tarallelo, como os grãos de Novie que são 
os do Meridiano, já o dissemos, não eram bem conheci- 
dos, ainda que fossem geralmente aceitos os cálculos 
erróneos de Ptolomeu. 

As singrai luras de legu((s só podiam valer se a de- 
marcação se viesse a r^^alisar de commum accordo por 
meio de pilotos de ambas as nacionalidades. 

O tratado, que tudo isso deixou ao cuidado dos 
eosniographos e conunissarios a reunirem-se dentro de 



ni 



10 mezes em uma das ilhas Canárias para o fim de 
demarcar a meridiana, não tendo tido execução nessa 
clausula, deixou tudo em suspenso e impossivel qualquer 
solução definitiva. 

Só em 1523, depois da viagem de Magalhães, 
quando os Hespanhoes reclamaram as Molucas nos 
maies das especiarias como comprehendidas nos 180» 
do seu hemispherio de influencia, é que o tratado de 
Tordesilhas foi, pela vez primeira interpretado. 

Reunidos em Saragoça os commisarios portuguezes 
e hespanhoes para regularem essa questão, não visavam 
aquelles outra cousa senão salvar as Molucas ainda que 
com sacrificio do lado da America; estes, os hespanhoes 
ao contrario, não sô reclamavam essas ilhas das espe- 
ciarias, mas até Malaca, pois que devido a um erro doro- 
teiro da viagem de circumnavegação, o âmbito do Oceano 
Pacifico tinha sido muito reduzido e dava logar a que 
os 180® de Ilespanha viessem a abrager possessões 
portuguezas no extremo oriente. E como para salval-as 
não tinham os commissarios de Portugal meio algum de 
demonstrar a falsidade daquelle roteiro, por se não 
conhecer melhor processo de determinar longitudes, 
esforçaram-se o possivel para virar das garras de Carlos 
V, ao menos, as suas ilhas das especiarias, e, para tanto, 
exigiam que o ponto inicial das 370 léguas para a 
demarcação da meridiana fosse a ilha do Sal, a mais 
oriental das do Cabo Verde, e não a de Santo Antão 
que, aliás, favorecia ás suas pretençoes na America. 

Mas, como ne.sse tempo, a America pouco valia 
e as especiarias da índia valiam tudo, o Brasil foi 
sacrifioiído ás Molucas e procurou-se^ recuando a demar- 



52 



cação para leste, Jiminiiir a differonça dos grãos que 
se teria de pa^ar em ouro. (i) 

Em 1031, quando ainda percorria os mares do 
Brasil a armada de Martim Affonso, Portugal guardava, 
é certo, as suas ilhas das especiarias, mas no Adantico 
tinha perdido, porque tendo recuado o ponto inicial 
da demarcação para a ilha do Sal, perdera no continente 
da America, pelo menos, 2 1/2 gráos em longitude. 

Mas, se neste ponto oaccordo se impunha por força 
(Je coherencia, de outro lado, impossivel era entre os 
cosmographos de cada parcialidade, qualquer solução 
definitiva da demarcação no terreno pratico. 

Accreditavam os Hespanhoes que a linha de demar- 
cação não dava aos Pcrtuguezcs na America senão um 
terço do território ({ue hoje possuímos, e, segundo os 
seus cosmographos, essa linha imaginaria devia cortar 
o continente, ao Norte, na bahia do Maranhão e sahir, 
ao Sul, em S. Vicente; ficando assim para a Hespanha 
todo o treclio das costas mei-idionaes. desde este porto 
até o Rio da Prata. 

E n'isto andavam elles mais chefiados á verdade, 
porquanto, se n'essa época lhes fosse dado effectuar a 
demarcação com o rigor dos nossos modernos processos 
astronómicos, se verificaria que as 3T(i léguas conttidas 
da ilha do Sal acabariam n'uma meridiana que corta o 
nosso território, ao Norte na barra do (Un*upy. antiga 



(1} Portagal pagon 350:000 (cruzados d*onro pelos 17' qno doviam abran» 
g«r as Molacas. 




J)€3 íccamervéô de C^rvt£n.er*JSt /taxec ^e$/í ; J * 



^sécLô c/o 7Zor^€ cloy ^merícoy cio uid 



Th, ô«i«*.^*«4* •<**■• 




Caie eá' JatiÍ9./ífojtCnJta: /o' ZO 






rk* S9/0tytaLU c(U* 



53 



Abra de Diogo Leite e ao sul nas imniediacôes do porto 
de Santos. (1) 

Mui diversamente opinavain os Portuguezes, os 
qiiaes, baseados nos seus trabalhos geographicos. sempre 
acreditaram (jue a meridiana de demarcaví^o llies cortava 
o continente, do lado do Norte, a Oeste da foz do 
Amazonas cjue ficaria toda portugueza, (2) e, para o 
Sul, vinha cortando as terras do Uioda Prata ainda por 
cima do estuário, mais ou menos na altura do Esteiro 
dos Carandins, onde Paro Lopes ass(íntou os dons pa- 
drões, e indo sahir mais em baixo no fundo do golfo 
de S. Mathias. Valia tanto como deslocar o sul do conti- 
nente para leste de 14 para 15 gráos. 

Os escrip teres portuguezes que do assumpto se 
occuparam, pelo menos os que escreveram antes do fim 
do século 18». são todos concíordes neste modo de fazer 
a demarcação. 

Francisco da Cunha conta ter visto e examinado 
em 15()3 um padrão de mármore com as armas portu- 
guezas entre a i>onta meridional «lo (iolfo de S. Mathias 
e a Ponta do Padrão, mais chegado á primeira, padrão 
que ahi fora assentado p( r uma das ])rimeiras armadas 
exploradoras, talvez pela de I5()v5. (:*») 



{[) Calculando se pelas leRnas portugueziis de 3000 braças, od pelas de 
16 af) gráo no pardllelo da ilha do Sal. A meridiana assim determinada cor- 
reria a 28* 7' 80" ao puf nte daqoella ilha. Se, porém, em vez da ilha do Sal 
fosse a deSto. Antão, a meridiana viria cortar a ilha de Marajó na foz do 
Amazonas em frente a ilhot^i das KIo<'has o no sul viria sahir nas Imniedia- 
ções da Lagona. 

Í2) Calculando pelas legoas reaes de lieapanha de 26.000 pés que no 
paralleloda ilha de Sto. AntÃosão legnas de \b ao gráo. A meridiena assim 
determinada eahia a 24- 40' a Oeste daqnella ilha e passaria nas visinhanças 
do Cabo Orange. 

(3) Casal, Ct/roynt^/hia Brasílica, vol. I, pag. 44 e 45. 



54 



O mesmo Si. Varnhagen que se apoia em Pedro 
Nunes, quando nos relata as observações astronómicas 
dos pilotos da armada de Martim Affonso, não devia 
ignorar a opinião desse douto matliematico, exarada 
nestes termos: «A Província do Brázil começa a correr 
junto do rio das Amazonas, onde se principia o Norte 
da linha de demarcação e repartição, e vae correndo 
pelo sertão d'esta Província até quarenta e cinco gráos, 
pouco mais ou menos; ali se fixou marco pela coroa 
de Portugal.» 

O mesmo illustre autor da Historia Geral do 
Brazil nos trasmitte a summa de um velho documento 
de 1Õ06 em que se dá o Brazil como estendendose 
até os 40" de latitude austral (1) 

Frei Vicente do Salvador segue a mesma opinião 
de Pedro Nunes. 

O Padre Simão de Vasconcellos refere que como 
08 compassos dos cosmographos variavam muito, os 
mais liberaes davam de comprimcntí» á linha imagina- 
ria de demarcação õô®. meridianos, outros 4õ®, outros 
35*^ e outros ainda 24® somente, mas apoiando-se nos 
trabalhos geographicos de Abrahara Ortelius e outros 
de grande nomeada, dava o Brazil como começando ao 
Norte no rio de Vicente Pi nzon e acabando ao Sul na 
bahia de S. Mathias. (2) 

O Padre João de Sousa Ferreira na sUa America 
Abreviada diz também que o Brazil terminava ao Sul 
do Rio da Prata 179 léguas onde se realisaram cos 
primeiros e verdadeiros actos de posse com marco que 
se metteu na Bahia de S. Mathias » (3) e ao Norte ia 

(l) Hist. Geral íio Braxil, dp A. Varnhagen. 2* edicç(U), vol. I pg. 57. 
(2Í Simiode Varconcellos, Chronica da Comp. de Je/nt" doEntado Í9 
Mra2it—ro]. I pag. lY. 

(8) Revista do InetUuio Hibiorico, tomo 67 . 



55 



ató o rio de Vicente Pinzon, 40 léguas alem do cabo 
dos Humos, hoje cabo do Norte, o qual eslá por 2® 40' 
acima da Equinoxial. 

O mesmo autor relata que, segundo Fr. Marcos de 
Guadalaxara na sua Historia Pontificais ahi começavam 
as índias Occidentaes de Castella e que, por commum 
accordo de Carlos V e D. João III, se metteram dous 
padrões de mármores, um da banda do nascente com as 
annas de Portugal e outro da parte do Poente com 
as annas de Castella. 

Bernardo Pereira de Berredo e António Baena 
referem que um desses padrões fora, com effeito, encon- 
trado em 1723 por João Paes do Amaral. 

Do mesmo roteiro de Pêro Lopes se vê comO os 
Portugueses consideravam lanceada a meridiana de 
dejiarcação ao Poente da foz do ^vmazonas ou « rio do 
Maranhão» como então se chamava. « Aíjui, diz o roteiro, 
ao descrever a chegada da armada no archipalago de Cabo 
Verde, achamos hua náo de duzentos toneis, euma chalu- 
pade castelhanos; eem chegando nos disseram como iam 
ao Rio de Maranham: e o capitam J. lhe mandou 
requerer que elles não fossem ao dito rio; porquanto 
era dei Rei nosso senhor e dentro da sua demar- 
carão. » 

Frei Gaspar da Madre Deus, nas suas \'emorías 
para a Historia da Capitania de S- Vicente, obra pu- 
blicada em 1796, quando ja se tinham vulgarisado os 
processos astronómicos de determinação de longitude 
diz textuaímente, faUando de Buenos Ayres, fundada 
pelos castelhanos na margem austral do Rio da Prata: 

« que a coroa de Portugal se contentava com que 

este rio fosse a balisa da Nova Lusitânia; não obstante 
chegar mais ao sul a linlia divisória. » 



56 



Vô-se, portanto, que desde época remota se conside- 
raram os Poriuguezes com direito ao rio da Prata e 
que as tnos observações astronómicos dos pilotos de 
Martim AfEonso jamais lhes abalaram essa crença. 

Ao contrario de Sr. Varnhagen, dizem outros escri- 
ptores que Martim Affonso. longe de se convencer de 
íjue taes terras não eram portuguezas, delias até 
tormou posse em nome do seu rei. Simão de Vascon- 
cellos diz que o almirante a^-sentou marco na ilha de 
Maldonado, pouco ao Norte da entrada do estuário. Cliar- 
levoix repete o mesmo na sua «Historia do Paraguay» e 
mais modernamento o Sr. Cândido Mendes no seu Atlas 
do Brazil nos refere que o mesmo navegador assentara 
marco em Castilhos (Irandes. (1) 

Parece-nos que outras foram as rasões que leva- 
ram o almirante a retroceder para S. Vicente. 

Posto que, ao navegar para o sul, não lhe foi possí- 
vel^ em vista das difficuldades do tempo, entrar nesse 
porto e conhecer-lhe pessoalmente as vantagens, é bem 
cciio que elle possuía acerca da região informações pre- 
cisas. O mesmo roteiro de Pêro Lopes a que nos temos 
referido deixa perceber que a bordo da esquadra vinham 
homens práticos da costa, e até nos apresenta um certo 
Pcdre Annes, piloto que era lingua da terra. E' por is- 
so que, ao voltíu* para o Norte, já vinha a esquadra de 
rota batida para S. Vicente (2) e sò de arribada é qne 
entrou em Cananéa onde se deteve cerca de oito dias. 

J)e facto^ a expedição, que partira da Europa com o 



(.) o roteiro de Pêro Lopes nâo falia era outros marcos que nlo os as- 
sentados no esteiro dos Carandins. Na illia de Maldonado apenas se mandou as- 
sentar uma cruz com uma carta envolvida em cera para assignal-a ura ber- 
gantim que se desgarara. 

(2) O Diário de Pêro Lopes diz testnalraente : «Aqui estivemos nesta 
iltia (a das Palmas, junto ao cabo de S. Maria) quatro dias fazendo-uoa pre* 
tes para nos irmos ao rio de 8, Vicente.» 



hi 



fim <\e colonisar e reconhecer a torra ,nílo veio com pla- 
no assentado de fixar-se nem no Rio da Prata como 
nol-o aftirma o sr. Varnhageii, nem em S. Vicente como 
opina o sr. Mendes de Almeida. (1). 

A primeira colónia regulardes Portngiiezes na Ame. 
rica seria assentada onde melhor parecesse ao almi- 
rante. E' assim que, entrando em Pernambuco, apenas 
examina as feitorias, mas se não decide fixar 90b esse 
clima equatorial; aporta á Bahia, onde por duas vezes 
arriba por motivo das tempestades, mas ahi apenas dei- 
xa dons homens e sementes para ver qual a capacidade 
(lu terra; chega ao Rio de Janeiro cuja paisagem parece 
attrahil-o, mas apenas ahi permanece o tempo necessá- 
rio para refazer-se de mantimentos e aguardar a volta 
íla gente que mandou pelo sertão examinara terra, vae 
por fim até o Rio da Prata, mas ainda ahi se não deixa, 
seduzir pela amenidade do seu clima temperado e retroce- 
de para essa região de sob o Trópico, para S. Vicente, que 
aliás não conseguira avistar até então. 

Entretanto, explica-se facilmente o motivo das 
preferencias de Martim Affonso em relação a esse 
porto. 

A colónia, que vinha fundar, tinha de locar se no 
ponto da costa que mais vantagens offerecesse para a 
exploração subsequente do interior do paiz, tendente a 
«lescobx-ir-lhe as riquezas mineraesde que já havia infor- 
mações quasi que positivas. 

E' preciso não perder de vista que aattençao da me. 
tropole pela sua atií então abandonada possessão da 
America vinha despertada pelos successos dos Ilespa- 
nhoes no México o n(» Parii. O ouro da America já 
a íísse tem tempo desi)ertava o cobiça do mundo inteiro. 

No trecho da costa bi'asileira entre o ('abo Fiio e 

(I) AfhtH do hnierio do BvnziX, pag. 24. 



58 



o porto dos patos Santa Cathariua) era tradição de que 
para o interior havia abundância de ouro e de outros 
nietaes preciosos, tradição que o almirante ao deixar 
a Europa não devia desconhecer. (1). 

Ja no Rio de Janeiro havia elle recebido dos qua, 
tro exploradores do sertão e daquelle rei selvagem 
que os conduzia, a boa nova de que para as re* 
giões provavelmente do Oeste e do Sudoeste o ouro 
abundava. 

Em Cananea as informações do aventureiro Chaves 
levam-no até a convicção; e por isso não trepida em en- 
viar ao sertão aquelle troço de 80 homens ao mando de 
Pêro Lobo Pinheiro. 

No Porto dos Patos, uns quin/e castelhanos, encon- 
trados perdidos, e que ahi estavam desde nmitos annoa 
«deram novas ao capitão I. do muito ouro e prata que 
dentro no sertão havia, e trasiam mostras do que di- 
siam e affirmavaiu ser mui longe.» Taes palavras são 
do mesmo roteiro. 

A tradição da viagem de Aleixo Garcia, indo de 
S. Vicente ao Peru em 1525, fabulosa ou não, é em si 
mesma a encarnação dessa vaga idea de riquezas que se 
presumia abundar algures pelos sertões, e do espirito 
audacioso que prevalescia nessa época de aventuras. 

S. Vicente vinha já na tradição como um porto das 
minas, ou, pelo menos, como o local da zona marítima 
mais adequado para attingilas, como dahi Aleixo attin* 
gira o Peru. A colónia ahi assentada vinha, portanto, 
como subsidio á desajada solução de um problema. 

(1) Escreve ^ Padre Slm&o de Vasconcellos: cAfflrmavam os índios, que oi 
mais dos rios deste distrioio eram copiosos em mineraes de ouro. prata, ferro, 
ca lai m e salitre até o rio Cananea: C/l rowêVrt rfrt Cotnp. de Jesti* do Esta- 
do do Brasil, ?oI. Ipag. LIII, 



n 



59 



Essa pai-te da costa brasílica que do Cabo Frio éq 
iiiflecte para o Oeste e depois paia o Sudoeste coiuo que 
modelando na grande curvatura um mar brasileiro, tão 
varia no seu aspecto, tão be^a no pittoresco das t-uas 
montanhas de granito, tão retalhada de bahias am]iiits, 
enseadas seguras, tão abundante de ilhas, essa tM^^ta 
bem podia chamarse desde então acosta do ouro ]iiiu 
fama ou tradição delle que já corrip, como aqnrlla 
outra secção ao Norte de Porto Seguro se podia i lia* 
mar a costa do pau brasil. 

Quando os dous irmãos Souzas tiveran^ de escso 
Iher onde locar as suas copitiuiias, foi certamente a 
tendendo para taos cireumstancias que escolheram o me 
Ihor, e porque assim já o havia auctorisado ElRei (I) 

Por isso, a ca})itania de Martim Affonso de Sou 
za abrange o centro dessn costa do ouro e vae poi* 100 
léguas desde orioMacahé até 12 léguas ao sul da ilh» do 
Cananéa; o, j>ara não descontentar o irmão, Pedro Lont-** 
bravo-manceho, já illuslre nas lidos do Oceano abre'se*Ihíí 
espaço nesta mesma costa, nas visinhanças de S. Vi 
cente, onde lhe são doadas 10 léguas como ]mra 
fazerlhe participar dos beíicios das sonhadas minus 
d'ouro, ainda veladas no seio dos sertões. 

Mas como homem i)ratico que era, 1\mo lA>|K'fS 
quiz ter no Brazil também aquillo (jue aqui positi^ 
vamento estava rendendo, (piiz ter o seu trecho da 
costa do patihrasil] e então, eilo com a doação de 80 
léguas em Itamaracá onde o lenho de tinturaria em *> 
mais abundante e precioso. 

O resto das suas posses eseolheo elle ainda na tua 

(I) Carta dei Rei D. Jo&o \\\ a Martim AfloDsu de Soas», escrtpU de 
Lisboa a 28 de setembro de 1582, 



60 



--v^ 



hl tio Siil, lias quaruula léguas (jiie se seguem as do 
iriiiilo» t> abrangendo essa i)artc do Porto dos PaU.s, 
ivnde tairkl)em era tradi(*ional a fama do ouro. 

LiHKados, porem, os fundamentos da primeira co' 
kiniii rt^gitlar portugueza da America, á margem dessa 
pití,orp8(^ii bahia de S. Vicente, em cujas aguas ainda 
balouvavíim os restos da pequena es(juadra. 'o almiran- 
te cuja missão estava cumpri^^a, e (juetinha ordem de 
regres^sar quando lhe aprouvesse, expede tão somente a 
maruja para a Europa e se deixa ficar nesta terra dos 
(.jitoyíuuizes, aguardando novas da expedição de Lo- 
l»o que não voltava. 

( 'oiiio a de Aleixo que a tradição faz trucidada nas 
margens do Paraguay, essa expedição, partiu para não 
mais voltar. Atò hoje ninguém sabe que destino 
íi*j o íícu. Mas se a perda de ti\ntos companhei. 
rí)s. cuja morte escura ficou i)ara sempre uni se" 
gredo iin}>enetral das selvas americanas, trouxe desen* 
gano a todas as esperanças do almirante, que deixou 
líjgo o Bnizil para sempre, na alma inculta do mame' 
]{U'XK d(i íilLo dessa raça cruzada (pie se ia formando, 
lalliada para as conquistas do deserto, ficou a crença 
inaliaiavol de um Brazil de ouro. acaso velado nas 
línmuv<^ do futuro. 

A ^'llo, o mamekico, é que devia cal^er esse lance 
derradeiro da fortuna ; a elle a justificação inteira das 
preferencias do almirante. 

.S. Paulo, 17 de Julho de 1895. 

Theodoko Sajupaio 



REUTORIO 



Trabalhos e Occurrencias 

DO 

Instituto Histórico k (fKooKAPHico ue H. 1'auLi* 

NO ANNO I>K IHUf) 

Apkkhkntado pkla Directoria 
Na sks.sào J)k knckrramknto 
Em 25 dií: Oi tihro dk 1HÍ)5. 

Krmt:.>>nrs. Membros do Instituto Hisiunrut' (ivu 
i rajéico de S. Vaulo. 

Em cumprimento ao disposto no § ,')^. do iul. |J 
dos nossos Estatutos, a Directoria do Institutí» UishiricEj 
e (Icographico de S. Paulo vem afyesentar o relatório 
dos facto soccoridos durante o primeiro auiig dt; t.xis^ 
tcncia da nossa associação. 

Sessões 

No periodo decorrido da data da l'unda(;fVn do his- 
tituto, em 1'. do Novcml>ro do 1S1)4, até au piix^ntc, 
foram celebradas 21 sessões, sendo: 1 de inslii!la(.'uo, 1 
para discussão dos Estatutos e eleição da Dirceturin, I*í 
ordinárias e í5 extraordinárias, inclusive a úr hu'y\ 

A 1». sessão ordinária foi realisada a 2r> de .íjim i 
ro deste anno, seguindo-se unui extraordiu' ria tin 'il 
de Abril, para commemorar o anniversario da moite df> 
Tiradentes. Devido á íalta de assumpto, deixou dcliav*^' 
sessões nos mezes de Fevereiro e Março. De Aliril í^iii 
diante e de accordo com a deliberação da Diríi^toriíi 
celebraram-se regulai*meute duas sessões ordinárias [nn' 



62 



111055, tendo havido uma extraordinária a 13 de Maio 
para i^olemnisar a data da abolição da escravidão uo 
Brasil. 

Ag sessões tôin sido regularmente concorridas, mas 
mÚR de desejar que houvasse maior frequência e mais 
HSHiduidude da parte dos snrs. sócios. 

O bistituto continua a celebrar suas sessões em inna 
dità mlsi^ do prédio onde funcciona o Gymnasio do Esta- 
il(^ á [lua da Boa Morto n. 17, e é grato á Directoria 
eunsignar aqui um voto de agradecimento ao Governo 
do Eslíido por este auxilio que presta á nossa associa- 
ção, 

Trabalhos 

líiimntv o anuo foram apresenta<los os seguintes 
trabalhos: 

Ontietis rcpuhlicíntas do Brasil, trabalho especial- 
mente escriptoi)ara o Instituto pelo sócio snr.Dr. Domin- 
gospjaguaribe, que leu algims cai)itulos. 

I^if^' finanças de S. Paulo, no //assado, no ine^sento e 
Hu ^^^///ny, conferencia feita pelo sócio snr. Dr. Jofio Pe- 
th'0 yh\ \'eiga Filho, na sessão dí» 1;5 de Maio. 

<'tttia (inédita) tio Vice rei dtt Brasil^ Co7ide de Cu- 
nhif, dirigida ao (iover.io da Mctiopole em \76ò, sobre 
ãiríi^aH de S. Paulo V Minas (ic-^ac^. lida e commentada 
pelo sncjo s:nr. Dr. Orville Dcrby, na sessão de 20 de 
Mai.í, 

A Historia de S. Paulo, obra do s(k-ío snr. Tancredo 
lio Amaral, ([ue delia leu algunscapitulos. 

Sena da Mantiqueira, trabalho do sócio snr. Dr. 
tJiville Derby e por elle lido na sessão de 20 de Junho. 

Ihscurso sobre os Estados Unidos da America do 
Norte^ proferido pelo sócio snr. Dr. João Pereira Mon- 
teiro, lia sessão de 4 de Julho. 

}*osbr. meridional do Brasil, trabalho do sócio snr. 
l}i\ Theodoro Sampaio, hdo na sessão de 5 de Agosto. 

^^1 Independência do Brasil, conferencia realisada 
ptíli) Hocio snr. Domingos Leopoldino da Fonseca e Sil 
va. na sessão de 7 de Setembro. 

Biographia do Padre Jesuino do Monte Carmello, 
irabalho do sócio snr. António Augusto d^ Fonseca, 



ííS 



lido pelo sócio sar. António de ToIcmIo Piza. na .sr^t^Ao 
de 20 de Setembro. 

Orarão funehre pro fenda em :IS:^\ pelo Padre Diário 
Feijó a respfdto do Padre Jf suíno do Monte • CurmeUo. XuVi 
tarabem polo sócio snr. Dr. António de Toledo Pi/a, na 
mesma sessão d(» 20 de í^etembro. 

Oração fúnebre j)rounnrHida por ('anilklo José da 
Motta a respeito do Padre \>ioijo /v/y o, an notada e oíte- 
vecida pelo soeio siu'. Dr. Jofu» N. Nogueira da Motta n 
lida pelo soeio snr. Tancredo Amaral, na .^esgâo de l*,* 
do corrente. 

Também foram aprisciita<las pelo Presidente ilo 
Instituto diversas tlu-ses, as cpiaes van esprcitieadas no 
aimexo n. 1. 

UlULÍOTULCA K ArcUIVO 

A bibliorlie(-a e o archivo eslão. como é natuni], 
apenas em comeeo; |»()uc<)s livros e ol)jectos contêm, 
mas pouco a pouco ir se To d( senvolveiido, muito esp*/- 
rando o Instituto «la boii vontade tios sm-s. sócios, i[Viu 
seiíi duvida concorrerào para (pie se enriípucam. 

Acbam-se instnllados (Mil uma sala cedida <iTatin tu- 
mente pelo sócio Dr. Doininiros .Ja<j;uaribe no predit» ji, 
09 da Rua (Quinze de Novendno, 2*'. andar, íunccioiían' 
do também alii a secivtaria. 

Os livros, mappas e objectos existentes aetualmen- 



oíj:o ipie 



te na bibliotheea e no archivo constam do catai 
vai annexo sob n. 2. 

Sócios 

O Instituto ticou constituído com lo9 sócios fiiih 
dadores, mas até ao presente somente 116 satisfizenim 
a jóia e 1». annuidíMle, sendo dispensado deste onns 
i) soeio snr. Dr. Prudente José de Moraes Barros, por 
ter sido eleito Presidente honorário do Instituto^ ile 
sorte que 22 sócios lundadores íiinda não pagaram n 
jóia e annuidade. 

A Directoria, em umade suas sessões, deliberou 
uedir aos snrs. sócios em mora OxCunipririiento deste 
dever, dirigindo-lhes um oflicio circular assignado pelo 
Thezourciro; alguns acudiram ao appello. outros decia- 



fi4 ._____^__ ^__ 

rarani não cjuererem pertencer ao Instituto e outros, 
finalmente, nada responderam até agora. 

Cumpre, pois, que tomeis uma deliberação a res- 
peito. 

No correr do anno foram propostos e admittidos 
32 sócios, sendo 13 na qualidade de honorários. 7 na 
de effectivos e 12 na de correspondentes, inclusive os 
approvados na sessão de hoje. Dos acceitos nas duas 
idtimas categorias, por omquanto somente 7 estão con- 
siderados deiinitivamente sócios, por terem satisfeito a 
jóia e 1*. annuidade, nos termos dos Estatutos. 

Nos annexos ns. 3, 4 e õ encontrareis a relação 
nominal dos sócios fundadores (fue cumpriram o dever 
do art. 4'. dos Estatutos. da(iaelle« que ainda não o fi- 
zeram e dos sócios admittidos depois da fundação do 
Instituto. 

Offektas 

Não só dos snrs. sócios, como de pessoas extranhos 
á associação, te.m o Instituto recebido offertas do li- 
vros, mappas, jornaes, etc, ea Directoria, em nome do 
Instituto, agraíloce asoftVrtasfeitas para a Bibliotheca e 
Archivo da Sociedade e i)e(le que contimiem a dispen- 
sar a esta todo o auxilio de (pie é <li^na; especialmente 
aos snrs. sócios é dirigido este api)ello. 

Rkvista 

Devendo a llvriafado Li^tltuto só publicar traba- 
lhos originaes dos snrs. sócios, ou inéditos, que tenham 
mérito, é evidente que no curto período de tempo de 
existência da associação não podia abundar o material; 
só ultimamente i>oude a Commissão de Redacção reu- 
nir os elementos (]ue devem constituir o 1.* numero da 
Berisku o íjual acha-se já no prelo e será brevemente 
distribuído, sendo publicado em dois fascículos, mas 
formando um só volume. 

Finanças 

Pelos balancetes org^nisados pelo Thezoureiro e 
(jue vão annexos sob ns. 0, 7 e 8, vereis qual o estado 
financeiro do Instituto at(^ 30 de Setembro p. findo. 

Até essa data a Receita foi de Rs. 7:894$000, pra- 
yeniente da jóia e 1.** aunuidade de 102 sócios fuudado' 



05 



res, 2 eÉfectivos e 2 correapondentes e (ío ílairativn do 
Rs. 50$000 feito pelo soeio honorário srir, I>r, Ueurgea 
Ritt. 

A Des[)eza importou era Rs. 3:000.^980, conforme 
as (livei*sas verbas mencionadas nos ditos lialancete^. iis 
(juaes estão de aceordo com os docuiin^iito.'^ e^isfeiiioíi 
em poder do Thezoureiro. O saldo, portiiuto, narjuellu 
occasirio. era de Rs. 4:H03.*j;()20. 

No corrente mez foram reeedidas n^ iuiportíujciaa 
da jóia e 1*^, annuidade de mais 14 sucius foirdaílores e 
de 3 eflfectivos e feitos os pa<xamentos df^ porof^iia^ein 
ao cobrador e de diversas contas, o que conslani iio 
balancete do trimestre qne corre o qm* scra organi^fldo 
em 3i de Dezembro p. fntnro. 

Do saldo actnal a favor do lastitnío t*síá depogitada 
110 Banco de Credito Real de S. Panlo a quantia de 
Rs. 4:903$000; o excedente acba.se em iii?ío tio 'l'fia^ 
zoureiro para satisfazer as des|)ezas qnr [íossinn occor- 
rer e applicar ao pagamento por conm da iiii]»rcH9Ílo da 
Reriíita. 



Eis o que a Directoria vos tem a jviaiar. eitando 
piompta a dar-vos todos os mais escUuvdmí*ulOS C* in- 
formações que julgardes necessários. 

S. Paulo, 2.^) de Outubro de 1895. 

Dr. Cesário Motta Jtoffffi 

Presidente 
Ur, M, A, Duarte de Axévedo 

VlCE-pRESinENU': 

Carlos Reis 

1.* Secretario 
Manoel Ferreira (lúrrfn Kvdtjínd} 

2.* Secretario 
Z>r, Domingos Jaguffffh' 

Thezoureího 



ÃirifEzos 



N. I 

Thef*i*?i â[)reseuta(la8 i)elo Snr. I)r. Cosario Moibi Júnior. 

1 
lias divisas <le S. Paulo com os Pastados limitrophes. 

"2 
l*u inTUiencia do rio Tietê na civilisa(;rio de S. Paulo. 

:5 
Mií5.sôes jesuiticas do Guaira. 

4 
lia viaçílo ferroa em S. Paulo, no passíido, presente c 
fnluro 

f) 
l*u p:<'(>graphia medica de S. Paulo. 

(] 
Da faunua e flora de S. Paulo. 

7 
Influencia do estudo do direito' em S. Paulo na civilisa- 
<,*âo dt) Brazil. 

8 
Das íinanças de S. Paulo, no passado, no presente e no 
futuro ( =^= ) 

í) 
lia linciua portugiieza e das modificações que tem ex- 
|)tTÍm<jitado em S. Paulo. 

10 
Da iín))rensa de S. Paulo e de sua influenina desde os 
seuM jiiímeiros tempos. 



( '-' ) Estatliese foi desenvolvida pelo sócio snr. Dr 
Jorm Pedro da Veiga Filho em conferencia realisada na 
nussao iie i3 Maio. 



m 



N. 2 

Catalogo dos livros, mappas e mais objrdos úiC(*ítmt4*4 
nesta data na Bihliotheca c no Archiro do htíàifnti}, 



Bibliotheca 



I.IVROS 

Cincoenta aunoíi dr rjisfrncia, [kAo Dn \í A. 4p R 
Sá Vianna. 

Catalogo da e^rposirão de trabalhos jiiridiron, reuli^ft- 
(la pelo Instituto dos Advogados Brasileiros. 

Estatutos do Instituto Geograplnco c Hfh-hnro da 
Bahia. 

Feijó, oração funehiv por Cândido J^sr dii Motta 
(manuscripto). 

Diccianario geographiro do Paianà, jjnv NÍval(ío 
Braga. 

Revista do Ikiraná. jornal illustrado. 

Uecista Brasileira — Edicçâo de Laeuimeri A C* 
- Ns 1 a 11). 

Saúva ou 'Manhu-unra, \)0V A. (1. de AiíeVGdo í^atn* 
paio. 

Estatutos da Sociedade Pharmaceutica dr S, }\udú. 

Constituirão do Muniviplo de Santos. 

Revista do Instituto do Ceará — Tomo 8/\ 1H*H, 

Boletim de Estalistica Demcgrapho-SaHrfaruL 

Uma revehfçflo historiea, por R. (1. do Mniim La- 
cerda . 

Compendio de geographia do Paraná, por L. Ab t*\ 
Almeida e Sá 

Memorias e documentos e.^coJarrs, piililiracôa*j do 1'*^* 
ílagogiiim Brasileiro. 

Revista Pedagógica, jornal do Pedagotfiuin ÍWmi* 
leiro. 

Guia jjara expedição da correspondenchi. 

Renerario de malas terrestres. 

Tabeliã de vencimentos ( no Correio ). 

Relatório dos serviços do Correio — iSi^n, IsKij, ísii-J^ 
1893 e 1894. 

Regulamento doe Correios. 



1 



68 



Instrucções para pxpcuçõo de íipiiiçofi posiaes. 
Convenções postaes. 
Boletim Postal do rasil. 
Archiro do Distrirh Federal. 

Bdalorio do Tnstifnto dos Advogados Brasileiros — 
1894. 

O Amazonas, pelo I)r. Oscar Leal. 
Reiista Moderna (jornal) — Ns. 1 a 7. 
Saneamento de Santos, pelo Dr. I. W. da (lama Co- 
chrane. 

Saneamento de S. Paulo, pelo mesmo. 
Condições economieas da (^omp. S. Paulo e Rio deJa 
neiro, pelo mesmo. 

Re^^^gate da E. F. de S. Pa/do e Rio de Janeiro, pelo 
mesmo. 

Liquidação da (\)mp. S> Paido e Jlio de Janeiro, pelo 
mesmo. 

Rerista Pharmaceatira ( S. Paulo ) — Ns. 1 a 4. 
Classlfieaçâo das agaieias postaes. 
«Consultor do Commercio», por João Cândido Mar- 
tins. 

Indicações sobre a historia nacional, pelo Dr. Tristão 
de Alencar Araripe. 

Documentos interessantfs, ])ublica<;r)es do Archivo de 
S. Paulo — Vols. 1 a 15. 

Relatório da llepartird^) de Fstafisfiea e do Arcldro 
od Estado de S. Paulo ~ l80;j. 

Almanak do Estado de S. Paulo para 1S9B — Edição 
da Companhia Industrial. 

Indicador da capital — Idem. 
A Historia de S. Paulo, por Tancredo Amaral. 
Maia de riagem, por J. Maximino Serzedello. 
Do Tejo a Paris, pelo ]>r. Oscar Leal. 
Viagem a um pai.z de selvagens, pelo mesmo. 
Leis mnnicipaes de Casa Branca — 1.' vol. 
Revista Agrícola — Xs, i a õ. 
As triholitas do (poz de Erere e Maccurfi, por John 
M. Clarke. 

Relatório da Çommissão Geographica e Geológica de 
8: Paulo — 1894. 

Exploração dos rios Itapetininga e Paranapanema. 



«9 



Boletim da Comp. Geofjr. e OpoJoq. de S. ffvdo — Ns. 
9 a 10. 

Dados dimaiohijicuH ~ ISDl e ISÍ)2. 

Meteoritos brasileiros, pelo I)r. Orville Derby— ÃVrro 
nativo de Santa Catha ri Hfi, \)o\o I>r. Luiz. F. íl, ileíJam- 
pos. 

Rochas nephdinas do lirazil, polo J)r. OrvlIle í>*^rby. 

Os picos attos do Brasil, pelo mesmo. 

Limites entre S. Paalo e Afinas, pelo meemo. 

A contrihntion folhe (jeoloíjtj of lhe loars AmaionuSn 
pelo mesmo. 

Kephelines rocks in l>rasil, pelo mesmo. 

Occurence of Xeiiotime as an arc(\<isortf fUm^^nt in 
rocks. — Magnetite ore di st rido of jacujiranfjft at*d Ipa- 
nema — pelo mesmo. 

The Amasonian up2)er carlorifnrous fauna, píjlo niesi- 
mo. 

Itelatorios da Camará Municiqal de S. /'r/íc/o— 1H93 
e 1894. 

Escorço biograpkíco do Dr. Alfredo KUis — nA I^ 
por Libero Braga. 

A justiça criminal, pelo Dr. Cândido Motta, 

Inielligencia c moral do homem, pelo pr. I). Jíigim* 
ribe. 

Influence de resdavage et de la lihfrté, pelo mí:íssnui 

Homens e idéas no Brasd, pelo mesmo . 

Uart de former des hommes de hien, pelo iiie*ií)iu, 

lievista Útil — 3.- vol., pelo mesmo. 

Biographia de Silva Jardim, por José Lrno, p, m, 

A Verdade^ jornal publicado em 1832, 

A Mutuca picante^ idem. 

Revista do Instituto Grographico e Hn^hirivt} da 
Bahia — N. 4. 

Geometria sup^erior, pelo Dr. A. F. de Piuilsi Hoiiza, 

Noticia sobre a provinda do Paraná, 

Discurso sobre Flmiano Peivoto, por lli^nieto do 
Carvalho. 

Discurso sobre Floriano Peixoto^ pelo l*r. Alfreijo 
Pujai. 

Direito de intervenção, pelo Dr. Leopoldo dr Ím rilun, 

António Cofiseleiro^ pelo Padre João Evaui^ellí^tiu 



70 



Promptuario commorridL ch^il o militar, por Luiz 
de F. Almeida e Sá. 

Relatório da Fazenda de S. João da Montanha. 

Relatório da Secretaria do Interirr de S. Patdo- 1894. 

Relatórios da Secreta r /a- da A f/ri ral tara de S. Paulo 
— 1892, 1S03, e IS04-. 

Moeda do Brasil, por Jofio Xavier da Motta. 

The cop}}H)(/rafthic (dl a. ])or W. ik A. K. Johnsten. 
Mappas 

Planta da cidade de /V. Paulo cm JsjO, reproduc- 
ção pelo snr. Jiilo Martin. 

Carta coror/raphica da capit/tnia (k S, Paulo, orga- 
nisada em 177() ( inédita ). 

Mixppa da capita nh( de Mina^^ Geraefi, organizado 
em 1778 (inédito). 

Planta da cidade de S. Paulo — 1895. 

Mappa topographfco da província do Paraná. 

JORNAKS 

Diário Official Estado de S. Paulo. 
A Madra(jada ( I.isl)oa ). 
O Ensaio ( Pindamonbangaba ). 
A Instruêçõo Poqular ( Capital ). 
Santos Commercial ( Santos ). 
Diário de Tabuatê (Fabuaté). 
O Repórter ( Ri))cirrio Preto ). 
O Munidpio ( Capital ). 
Diário de Santos ( Santos. 



ÃBCHIVO 



Moedas 

1 Moeda de col)re da RepiiblÍL'2i <ln Paramiíty. 

2 Ditas da Kepubliea Argontiiia, 
6 Ditas brasileiras. 

1 Ditada Ilespanha. 
'^ Ditas de Portugal. 
1 Dita da Itália. 

1 Dita da Alleraanha. 

2 Ditas nâo classificadas 

Medalhas 

1 Medalha coiniaeiuovativa da libertíi(^"io i\m esom- 
vos. 

1 Dita de prata — Campanha de 1H52, 

1 Dita doj antimonio — Tomada de rrn^íiayiia. 

1 Dita de bronze — Tomada da PaysaudiL 

1 Dita de cobre — Aos vencL^dores do Jatahy, 

1 Dita de bronze — Guerra d<i Paragiray, 
Retratos e Estamiv^s 

Retratos dos arcebispos da Bahia. 

Dito do Marechal Floriano Peixoto. 

Dito de Frei (lermano de Armt.^c> 

Planta e vistas de edifícios da fidaí 
em 18 10. 

N. 3 

ReliV^ao nominal dos snrs. so<'ios a 
finitivamente como mem))ros fundadi^n^n 

NÍKMBRO FINDADOR IIONOW ,n H It" 

Dr. Prudente José de Moraes Barro:*, 

Mkmbros fundadorks v;n^r':ípavH 

1 Alberto Lôfgren. 

2 Dr. Alexandre Florinda í'i.píIhi 



ÁfiiU rle S, tViidd 



n^idenalns dtí' 

do IflHtitUtlK 



?â 



Alexandre Riedol. 

Alfredo Ellis. 

Alfredo Rocha. 

António Augusto da Fonseca. 

A. C-arlos Ribeiro de Andrada M. Silva. 

António Dino da Oosta Bueno. 

António Evaristo Bacellar. 

Antx)nio Francisco de Araújo Cintra. 

António Francisco de Paula Souza. 

António Moreira da Silva. 

António Pereira Prestes. 

António da Silva Prado. 

António de Toledo Piza. 

Arthur (Joulart. 

Augusto ('Osar I^arjona. 

Augusto César de Barros Cruz. 

Augusto ( 'esar de Miranda Azevedo. 

Augusto de Siqueira Cardoso. 

Aureliano de Souza e Oliveira (butinhO. 

Benedicto Estellita Alvares. 

Bento Bueuo. 
24 Dr. Bernardino de Campos. 
^5 Dr. Braulio (ronies. 

26 Dr. Cândido Nazianzeno Nogueira da Motta. 

27 Dr. Carlos de Campos. 

28 Dr. Carlos Daniel Rath. 

29 Dr. (^arlos Reis. 

30 Dr. Cesário Motta Júnior. 

31 Dr. Cincinato Braga. 

32 Dr. Clementino de Souza e Castro. 

33 Dr. Constante Affonso Coelho. 

34 Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe. 

35 Eduardo Carlos Pereira. 
3() Eniannuel Vanorden. 

37 Dr. Ernesto de Moraes Cohn. 

38 Dr. Eugénio Alberto Franco. 

39 Eugénio HoUender. 

40 Dr. Çergo 0'Connor de Camargo Dauntre. 

41 Dr. Fortunato Martins de Camargo. 

42 Dr. Francisco Ferreira Ramos. 



3 


4 Dr. 


õ Dr. 


7 Dr. 


8 Dr. 


9 Dr. 


10 Dr. 


11 Dr. 


12 


13 Dr. 


14 Dr. 


15 Dr. 


l(i 


17 


18 Dr. 


19 Dr. 


20 Dr. 


21 Dr. 


22 Dr. 


23 Dr. 



rè 



43 Francisfío Ignacio Xavier de Assis. Moura. 

44 Dr. Francisco Martiiiiano da Costa Carvalho. 

45 Dr. Francisco de Paula liamos de Azevedo. 

46 Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves. 

47 Dr. Gabriel Osório de Alraei<la. 

48 M.or Gabriel Prestes. 

49 Dr. Gabriel de Toledo Piza e Almeida. 

50 Dr. Gustavo Koeuijíswald . 

51 T.C. Henrique A de Araújo Macedo. 

52 Henry White. 

53 Dr. Hermann von IlierinLi:. 

54 Dr. Horace M. Lane. 

55 Horácio de Carvalho. 

56 Dr. Hypolito de ('amargo. 

57 Dr. I^nacio Walhice da Gama Cochrace. 

58 Dr. Jayme Serva, 

59 Dr. João Alvares ílubião Júnior, 

60 João de Arruda Leite Penteado. 

61 Dr. João Neporauceno Nogueira da Mottíi 

62 Dr. João Nogueira Jaguaribe. 

63 Dr. João Pedro da Veiga Filho. 

64 Dr. João Pereira Monteiro . 

65 Dr. João Ribeiro de Moura Fscobar. 

66 Dr. Joaquim Floriano de (rodov. 

67 P. • Joaquim Soares de OHveira Alvim. 

68 Dr. Joaquim de Toledo Piza e Almeida. 

69 Joaquim de Toledo Piza e Almeida, 

70 Dr. Jorge Tibiriçá. 

71 Dr. José Alves de Cerqueira César. 

72 Dr. José Alves ( fuimarâes Jimior. 

73 Josò André do Sacramento Macuco. 

74 Dr. José Batista Pereira. 

75 Dr. José Cardoso do Almeida. 

76 José Eduardo de Macedo Soares. 

77 Dr. José lístacio Corrêa de Sá e Benevides* 

78 José Ferraz de Almeida Júnior. 

79 Dr. José Ferreira Garcia Redondo. 

80 José Francisco Soares Romeo. 

81 José Maria Lisboa. 

82 Dr. José de Sá Rocha. 



74 ^ ^ _ 

José Valois de Castro. 
José Vicente de Azevedo. 
Jiilio César Ferreira de Mesquita. 
Taiíz de Anhaia ^^ello. 
Lniz Toledo Piza e Almeida. 
Manoel Álvaro de Souza Sá \'iaiuia. 
Manoel António Duarte de Azevedo. 
Manoel Ferraz de Campos Salles. 
Manoel 1^'erreira (rareia Redondo. 
Manoel Marcellino de Souza Franco 
Manoel de íNíoraes Barros. 
Manoel Pereira Guimarães. 
Manoel Pessoa de Siqueira Campos. 
Martim Frnncisco Ribeiro de Andrada 
Sobrinho. 

Martinho Prado Júnior. 
Mathias Valladâo. 
OrvilleA. Derby. 
Oscar Schwenk dllorta. 
Pedro Augusto Ciomes Cardim. 
Pedro Vicente de Azevedo, 
Rayinundo Furtado Filho. 
Rodolpho Pereira. 
Severino de Freitas Prestes. 
Tancredo Leite do Amaral Coutinho. 
Theodoro Dias de Carvalho Júnior. 
Theodoro Sampaio. 
Theophilo Barbosa. 

Tliomaz Paulo de Bom Successo (lalhardo. 
Tiburtino Mondim Pestana. 
Tristão Araripc. 

Vicente Liberalino de Albuquerque. 
Vhiato Brandão. 
Virgílio de Rezende. 
AVenceslau de Queiroz. 

N. 4 

Relação das pessoas que foram consideradas como 
sócios fundadores, mas que ainda não satisfizeram a 
jóia e primeira annuidade. 

1 Dr. Alfredo Moreira de Barros Oliveira Lima. 



83 Dr. 


84 Dr. 


85 


Dr. 


8f> 


Dr. 


87 


Dr. 


88 


Dr. 


89 


Dr. 


90 


Dr. 


91 


Dr. 


92 




!>3 


Dr. 


94 Dr. 


9õ 


Dr. 


90 


Dr. 


97 


Dr. 


98 


Dr. 


99 


Dr. 


100 Dr. 


101 


Dr. 


102 Dr. 


103 Dr. 


104 Dr. 


lOi") 


Dr. 


ior> 




107 


Dr. 


108 


Dr. 


109 




110 




111 




112 MT 


113 Dr. 


114 Dr. 


115 Dr. 


116 


Dr. 



15 



2 


Dr. 


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Dr. 


4 


Dl-. 


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Dr. 


H 


Dr. 


7 


Dr. 


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Dr. 


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<iM. 


10 


Dr. 


11 




12 


Dr. 


13 


Dr. 


14 


Dr. 


15 


Dr. 


1(1 


Dr. 


17 




18 




li» 




20 


Dr. 


21 




22 


Dr. 



António Joaquim Rilui^^. 

Argimiro da Silveira. 

Arthur César Guimarui^a ( * ). 

Augusto Fomm. 

Carlos Botelho. 

Cesário Gabriel de Fnãtíts, 

Este vam Leão Bourn ml (*). • 

Francisco (Uvcerio. 

Jcoab Ita})ura de ^Minindii. 

João Cândido Maititi^. 

Joaquim Nogueira dí Aliuí^tilu r\'(lman, 

José Gabriel de Tol^^Jo {*v/,iu 

José Luiz de Almeiila Noguoira. 

José Machado de OliM-inu 

José Maria do Vall(\ 

Jules Martin. 

Lafayette de Toledo, 

Lind';rf Ernesto Pereira do Víi.ic»naítíllo?< ( * ). 

Luiz António de Soum Ferrai. 

Manoel Augusto Guh õo. 

Paulo Egydio de Olivtnnt Caiava lho. 



(*) Ofticiou declarando nãíi 
Instituto. 



|Mnlr!' \'n?Á'r \\iiHv dti 



76 



N. 5 

Rt^a^íVo (los âuí!ÍuK uiluiliiitttldoH dtípnis da fimfla- 
çHo do Instituto. 



N.<* 


t^H 


TNOMI^^S 


dl tdmUilo 


Cbaenraoôes 


i 




tíarjo JJiimem ilc M' Ho 


r^JuTibo 1H95 




1 




BiílUrmincí Carntiio 


Jt * N- * 




3 


1 


B^irio d(; J'uíanEipi»ii:4!iii 


4 julho > 




4 


BarSo (lo kio IkatiOQ 


• » > 




5 


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Dr fn^íujJt-r Kitt 


Tl Ai^Dato » 




6 


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Dr.A J.le Mello \í. lilUii 


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7 


9 

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9 


Dl. Miirt. «Jiat\V.at Mello 


T Sélcflo. > 




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Dr. Sjflvií> RonuTO 


» • V 




Q 


Ur. Triíílao tle ^. A. Jumor 


. » . 




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Cmiscihr. Ih. T. A, Ariíripu 


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11 


Dr. 1- J lie MeiKv.ií \'icira 


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l>r 1 F. ih Astvis Htiiúl 


.**H iMtulí. * 




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Dl. 1 re^], A. ihi S l.ish^a 


■ ^ P i 




1 


X 


1 


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Sutísíeía joiA 1 


2 


l)T. Jfiixe Mim 


JU 1C B 


ênfiujijt. 


.í 




Dr. lv*7íesto lí, Ypiuijíí 


r. k ft 




4 


Dr. Lni/ Peitjuíi Bniru^tu 


f í • 




f* 


A 


Dr. H\lfri.^<Uí ipiial 


JíiStiífíw, » 


1 idnn 


6 


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Dt. LctjpoliJo de Fieiía^ 


j» » * 




7 


^ 


Dr. Ediíarat. <l4 S. I'mJo 


Jí Oundi - 




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Dr ni*3r Lir4l 


-: Juíilio |!í*í&|satÍMfcJW jóia c 


j 


^ 


Dr^ Eniíslò íí. rentcddo 


« > » 


itOQUid. 


.5 


z 


Dr ílenriquíí Códho 


» * » 




4 


$ 


Dr- J. da CoíU R Júnior 


20 k 1 




5 


15 


Dr. Airrt*ito átí Toledo 


> > » 




ò 


a 




Jast? M. Seriedello 


_*ij Julho » 




7 


Dr. R. PA, do S. BUtk 


5 Aiíosio t 


l^em 


8 


Domii]i;Os L. da F, e Sllv»* 


7 Sfelero, * 




9 


& 


Euriro Saldanha 


2í> * * 




lo 


• 


Dr. Heitor Peíxoiu 


j5 r)ntulr ■ 




]] 


3 


Alberto \'tíi-ia 


» • > 




12 


y 


Ff C. dt Almtiil^i Mgtaeíj i 


* » » 





n 



-^M-t - -» 



N. 6 f 

Balancete da Receita e Despeza do luMiiuto Histó- 
rico e Geographico de S.Paulo, no trimeativ fiiulu era -'11 
de Março de 1895. 



RECEITA I 

;i 

Jóias e annuidades de três só- 
cios fundadores recebida pelo, 
Thezoureiro. j 

Idein de quai^enta e cinco sócios 
fundadores recebidas por intermé- 
dio do Cobrador do Instituto. 



I 



DESPEZA 

Porcentagem ao ('obraior 
Annuncios e publicações nos jor-' 
iiaes I 

Livros, papel objecto p. a Secret.''' 
Archivamento dos Estatutos no 
Registro Geral 
Impressos divrsos 
Sellos para o expediente j 

1000 exemplares dos Estatutos 



RESUxMO 

Importância da Receita 
Idem da despeza 



222000 



3:330|<H>í) 






'aoHooo 



Rs. 



552000 

806900' 



4í*'t;(í0 

taopíHt 

84000 

10|000 

230000 

806000 



Saldo. 



S. Paulo, 31 de Março de 1895 
O Thezoureiro do Institoto 



l)r. Vominyob' Jaguavihe. 



Rs 



tíi-^anMi 



78 



N. 7 



Balancete da Receita e Despeza do Instituto Histó- 
rico e Geographico de S. Paulo, no trimestre findo em 
30 de Junho de 1895. 



RECEITA ^ 

Saldo do trinieíítre antcrioi* 

Jóias e annuldaden de três sócios 

fundadores recebidas pelo thezou- 1 

reiro 

Idem de trinta e dois sócios fun-' 

dadores recebidas por intermédio 

do Cobrador do Instituto 



DESPEZA 

Porcentagem do cobrador 

Encadernação do Diário Of/ícial 

1 vol. 

Um carimbo de met^il para sello 

do Instituto 

Annuncios e sellos para o expe- 



diente 



RESUMO 
Importância da receita 
Idem da desi)eza 

Saldo. . 



1 


2:745100 


1 1 


222000 

1 

1 


Hs. 


1 

2:368000 
5:335100 


1 


1 1 
230800 




10,000 


j 


t 40000 


Rs.' 


1 49000 
'33r)|800 


1 

5:33:)100 
330800 

. . Rs. 


; j 

4:999300 



Sendo : Dej)ositado no Banco de Í 

Credito Real 4:800]000 

Dinheiro em mao do thezoureiro il99J30C> 

8, PaulOj 80 de Junho de 1895 \ \ 

O tbesoareiro do Institoto I 

( 

py\ Domingos Jai^tmr lhe. \ \ 



4: 



999300 



70 



N. 8 



Balancete da Receita e Despeza do Instituto Histó- 
rico e Geographico de S. Paulo, no trimestre de 1.*^ de 
Julho a 30 de Setembro de i89õ. 



HCEITA I 

Saldo do trimestre anterior 

Jóias e annuidades de cinco sócios, sendo 
3 fundadores, l elTeotivo e 1 corres- 
pondente, recebidas pelo Thezoureiro 

Donativo feito pelo sócio honorário snr. 
dr. Georges Ritt 

Jóias e annuidades de dezoito sócios, sen- 
do 16 fundadores, l effectivo e l corres- 
pondente, recebidas por intermédio do 
Cobrador do Instituto 



l)i:SPKZA ! 

Porcentagem ao Cobrador i 

Gratilicaçào ao porteiro e servente do 

Gymnasio Estado pelo servco prestado 

ao Instituto nos dias de se*sào, relativa' 

aos mczes de Abril a Setembro — O me- 

zes a JoSoa) 

An núncios nos jornaes , 

Prensa para o carimbo-sellos e serviço 

de juncçào 
Circulares e outros impressos e enve-, 
loppes ! 

Sellos para a correspondência e despe- 
zas miúdas | 

Gaz consumido por oecasião das sessões 
do Instituto, nos mezes de Janeiro. 
Abril, Maio e Junho 
500 diplomas lithographados para sócios 
12 livros in folio, apapel hoUanda e en-|; 
cademaç&o forte, com riscado especial 
e dizeres impressos, numerados e ro-j 
tulados, para a escipturaçio da Secre- 
taria, Bibjiotheca, Archivo, e Thezou-! 
raria 



^■999 3oo 

370:000 

I I 
j 50000 



'*•■ ó:'75l 



000 
3oo 



133 200 



120000 



87 



50000 



119 

17 

3o 



l::858 



I i 



500 



500 

200 

780 



, ^ooooo 



I .'iocooo 



280 



80 



N. 8 

Balancete da Receita e Despeza do Instituto Histo- 
tcrico e Geographico de S. Paulo no trimestre de 1,° 
(ic Julho a 30 de SeteiTibro de 1895. 

IlECEITA 

Saldo do trimestre anterior 4:999$300 

Jóias e aunuidadea de cinco sócios, 
fiendo 4' fundadores, 1 effectivo e 1 cor- 
respondente, recebidas pelo Therourei- 
TO 37()$000 

Donativos feito pelo sócio honorá- 
rio snr. dr. Georgos Ritt ôO$000 

Jóias e annuidades de dezoito só- 
cios, sendo IfJ fundadores, 1 effectivo 
e l correspondente, recebidas por in- 
termédio do Cobrador do- Instituto.,. 1;332$000 

Rs, 6.7õl$300 

DESPIÍZA 

Porcentagem ao C^obrador 133$?00 

(rratiticaçâo ao porteiro servente 
lio Gymnasio do Estado pelo serviço 
prestado ao Instituto nos aias de sessão 
relativa aos niezes do Abril a Setembro 
--(3 mezes a 20$000 P20$Ò00 

Annuncios nos jornaes 87$500 

Prensa para o carimbo-sello e ser- 
TÍço (1e juncçfio oO$000 

Circularas e outros impressos e en- 
veloppes 1 i9$õ00 

Sellos para correspondência e des- 
pezas miúdas 17$300 

Gaz consumido por occasião das 
sessões do Instituto, nos mezes de Ja- 
neiro, Abril, Maio e Junho 30.'>'78Q 

õOO diplomas litliographados pa- 
ru sócios 800$00Q 



»! 



12 livros in folis, papel HoIIíumIí^ 
e eucadermsção forte, com riscado «'h 
peeial e dizeres impressos, nu morai los 
e rotulados^ para a escripturação dn m- 
cretaria, Bibliotheca, Arçhivo e The- 



zourana . 



H){\^Qm 



RESIWIO 

Importíuicia da receita <i.751$:iyU 
Idem da despeza l.Sõyíí^HO 

8aldo tÍH. 4,KiKl%gri 

Sendo : Depositado no 
Banco de Crodtto Real 4,-irM»$íHiu 

Dinheiro em man do 
Thezoureiro (IDH^í m\ i.^m^MÚ 

S, Tanlo, :U) de Setembro de IHiln. 

O Thez(mreiro ilo IdstiluEín 
J)r. Domittfífffi JdffHf/ribc. 



r', 



|i 



Actas das sessões 



1'i-í FteflHAo, em 13 <le Onliibro de lSOi5 
Presidência do snr. Pr, Cesário MoUa Júnior 

!'• 7 e meia horas da noite, presentes os sócios snrs. Carlos Beis, 
Cerqnera César, Alberto Lôfgren, Braolio Gomes, Orfille Derby. Theodoro 
Sampaio, Macedo Soares, Domingosi Leopoidino, Tancredo Amaral, Miranda 
Azevedo. Qomes Cardim, Duarte de A7.evedo, Jo&o Monteiro, E. Vanorden, 
iloraoe Lane, Evaristo Bacellar e Soares Romeo, foi a sess&o aberta pelo 
rioe-presidente, snr. Conselheiro Dnarte de Azevedo, comparecendo depois o 
snr. Dr. Cesário Motta, qoe assnmin a presidência. 

Foi lida 6 approvada a acta da sess&o antecedente. 

O primeiro Secretario dá conta do seguinte 

EXPl:niKNTI5 
Ofíicxos 

Do sUr. t)r. I^rederico Lisboa, director do Archivo Pabllco da fiabla 
iBViando a Memoria sobre o Estado da Bahia. 

Do snr. Dr. Joaquim José de Menezes Vieira agradecendo a sna admfs. 
ifto como sócio honorário» 

Do snr. Dr. Alfredo 1'djo1 agradecendo a sba admiss&o como sócio 
elFeotivo. 

Do sócio snr. Jules Martin, olTerecendo om retrato de Frei Germano 
de Annnecy, a planta e vistas da cidade de 8. Panio em 1810 e nm albnm 
de fac-similes das assignataras dos governadores da capitania e provinda 
de 8. Paulo. 

Do Bocio snr. Cónego l)r. Valois de Castro participando nSo pode^ 
apresentar hoje o trabalho de que se tinha encarregado. 



84 



Offertai 

Peíosnr. Dr. Eduardo Prado: Lc fírcsi/, por Levasseur, com 
collaboração daquelle snr. 

Pela Directoria (/eral dos Correios : Relatórios dos senfiços 

Pelo snr. Dr. Mello Moraes Filho: Airhivo do DisfHcto Fede^ 
raif n. lo. 

Pelo director do Archivo do Estado: Leis e decretos de i^^^e 
iSç4 e Documentos interessantes, vol. 15. 

Pela Directoria do Servido Sanitário: Hotetim de Estatística 
Demographo-Sa n itaria. 

Pela Sociedade Pastoril e Agricola: Revista Ai^ricola^ w 5. 

Pelas respectivas redac(;õts: Diário odidat do Estado; O 
Municipio; Santos Coinmerciat\ Diário de Tanbaté\ O Repórter 
Reinsta do Norte\ A Madrns^ada. 

Todas tst.is ollcílcis são recebidas ctun cspcc^ial .i.-Lir.ido 

nui)i:M 1)0 UíA 

Pol lido e tícon Hobre a mesa para sor discutido e votado na sessfto 
legninle, o parocer da Commissão de admiss&o de sócios, cajá conelnsfto é 
favorável á admiss&o do snr. Dr. Joa((niai Francisco de Assis Brasil, na 
qualidade de sócio honorário. 

Foram apresentadas» lidas e remettidas a Commissâo de admissão de 
sócios as seguintes propostas : 

Para soclo efTectivo, o snr. Dr. IM nardo da Silva Prado, tutor de 
diversas obras e de vários capítulos do artigo Brésil na Grande Eaoyclo* 
pedia, etc; a-ssignada pelos sócios Orville Derby, Theodoro Sampaio 6 
Alberto Lôfgren. 

Para sócios correspondentes, os snrs. Dr, Heitor Peixoto, redactor do 
Diário de Santoií, Alberto \'eiga. redactor (VA Folha e Francisco Corrêa 
de Almeida Moraes, cultor dedicado da historia pátria; assignada por Sacra* 
mento Macaco, Carlos Reis c Tancredo do Amaral. 

Para soclo honorário, o snr. Dr. Frederico Lisboa, homem de lettras* 
director do Archivo Publico da Bahia; assignada por Dr. Evaristo Bac^llar* 
(Carlos Reis e T. Amaral. 

Levantasse a 8»ísssíío. 



85 



Xr>.* HeHsfio, em '^O de OutiilDvo cie ISOõ 

I^esidencia do snr. Dr. Cesário Moita Júnior 

Â'8 7 horas da noite, presentes os locios snrs. Cesário Motta Janior, 
Carlos Rei8, Domingos Jagaaribe. Theodoro Sampaio. Soares Romeo, Macedo 
Soarei. Gabriel Prestes, Garcia Redondo, Wenoeslan de Queiroz, e Dranlio 
Gomes, o sr. presidente declaro o aberta a sess&o. 

O primeiro secretario commqnica qne foram feitas as segnintei 

0/feriaê 

Pelo snr. Paulo Tavares: Revista Brasileira, fasciculo n. 19. 

Pela Directoria do Serviço Sanitário; Boletim de Estatistici 
Deim\^rapli í-Sanitajia . 

Pelo Instituto Peíl;i<j(>;i:ico Paulista: A Instrucçào Popular, 
n. 4. 

Pelo snr. Dr. João B iptista Regueira Costa: Inscripções em 
rochedos do Brasil. 

Pelas respectivas redações: Diano Official\ O Municipio\ 
Santos Commercial; Diano de Santos: Diário de Taubatê\ O Re- 
Porter; O Ensaio; Revizla do Norte. 

Foram est is oflertas recebidas com especiril ;igrado. 

OKDFM DO DIA 

R* lido, posto cm tliscassão e sem debate approvado o parecer da Com- 
misãão de admísão de sooios, que ficara sobre a mesa na sessão passada, 
sendo proclamado membro do Insiitato. na qualidade de sócio honorário, o 
sor. Dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil. 

B' lido e fica sobre a meia, para ser discutido e votado na sessão se- 
guinte, o parecer da Commissão da admissão de sócios opinando peia accei- 
Uçio dos snrs. Dr. Eduardo da Silra Prado. Dr. Heitor Peixoto, Alberto 
Veiga, Francisco Corrêa de Almeida Moraes, e Dr. Frederico Lisboa como 
sócios do instituto. 

Pelo snr. Presidente, em nome da directoria, foi apresentado a seguinte 
proposta: 

< Que a annuidade satisfeita com a jóia pelos sócios fundadores seja 
ooDsiderada como paga até 81 de Dezembro do corrente anuo, por ser isso 
de conveniência para a escriptnraçâo da Thezouraria e nio haver offensa aos 
direitos dos mesmo sócios. > Fundamentada a proposta e su))mett|da á dls» 
cqssão e y^tav^' ^^^ ^^^ debate approvadft. 



8fi 



Piooi designado o dia 25 do corrente mez para realiaar-se a sessão do 
eaoerramento dos trabalhos, de qae trata o artigo 38 dos BstatQtos. 
O sor. Presidente levantou a sessfto. 



lU.í ses!$si\o, para enoein'ainento <lo8 ii-itbalhoff, 
em X2rS <le Outubro de 1805 

Presideticia do snr. Pt. Cesário Mo tia Júnior 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios snrs. Cesário Ifotta Janior. 
Carlos Reis, Daarte de Azevedo. José Vicente, Qomes Cardim. Baymando 
Fartado Filho, Augusto Barjoaa, Ernesto (loulart. Moura Escobar, Domingos 
Jagnaribe, Domingos Leopoldino, Theodoro Sampaio, Eduardo Pereira, Ale- 
xandre Riedel. Braniio Gomes, Eugénio Hollender. Arthur Goulart, Soares 
Bomeo e Tancredo do Amaral, o snr. Presidente declarou aberta t sessio. 

Foram lidas e approvadas as actas das sessões de 12 e 20 do corrente 
mez. 

O 10 secretario dá conta do seguinte. 

E X P E I) 1 K N T E 
0/^V/o.? 

Do snr. Eugénio Lefévre, director da Sec-etaria da Agricultura, envian- 
do relatórios da lepartiçfto. 

Do sooio snr. Dr. Gomes Cardim, communicando que n&o pôde apresentar 
o parecer sobre o livro Caricias, do consócio snr. Dr. Qarola Redondo, por 
estarem ausentes os outros dois membros da commisn&o. 

Ofíertaa 

Pelo snr. Dr. Henrique Coelho: Relatório da Secretaria da Justiça 
— 1894. 

Pelo snr. E. Hollender: Moeda do Brasil, por Jofto Xavier da Motla; 
Afias cos^inographico, publicado por W. & A. K. Johnston. 

Pelas respectivas redacções: Diário Official: O Muni dpi o; Santot 
Commercial: Diário de Taubaté: O Keporter. 

Foram estas oíTertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM Do DIA 

E' approvado o parecer da Commissão de admissão de sócios que ficara 
sobre a mesa na sessão passada, sendo proclamados membros do Instituto 
ps sprs. Dr. Eduardo da Silva Prado, na qualidade de soçio efectivo, Dr, 



, ..,..___. _,___..__ ,._,._ 87 _ 

Heitor Peixoto. Alberto Veiga e Franoiíeo Corrêa de Almeida Moraes, na de 
sócios oorrespnodentes. e Dr. Frederico Augasto da Silva Lisboa, na de soeio 
lionorario . 

O snr. Presidente apresenta o Relatório da directoria sobre os trabalhos 
e factos occorridos darante o primeiro anno da existência do Instituto, o 
qoal é lido pelo primeiro secretario e fica sobre a mesa para ser examinado 
pelos snrs. sócios, aos qnaes^foi dada a palavra para indicarem as medidas qne 
julgassem convenientes. 

Foi proposto e approvado que se eonsiderasse como tendo renunciado a 
direito de sócio fundador todo aqaelle que» inclaldo na lista dos socioa 
dessa categoria, não tenha comprido até ao proiente o dever imposto pelo 
M' do art. 10 dos Estatutos (pagamento da jóia e primeira annnidadeV 
sendo exclaido da respectiva matricula. 

Foi também proposto e approvado que ficasse a Mesa encarregada á^ 
organisar o progamma da sessáo magna a realisar-se a 1* de Novembro^ 
próximo vindouro, publicando-o pelos joraaes, e de promover tudo que enten- 
desse conveniente para qoe a mesma sess&o se revestisse da maior solemnidad»^ 

Nada mais havendo a tratar foi levantada a sess&o. 



f*in 1 <le Novemlii-o ae 1805 

Presidência do snr. Dr, Cesário JMoita Jnniot 

A'8 8 horas da noite, presentes algumas excellentissimas senhoras, le^ 
presentantes de corporações, assooiações.repartições, estabelecimentos, impren- 
sa e outras pessoas convidadas e os sócios snrs. Cesário Motta Júnior, Carlos. 
Reis, Oarcia Kedendo, Pereira (lulmar&es, Alberto Lofgren, Henry VVhite, 
Horace Lane, Eugénio Hollender, Julei Martin, Alexandre Riedel, Domingos 
Jaguaribe. Veiga Filho, Tbeodoro Sampaio, Domingos Lepoldino, Orville 
Berby. E. Vanordem, Alfredo Ellis. António Piza, Marti m Francisco Sobrinho,. 
Arthur Goulart, Soares Romeo, Cândido Motta, Ernesto Qoulart, Cama^go^ 
Dauntre, João Monteiro, Evaristo Bacellar, Luiz Piza, Mathias Valladão, 
Augusto Barjona, Augunto Cardoso, Tiburtlno Mondim. Thomaz Galhardo, 
Valois de Castro, José Vicente. Sacramento Macuoo e Tancredo Amaral, o 
tnr. Presidente declarou aberta a sess&o e leu um importante trabalho, no 
qual, fazendo a resenha dos trabalhos do Instituto e expondo o desenvolvi* 
mento qus teve e o estado em qne se acha, mostrou a conveniência de se 
dedicarem os snrs. sócios ao estudo da nossa historia e notadamente ao da 
língua tupi-guarany, em vista dos profícuos resultados que dahi provirão ^ 
4o brilho que adquirirá a nossa associação. 

O 1* secretario dá conta do seguinte 



S8 



EXPEDIENTE 

Offidos 

Do a«r. í>r, Pranciâco Leite Bitteocoart Sampaio Jaaior agradecendo 09 
.i pêsames pelo faliecimento de sea pai. . 

Do snr Alberto Veiga agradecendo a sua admissão como sooio correpondente. 

Do snr. Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos agradecendo o convite feito a 

' ^lle e aos empregados da Repartiç&o de Policia, de qae è director, para t^- 

• «istir á sessão de h^je. 

Do sócio snr. Jules Martin oíTerecendo os objectos ajiante mencionados 
Do soclo snr. Dr. Aogasto César de Barros Cru/. ofTerecenlo nm ezem* 
iplas do sen romance O Paulúta. 

Offtrtatt 

Telo sócio snr. Jules Martiu: Caríi GeograpJnca il/nsfrada 
<de S. Paulo ^ publicada em 1878; \ is ta do motinmcftio e/evado a 
1'a9'nhaQCH no Ipanema; Retraio de 'Jiradentes; ^ista da inau- 
guração do viaducto do Chá. 

Pelo sócio siir. Dr. Alfredo Ellis: Medalha escrínio com a 
cfiigie de Pedro I. contendo a ConstiiuiçAo Politica do Brasil de 
T824. 

Pelo snr. Paulo Tavares: Revista fírasílcira^ fascículo n. 20. 
Pela Directoria Geral dos Correios. Boletim Postal, n. 9. 
Pelas resdectivas redacções: Diário' Offiaial; O Mnnirípio; 
'Santos Commercial; Diário de Tanbaté: O Repórter; O Ensaio, 
Foram estoS oftertas recebidas com espejíal agrado. 

ORDE.H DO DIA 

o sócio snr. Dr, Manoel Ferreira Garcia R^donJo procedeu á leitura de ama 
memoria sobre a primeira concessão de estrada de ferro no Brasil, reivin- 
•dicando para S. Paalo a gloria de ser a primeira provinda qae aventou tal 
commettimento no palz e procaroa realisal-o. 

Em segoida, o sócio snr. Dr. Thejdoro Simpaio lea om trabaiho sobre 
I historia e geograpbia braalllca. 

Saudaram o Instituto, em bellistimas orav<)e3, os snrs. Dr. Alberto 

• -de Andrade, como representante do lastitato dos Advogados de S. Paulo, 
' « Remiglo de Cerqueira Leite- como r^preden^aate da Escola Normal desta 

• 45a pitai. 



S9 



O snr. Preaídeofce sgraéeeea asr saoáaçôea dirigidas ao Inatitnto e a pre- 
sença das excellenfcisatmas aenhoras e-distinctoscaTalheiroa qne vieram abr-{ 
Ihantar a aesaão. 

O meemo sar. Preaideote lemhrca o alvitre, qoe foi ananimemente ae- 
eeito. de eipedir-ae am telegramma ao anr. Dr. Prodeote de Moraee. am* 
daado-o na qualidade de Pra^ídeato honerario do loatitoto pelo primeiro ta- 
niveraario dea;e. 

Etn aegaida foi iavaaiala a aeaa&o. 



*»«*^ »*>%>%* t'««««»»»»^S««». »«%«»».»»%,*«., 



L. '■" 



REVISTA 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRAPHICO 



DE 






REVISTA 



DO 




DE 



SÃO PAULO 



VOLUME II 



1896—1897 



S. PAULO 

TYPOGRAPHIA AURORA 

Largo do Paysandú, 22, 
1898 

3 R .^cii- 



L.Ioc. ^^'«iO. IMS"'?^ . 



àL,@ ifiSs?©Ã 



Motivos extraordinários impediram que o 2.** volu- 
me da Reiista fosse publicado na epoclia designada pela 
lei orgânica do Instituto; hoje desempenha-se elle d'esse 
compromisso, e julga não mais incorrerá n'essa falta. 

O volume actual, contendo matéria variada e inte- 
ressante, é tirado dos archivos do Instituto, constituído 
principalmente de trabalhos originaes de seus consócios. 

Forma documento para demonstrar o modo porque 
o Instituto comprehende sua missão, e o género de lu- 
cubraçôes a que se dedicam seus membros. 

A' excepção das curiosas e interessantes Chronicas 
Yiuanas, do nosso venerando consócio António A. da 
Fonseca, das severas e pacientes investigações do nosso 
collega António de Toledo Piza, sobre a litigiosa ques- 
tão de limites do Paraná e Santa Catharina, os outros 
traballios saliem a publico pela primeira vez. 

A razão de reproduzirmos a biographia do Padre 
Jezuino de Monte Carmello, já inserta no 1.** volume 
d'esta Revista, é o ter-se quasi que exgotado aquelle 
volume, e a procura que alcançou esse escripto. 

Parece que o 2y volume não desmerece do anterior, 



graças á matéria que o compõe. O leitor ahi encontrará 
os eruditos e primorosos estudos de Theodoro Sampaio 
de problemas da nossa historia colonial; a sabia critica 
cartographica sobre uni mappa antigo de S. Paulo e 
Minas, feita por Orville Derby; a magistral inonogra- 
phia de Iguape por Ernesto G. Young, que pôde ser- 
vir de modelo a trabalhos congéneres; as originaes con- 
tribuições para numismática nacional por Eugénio Hol- 
lender; e as producções de mérito de A. Goulart e Sa- 
cramento Blacke. 

O relatório dos trabalhos e occurrencias do Instituto, 
nos annos de 1896 e 1897, e as actas das sessões, cor- 
rectamente redigidas pelo nosso benemérito 1.° secre- 
tario dr. Carlos Reis, habilitam o publico a conhecer 
perfeitamente da vida social do Instituto e o gráo de 
prosperidade em que se acha actualmente. 

Prestando homenagem aos consócios fallecidos, o 
dr. João Monteiro, com a inspirada phrase e elevação 
de conceitos, que o tomam popular, traçou de um modo 
brilhante e admirável a necrologia do dr. Cesário Motta Jú- 
nior e desembargador Aureliano Coutinho; os applausos 



que seguiram-se ás suas palavras eloquentes ficaram 
justificadas com a leitura d'esse discurso. 

A Commissão de Redacção pensa ter correspondido, 
quanto lhe foi possível e no mais curto prazo, á hon- 
rosa incumbência do Instituto, offerecendo aos seus 
consócios e ao publico o presente volume. 

Não poupou também esforços para que a execução 
material de imprensa fosse digna do valor intrínseco 
da obra e do adeantamento de S. Paulo; espera no pró- 
ximo 3.^ volume, já no prelo, ainda melhor cumprir 
seu dever. 

Aos amigos dos estudos pátrios e á imprensa illustrada 
entrega o volume. 

S. Paulo, Dezembro de 1897. 



índice 



Pa&ikas 

Memoria sobre a egroja do Collegio dos Jesuítas, de 8. Paulo, porTheodoro 

Sampaio : ; 1 

A propósito do nome Caramur^, por Theodoro Sampaio H 

"Qual a verdadeira graphia do nome GuayanA?— por Theodoro Sampaio e 

OrvlUe A. Derby. 27 

Algumas reflex5es sobre a Viaçfto para Matto-Orosso, pelo engenheiro Ray- 

mundo de Pennaforte A. 8. Blake 85 

Esboço histórico da fnndaç&o da cidade de Iguape, por Ernesto Guilherme Young. 49 
Estudos históricos— Questões de divisas entre os Estados do Paraná e Santa 

Catharlna, por A. de Toledo Piza. 153 

Um mappa antigo de partes das capitanias de 6. Paulo, Minas Qeraea e Bio 

de Janeiro, por Or\1lle A. Derby. • , 197 

Alexandre de GusmSo —Estudo litterarlo-biographlco, por Arthur Goulart . 221 

Feijó.— Oraçflo fUnebre, por Cândido José da Motta. . . . ; 233 

Typos ytuanos, por António A. da Fonseca 253 

Catalogo da collecçAo de moedas e medalhas pertencentes ao Muzeu do In- 
stituto Histórico e Geographico de 8. Paulo, por Eugénio HoUender. . . 3^ 

Moedas obsldionaes do BrazU, por Eugénio HoUender 396 

Discurso do Dr. João Monteiro, na sessjlo magna do l.» de Novembro de 1897.'^ 405 

Actas das sessões de 1896 421 

Actas das sessões de 1897 431 

Relatório dos trabalhos e occnrrencias do Instituto Histórico e Geographico de 

8. Paulo, no anno de 1896 469 

Relatório dos trabalhos e occurrencias do Instituto Histórico e Geographico 

de 8. Paulo, no anno do 1897 477 

Relação geral dos membros do Instituto 489 

Relação dos livros, mappas, jomaes, retratos e estampas existentes na Bi- 
bliotheca e no Archivo do Instituto Histórico e Geographico de 8. Paulo, 
em 1 de Novembro de 1897 • 495 

GRAVURAS 

Antiga egreja do Collegio dos Jesuitas de 8. Paulo, antes de ser demolida, 
e o palácio da Presidência • ; . . . 

Mappa dos trabalhos preliminares para o traçado de um tram-roaà entre as 
colónias de Cananéa e Assunguy, pelo engenheiro Raymundo de Penna- 
forte A. 8. Blake 41 

Mappa da zona do rio Ribeira, entre Iguape e a barra do rio Pardo, por Er- 
nesto Guilherme Young ......*...:.. lOi 



MEMORIA SOBRE A EGREJA 

DO 

COLLEGIO DOS JESUÍTAS 



DE 

S. PAULO 



Obedecendo aos desejos d'este Instituto, venho hoje, 
decorridos certamente quasi dous niezes depois do desastre 
oecorrido na velha o^*t^ja do (bllegio dos Jesuittis, trazer- 
vos alguns dados referentes a essa vetusta construcçâo, 
o primeiro monumento histórico desta cidade, agora der- 
ruido e definitivamente condenmado. 

Incumbido pelo governo do EsUido da demohçao do 
velho templo, triste incumbência para quem como nós 
sabia aquihitar essas relíquias, realçadas por mais de três 
séculos de veneração, para quem, cultivando a Historia 
Pátria, aprendeu a ver n'esstus paredes tombadas e carcomi- 
das os testenumhos da nossa infância nacnonal (|ue ora des- 
apparecem, bem podemos dizer como Volney diante das 
minas de Balbec: «Procurei os antigos ou i)elo menos as 
suas obras e só encontrei mal apagados vestigios, seme- 
lliantes aos que deixam í\» pisadas do caminhante im- 
pressas na areia movediça. » 

De facto, dentro em breve nâo restarão do velho tem- 
plo, a cuja sombra surgiram e cresceram tantíis gerações 
dos conquistti(Jores dos sertões brasileiros, senão vestigios 
mal apagados, algumas reliquiasvenerandasrecolhidiíspor 

1 



2 



mãos piedosas dos que não queimam hoje o que hontem 
adoraram, d' aquelles que aprenderam no culto do passado 
a preparar para essa pátria estremecida um futuro melhor. 

Serão, decerto, vestígios mal apagados de uma epocha 
que se foi, mas de modo algum, não serão objectos indiffe- 
rentes aos que sabem como os dignos membros d'este 
Instituto venerar n' essas relíquias os esforços dos que nos 
deram a posse d'esta terra, d'aquelles que primeiro aqui 
lançaram os fundamentos da sua actual prosperidade. 

Descrever ainda que em breves linhas esse moimmen- 
to, o seu caracter, a sua posição no centro d'essa cidade 
modernizada de que fora ello outr*ora o embrj'^ão, a sua 
influencia na civilisação paulista é, por certo, assumpto 
para mais elevada competência do que a nossa; mas ainda 
assim tentando-o, resalve-nos a modéstia um intuito supe- 
rior: — guardar nos nossos archivos os característicos do 
derruído monumento, para que um dia o historiador que 
lamentar a sua perda, não lamente também a nossa in- 
differença, que seria um crime de leso-patriotismo. 

Ha muito que jd não era senão ruinas o templo aqui er- 
guido pelos primeiros apóstolos do Novo Mundo. 

O desabamento do seu telhado e de uma parte das suas 
paredes já fendidas e desaprumadas, occorrido na noite de 
13 para 14 de março jnxssado por effeito das chuvas tor- 
renciaes da estação, não é senão o começo de um. total 
anniquillamento porque, por tristíssima contingência das 
cousas deste mundo, até t\s ruinas perecem. 

Quizeram os nossos dissentimentos que sobre essa 
terra sagrada onde repousam as cinzas de tantos varões 
illustres, sobre o temi)lo onde primeiro echoaram os cân- 
ticos piedosos dos catechumenos de Piratininga, pezasse a 
mão da justiça com um interdicto que valeu-lhes por for- 
mal condemnação. 

Por isso, já lá vão seis annos que emmudecçra o ve- 



3 



lho campanário. Um silencio de tumulo reinava na nave 
deserta sobre cujo soalho ciycomido e em parte arrancado 
chovia copiosamente nas noites tempestuosas. 

Do tecto, já em parte deformado, com as telhas que- 
bradas e o forro apodrecido, desciam gotteinus abundan- 
tes que, lavando as paredes, gretando-as em vários pon- 
tos, acabaram i)or derruil-as, tanto é certo que nada ha 
mais anniquillador do que o silencio do abandono. 

Sobre os altares despidos empilhavam-se os destroços 
de desabamentos parciaes. As inuigens apeadas dos al- 
tares estavam recolhidas na <íapella-mór onde menos sen- 
sível era o desciUabro do tempo. Alfaiiis já alli não 
existiam ha muito tempo. 

Uma como que sentença de morte, que lentamente se 
cumpria, pezava sobre o velho monumento. 

Debalde, alguma cousa tentávamos para, ao menos, 
attenuar os effeitos da inevitíivel destruição. Por amor 
de duas escolas leigas que na amjda sachristia e nas 
suas dependências se installaram, algmis reparos ligei- 
ros, interessando ora os telhados, ora tis paredes que, 
aos poucos, iam ainda assim cedendo da sua solidez e 
estabilidade, conseguiamos realizar no intuito de evitar 
desastres irremediáveis. 

Sabia-o o governo (jue essas obras approvára e tis 
mandara pagar. Para attestíil-o aqui temos presente o 
nosso (Ugno consócio e presidente deste Instituto, o 
Dr. Cesário Motta Júnior, então Secretíu*io do Interior 
do governo do Dr. Bernardino de ('ampos, a esse tempo 
afanosamente empenhado em diffundir a instnicção po- 
pular e em levantiir o nivel do ensino ao ponto em que 
hoje vemos. 

E assim se foi mantendo o arruinado edifício até ha 
bem poucos dias. 

Em meiados de março, porém, notando nós que na 



parede meieira do palácio do governo e da egreja do 
Ck)llegio algum grave desarranjo se dava, pois a agua 
da chuva, penetrando coj)iosainente, lavava a referida 
parede, cujo pa|)el cahia a{)odrecido e alagava o soalho 
já bastante damniticado, levamos o facto ao conhecimento 
do Dr. Bernardino de Campos cjue, para providenciar, 
veiu pessoalmente examinar o logar ameaçado. 

Auctorizou-nos logo a entendermo-nos com o Rev.mo 
Bispo Diocesano, a pedir-lhe em seu nome íis chaves da 
egreja para se effectuarem os reparos (jue fossem de mis- 
ter de um e de outro lado, e sem demora auctorizou-nos 
a realizal-os. 

De bom grado accedeu ao delicado pedido o Rev.nw 
Bispo e desde então ficámos nós em condições de ence- 
tar as obras de reparação, se o tempo constantemente 
chuvoso, por dias successivos, nos não impedisse de ini- 
ciar qualquer trabalho, affectando as obras superiores do 
arruinado edifício. 

Aguardávamos a cessação das chuvas para proceder 
ao exame no telhado e no interior da egreja, quando 
nos vieram ás mãos as chaves da sachristia, então em 
poder de um dos professores, com as quaes podiamos ter 
ingresso no interior da nave quando fosse opportuno ahi 
trabalhar, e que tornavam dispensáveis aquellas que o 
Ex.mo Bispo nos entregara em confiança. 

Restituídas esUis, conthmamos a esperar pela cessa- 
ção do mau tempo para iniciar as obras que já tarda- 
vam. Na noite immediatti, porém, pelas onze horas, mais 
ou menos, ruia com grande fragor o telhado da velha 
egreja e com elle i)arte da pare<le meieira, a mesma que 
primeiro attrahira a nossa attenção e também algumas 
peças da cantíiria de um dos ângulos externos da torre, 
adjacente á mencitmada parede, as quaes, segundo os 
indícios, parece que foram as primeiras a desabar, aba- 



i 



lando com a sua queda o tecto já mui damnificado, e 
assim provocando o desequilíbrio de toda aquella con- 
strucçáo. 

Tanto bastou para que em al^ns espiritos se levan- 
tasse a injusta suspeitíi de um deliberado propósito da 
parte do governo em fazer desapparecer o vetusto mo- 
numento. — Elle que o nâo i)udeni alcançar pela força 
do direito, derribava-o agora pela calada da noite como 
um despeitado criminoso I. . . 

Não, não carecemos de levantar o aleive que assim 
como surgiu também promptamente se desfez. Isso só 
podia deshonrar-nos a todos, arguentes e arguidos. 

Não, na terra paulista, onde aliils a constante pro- 
speridade também insufla o espirito de irreverência, go- 
vernantes e governados, ttnlos sabíamos prezar o valor 
d esse monumento. 

Se a descrença avassalla o espirito innovador do sé- 
culo expirante, não é elle, por isso, menos esclarecido. 
Se para muitos o velho tem{)lo se não impunha pelo 
ideal da crença; se essa construcção não nos captivava 
pelo apuro da esthetica; para todos, porém, ella soer- 
guia como uma relíquia veneranda, como o sanctuario 
das nossas mais caras tradições; ella recordava o berço 
d'aquellas gerações de aventureh-os que nos deram o 
Brasil, o maior dos ten*i tórios americanos; ella recorda- 
va-nos ainda na sua modestíssima apparencia o nmito 
que temos caminhado, perseguindo o nosso ideal civili- 
sador atravez de três séculos de vicissitudes. 

Para nós, a obra de Nol)rega, de Maimel de Paiva, 
de Anchieta, de Tibyreçá e tantos varões illustres que 
os succederam n*esse piedoso empenho, não era assim 
um objecto despresivel e importuno a atravancar-nos o 
terreno reclamado para mór realce das modernas e appa- 
ratoeas construcções. 



Sempre pensamos que, se essa relíquia das passadas 
eras se podesse conservar de pé, a despeito de todos os 
nossos dissentimentos, que ella se conservasse no mesmo 
sitio em que aquella.^ almas piedosas a elevaram. C^reio 
ser este o sentir de quantos amam a sua pátria n esses 
testemunhos seculares, que sâo os marcos miliarios a assi- 
gnalar-nos a rota civilisadora atravez da Historia. 

Mí\s para aquelles mesmos que nâo vêem no arrui- 
nado monumento mais que uma pesada e paupérrima 
construcçâo a desfeiar, pela sua visinhança, os novos pa- 
lácios que a hodierna riqueza vae erguendo em tomo 
do antigo pateo do Collegio, para esses mesmos o tem- 
plo de Anchieta nâo era uma reliquia sem veneração. 

N'este ponto nâo havia divergência. O que nos di- 
vidia era o modo de comprehender o ideal, ou o respeito 
pelo passado que, ao sentir d'elles, nâo devia primar ás 
exigências progi^essistas e razoáveis do seu tempo. Sem 
faltar com a devida veneração, entendiam elles que, ser- 
i^afLt senmiidis, o velho monumento podia desapparecer 
sem prejuízo d'esse ideal ou d'esse respeito ás tradições. 

Façamos-lhes esta justiça. 

Quiz, porém, a sorte que, antes mesmo de pronmi- 
ciada pelos trihunaes a ultima e definitiva sentença, ruisse 
por terra o velho monumento, confundindo com uma so- 
lução radical os litigantes. 

O templo jesuítico, cujos i)rimeiros fundamentos da- 
tam de 1554, está irremediavelmente perdido. Derruí- 
das as paredes, gretadas e carcomidas as que permane- 
ceram de pé, nada de estável e duradouro se poderá 
reerguer com essas ruinas iiTcparaveis. C-lamem debalde 
os que nâo queVem ver no alheio sentimento senão o 
desejo inconsiderado de eliminar o que todos veneramos. 

Sobretudo, nâo exageremos. 

Entre a veneração e o fetichismo nâo ha, de facto. 



mais que uma linha. Só a boa razão e o critério es- 
clarecido nol-a fazem bem distinguir e não ultrapassal-a. 

Demolir aquellas pai^edes para no mesmo sitio levan- 
tar-se nova egreja é exaggerar os sentimentos, é des- 
conhecer as necessidades <la sua epocha, é confundir o 
ideal imperecivel com o seu representativo material, con- 
tingente, como se a destruição deste acarretasse a irre- 
mediável perda d'aquelle. Mui sabiamente definiu e re- 
solveu essa questão o Rev.mo Bispo Diocesano, cultor 
tão intelligente das cousas da pátria como é pela sua 
fé e por dever do seu cargo acérrimo defensor das 
cousas sagradas, quando em resposta a uma consulta 
do Secretario do Interior (1) se pronunciou n'estes ter- 
mos: 

«Ao attento ofRcio que se dignou V. Ex.* de dirigir- 
me em data de 18 d'este andante, relativo ao desmoro- 
namento da egi^eja do Oollegio, cabe-me responder scienti- 
ficando a ^^ Ex.* que o que a esse respeito ficou assentado 
de combinação com o Ex.mo Sr. Dr. Presidente do Es- 
tado foi, que terminados os trabalhos de desentulho no 
interior da egreja, se demolisse das paredes o que, a 
parecer do distincto profissional que comnosco estava, 
o Dr. Theodoro Sampaio, ameaçava cahir. 

«Si, pois, examinando as ditas paredes, o digno en- 
genheiro achal-as arruinadas a ponto de exigirem ser 
desde já demolidas, eu não posso oppôr embaraço algum 
a um alvitre que se impõe á boa razão e ao bom senso, 
e ratifico o que entre mim e o Ex.mo Sr. Ur. Bernar- 
dino de Campos ficou combmado.» (2) 

Depois de lembrar algumas providencias adequadas 
a resguardar os objectos do culto, os altares, púlpitos, 



(1) Officio de 18 de março de 1896 do Secretario do Interior. 

(2) Officio de 21 de março de 1896 do Exm.o Bispo Diocesano. 



8 



obras de ornamentação que ainda podem ter ulterior e 
idêntico emprego, conclue o Sr. Bispo: 

«Tudo o mais será acautelado de accordo, como até 
hoje, e de modo a se conservarem com o religioso decoro, 
as reliquias preciosas que n'arjuella egreja nos lembram 
a historia do alvorecer d' esta terra abençoada, rica de 
glorias e de heroes. Com estas precauções e cuidados 
casam-se perfeitamente os nobres sentimentos patrióticos 
que nutrimos e afagamos, alliados ás caras tradições re- 
ligiosas de nossa pátria; sentimentos que se manifestam 
assim com a calma e efficacia próprias <la religião que os 
anima, sem falUir á caridade com temerários e odiosos 
juízos, e sem offender ao próximo (jue nos merece respeito 
e acatamento.» 

Eis a linguagem do critério esclarecido e da modera- 
ção; eis ahi como falia um homem que sabe sentir pela 
religião e pela pátria. 

Venere-se o que é digno de veneração; resguarde-se 
com religioso decoro tudo quanto puder ser resguardado, 
deixe-se de pé ou seja demolido aquillo que o profissional 
reconhecer que jxSde ou não permanecer de pé. 

Mas, da veUia egreja tudo está compromettido irreme- 
diavehnente. 

A quemquer que alli penetre com a consciência des- 
annuveada de preconceitos dej)aram-8e logo ruinas, onde 
as numerosas fendas das paredes pendidas, o apodrecido 
das madeiras, a falta de equilibrio e de reciproc-a aniaiTa- 
ção entre o que ficou de pé, la^Tam a inilludivel e con- 
demnatoria sentença. 

Assim, dentro em breve, não restarão do templo de 
Anchieta senão reliquias transladadas e essa terra sagrada 
onde tantas gerações passaram pelo somno derradeiro. 

E, comtudo, não ficam profanados os objectos do culto, 
as cinzas, os ossos, as mscripções tunmlares pelo facto da 



sua trasladação. Antes é prova de verdadeira piedade re- 
colhel-os em logar eo'iidigno, realçar-lhes o mérito em mais 
solida construcçâo, onde aos vindouros se mostre como 
n'um Pantheon os restos venerandos dos que, na derruída 
egreja, repousavam á sombra dos altares. Melhor, muito 
mais elevado desígnio é este do que aquelle exaggerado 
sentimento dos que tendo esses restos por intangíveis, os 
deixariam perecer entre ruínas que ninguém pôde con- 
servar. 

Do monumento que ora desapparece salvemos para 
a Historia a minuciosa descripçâo d'elle, a sua planta topo- 
graphica, as photographías da sua fachada, do seu interior, 
e de cada um dos seus altares e dependências ; salvemos 
tudo quanto possa um dia recordar-nos o que elle foi como 
arte, como tradição e como representativo da nossa fé. 

Resgatemos antes os nossos dissentimentos, erguendo 
á memoria dos fundadores do Collegío, que são também 
08 d'esta cidade, um monumento immorredouro como 
o bronze, sobrepondo ao monumento que desapparece 
outro monumento ainda mais conspícuo, e que este seja 
uma memoria tão digna d'elles como também o repre- 
sentativo fiel do nosso progresso de três séculos. 

Demos-lhe por primeiro embasamento as pedras tos- 
cas, retiradas d' aquellas paredes demolidas; por pedestal 
a velha cantaria que a moderna arte souber aproveitar; 
e, na columna de bronze que sobre elle se erguer, ín- 
screvam-se os nomes dos primeiros apóstolos d'e8ta terra, 
ao lado dos quaes não destoam, por certo, os nomes de 
Tíbyreçá e de Cai-Uby, nomes bárbaros que a Historia 
salvou como symbolísando o heroísmo e a summa de- 
dicação dos primeiros convertidos. 

Esqueçamos assim os ódios sectários para só mover- 
nos o culto reparador e edificante, tributado aos próceres 
da nossa nacionaUdade. 



10 



Aqui, n'e9te terreno, sim; distingam-nos a cada um 
de nós a sinceridade do sentimento, b alevantado da idéa, 
o fervor das homenagens, como a solicitude e alacridade 
em desonerarmo-nos de uma divida que já tarda. 

Qualquer, porém, que seja o modo de a resgatarmos, 
que esse monumento não symbolise nem perpetue jamais 
as nossas dissensões mal apagadas, mas a paz e a concór- 
dia entre os Brasileiros, como sendo o sentimento unanime 
da nação agradecida. 

Theodoeo Sampaio. 



A PROPÓSITO 

DO 

Nome «Gararaurú» 



AO LEITOR 

Devo dizer que este escripto me vem suggerido pela 
simples leitura de uma ephemeride de gazeta. 

Na Platéa de 5 de outubro, na columna sob o titulo 
— A Folhinha — alguém com o pseudonymo Pinus, que 
não logrei coiiliecer, mas cujo estylo faceto e indepen- 
dência de conceitos parece trahir um espirito apurado 
e affeito a questões de Historia Pátria, perguntou a modo 
de coUegial indagador: «Qual é a verdadeira etymologia 
da palavra Car amura?» 

Achei o problema interessante e emprehendi por es- 
tudo de resolvel-o. Não tenho, comtudo, a pretenção de 
havel-o conseguido, mas consignando no papel, como 
agora o faço, o resultado dos meus esforços não tenho 
em mira outro objecto que não o de attrahir para elle a 
attenção dos meus dignos consócios do Instituto Histórico 
de S. Paulo. 

Entretanto, não resisto ao desejo de para aqui tran- 
screver por inteiro a alludida ephemeride, porque presumo 
que só ella me servirá de prologo. 



12 



A FOLHINHA 

Outubro, 5 

1567. — Fallece Diogo Alvares, o Carami-rú. 

Quando en era menino, collegial despretencioso e feliz, 
amigo do meu mestre e dos papagaios de papel furta-côres, 
tinha a curiosidade de querer saber das cousas tim-tim 
por tim tim, quero dizer, grão por grão, e não me impor- 
tava amolar a santa paciência de quemquer que fosse. 

Uma cousa com que eu sempre importunava o meu mes- 
tre de Historia Pátria : afinal, qual é a verdadeira etymo- 
logia da palavra Caramnrú? 

O meu compendio ensinava que essa palavra quer dizer 
— honiem do fogo,— mtíHy contrariando o compendio, havia 
a palavra pesada e auctorizada do meu velho mestre que, 
ao passar pela pagina em que vem aquillo escripto, dizia 
aos aliminos : — Kstá errado, meus meninos. Caramurn qtier 
dizei': dragão sahido do nmr, 

E eu, satisfeito com a opinião do mestre, fazia-o repetir 
muitas vezes essa opinião. Dejxjis, cresci, li cousas mais 
altas, mas até hoje não acertei com a verdadeira etymolo- 
gia da palavra Caramnni . . . 

Sej que este Diogo Alvares foi um homem que nos pre- 
stou grandes sei'viços, mas não lhe perdoo ter trahido a 
pobre índia, fazendo-se acompanhar apenas da felizarda 
Paraguassú. 

Dizem que o Diogo morreu velho como um pae João, 
deixando uma prole numerosíssima. 

Foi um bom homem, o Caramurúl Escapou ao furor 
das ondas e ao furor canibalesco dos bugres, fez-se bugre 
por amor da pátria, amou todas as mulheres da tribu que 
o agazalhou e prestou muitos serviços aos colonizadores 
d'este paiz. 



A legenda é o apanágio de todos os povos na idade 
juvenil. 

Quando uma nacionalidade desponta ou resurge para a 
seena do mundo é na legenda, crepúsculo que invaria- 



13 



velmente precede a alvorada da Historia, que a alma 
ingénua do povo reveste do maravilhoso e do poético a 
figura dos heroés que ella amou. Mixto de crença e de 
ideal, de poesia e de fé, a legenda é a pro{)ria eon- 
. sciencia muíional,, é a alma do i>ovo que se revela. 

O CEdipo dos Hellenos; o velocino d' ouro dos Argo- 
nautas; a loba compassiva que amamenta os engeitados 
filhos de Rhéa; a juba leonina de Sansão, que é o Her- 
cules dos Hebreus; o Roldão dos Carolingios; o Arminio 
dos Gennanos; Belisario, Viriato, o Cid Campeador, 
G uilherme Tell, Malborought, toda essa plêiade de entes 
transfigurados pela coUaboraçâo anonyma das turbas, mas 
exprimindo nitidamente o sentimento real de mn povo, 
o seu estado d' alma n'uma phaso assignalada da exis- 
tência nacional, dizem bem alto (juão irrefragavel é o po- 
der da legenda. 

Nós, as novas nacionalidades que ainda agora des- 
pontam na terra da America, estamos e estivemos sob 
o império da legenda. Na nossa Historia de menos de 
quatro séculos, já não sâo poucos os vultos legendários 
que a tradição consagrou: João Ramalho entre os (Juaya- 
nazes de Piratininga; o ('aramurú entre os Tupinambás 
da Bahia; Anchietii entre os catechumenos; o Anhan- 
guera dos bandeirantes; o Aleixo Garcia das excursões 
longinqmis; os Pahnares, o Calal)ar são vultos (|ue a 
poesia popular aureolou e consagrou í^onio [)rototypos do 
ideal e da aspiração de cada esUigio da vida nacional. 

Teve já a sua consagração litteraria a legenda do Cara- 
mura; a do Anchieta deu-nos o Evangelho nas Selvas de 
Varella; a dos Palmares e de Calabar tiveram já os seus can- 
tores, tel-o-hão um dia também Aleixo Garcia, e o Anhan- 
guera, os dous génios que personificam a audácia, a indó- 
mita coragem dos conquistíidores das solidões do Brasil. 

Não é, porém, para ainda mais agigantar a legenda 



14 



que eu venho fallar do Caramuni. Ao contrario, venho 
estudal-a, á luz da critica, e por uina face que até parece 
profanação. A legenda tem isso de especial e caracterí- 
stico, confunde-se como o mysterio e como este tem de ser 
impenetrável; mas ainda quando profanada, ella subsiste 
pela crença. 

E não será acaso profanação investir contra o ideal 
que se venera, estudal-o com a frieza da critica irreve- 
rente? 

Qual a verdadeira etymologia do nome Caramtmi? 
Tal é'o nosso objecto. 

Esse alcunha tupy do grumete naufragado nas cos- 
tas bahianas o que vem a significar em definitiva? 

Para quem conhece os processos incoherentes com 
que se formam as legendas não é tão fácil responder, 
nem mesmo aquelles que têm por gosto aprofundar que- 
stões obscuras, attinentesá historia nacional, e conhecem 
alguma cousa dessa lingua tupy que vae despresada des- 
apparecendo. 

Demais quem nos diz que o nome Caramurú., como 
a própria legenda que elle representa, não nos chega 
alterado pela tradição? 

A hypothese é tanto mais cabivel em tratando-se 
de um alcunha bárbaro quanto é certo que o próprio 
nome portuguez do heroe da legenda anda controvertido 
entre os escriptores, até mesmo entre os coevos. O 
padre Manuel da Nóbrega, que conheceu pessoalmente 
o (7«rrtmMm, escrevia — Diogo Al veres; mas Gabriel Soa- 
res, que quasi o alcançou vivo na Bahia, escrevia — Diogo 
Alves. Frei Vicente do Salvador em 1627 e que, como 
elle mesmo o diz na sua Hiò-torm do Brasil, amda conheceu 
a Índia Paraguassú, mas já viuva do Caramurú, escrevia — 
Diogo Alvares, como também o Padre Simão de Vascon- 
cellos, chronista da Companhia de Jesus, e que parece ter 



16 



sido o primeiro a dar-nos escripta toda a legenda em 
1662. 

Entretanto, Pedro de Mariz, que é anterior a Vaacon- 
cellos escrevia: Francisco Alvares, e o Padre Nuno Marques 
Pereira no seu Compendio do Peregrino da America es- 
creveu: Lourenço Alvares. 

O appellido Corrêa, no pensar do Sr. Varnhagen, é apo- 
crypho, e talvez invenção de Rocha Pitta, se é que tam- 
bém não trahe a preoccupaçâo dos ( jue se diziam descender 
do humilde grumete naufragado para demonstrarem a no- 
breza da sua linhagem (a). (Vide notas de pags. 22 a 26.) 

Estudemos, entretanto, o alcunha bárbaro, o nomo 
Caramurú, que parece ser a chave da legenda. 

Excepção feita do Padre Nóbrega que escreveu 
Caramolú (1) todos os mais escriptores concordam na 
graphia do vocábulo tupy. A mesma divergência da 
graphia de Nóbrega tonia-se explicável para quem re- 
cordar-se que o Padre era gago e tinha por habito 
dictar as suas cartas. 

Não se deprehenda, comtudo, d'essa nossa observação, 
que o nome Caramurú, tal como a legenda o consa- 
grou, seja a ultima expressão da pureza na linguagem 
tupy, antes, pelo contrario, acreditamos que esse alcu- 
nha bárbaro nos chega alterado e confundido. 

Opinam em sua maioria os escriptores que o alcu- 
nha Caramurú, quer dizer: homem de fogo, seguindo 
erroneamente a Vasconcellos que assim o interpretou, 
preoccupado, sem dúvida, mais com a legenda do que 
com escrúpulos de etymologia n'um idioma que tfilvez 
ignorasse. Pois que, como mui acert^idamente observa 
Frei Santa Maria Jaçoatão, os Tui)inambás no episo- 



( 1 ) Carta do Padre Manuel da Nóbrega escripta da Bahia 
em 1555 e citada por Yamhagen. 



16 



dio do disparo do mosquete teriam antes gritado: 
Avatatà ! Avatatá ! que tal ó a traducção no tupy d' esse 
significado que se quer dar ao nome Caramuríi. (j) 

Avatatá! ou apegauatatá! seria, com effeito, o grito 
do bárbaro aterrado, se é que a legenda tem esse 
fundo de verdade e a lingua por elle fallada era o 
tupy como a Historia nol-o revela. 

Que Vasconcellos foi o primeiro a nol-o transniittir 
mal interpretado esse appellido é facto que se não 
contesta, pois que só a elle se deve o haver passado 
para as paginas da Historia esse feito legendário então 
corrente. (1) (b) 

Antes d' elle nenhum escriptor d' isso se occupou. 

Frei Vicente do Salvador, que tantas cousas nos 
revela da vida primitiva da colónia, nâo nos diz pala- 
vra dos primeiros passos de Diogo entre os Tupinam- 
bás, nem dos seus feitos legendários, talvez por lhes 
' nâo dar credito ou porque a esse tempo a tradição se 
não formara; de outro modo não se comprehende o 
silencio do historiador bahiano, que, aliás, conheceu a 
Paríiguassú, «viuva mui honrada, amiga de fazer es- 
mola aos pobres e outras obras de piedade,» e na 
Igreja baptisada — Ltiiza e não Catharina como na le- 
genda se admitte. (c) 

Guia de quantos depois escreveram a Historia da 
Colónia Portugueza foi Gabriel Soares escriptor quasi 
coevo de Diogo, de quem, aliiis, não menciona senão 
o alcunha tupy sem interj)retal-o, e não nos diz cousa 
alguma do dramático episodio do naufrago das praias 
do Rio Vermelho entre os Tupinambás. 

Sebastião da Rocha Pitta narrando, porém, esse 
episodio como tendo-o colhido de antigos e authenticos 



( 1 ) Gabriel Soares de Sousa o precedeu de alguns annos. 



17 



manuscriptos existentes na Bahia, interpreta já o aug- 
mentado alcunha: Caramurâaçn como significando : 
dragão que sahiii do mar, trahindo já ahi a preoccupa- 
çáo Utteraria do académico que se appellidou — Vago 
na celebre Academia Brasílica dos Esqíiecidos de que 
foi fimdador o (*onde de Sabugosa, em 1720. 

Depois de Rocha Pittti, constigrada a legenda, cor- 
recta e augmenttida com as galas do estylo brilhante 
do historiador bahiano, a litteratura se encarregou de 
fazer do humilde grumete naufragado o patriarcha de 
uma níunonalidade nova. 

O alcunha tupy teve desde então interpretações ao 
sabor litterario de cada um. Este traduzia: homem de 
fogo: aquelte dizia significar: filho do trovão; aquelle 
outro: dragão sahido do mar e ainda outro: morca. (d) 
Tudo isso, porém, é vago e imaginário como sonho de 
poetas; não resiste á critica. 

A interpretação de Rocha Pitta — dragão sahido do 
mar, que o doutissimo Ferdinand Denis acceítou, aliás 
com reserva, não tem fundamento. 

O dragão, animal fabuloso (jue o génio inventivo dos 
Gregos creou (íom as garras do leão, as azas da águia e a 
cauda da serpente, dedicando-o á deusa Minerva, como 
symbolo da sciencia que não dormita jamais, era phan- 
ta-sia que não entrava no cérebro do nosso gentio, que 
elle não tinha e não podia tela. 

Quem jamais viu, nem sequer pintados, um leão, 
uma águia ou uma serpente, não pôde ter d'essas crea- 
ções monstruosas. 

Tinham, é certo, os hrmis desse tempo os seus 
Caiporas, Curupiras, Anhangás, Yuruparis, e mais gé- 
nios phanUtóticos a qvie dava lugar o antroi)omorphismo 
indigena; nunca, porem, dragões como o da Colchida, 
o do jardim das Hespérides, o das lendas sagradas da 

2 



18 



Media Idade que deitavam fogo pelas fauces escanca- 
radas. 

Entretanto a significação d esse vocábulo Caramurú, 
que tão variamente se interpreta, não pôde deixar de 
ter relação com os factos attribuidos a Diogo, embora 
com valor muito menos poético, ainda que mais con- 
soante com a attitude e condição de um naufrago 
entre canibaes. As duas primeiras interpretações, a 
de Vasconcellos e a de Pitta, se bem que erróneas, 
deixam, comtudo, transparecer atravez da legenda uma 
parte da verdade. E esta chega-nos obscurecida tão 
, somente por se ter querido explicar o alcunha bárbaro, 
subordinando-o ao episodio mais dramático, ao tiro de 
mosquete, com que se põe em evidencia a superioridade 
da raça invasora, representada na pessoa de Diogo. 

Que esse fimdamento da legenda não tem, em verdade, 
consistência alguma é cousa que em boa razão se não 
pôde contestar; basta attender que para os Tupinambás 
da Bahia já não podiam ser cousa estupenda e nunca 
vista a arma de fogo e os seus terríveis effeitos. 

Se é verdade que a nau, em que veiu Diogo Al- 
vares, deu á costa pelos annos de 1510 ou lõll,como 
nol-o attestiim Navarrette, Pêro Ix)pes e Herrera, já lá 
iam decorridos 10 para 11 annos que os successoi'es 
de Pinzon e de Cabral frequentavam a costa do Bra- 
sil e ahi traficavam com os naturaes. Os europeus, 
homens brancos (cardi), como lhes chamavam os tupys, 
os seus gi*andes barcos (igaraçú), a sua artilharia (moca- 
haucfi) e os seus mosíjuetes (mocaha) já não eram no\âdade 
para esses bárbaros que aprisionavam a Diogo. ( e) 

Gaspar de Lemos ou André Gonçalves, levando a D. Ma- 
nuel a noticia do descobrimento de ("abral em lõOO, ao 
singrar para o Norte, costeando para reconhecer a ex- 
tensão do que se presumia ser a ilha da Vera Cruz, apor- 



19 



toii mui provavelmente á Bahia, onde talvez colhera os 
Índios com que se apresentiira na ( 'ôrte. Escriptor houve 
até que presumiu ser Diogo Alvares um dos marinhei- 
ros de Gaspar do Lemos, colhido em terra em qual- 
quer emboscada dos Tupinambás. ( 1 ) 

Américo Vespucci, em 1501, ahi aportou também a 
1 de novembro quando deu á Bahia o nome que 
ainda conserva de Todos os Santos; e, pelo que se 
colhe dos seus escriptos, parece (jue chegou á falia 
com os naturaes do paiz, i)ois que com o fito de me- 
lhor conhecel-o, navegava á vista de terra «....di con- 
tinuo fíKícendo di molte scale....», como elle mesmo o 
diz em uma das suas narrativas. 

O mesmo Vespucci, em 1503, ahi esteve mais de 
dous mezes esperando infructiferamente por seu chefe, 
Gonçalo Coelho, que deixara atraz na altura da ilha 
de Ferirando de Noronha; nâo sendo admissível que 
tâo longo tempo ahi permanecesse o cosmographo flo- 
rentino com toda a tripolaçâo dos dous navios que o 
seguiam sem entrar em trato com a gente da terra a 
quem, i)or certo, não faltou occasiâo de ficar conhe- 
cendo, até por mera exliibiçâo da força, para quanto 
serviam a artilharia e os mosíiuetes. 

Antes de 1510 o trafico dos Europeus com os hra- 
zLs' era já considerável. Os navios do trato do {)au 
brasil visitavam a miúdo os portos onde esse negocio 
se fazia mais lucroso. O trafi(?o de escravos attrahia 
para as nossas costas grande numero de naus de res- 
gafp, porque era esse tíunbem um dos negócios mais 
rendosos, (e) 

Os Francezes da Bretanha e da Norman(ha não 



(1) Veja se a Chm'ographia Brasil ica do Padre Manuel Ayres do 
Casal, vol. ii, pag. 138 e 139. 



20 



raro se viam nas aguas do Brasil e era maior numero 
do que os Portuguezes, os senhores d' esta conqaísta 
e seus descobridores. 

Assim pois, nem o homem branco nem o seu armamento 
podia ser cousa tao estupenda para o gentio que em 1510 
aprisionava a Diogo Alvares apoz o naufrágio. 

Dando á costa onde já colhiam as Tupinambáfl os 
destroços do navio que á vista de terra se despeda- 
çava de encontro aos rochedos, Diogo náo era senão 
um homem branco naufragado, cousa que na língua 
d' esses bárbaros se traduzia por — carat-murwii. (f) 

O tempo e a pronuncia viciada em lábios forastei- 
ros pouco alteraram, entretanto, a phrase primitiva e 
nol-a transmittiram sob a forma: caramurú. 

Como se vê, a significação do alcunha bárbaro é 
das mais singelas, naturalissima, nada tendo de poé- 
tico e dramático como a legenda o consagrou. 

Caray ou oarahyha no idioma tupinambá é o nome pdo 
qual se designava o homem branco, o europeu; murú ou mu- 
rurú é o verbo inundar, alagar, transbordar, e, por syno- 
nymia também: naufragar, dar á costa, sahir do mar. (1) 

Comprehende-se agora porque diziamos que as duas 
primitivas interpretações eram erróneas ou tão somente 
em parte verdadeiras. 

De facto, as versões : homem de fogo e dragão sa- 
hido do m^r encerram cada qual uma parte da ver- 
dade. Na primeira, attribuida a Vasconcellos, a pala- 
vra homem deixa perceber que o vocábulo caray teve 
um começo de traducção. Na segunda, que se presume 
ser de Rocha Pitta, as palavras- — sahido do mar são, com 
effeito, a traducção do verbo tupy — muríi ou mururú. 



(1) No idioma tupy o infinito dVste verbo é: muru ou 
mururú. 



âl 



A phrase tupy transmittida talvez por quem igno- 
rava a língua (j) ou por quem não tinha o ouvido 
tão subtil como era de mister para apprehender as 
múltiplas cambiantes da vocalLsação própria d*esse 
idioma, que o Padre Vieira desesperava de apprehen- 
der ainda mesmo com o ouvido encostado á bocca do 
bárbaro, facilmente se confundiu com a palavra Cara- 
mwrii que, no dizer de Gabriel Soares, designa uma espécie 
de moreia, muito abundante nos nossos mares, e mui 
frequentemente entre os rochedos da beira-mar. {g) 

De outro modo não se comprehonde como é que o 
vocábulo Caramurn, que designa animal tão conhecido, 
carecesse das interpretações ou traducções que se attri- 
buem a Vasconcellos e a Rocha Pitta. 

É verdade que a preoccupaçâo litteraria ou legen- 
daria podia, usando de an^ojada íuetaphora, comparar 
o naufrf^o das praias do Rio Vermelho, encontrado 
talvez occulto entre os rochedos da costa, com esse 
peixe monstruoso, espinhoso, cujas dentadas se tinham 
como mortíferas, e que, aliás, se deixava pegar á mão. (k) 
É possível. Mas nesse caso as versões alludidas, isto 
é, as Iraducções do vocábulo Caramum não têm ca- 
bimento por escaparem ás regras da similhança que 
a metaphora exige; pois que, homeni de fogo ou dra- 
gão isto é, animal que lança fogo, nada tem de commum 
com essa espécie de enguia ou moreia das nossas praias. 

Que 08 auctores da legenda, ao interpretarem o 
alcunha bárbaro, não tinham em mira senão o episo- 
dio do tiro de mosquete, scena capital de todo esse 
drama, e jamais o acto da captura do pobre naufrago, 
surprehendido alagado entre os rochedos, é cousa que 
salta á vista, e se* não pôde contestar. 

Entretanto, ao lado da preoccupaçâo legendaria, 
como que se descobrem na tradição então corrente uns 



22 



resquícios da verdadeira e primitiva significação do 
alcunha adulterado, e que dão logar ús duas traduc- 
ções incompletas ou tão somente em parte verdadeinis. 
Por isso é que os dons mencionados escriptores não 
tomam o nome Caramuyii como synonymo de moreia, 
e procuram dar-lhe significação diversa. 

Carai-mnru, isto é, hommn hramo sahido do mar ou 
simplesmente branco naufragado, eis para nós a verda- 
deira interpretação, consoante com a etymologia e com 
a historia do alcunha legendário. 

E não soffrerá com isso a legenda que hoje e sem- 
pre será a mesma, intangivel, poética, incoherente. A 
critica pôde profanal-a, mas ella não morre. 

Demais, estava escripto que o humilde grumete, o 
gallego como o chamava o donatário Tourinho, cuja 
nacionalidade mesma nem sequer ficou provada, [h] 
cuja posição entre os bárbaros que o acolheram nem 
mesmo ascendeu á de um chefe de tribu, cujo mérito 
entre os fundadores da cidade do Salvador que elle 
ajudou a erguer não foi além do de um Unguu da 
terra, devia passar á Historia como o afilhado de reis, 
cortejado pelo mais poderoso dos monarchas do seu 
tempo ( i ), tronco illusti-e das mais illustres famílias da 
nossa terra (;), vulto legendário de j)oema heróico, 
quasi um semi-deus. 

Eis o (jue são os prede^stinados da Historia. 

S. Paulo, 10 de outubro de JHÍ)5. 

Theodoro Sampaio. 



NOTAS 

n) O Sr. Vamhafçen, ViHconde de Porto Seguro, uo seu es- 
cripto intitulado- CAR.\MrRr PEBANTK A HiSTORIA — publicadO DO 
tomo X da Revista do Instituto Histórico^ diz que «o appellido 



2â 



Corrêa que recentemente se lhe accrescentou e que até se inter- 
calon em algumas cópias modernas, e só nas modernas da obra 
de Gabriel Soares, deve ter se por espiirio. > O Sr. Hypollito 
Cassiano de Miranda, editor das Memorias Históricas e Po- 
liticas da Provhuna da Balda, por Ignacio Accioli de Cer- 
queira e Silva, diz que Rocha Pitta foi quem desencantou esse 
appellido Corrêa, náo de algum manuscripto d*esta provincia, «mas 
provavelmente da influencia genealógica de algum consócio do 
nosso patrício na sua campanuda Academia, que lhe lembraria 
Berem também Corrêas os Alvares nobres de Vianna, isto quando 
o Caramwú não passaría naturalmente nos seus tempos de algum 
miserável grumete, como também opina o Sr. Vamhagen. 

b) Diz o Sr. Vamhagen que Gabriel Soares, estabelecido nc^ 
Brasil em 1570, é dos antigos o que nos trausmittiu jamais assen- 
tadas noticias do Caramurúy e que em líJH^ Simão de Vasconcel- 
lo8, chronista da Companhia de Jesus para quem Diogo foi sym- 
pathico, ampliou o pouco (lue dissera Gabriel Soares, que Brito 
Freire repetiu VasconcelloK, (jue Rocha Pitta repetiu Freire exag- 
gerando e que Santa Rita Durão no seu i>oema Caramurú se 
apoiou em Vasconcellos. O Padre Manuel Ayres do Casal diz, 
porém, que Vasconcellos * foi o primeiro que divulgou (mais de 
cento e cincoenta annos dí»pois) as aventuras de Diogo Alves 
Corrêa, o Caramurú^ quasi em forma de novella ; e os posteriores 
consideravam-se auctorizados para enfeitai a. > 

c) Frei Vicente do Salvatlor, historia<lor coevo .da Para- 
gaassú, a india legendaria que dizem se baptisára em França e 
na Corte onde foram seus padrinhos Henrique II, Valois e Ca- 
tharina de Medicis, a qual lhe deu seu próprio nome, diz que a 
viuva do Caramurú se chamava Luiza. A legenda da viagem e do 
baptísado tem ahi mais um formal desmentido. Não obstante, 
escriptores ha que a susteutam ; e o Sr. Joatjuim Norberto de Sousa 
e Silva em 1845 ainda escrevia no íris n'este8 termos: «A viagem 
de Caramurú a França está comprovada pelo descobrimento de 
documentos feitos em Paris, pelo Exm.t* Sr. Visconde de Santarém. > 

d) Von Martins no seu Glossaria Lin^uarum Brasiliensium 
diz fállando do nome Caramunt: «Nomen quoque viri in historia 
Bahice celebris. ( Caramurú declaratur significare : ecce magnus 
heros aut victor)». Portanto, eis mais uma versão transmittida 
ainda que não encampada pelo sábio viajante. Caramurú também 
diz-se significar: eis o grande heroe ou vetwedor. 



24 



e) O gentio do Brasil, isto é, os JDupys do líttoral, chamavam 
08 brancos ou Europeus: Caray. No dialecto dos Cayuás que, se- 
gundo o Sr. Beausepeire Rohan, eram dos poucos (jue ainda fal- 
lavam o tupy puro, encontrei entre as tribus do Paranapanema o 
nome— Carahy. O Sr. Pedro Luiz Sympson na sua Grammatica 
da Lingica Brasilica Geral, f aliada pelos aborigenes do Pará 
e Amazonas diz que < a palavra : cariua é indicativa de 
gente branca; cariua por si só quer dizer o branco, isto é, o 
homem branco. » Von Martins no Glosaaria diz que o vocábulo 
carai também significa uma espécie de macaco (Shnia Nt/ctipithe- 
ctis vociferaus, Hyij.). Entretanto dá os nomes: caraybebê como 
significando anjo, archanjo, serafim, isto ó : caray — homem branco, 
fbeòévêvê — voar, isto é, homem branco que vôa; caryqnera anjo 
mau ou diabo, onde se trahe a influencia da catechese na compo- 
sição d'e8se8 vocábulos. Mais adiante ajunta: caryba — homem 
branco (Portuguez). Ferdiuand Denis e Humboldt dizem que os 
Tupys davam o nome de Carahyba aos seus pagés ou feiticeiros, o 
que prova que essa profissão foi outr'ora entre elles privilegio de 
uma nação mais adiantada e intelligente. Não viria d'ahi a cha- 
mar-se entre os Tupys caray ou carayba ao europeu, homem mais 
intelligente, esperto, de raça superior? O Padre Ives d'Ereux 
diz que os Tupinambás do Maranhão chamavam CaraiJxis aos 
Europeus. Barbosa Rodrigues dá no dialecto tupy do Amazonas: 
caray como significando anjo e cariua como significando homem 
branco. 

e') As armadas da índia, logo deix>is de Cabral, transitavam 
quasi sempre em frente ás costas do Brasil e em alguns pontos 
aportavam. Em ir)03 attingiu o meio da costa do Brasil a armada 
de D. Affonso de Albuquerque que sahira de Lisboa a 6 de abril; 
não se sabendo em que ponto ou latitude, mencionando-se tão 
somente que havia n'e8sa paragem canatistula e pau brasil. 

A frota do commando de D. Francisco de Almeida navegou 
em 1505 mui próxima á costa do Brasil, e é provável que algures 
aportasse. 

Se é verdatleira a viagem de Pinzon e Solis de 15í)8 a 15()9 
quando, segundo escriptores hespanhoes, descobriram o Rio da 
Prata, esses navegadores, certo, costearam do Cabo de la C-onso- 
lacion para o Sul e é provável (pie tocassem na Bahia, ainda antes 
do naufrágio de Diogo Alvares que, está verificado, aconteceu 
em 1510. 



âô 



f) O verbo tupiy— wMír»#ni on m«<rú, segundo Barbosa Rodri- 
gues, significa no dialecto do Amazonas inunàary e por synony 
mia trambordar, aahir do leito , dar á costa, e também nm pouco 
mais longe tunrfragar, ãohir do mar. Von Martins, no seu Olossa- 
ria Linguarum Bra9ilien9ium dá o verbo morem com a significa- 
ção de deitar de molho, e, portanto, cobrir de agtta, e por synony- 
mia : immergir, aftmdar. 

f) Simão de Yasconcellos a julgarse por algumas phrases 
do tupy, que nos transmitte incorrectas, não conhecia bem 
essa lingua. 

g) Segundo Natterer o Caramurú, espécie de moréa ou en- 
guia ictyoide é o Lepidosiren paradoxa, encontrado perto de Borba 
no valle do Amazonas. 

Não é um amphibio e sim antes um peixe da ordem dos Dip 
neumona e família dos Sirenoidoe, que juntamente estabelece a 
transição entre as duas classes. (Wappaus — TVrrrt e o Homem.) 

h) A nacionalidade de Diogo Alvares, o Caramurú, parece 
duvidosa, não obstante declarações positivas de historiadores e 
viajantes: Pêro Lopes no Diário da Viagem de 15S1 diz: «Na 
Bahia achamos um homem portuguez, que havia vinte e dous 
annos que estava nesta terra;» António Herrera, fallando do 
naufrágio de uma nau castelhana do commando de Simão de 
Alcobaça que seguia para o Mar Pacifico, e que, destroçada e 
perdida a capitanea, veiu dar á costa em Boypeba, onde pereceu 
grande parte da tripolação ás mãos do gentio, diz que da 
Bahia, «Juan de Mori embió la chalupa com el Portuguez, que 
sabia la lengua a recoger algunos que se habian escondido, y 
hallaron muertos noventa, e vivos quatro :...> 

Navarrette, descrevendo a derrota da nau S. Gabriel da 
conserva da armada de Gktrcia Jofre de Loaysa diz que ahi 
se encontrou na Bahia... <um christão que a 15 annos se havia 
perdido ali com uma náo.» Entretanto, o donatário Pêro de 
Campos Tourinho, escrevendo a El-Rei D. João III, e dando 
conta dos desastres de Coutinho que se recolhera aos Ilheos 
depois que abandonara a sua colónia da Bahia, falia da ida de 
um certo Diogo Alvares, o gallego, como espia ou vigia entre os 
Tupinambás, inimigos de Coutinho. Essa carta de Tourinho a 
D. João m foi escripta de Porto Seguro aos 28 de julho de 
1546 e existe em Lisboa, diz o Sr. Vamhagen, no Archivo da 
Torre do Tombo, parte l.a, masso 78, doe. 45 do Corp. Chron.) 



20 



D'ahi depreliende o Sr. Vamhagen que o Caramurú ou era 
castelhano ou portujafuez do Norte. 

i) O ehronÍHta Simão de Vasconcellos, narrando o naufrá- 
gio da nau eantelliaua ua iliia Boypeba, 15 léguas ao Sul da 
Bailia, diz: *Souhe Diogo Alvares do naufrágio, e como ja <%x- 
l)erimentara fortuna semelhante, foi facU condoer-se: acudio 
logo miuella parte a tempo cpie livrou a gente dos dentes doa 
harbaros, c a trouxe comsigo, e hospedou humanamente, em 
especial alguns cavalheiros de carta que entre ella vinhâo ; os 
(juaes toraaíhis a Espanha pregoarão o lanço e foram causa 
que o Im])erador Carlos V mandou escrever uma carta, em 
que lhe agradecia o serviço que lhe íizera em livrar aquelles 
seus vassallos, oíferecendo lhe por isso sua graça. > Liv. r da 
Ohronmi da Cím^xiMa de Jesus do Estado do Brasil, auno de 
1541), pag. 27. 

jj Entre os bárbaros era mui commum o empre>go de ap- 
pellidos de significação pretenciosa e façanhuda. Eram nomes 
frequentes entre elles os seguintes que bem provam a nossa 
asserção: ítajiba braço de fen*o; IbiitaUí ou Gihatatá — braço 
de fogo; Jafjiianhnrô cão bravo; Jn(piaraHna~onq& preta; Ou- 
rurnpeha—Híiiyo gor<lo; /^o/zí/fK— cobra grande; Boytatã — cobra 
de fogo; e assim outros maLs benignos: Cai Uby — flecha ou 
lança queimada; Tibireçá — olhos fundos; Cmiliambeba — niullier 
gorda. 

k) A propo.sito do Caramurú ha mais a seguinte versão 
em que se i)rocura explicar o valor do appellido do naufrágio 
l)ortuguez entre os Tujânambás: 

Conta-se que ParaguassUy a filha do chefe Taparica, pas- 
sando iiela ])raia * (mcontrára o náufrago tiritando de frio e 
cobt»rto de limo, semelhante ao peixe caramurúy n'uma das 
locas do recife onde se refugiara, e que, tomando-o sob sua 
protecção, salvara lhe a vida, conquistando elle depois, graças 
ás suas qualidades de homem civilisado, a influencia que veiu 
a exercer.' (Borges doa B.eÍH ~ HistoiHa do Brasil.) 



Qual a Yerdadeira graphfa 

DO 

Goyaná ou Guayaná? 



PARECER 

Tão difficil não é o problema graphico nos termos 
em que aqui se o propõe como o da própria liugua e 
nacionalidaíle do gentio que outr'ora hal)itou os formo- 
sos campos de Piratininga. A nosso ver, este ultimo 
problema deve mesmo preferir a aíjuelle. P]ntretanto, 
digamos preliminarmente como esta questão atjui appa- 
receu. 

Em 189G, publicada a Revista do Mmen PauJiMa, pelo 
nosso consócio e director d'a(|uelle estíibelecimento, o dr. 
von Diering, um critico dos mais competentes em assum- 
pto de Historia Pátria, o Sr. C'apistrano de Abreu, veiu 
pela Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro analysando 
d'aquella Reíista a monographia sobre a civilisavão pre- 
historica do Brasil meridional e entre outras contesta- 
ções relativas á raça e lingua dos Guayanazes suscitou 
a da graphia do nome d*essa nação gentia. 

O Instituto Histórico, a quem foi affecta a questão 
pelo nosso digno consócio o Sr. Dr. Domingos Jaguaribe, 
resolveu em uma das suas sessões nomear a commissão 
abaixo, que ora vem a propósito dar o seu parecer. 



28 



Como dissemos, ha pouco, o problema da raça ou 
nacionalidade prefere, por sem dúvida, ao da graphia do 
nome ou appellido. Mas essa questão é mais ampla e 
não está nos limites da que nos foi commettida. Por isso, 
seja-nos permittido apenas deixar aqui firmadas as seguin- 
tes conclusões a que chegamos ao fazer o estudo da allu- 
dida questão para a Revista do Museu. 

Os Guayanãs da Capitania de S. Vicente tinham por 
habitat os campos de cima da serra, os mesmos campos de 
Piratininga que o chronista Vasconcellos chamou o paraiso 
da gentilidade. 

Desta nação que não era tupff propriamente dita, 
mas do ramo guaranijy ha\ia vm^ias tribus dispersas pelos 
mattos do sertão e pela costa do mar. Por isso Gabriel 
Soares íissignala-lhe o trecho da costa que vae de Angra 
dos Reis até Cananéa, e António Knivet em 1595 ainda 
encontrava dessa nação, na Ilha Grande, Paraty e praias 
comvisinhas. 

A lingua d'esse povo devia ter sido um dialecto àogua- 
rany ou do carijó, e um tanto differente do tupy, fallado 
pelos Tamoyos, seus visinhos pelo lado do Norte. Por esta 
razão Gabriel Soares nos diz que a lingua dos Guayanãs era 
differente da dos seus visinhos, mas entendia-se com os 
Carijós que lhes ficavam na fronteira do Sul. O chronista 
Simão de Vasconcellos que, de certo, conhecia os escriptos 
de Gabriel Soares, e n'elles se inspirara, diz o mesmo, mas 
já sem a adversativa de que Gtiayanã e Carijó se pudessem 
entender. 

Os nossos chronistas e historiadores do século xvi, os 
que mais fé inspiram quanto ás narrativas dos primeiros 
tempos da colonisação lusitana na America, sáo de uma 
deficiência ou pobreza desesperadora em se tratando de 
questões de ethnographia. 

Hans Staden, João de Lery, Thevet, de ordinário tão 



29 



minudentes nas descripções dos costumes dos indios, nada 
nos dizem dos Guayanãs. 

Gabriel Soares é o primeiro e único dos escriptores por- 
tuguezes que nol-os descreve com alginna minudência. 
«... Não são os Goainazes maliciosos, diz o auctor do Rafeiro 
do Brasil, nem refalsados, antes simples e bem íicondicno- 
nados, e facílimos de crer em qualquer cousa. É gente do 
pouco trabalho, muito moUar, não usam entre si lavoura, 
vivem de caça que matam e peixe que tomam nos rios, e 
das fructas silvestres que o matto dá; são grandes flexeiros 
e inimigos de carne humana. Não matam aos que capti- 
vam, mas acceitam-nos por seus escravos ; ^ 

Segundo o mesmo auctor, os Guayanás gostavam do 
homem branco, e lhe faziam boa companhia; como escra- 
vos eram maus ou imprestáveis, porque era gente folgazã 
de natureza e ilão sabia trabalhar. Não sabiam também 
pelejar no matto, por isso, não tomavam iniciativa em 
guerras nem sabiam dos seus limites, quando a ellas pro- 
vocados. Não viviam em aldeia^s com casais arrumadas 
como os Tamoyos seus visinhos, mas em covíis pelo chão, 
onde tinham fogo noite e dia, e faziam suas camas de rama 
ou de pelles de alimárias que matavam. 

António Knivet descreve o Guayanã do littoral da Ilha 
Grande e arredores de Paraty como um ty])o de estíitura 
baixa, reforçado, barriga grande, pés chatos, cabellos com- 
pridos, pendentes sobre os hombros, deixando pellado o 
alto da cabeça a modo dos Franciscanos. As suas mullie- 
res eram gordas, robustas e de boas feições. O viajante 
inglez descreve-os como indios muito (•ot)ardes, vivendo 
de caça e pesca, nómadas; dormindo em redes feitas 
de casca de arvore. 

Gabriel Soares, tratando dos Guayanãs do littoral, 
gentio que possuia e senhoreava a ilha de S. A^icente, 
ao tempo da fundação da villa por Martim Affonso de 



30 



Sousa, relata que com esse gentio teve o almirante 
portuguez poueo trabalho, por ser pmico bellicoso e faeil 
de contentar. (1) 

Essa descripçâo da indole e viver dos Guayanãs 
conforma-se com a que dos Carijós nos deram os his- 
toriadores e viajante^?. O doutissimo Ferdinand Deuis, 
assignalaiido essa identidade de caracter e costumes 
do gentio da costa do Sul, accrescenta: «O que se 
sabe positivamente é que as nações que habitavam 
este território (S. Paulo) os Patos, os Carijós, os Guaya- 
nazes pertenciam a uma raça mais pacifica que os 
Tupys, de que aliás muitos f aliavam a lingua.» (2) 

Passemos, entretanto, á questão da graphia do 
nome Guayaná, ou Goifaná. 

O Sr. ( 'apistrano de Abreu opinou pela graphia 
(royaná, mas sem explicar-nos os fundamentos que 
para isso teve. O Dr. von Ihering adoptou-a também. 
Entretanto, mais razões militam a favor da graphia 
(hiaijaná, como adiante verenios. 

Hans Staden que escreveu antes de 1556 dá a esse 
gentio o nome Wayganná. 

Gabriel Soares escireve ora Goainà ora Guayattá. 

António Knivet, posterior a Gabriel Soares, escre- 
via Vaanasses ou Wayanazes. 

Simão de Vascòncellos vê-se bem que se inspirou 
em Gabriel Soares, porque adopta ambas as graphias 
do auctor do Roteiro. 

Frei (nuspar da Madre Deus e Pedro Taques escre- 
vem (ruayanâ. 



(1) Gabriel Soares, Roteiro do Brasil , p. 96. Edição de 
1H51. 

(2) Brésil, por M. Ferdinand Denis, p. 179. £dição de 
1837. 



31 



O Padre Manuel Ayres do Çnml tanibom segue a 
mesma graphia. 

Os escriptores mais modernos como Machado de 
Oliveira, Américo Brasiliense, Mendes de Almeida, to- 
dos adoptaram a graphia (ruaifaná. 

O Sr. Visconde de Porto Segiu'o, sem nos dar as 
razões do seu eclectismo, escreve Gnaifaná ou (jot^auá, 
bem como Got/á ou (Jruayá, accrescentando <|ue todos 
esses vocábulos podem significar irmão. ' 

O General ('outo de Magallines, cuja comj>et(Micia 
é notória na matéria, escreveu duaijann. e diz-nos (jue 
é essa a verdadeira grapliia da palavra, sem, todavia, 
poder dar-nos a traducçào. 

O Padre Joseph de Anchieta, cjne foi mestre da 
lingua, escreveu-lhe Arte e V(X'abulari(», e cnjo teste- 
munho é o (pie pódc ser de mais autlicntico e auctori- 
zado, escreveu Guayanã. ( 1 ) 

Essa é, de facto, a graphia verdadeira, (rnaiiann e 
não ÍTuayaná nem Goyaná se deverá escrever, porque 
além do valiosíssimo, e [>ara nós decisivo testemunho de 
Anchieta, attende-se á aj)plicavão do vocal )ulo cuja tra- 
ducção é: — manso denra.s^ houíwhno, pticifico, wol rirão. 

Nos diccionarios guaranys ou tupys de Montoya, de 
Ferreira França e outros, se encontra o vocábulo (foídja 
ou aya com a significação de m<inso, pficifico, brando, 
bom. N'este vsentidb se ve emjíregado nas palavras: iri- 
riaya, ostra boa; taiarn (foajia, porco manso; comandocaid 
por eomandágurtià, feijão bom, comcstivcl ; ifffft/at/a, fonte 
ou agua da pedra saudável; artufuand, píi|)agaio ou arara 
mansa; nvaya por fjuva aya, fructa branda, m(>lle. 

A partícula final nã com a significação de crrfamntfe. 



(1) Informação do casamento dos indioH. 



32 



na verdade, deveras, com effeito é o modo de formar um 
augmentativo. Assim, se vê: de Pará, rio, Paranã^ rio 
deveras, ou grande rio, ou o mar ; de Tnpy, Tupinã os 
verdadeiros Tupys, os Tupys grandes, que Gabriel Soares 
nos dá como os primeiros habitadores do Recôncavo da 
Bailia de Todos os Santos, e que se tinham' como 
senhores da parte mais im[)ortante da terra; de earapá 
encurvado, torto; carapanã, deveras torto, muito en- 
curvado; de goáy cousa redonda, seio, recôncavo; goanã, 
grande seio, bacia grande, bahia, golfão; de pirá (no 
guarany), vermelho, rubro, ensanguentado; piraná, de- 
veras vermelho, vermelhão. Portanto, de guaya, manso, 
pacifico, bom, guayanã, verdadeiramente manso, bona- 
chão, traducçáo esta que se conforma com a Índole e 
viver da nação gentia que outr'ora habitou a Capita- 
nia de S. Vicente, tal como nol-a descreveu o auctor 
do Roteiro. 

Que, porém, o nome Guayanã não é um nome 
propriamente nacional, mas simples designação dada 
pelos Tupys aos vizinhos pacíficos, fossem elles da 
mesma raça ou de raça differerite, é cousa que se de- 
prehende da leitura dos viajantes e chronistas. 

Guayanâs ou Guayanás, pois entre Portuguezes e 
Hespanhoes ha a tendência de nmdar o som nasal do 
a final em som agudo e claro, dizendo Paratiá em 
vez de Paraná, Tupimes por Tupinâs, se encontravam 
no oriente do Paraguay, na altura do Salto Grande 
das Sete Quedas, no Iguaçu, no interior do Rio Grande 
do Sul, em S. Vicente, e até no valle do Amazonaíí, 
onde o Padre João Daniel os assignala (1) como ex- 
cellentes caçadores e fura-mattos. 

(1) Thezouro descoberto no rio das AmazonaSf do Padre 
João Dauiel - Revista do Instituto Histórico, vol. iii. 



33 



Não eram egsas differentes tribus todas da mesma 
raça evidentemente; entretanto, a denominação Gwi- 
yanã lhes era applicada em vista da sua Índole e ma- 
neira de viver. Dava-se assim com o nome Guayanã 
o mesmo que com os de Tapuya e Nheengahihas, que, 
como é sabido, não indicavam nação especial, mas va- 
rias nações de raça differente da dos Tupys, ou ape- 
nas distincta d'e8tes por caracteres, ás vezes, mui se- 
cundários. 

Ignoro 08 fundamentos em que se apoiou Capis- 
trano de Abreu que, ainda pela Gazeta de Noticias de 
24 de fevereiro próximo passado, ao noticiar o appa- 
recimento da obra de Lucien Adam sobre os dialectos 
da familift tupy, insiste pela graphia — Ooyanâ. 

É certo que a Greographia nacional como a Botâ- 
nica muitos vocábulos encerra semelhantes a este agora 
controvertido, e que podem, por analogia, justificar a 
maneira de escrever de Capistrano. Assim temos: Go- 
yag, Gayana, Gnyana, GoytacaZy goiaba. 

Mas o argumento de analogia não colhe, porque 
taes palavras, segundo se vê dos chronistas e historia- 
dores e das vocabulários tupys ou guaranys, passaram 
por alterações em lábios forasteiros. 

O nome Goyaz^ dado a um dos grandes territórios 
do Brasil, origina-se, sem dúvida, de uma tribu de 
índios a que os bandeirantes chamavam Guayà, por 
serem notáveis pela sua mansidão, génio brando e 
engenhosos. (1) Nos Archivos de S. Paulo, ainda se 
lê em papeis antigos a graphia — Gtiayâ. 

O nome Goyana de uma importante cidade do in- 
terior de Pernambuco, certamente originado do ribeiro 
que a banha, e faz barra no estuário vizinho de Ita- 



(1) Azevedo Marques, Apontamentos Hist. e Geogr., etc. 

3 



34 



maraçá, se escrevia primitivamente Gueena, como se 
pôde ler na Historia do Brasil por Frei Vicente do 
Salvador, a pagina 52, obra escripta em 1627. (1) 

O nome Goytacaz só mais modernamente se es- 
creveu assim. Gabriel Soares e Vasconcellos escreve- 
ram Guaitacás, ou Guaiatacazes. O Padre Manuel 
Ayres do Casal, porém, na sua Chorographm Brasílica 
escreveu já Goytacazes, como escreveu Goyáy ou Goyaz. 

Percebe-se que o nosso primeiro geographp, no 
começo do século xix, já escreve sob a influencia da 
corruptela que, por effeito d'essa lei do menor esforço, 
leva o Portuguez a affeiçoar, a seu modo, os vocábu- 
los tupys. Pernambuco por Paranãpuca; Pamaguá por 
Paranaguá; Parnahyha por Paranahyba; Guanabara 
por Guanãpará; Itáhaiana por Tay abana; Cananéa por 
Canáneèn; sfto os effeitos d'essa lei inflexivel que vae 
tudo remodelando á feição dos conquistadores. 

Assim também o nome (hiayanã como ainda hoje 
o pronuncia o caipira, cuja tradição as preoccupações 
scientificas não destroem, e como também outr'ora o 
escreveu o venerável Anchieta, ha de experimentar os 
effeitos d'essa lei que o transformará em Goyaná, como 
o quer o illustre critico. 

E assim, nem sequer do pacifico e obscuro povo 
que foi o tronco das gerações de hoje, nem mesmo o 
nome se guardará immune na lingua dos seus orgulho- 
sos descendentes. 

S. Paulo, 5 de março de 1897. 

Theodoro Sampaio. 

De accordo, 
Obville a. Derby. 



fl) Fr. Vicente do Salvador, Hist do Brasil nos Annaes 
da Bibliotheca Nacional, vol. xiii, 1889. 



ALaUMAS REFLEXÕES 



SOBBE Â 



VIaçSo para Matto-Orosso 



Jundiahy, 10 de dezembro de 1895. 

rUm o Sr. 

Tenho a honra de passar ás mãos de Y. S.^ a cópia junta 
da memoria, que sob o útulo—AlgunMS reflexões sobre a viação 
para Afatto-6rro««o,— apresentei ao Governo, no tempo em que 
predominava a idéa de estudar-se o melhor traçado para uma 
estrada entre o littoral e aquelle Estado. Conveniências de 
defeza do paiz, a par de interesses económicos, haviam attra- 
hido a attenção do Governo para aqueUe importante assumpto, 
que reclamava prompta solução. 

Hoje, porém, com o desenvolvimento que tem tido a viação 
em geral, acha-se resolvido aquelle problema, e portanto não 
mais razão de ser tem o plano por mim apresentado, na con- 
vicção de que elle a seu tempo attingira a um fim satisfacto- 
rio, debaixo de todos os pontos de vista. 

Entretanto, afora a idéa capital, quero crer que restam 
ainda na dita memoria indicações proveitosas, sobre a região 
estudada, e que podem fornecer esclarecimentos de alguma 
utilidade. 



# 



36 



Por este motivo ouso offerecer aquelle trabalho ao Insti- 
tuto Histórico e Geographico de S. Paulo, confiando que será 
aoceito com a benevolência de que carece. 

Aproveito a opportunidade para reiterar a V. S.* os pro- 
testos de minha subida consideração e estima. 

Tllm.Q Sr. Dr. Carlos Reis.~M. D. IP Secretario do Insti- 
tuto Histórico e Geographico de São Paulo. 

O sócio correspondente, 
Raymundo de Pknnaforte a. S. Blake. 



IL6IIIAS REFUIÔES SOBRE \ VUÇÍO PiM liTTlHiROSSO 

Emquanto numerosas expedições de Paulistas se en- 
caminharam afoutas para as terras de Cuyabá, transpondo 
umas o rio S. Francisco e seus affluentes, devassando as 
immensas mattas que lhes ficavam além, até chegarem ao 
rio Paraguay, e embarcando-se outras no Tietê, e nave- 
gando este e outros rios que vão ter a Cuyabá, affron- 
tando os maiores soffrimentos e calamidades; emquanto 
aquelles intrépidos exploradores ajuntavam ás possessões 
portuguezas o vasto território de Matto-Grosso; no tempo 
emfim em que, possantes minas de ouro nutriam os cofres 
do Fisco-Metropolitano, não consta que a viação para 
aquellas remotas terras participasse do influxo e dos fa- 
vores da Metrópole Portugueza. 

O Groverno que nos rege, porém, sempre sollicito pelo 
bem geral, nmica desprezou eiLsejo de prestar-lhe a mais 
séria attenção, e hoje, no firme propósito de leval-a até 
um porto de mar no littoral do paiz, tem constantemente 
mandado explorar e estudar os rios e terrenos, que de- 



37 



vem completar aquella viação, pondo em practica os sys- 
temas de construcçáo mais aperfeiçoados. Este pensa- 
mento que tende a consummar a obra mais importante 
para os interesses actuaes da nação, solvendo variados 
problemas sociaes e de alta politica, é sobre modo digno 
da epocha dos grandes successos materiaes. 

Segundo os dados officialmente publicados, o caminho 
mais curto que ha a fazer-se, entre o littoral e Matto- 
Grosso, é o que, partindo do porto da cidade de Antonina , 
no Paraná, vae ao rio d'este nome, passando por Cury- 
tiba; depois navegando o mesmo rio Paraná e seus af- 
fiuentes Ivinheima e Brilhante ató ao porto de Santa 
Rozalinda, d'este porto até Miranda, passando porNioac; 
e por fim, seguindo de Miranda até Cuyabá, navegando os 
rios da bacia do Paraguay. 

E como n'este caminho mais curto ha que preferir-se 
pfiu*a uma de suas secções, ou a linha que tenha de apro- 
veitar a navegação do Ivahy, ou a que aproveita a do 
rio Tibagy, póde-se ver, tendo em consideração os mes- 
mos dados, que, não só pelas vantagens económicas que 
se podem auferir, como também para evitar maiores diffi- 
culdades technicas, torna-se preferível a linha que apro- 
veita a navegação do Tibagy. 

Os engenheiros José e Francisco Kellers assim se 
exprimem a tal respeito: 

«1.® O traço pelo Tibagy é 21,31 léguas mais curto 
que o pelo Ivahy. Assim também é menor 3,5 léguas 
que a da do Ivahy a distancia da barra do Paranapanema 
ao ponto onde se bifurca, no Ivinheima, o braço dos 
Kagados. 

2.^ A differença do custo das duas vias é para me- 
nos 312:680$000, em favor da do Tibagy. 

3.<* A differença entre os fretes de mercadorias tran- 
sportadas por estas duas vias é igual a 845 réis menos por 



38 



arroba em favor da viação do Tibagy, differença esta que 
produz annualraente 27á:780$000, correspondente ao 
capital de 2.730:000$OOO, suppondo que se transportem 
6:000 toneladas. Demais, o perfil longitudinal da estrada 
para a colónia Thereza é mais favorável do que o da via 
em direcção ao Jatahy; pois que este tem de transpor as 
vertentes das aguas dó Iguassú e do Tibagy, e aquelle, 
além d' essas, precisa atravessar as do Ivahy.» 

Segundo pois a exhibição de dados taes, não ha du- 
vidar que, no louvável empenho do Governo de atten- 
der ás circumstancias momentosas do paiz, a linha que 
se deve preferir é a que aproveita a navegação do Ti- 
bagy. 

Isto posto, e achando-se a nosso cargo os estudos do 
traçado de um tram-road, que, partindo do porto da colónia 
de Cananéa, vá ter á cidade de Castro, passando pela 
colónia do Assunguy, tem-se-nos deparado opportunidade 
de cogitar sobre o alcance, e provável desenvolvimento, 
que no futuro pôde aspirar semelhante projecto, tanto 
em relação á navegação do Tibagy, em cujas cabeceiras 
está situada a cidade de Castro, como conseguintemente 
a respeito da communicação para Matto-Grosso; e em 
resultado d'essas reflexões, convencemo-nos, sem que de 
nenhum modo possa ficar offendido o merecimento de 
outras opiniões, que a linha de que nos occupamos, po- 
dendo ser mui facilmente desenvolvida pelo vaJle do 
Tibagy, é a que está naturalmente destinada para servir 
de tronco á viação para Matto-Grosso, e isto pelas razões 
seguintes: 

1.^ Por ter no littoral óptimo porto de mar, como 
seja o da colónia de Cananéa. 

2.** Por aproveitar a máxima parte do valle da Ri- 
beira, e passar por outros terrenos em que desapparecem 
as dificuldades de construcção. 



39 



3.** Por atravessar terrenos que contêm grandes ri- 
quezas mineralógicas. 

4.<> Por ser igual, senão mais curta algumas léguas 
do que a linha que, partindo de Antonina, chegasse com 
ella a um ponto obrigado na freguezia do Tibagy. 

Passando a desenvolver estes pontos só tenho em 
vista submettel-os ao critério do Governo, que, possuindo 
vastos meios de cotejal-os, poderá avaliar se d'esse com- 
plexo de circumstancias favoráveis participam também o 
porto de Antonina e a estrada da Oraciosa, que parecem 
destinados pelos trabalhos realisadowS até aqui a servir de 
tronco á viação para Matto-Grosso. 

l.^ Sabe-se geralmente que, excepção feita do porto 
da cidade de Santos, nenhum outro, no littoral de 
8. Paulo e Paraná, está nas condições de profundidade, 
abrigo e extensão em que se acha o da colónia de Cana- 
néa; e provam bem esta verdade não só os navios de todos 
os calados que constíintemente sulcam a respectiva barra, 
como os que por diversas vezes têm ido carregar madeira 
no dito porto. A entrada do porto, ou antes a barra, é 
abrigada pela ilha denominada do — Abrigo, — a qual 
serve proveitosamente quer aos navios que vão singrar 
a dita barra, quer aos que, navegando sobre a costa, vão 
aJli esperar as melhores monções; e o porto propriamente 
dito tem o abrigo que lhe prestam as grandes serras do Itapi- 
tanguy, Iririaia e o morro de S. João. A profundidade, que 
já fica attestada, comprova-se também com a^ sondagens 
a que procedemos, as quaes deram o seguinte resultado: 

No sentido transversal, 6m, lOm, 9ni, 5,9 ni, Sm, 5m, 
3»», com a largura de 1:364 metros; e no sentido longitu- 
dinal, 10 m, 9m, 9m, lOm, 10,5m, 9,5m, 1 0,5 m, com o 
comprimento de algumas léguas; pois que todo o mar de 
dentro e também o mar pequeno offerecem um vasto 
ancoradouro. 



1 



40 



Estas condições que o tornam capaz de conter grande 
numero de navios, e comportar as maiores relações com- 
merciaes, fazem-no sobremodo notável entre os demais 
portos do littoral. 

Taes condições, como acontece em outros paizes 
adiantados, mudam como por encanto a face dos luga- 
res que as possuem. Assim vê-se no correr de poucos 
annos alguns lugares, que nada mais eram do que 
praias desertas, occupadas por miseráveis choupanas de 
pescadores, transformarem-se em riquissimas cidades, 
com centenas de milhares de habitantes. 

O povo Norte-Americano, pratico e calculista como 
é, empenhou-se na realização da grande idéa da união 
do Pacifico, contando principalmente com a importân- 
cia dos portos da cidade de Nova- York e da de S. Fran- 
cisco da Califórnia, que lhe servem de principaes ga- 
rantias de sua empreza. 

Parece portanto que, semelhantemente á grande 
Republica, tendo-se no Brasil de levar a effeito uma 
viação que tenha, ou antes tem de passar atravez de 
todo seu território, não se pôde prescindir do estudo e 
da preferencia do melhor porto de mar no littoral do 
paiz. 

2.^ No estado em que se acham actualmente os 
estudos e exames feitos no terreno para o traçado da 
ferro-via a nosso cargo, póde-se desde já avaUar que 
entre o porto da colónia de Cananéa e a colónia do 
Assunguy existem mui favoráveis condições para se 
levar a effeito a obra projectada. E segundo os da- 
dos fornecidos por informações fidedignas a respeito da 
zona que medeia entre o Assunguy e a cidade de Cas- 
tro, póde-se igualmente crer que até aUi não existem 
também difficuldades de construcção. Toda a linha 
desde o sobredito porto até Castro tem de transpor 






1 



41 



apenas tres systeinas de rios, que sáo os Itapitanguy, 
Ribeira e Tibagy; achando-se o porto da colónia no 
primeiro, a colónia do Assunguy no segundo, e a ci- 
dade de Castro no terceiro. No mappa que confeccio- 
namos, e que acompanha o presente trabalho, estão 
designados estes lugares, e bem assim traçada a refe- 
rida linha com tinta escarlate. 

A cota achada para o ponto mais eminente da di- 
visa das aguas do Itapitanguy com a Ribeira, segundo 
o traço da linha de operações, é 89in,925, tomando o 
nivel do mar por plano de referencia; e o declive ge- 
ral do terreno é 1.217,5, que corresponde a 4,6 mille- 
simos, sendo a distancia 19,581 ni^2. 

As cabeceiras do lapó, ou antes do Tibagy, segundo 
08 Srs. Kellers, estão 930 m acima do nivel do mar, e 
portanto a cidade de Castro, que está mui visinha 
d'ellas, e situada na mesma chapada, está proxima- 
mente no mesmo nivel. 

Ora, distando aqueUa cidade 231. 000 m do porto da 
colónia de Cananéa, o declive geral do terreno entre 
estes dous pontos ó 1.248,2, ou 4,2 millesimos. 

E como transposta a divisa das aguas do Itapitan- 
guy com a Ribeira, e achada a suavidade do terreno, 
só resta apreciar-se o que concerne ás divisas da Ri- 
beira com o Tibagy, auxiliamo-nos das valiosas infor- 
mações que temos colhido a este respeito para crermos 
que ahi encontra-se também o terreno em condições 
tão favoráveis. E mais fortifica esta crença o facto 
recente da viagem do Vice-Presidente do Paraná, o 
qual partindo da colónia do Assunguy; e tendo diante 
de si apenas uma turma de picadores de matto, chegou 
a Castro, atravessando a cavallo todo o sertão, sem en- 
contrar a menor diíficuldade no seu trajecto. 

É mui provável que no traçado do tram-road se 



42 



consiga em toda a extensão declives nunca superiores 
em parte alguma a 2 por cento, e igualmente curvaa de 
raio nunca menor de 100 metros. 

Por taes considerações estamos convencidos de que 
o valle da Ribeira e os mais terrenos que se estudam 
actualmente, sâo destinados pela natureza a servirem 
de tronco para a viação para Matto-Grosso. 

E se o projecto actual d'esta obra consigna a con- 
strucção de estradas de rodagem em condições mui mo- 
destas e económicas, em cujas circimistancias poderá 
ser aproveitável a região atravessada pela estrada da 
Graciosa, muito em breve depois de conhecida a ineffi- 
cacia de taJ systema, que mal poderá supportar os pri- 
meiros ensaios de um grande trafego, terá de sofErer a 
conveniente alteração, adoptando-se a construcção de 
estradas de ferro. 

Em tal caso se tornará patente a impossibilidade de 
ser a Graciosa o tronco da grande viação. 

3.** As numerosas veias de quartzo que atravessam 
em todos os sentidos as formações de micaschisto e de 
transicção, que acompanham a linha projectada, contendo 
em vários pontos signaes de metaes, revelam que em 
algumas partes d' este terreno existem consideráveis ri- 
quezas mineralógicas. 

Com effeito, ainda no território da colónia de Ca- 
nanéa, no valle do rio Pindauvinha, atravessa-se uma 
veia de mineral de ferro com uma possança, ao que 
parece, assaz considerável. Outro deposito de mineral 
de ferro, muito mais rico do que o primeiro, descobri- 
mos na margem esquerda do rio Jacupiranguinha, do 
districto de Iguape, e do seu estudo nos ocx^upamos 
hoje detidamente. 

As minas do Iporanga, contendo chumbo, prata e 
cobre, são bastante conhecidas para se poder affirmar 



43 



que, se houvesse meio fácil de transporte, não falta- 
riam capitães que se empenhassem na exploração d'ella8. 
Ainda ha bem pouco tempo se descobriram minas de 
galena no ribeirão da Rocha, pequeno confluente da 
Ribeira, as quaes pertencendo provavelmente á mesma 
formação das do Iporanga, parecem conter além d'isto 
uma porcentagem de prata superior á d*aquellas. Di- 
versas amostras de oxido de manganez (psilomelano e 
braunito) que nos foram entregues, provam também a 
existência d*este metal. E a abundância de pyritos em 
muitos lugares do valle da Ribeira é um facto ha 
muito tempo conhecido. 

4.® Do porto da colónia de Cananéa á cidade de 
Castro, e d'ahi á freguezia do Tibagy, que é ponto 
obrigado, a distancia é a seguinte: 

Do porto da colónia de Cananéa á colónia 

do Assunguy 25 léguas 

Da colónia do Assunguy a Castro .... 10 » 
De Castro á freguezia do Tibagy .... 7 » 

Somma 42 » 



Tomando as distancias dadas para o trecho da li- 
nha para Matto-Grosso, comprehendido entre Antonina 
e a freguezia do Tibagy, temos, conforme as publica- 
ções officiaes, o seguinte: 

De Antonina á Palmeira 26 léguas 

De Palmeira á Ponta-Grossa 7 * 

De Ponta-Grossa á freguezia do Tibagy . . 12 > 

Somma 45 » 



44 



Comparando estas distancias, chegamos á conclusão 
de que a linha que parte do porto da colónia de Ca- 
nanéa é mais curta três léguas do que a linha que 
parte do porto de Antonina. 

Considerações geraes 

Na exposição de idéas que acabamos de fazer, te- 
mos deixado entrever a opinião de que o systema mais 
conveniente para construcção da estrada para Matto- 
Grosso é o das vias férreas. Agora accrescentarei que, 
se aa cireumstaneias financeiras do paiz podem ser o 
embaraço mais poderoso para a realização de tal sys- 
tema, nem por isso julgamos inopportuna a sua pratica, 
uma vez que se adoptem estradas de ferro de segunda 
ordem, com as quaes conseguindo o paiz colher iguaes 
vantagens, economisará entretanto as enormes despezas 
que acarretam as construcções de primeira ordem. 

Antes da ultima guerra nos Estados Unidos da 
America, estadistas intelHgentes haviam comprehendido 
a urgente necessidade de ligar-se os Estados de Oeste 
da grande Republica com os de Leste, por estradas 
de ferro, e para este fim se fizeram diversos estudos e 
explorações que forneceram matéria para a publicação de 
algumas obras preciosas. 

Mais tarde, depois que os tristes acontecimentos 
d'aquella terrível lucta fratricida mostraram pratica- 
mente a necessidade já prevista, realisou-se logo, a 
despeito do péssimo estado financeiro da Republica, a 
construcção d'aquellas estradas de ferro que se deno- 
minaram — União do Pacifico, — cuja extensão e obras 
grandiosas constituem verdadeira maravilha do século. 

O Brasil, coUocado hoje na situação mais semelhante 
á d'aquella Republica, e sobretudo com a lembrança dos 



45 



tristes successos de Matto-Grosso, durante a guerra do 
Paraguay, não pôde por força das suas circumstancias 
deixar de seguir o exemplo dos Estados Unidos, que 
em verdade tem sido o modelo dos grandes successos 
materíaes. E se para fazel-o hesita ante mingoados re- 
cursos do Thesouro publico, não se deve comtudo ne- 
gar a um esforço ou sacrifício que é reclamado na actua- 
lidade. 

O Brasil, construindo estradas de ferro, estabelecendo 
navegaçôo a vapor pelo moderno systema de correntes 
mergulhadas, creará tantos elementos de vida, que os 
sacrifícios d' esta empreza serão largamente compensados, 
conseguindo naturalmente resolver o almejado problema 
da colonisação espontânea. 

A eommunicação verifícada por aquelle modo com a 
direcção já discutida, pôde servir de via internacional 
com a Republica do Paraguay, provinda Correntina e 
Entreriana, fazendo juncção com a navegação do alto e 
baixo Paraná, e prehencher perfeitamente os fíns de uma 
via estratégica, bastando para isso tirar um ramal de 
cerca de vinte léguas, que, partindo da barra do Parana- 
panema, fosse margeando o rio Paraná até abaixo da ca- 
tadupa das Sete-quedas, d'onde começa livre a navega- 
ção do alto e baixo Paraná. 

Por tal combinação cercar-se-ia por todos os lados a 
Republica do Paraguay, e por dous flancos as províncias 
de Corrientes e de Entre-Rios. 

Considerando que toda a distancia do littoral a Matto- 
Grosso no máximo seja: 

Via terrestre ... 146.6 léguas 

Via fluvial 302.0 » 



Somma 448.6 



46 



E calculandose as despezas de construcção de uma 
via férrea de segunda ordem, na razão de 300:000$000 
por légua, e o estabelecimento da navegação fluvial por 
vapores a correntes mergulhadas, comprehendido todo o 
material e canalisação dos rios em 12:000$000 por légua, 
temos: 

Via férrea 300:000$000 x 146.6= . . 43.980:000$000 
Via fluvial 12:000$000x302 -- . . 3.624:000$000 

Somma 47.604:000$000 

Esta somma aliás considerável, que obrigará o Es- 
tado a um sacrifício não pequeno, quer se faça a obra 
por administração, quer pelo concurso de cx)mpanhias, é 
facilmente indemnisavel. 

O preço minimo porque se tem vendido terras devo- 
lutas é o de J real por braça quadrada, ou 4:500$000 por 
légua quadrada, valores que o Governo já não a<5ceita hoje 
pela venda das terras publicas. Mas, admittido este al- 
garismo, realisar-se-ia pela venda de 448 léguas, que tal 
é a extensão para a via para Matto-Grosso, com uma 
zona de duas léguas, para cada lado, ou de quatro lé- 
guas quadradas por légua corrente, a importância de 
8.604:000$000, correspondente a de 1:792 léguas qua- 
dradas. 

Este calculo é feito sem attençáo alguma ao influxo que 
terá o valor das terras com a abertura de uma extensa e 
importante via de communicação por terrenos fertilissimos. 
Com esta base imprescindível de calculo, ninguém dirá 
que se não possa avaliar em três reaes ao menos a braça 
quadrada de terras, de que resultaria a importância de 
27:000$000 na venda de cada légua quadrada, ou de 
48.384:000$000 na venda de 1:792 léguas quadradas. 



47 



Quando se nãx) realizasse esta venda, já porque o 
Estado não quizesse dispor de taes bens, já porque to- 
dos nãx> lhe pertencessem, por serem de propriedade 
particular, nem por isso teria deixado de crescer naquella 
proporção a riqueza do Estado, com o augmento inf allivel 
do valor da propriedade predial, publica ou privada. 

E cumpre advertir que a construcção da via férrea 
em questão, e o estabelecimento da navegação dos rios,- 
não acarretaria sacrifícios superiores ás forças do orça- 
mento da receita do paiz; em 1.^ lugar, porque a res- 
pectiva despeza repartida por muitos annos, se tornaria 
pequena para cada anno financeiro; em 2.^ lugar, por- 
que, abertas ao transito as primeiras secções da grande 
via de communicação, é possível que a receita d'ellas 
bastasse para a construcção das secções, de sua projecção, 
como tem acontecido com outras estradas. 

Colónia de Cananéa, 24 de novembro de 1870. 

Raymundo de Pennapobte a. S. Blake, 
Engenheiro. 



ESBOÇO HISTÓRICO 



DA 



Fidação da ciM de Ippe 



Advertência 

Para exercer as funcções de historiador é indeclinável 
que, a par de uma disposição especial, se tenha um espi- 
rito bastante affeito a pesquizas para, bem aproveitando o 
tempo e os meios que nos são proporcionados, esmiuçar 
documentos vetustos e de acquisição difficilima, pela di- 
versidade dos lugares em que são encontrados. 

E a consulta de taes velharias é tanto mais importante 
quanto é n'ellas, ás vezes, que vamos encontrar a incó- 
gnita para a decifração de muitos problemas á primeira 
vista insolúveis. E, consistindo o principal mérito do 
historiador na exactidão dos documentos de que elle se 
serve para haurir nas informações, é bem claro que elle 
deve ater-se o mais possível á tradição firmada por do- 
cumentos originaes, que elle deve consultar de preferencia, 
a fim de não arriscar-se a citar algum facto que não passe 
de producto da fértil imaginação de um historiador me- 
nos escrupuloso. 

Assim também é impossível, por mais ingentes es- 
forços que se façam, revestir a historia da devida veraci- 
dade, sem offender melindres já individuaes, já coUecti- 
vos, visto que sendo elles causas geradoras de taes actos 

4 



60 



que n*aquella epocha consultavam de perto suas conve- 
niências, gostariam mais que sobre elles fôsae lançado o 
véo opaco do olvido. Mas o historiador imparcial deve 
proseguir impassível, procurando explicar a razfto de todos 
os factos e não attendendo a considerações de somenos 
importância. E é o que tentarei fazer no correr d'este 
modesto trabalho. 

Relacionado ha vinte annos com o povo do littoral dos 
municípios de Iguape e de Cananéa, identificado, por 
assim dizer, com os seus costumea, pois não pude fugir á 
influencia mesologica que fatalmente havia de fazer-se 
sentir sobre mim, tenho empregado todos os esforços 
possíveis para conhecer a data precisa dos primeiros esta- 
belecimentos feitos por europeus n'esta zona. 

Tive de arcar com ingentes difficuldades, pois, a par 
dos descuidos das antigas auctoridades, havia o relaxa- 
mento das posteriojes que descuravam completamente 
da guarda de tão preciosos documentos. Não ha uxn 
só hvro dos primitivos, nem nas egrejas nem nas ca- 
marás, que podesse fornecer dados valiosos e exactos; 
entretanto, tenho noticia fidedigna de que houve outr'ora 
em Iguape e em Cananéa os competentes Livros do 
Tombo, que por descuido foram desviados dos respe- 
ctivos municípios. 

Querendo satisfazer minha curiosidade em relação 
aos fundadores d'essas povoações, talvez os mais antigos 
d'esta zona costeira, compulsei innumeras obras relativas 
á descoberta d' este ubérrimo paiz, sempre na espectativa 
de que elles derramassem alguma luz nas trevas em que 
se achava envolvido o meu espirito sobre o assumpto. 

A minha espectativa não se tomou, entretanto, rea- 
hdade; porquanto as obras que manuseei revelam uma 
tendência mais ou menos pronunciada por esta ou aquella 
nação, conforme a nacionalidade e sympathias do auctor. 



51 



De modo que é com uma tal ou qual hesitação, que sor- 
vemos em tão impuras fontes as informações de que 
carecemos. 

Um facto tão importante como o descobrimento d*este 
gigantesco e riquissimo continente, já classificado pela 
fértil imaginação de um poeta o verdadeiro paraíso ter- 
restre, naturalmente despertou os sentimentos de vaidade 
das nações européas, a ponto de querer cada uma chamar 
a si a honra de tel-o reaJisado; d'ahi a pouca fidelidade 
que se nota em uns tantos historiadores, omittindo factos 
importantissimos e dando á luz outros, productos verda- 
deiramente espúrios de uma bella imaginação corrom- 
pida por inconfessável vaidade. 

Encontrei frequentes vezes nas obras que manuseei 
muitas contradições a respeito de datas e de factos 
attribuidos a pessoas que nem d'elles menção fazem em 
seus diários escriptos na occasião; assim também, desco- 
bertas realisadas por pessoas que não podiam estar n'aquel- 
las paragens na occasião citada. Verifiquei, emfim, que 
ainda não temos uma verdadeira e fiel Historia do Brasil. 

Não me é dado, infehzmente, preencher tão impor- 
tante lacuna, p)OÍs, para escrever tal historia consciencio- 
samente, narrando com fidelidade os factos oçcorridos nos 
primeiros annos de sua descoberta, seria necessário que 
se pudesse contar com a existência de certos dados que 
ou desappareceram ou são de difficil consulta. 

Pelo incontestável desenvolvimento da educação mi- 
nistrada ào povo n'estes últimos annos e pela publicação 
de documentos que durante séculos estiveram occultos 
como inestimáveis thesom-os, que realmente são, é de 
se esperar que um estudo mais aprofundado das tradi- 
ções vá pouco e pouco espargindo luz por sobre ás trevas 
em que se acham envolvidos innumeros factos, qual 
d^elles o mais importante. 



52 



N'este pequeno e modesto esboço o escopo principal 
que pretendo attingir é a averiguação de datas e factos 
que tiverem relação com a origem do municipio de 
Iguape; entretanto, sou forçado a reunir aqui elementos, 
que parecendo não terem relação alguma com o meu 
trabalho servem, comtudo, para comprovar datas de via- 
gens, indispensáveis á salientação de certos factos que, 
directa ou indirectamente, se relacionam com os funda- 
dores d' esta povoação. 

Dizem alguns historiadores que é facto de menor im- 
portância o conhecimento do nome do primeiro europeu 
que pisou o solo d'este paiz, visto não se Uie poder attri- 
buir a fundação das primeiras povoações existentes. Não 
posso accordar com taes opiniões, visto como si os pri- 
meiros não estabeleceram directamente as povoações, 
pelo menos auxiliaram muito os fimdadores, já facul- 
tando-Uies o apoio dos indigenas, já indicando-lhes os 
mais próprios lugares, evitando assim muitas aventuras 
que redundariam de certo em prejuizos incalculáveis 
para áquelles que sem conhecimento da zona em que 
pisavam, teriam ainda de haver-se com um inimigo 
temivel — o indígena. 



Acontecimentos históricos antecedentes 
ao anno 1500 

Quando no dia 2 de agosto de 1492 Christovão Co- 
lombo embarcou na caravela Santa Maria para começar 
no dia seguinte a sua memorável viagem de descobertas, 
acompanhado por duas caravelas menores, Pinta com- 
mandada por Martim Pinzão e Nigna commandada por 
Vicente lanez Pinzão, ninguém esperava que em breve 
aeria conhecida a existência d'um outro continente, tão 



53 



grande e tão rico como qualquer dos que eram n*este 
tempo conliecidos. 

A opinião de (k)lombo, sustentada contra as difiScul- 
dades a vencer era, que, indo em direcção ao Oeste, havia 
de encontrar as terras ricas e ató fantásticas, citadas pelos 
historiadores antigos, Ptolemy, Strabo e outros, como 
fazendo parte da índia além do rio Ganges. Esta opi- 
nião não desvaneceií-se do espirito de Colombo, e foi 
confirmada no dia 12 de outubro, quando elle e seus 
companheiros (lesembarcíu*am na ilha de Guanhanhani^ 
dia este em que foram dissipadas as dúvidas que podiam 
existir no animo das noventa pessoas que compunham a 
frota de Colombo, em relação ás probabiUdades de en- 
contrar teiya seguindo n'esta direcção até então desco- 
nhecida. 

A narrativa das descobertas de diversas ilhas e das 
diflSculdades que venceram antes de voltar á Europa, 
onde chegaram no rio Tagus no dia 4 de março de 1493, 
encontrei n'uma obra escripta por D. Fernando, filho do 
Colombo. 

Na segunda viagem a estas paragens, Colombo foi 
acompanhado por mil e quinhentas pessoas, que vinham 
a bordo de dezesete navios, que partiram de Cadiz no 
dia 2õ de setembro de 1493. Nesta \âagem augmen- 
taram suas descobertas, mas somente das ilhas próxi- 
mas ao lugar onde foi estabelecida a primeira colónia. 

A terceira viagem, encetada no dia 30 de maio de 
1498, foi com uma frota de seis pequenos navios, im- 
próprios para uma viagem egual áquella. E, chegando 
em frente ao Cabo Verde no dia 4 de junho, Colombo 
mandou seguir três dos navios commandados por Juan 
de la Costa, para levar os mantimentos aos colonos em 
Hespanhiola, nome dado á primeira colónia, e seguiu 
comi os outros na\âos mais ao Sul, conseguindo no dia 



u 



1 de agosto, descobrir uma ilha em que pôz o nouie 
de Trimdad, a qual fica perto da foz do rio Orinoco^ 
que Colombo julgou ser da índia. Seguindo d'aUi em 
direcção Oeste, reconheceu a costa de Baria e Cumana, 
desembarcando em diversos portos. Faltando-lhe man- 
timentos e estando doente, resolveu Colombo seguir para 
a colónia Hespanhiola, descobrindo nesta viagem ainda 
as ilhas de Cuhagua e Margarita, e chegando na coló- 
nia no dia 30 de agosto de 1498. 

A noticia das descobertas de Colombo, durante suas 
viagens, dispertou a attenção de outras pessoas e em 
maio de 1499 Alonço de Hojeda, com quatro navios 
fornecidos por mercadores de Sevilha, chegou á costa 
de Paria e continuando para Oeste, passou além dos 
pontos visitados por Colombo, e chegou até o Cabo de 
Vela, passando na sua volta á Europa pela colónia de 
Hespanhiola, onde esteve com Colombo, conowdando 
com elle que a terra descoberta pertencia a algum conti- 
nente, em vista do grande volume d'agua que sahia dos 
seus rios. 

N*esta viagem Américo Vespucio acompanhou a frota 
commandada por Alonço de Hojeda; sendo a primeira 
viagem que Américo fez para estes lados. 

Alguns auctores affirmam que Alonço de Hojeda che- 
gou a reconhecer terra alagada a 5 gráos de latitude 
Sul, em fins de junho de 1499; mas si elle chegou em 
maio á costa de Paria a 11 gráos de latitude Norte 
e seguiu até ao Cabo da Vela em direcção Oeste, e d'alli 
passou pela colónia de Hespanhiola onde esteve com 
Colombo, não podia, pois, ter estado em junho a 5 gráos 
latitude Sul. 

Durante este mesmo anno de 1499 uma outra expe- 
dição d'um só navio, commandado por Alonço Nigno, 
que auxiUado por Christovão Guerra tinha armado o 



55 



navio, partiu de Hespanha e seguiu até á costa de 
Paria, d'onde voltou com ouro e pérolas, mas sem 
adiantar os conhecimentos em relação á extensão d'esta 
costa. 

No dia 18 de novembro de 1499, Vicente lanez 
Pinzão que acompanhou Colombo na sua primeira via- 
gem, sahiu de Palm cdm quatro caravelas, e a 25 de 
janeiro de 1500 avistou terra a 8 J gráos de latitude 
Sul, a que elle deu o nome de Rosto Formoeo, ou con- 
forme alguns auctores Cabo de Saneta Maria de la Con- 
sducion. D'alU seguiu com suas embarcações ao rumo 
do Norte até que encontrou a foz d' um rio grande, que 
deve ser o rio Parnahyba, e indo a terra, tiveram os 
Hespanhoes um encontro com os indígenas, onde Vi- 
cente perdeu alguns dos seus homens. Continuando a 
navegar para diante parallelamente á costa, chegaram 
a encontrar, como elles lhe chamavam, um mar de 
agua doce, com cuja agua encheram as vazilhas de 
bordo. Este mar de agua doce, como diziam elles, era 
a foz do rio em que Vicente pôz o nome de Maranhão^ 
encontrando alli algumas ilhas, cujos habitantes recebe- 
ram 08 Hespanhoes com hospitalidade, a qual Vicente 
pagou vilmente, roubando trinta d' elles para vender 
como escravos. Depois de escapar de perder seus na- 
vios no Pororoca, onda grande causada pelo influxo do 
mar na foz d'este rio, continuou a sua derrota até che- 
gar á foz do rio Orinoco, dando volta a uma ilha ahi 
existente e seguindo d'este ponto para a Europa. Nesta 
viagem Vicente perdeu três de seus navios, voltando 
somente com um ao porto de Paios, convencido de que 
a terra percorrida fazia parte d*alguui grande conti- 
nente. 

Em dezembro de 1499, Diogo de Lepe, com duas 
caravelas, partiu de Pcdos e aportando mais tarde na 



56 



foz do rio Maranhão, teve de luctar com os indígenas 
por causa do mau comportamento que teve anterior- 
mente Vicente Pinzão para com elles. 



As viagens durante os annos 1500 a 1502 

Voltando Vasco da Gama para Lisboa, da viagem 
que fez á índia, o Rei D. Manuel resolveu mandar 
estabelecer n'aquelle paiz algumas feitorias, para cujo 
fim deu ordens para se apromptar uma armada, com- 
posta de treze navios, entregando o seu commando a 
Pedro Alvares Cabral, e sendo capitães os seguintes: 
Luiz Pires, Nicolau Coelho, Ayres Gomes da Silva, Si- 
mão de Miranda d' Azevedo, Vasco d'Athayde, Simão 
de Pina, Pêro d'Athayde, Nuno Leitão, Bartholomeu 
Dias, Diogo Dias, Sancho de Thoar, Affonso Lopes e 
Gaspar de Lemos. 

Partiram estes navios da foz do Tejo no dia 9 de 
março de 1500, passando no dia 22 perto da ilha de 
Santiago e no dia 24 apanharam uma tempestade, que 
obrigou Luiz Pires a arribar com seu navio ao porto 
de Lisboa. Na tarde de 22 de abril avistaram terra 
desdpnhecida ao lado do Oeste a 16 gráos e 40 minutos 
de latitude Sul, sobresahindo um monte elevado em que 
Cabral pôz o nome de Monte Paschoal e á terra deu o 
nome de Te^ra da Vera Cruz. 

Na manhã do dia seguinte chegaram com os na- 
vios perto de terra, ancorando defronte da foz dum rio 
que Nicolau Coelho foi reconhecer a mandado de Ca- 
bral e onde Coelho e seus companheiros viram nas 
margens alguns selvagens armados de arcos e settas, mas 
sem demonstração de hostilidade contra os navegantes. 



57 



No outro dia seguiu a armada á procura d'um abrigo 
para o lado do Norte, encontrando um porto a dez lé- 
guas mais ou menos de distancia, a que foi dado o nome 
de Porto Seguro. Ahi foi mandado Affonso Lopes para 
sondar o ancoradom^o, voltando elle á tarde trazendo 
comsigo dous indigenas que foram apanhados n'uma 
canoa a pescar. 

No dia 25 entraram com os navios n'este porto e de- 
pois de estarem fundeados, desembarcaram em terra 
Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias e outras pessoas, le- 
vando em sua companhia os dois indigenas que tinham 
pouzado a bordo do navio do almirante. Convém men- 
cionar mais um homem que não devia ser esquecido, 
visto ser o primeiro europeu que pôz pó n'este paiz, 
com a convicção de n'elle passar o resto da sua vida; 
era um rapaz chamado Affonso Ribeiro, que tendo 
commettido um crime, foi embarcado na armada com 
o fim de ser deixado em alguma terra estranha, visto 
como era costume n'aquelle tempo mandar degradados 
em todas as viagens de explorações. Logo que o bote 
chegou a terra, desembarcaram Affonso Ribeiro e os 
dous indigenas, indo os marinheiros encher algumas va- 
zilhas d'agua doce, sendo auxihados pelos indigenas re- 
unidos na praia. 

No dia seguinte, domingo, Cabral resolveu ouvir 
missa em terra, a qual foi celebrada por Frei Henri- 
que de Coimbra n'uma iUia onde foi levantado o pri- 
meiro altar n'aqueUa terra. 

N'este porto ficaram entretendo relações com os indi- 
genas até sexta-feira, 1 de maio, quando por ordem do al- 
mirante foi levantada uma cruz n'um logar conspicuo ao 
Sul do rio è alU celebraram missa, assistindo a esta cerimo- 
nia com grande admiração uns sessenta indigenas que se 
tinham reunido em volta dos navegantes europeus. 



68 



Resolvendo Pedro Alvares Cabral mandar noticias 
em relação á sua descoberta ao Rei D. Manuel, des- 
pachou no dia 2 de maio Gaspar de Lemos n'uma 
caravela, levando uma carta escripta por Pêro Vaz Ca- 
minha, a qual ainda existe ; assim também uma outra, 
escripta no mesmo dia por Mestre João que serviu 
como medico da armada. 

Por ordem de Cabral ficaram em terra dous degra- 
dados, que deviam ser: AÉEonso Ribeiro e um outro, 
cujo nome não consta da historia; e além d'estes, fica- 
ram dous moços que fugiram da armada, preferindo 
passar seus dias no meio dos selvagens, do que arris- 
carem-se em uma viagem d'este porto para a índia. 

No dia 3 de maio o almirante partiu com o resto 
da armada, agora composta de onze navios, e no dia 
24 apanhou uma tempestade que fez sossobrar quatro 
navios, commandados por Bartholomeu Dias, Ayres Go- 
mes da Silva, Simão de Pina e Vasco d'Athayde, sem 
escapar pessoa alguma da tripolaçáo. 

Com a noticia d'esta descoberta o Rei mandou se- 
guir em maio de 1501 três navios, em que ia Amé- 
rico Vespucio como piloto-mór e cosmographo, para 
explorar o paiz novo de Vera Crm. Não encontrei es- 
clarecimentos positivos sobre o nome do commandante 
d'eBta pequena frota; apenas alguns auctores declaram 
ser Gonçalo Coelho, e outros sustentam a opinião de 
que era Alonço de Hojeda, e que esta era a segimda 
viagem feita por Hojeda e Américo Vespucio. 

Conforme as noticias deixadas por Américo, elles 
chegaram a avistar terra no dia 16 de agosto de lõOl 
a 5 gráos de latitude Sul e puzeram n'ella o nome 
Cabo de Sào Roque em memoria do dia em que foi 
descoberta. No dia seguinte desembarcaram á procura 
de agua e de viveres; entrando dous dos portuguezes 



no meio dos indígenas alli reunidos, foram com estes 
vimtar as mattas d'onde não voltaram. Âté ao sétimo dia 
esperaram estes homens, desembarcando ainda um outro 
n^este dia, que foi morto pelas mulheres na praia e 
depois assado n'uma grande fogueira. 

Partindo d'este lugar a armada e seguindo para o 
Sul até 8 gráos de latitude, encontraram alguns indíge- 
nas com quem entabolaram communicações a^nigaveis, 
demorando-se alli dnco dias para depois seguir sua der- 
rota para o Sul, levando comsigo três indígenas por 
C€»nseutimento d'ell6s. 

Continuaram suas explorações n'e6ta direcção até fe- 
vereiro de 1502, e estiveram n*um porto fora do Tró- 
pico de Capricórnio, tendo visitado todo o littoral, e 
ahi resolveram fazer aguada e provisão de lenha para 
seis mezes, assentando em terra ao lado do Sul da foz 
d'um rio um padrão, e deixando neste lugar um bacha- 
rel degradado. 

Partindo d'ahi e chegando a 32 gráos de latitude 
Sul, sem encontrar metaes preciosos, que consistiam o 
objecto principal de suas esperanças, resolveram os na- 
vegantes deixar a costa e fazer a viagem á volta do 
mar. Chegando a Õ2 gráos de latitude Sul encontra- 
ram nmu tempo e tiveram de correr com os navios em 
arvores seccas, com vento Sud'oeste até que avistaram 
terra, d'onde julgaram conveniente regressar, deman- 
dando a costa da Africa, onde queimaram um dos seus 
navios, diegando em Lisboa ccnn os outros dous no 
dia 7 de setembro de 1502, depois d'uma viagem cheia 
êe diffieuMades e perigos que durou dezeseis mezes. 

Ainda que não haja certeza de serem estes explora- 
ck^res a quem devamos certos nomes conhecidos n'este 
fitioiral, comtudo é provável que fossem d'elles, em vista 
da soa derrota e do tempo que levaram em viagem 



60 



n'esta costa. Além d' isto temos o facto de encontrar-se 
n'um mappa feito por João Ruysch, que foi publicado 
em 1508 em Roma, os nomes, Cabo de São Agostinho ^ 
Bio de São Vicente, Rio de Cananor e outros, coire- 
spondentes a lugares onde aquelles navegantes aporta- 
ram, sendo que o Rio de Cananor corresponde em la- 
titude com a Barra de Cananéa. 

Pelas narrações feitas por Américo Vespucio, parece 
que elle, com seus companheiros, observou com muito 
cuidado a posição dos pontos salientes d' este littoral, 
sendo provável que o lugar em terra onde foi deixado 
o bacharel degradado, seja a ilha do Cardoso, próxima 
á ilha de Cananéa. 



Um relance de vista sobre as viagens feitas 
durante os annos 1503 a 1520 

No dia 10 de maio de 1503 partiu de Lisboa eiii 
expedição, uma frota composta de seis navios comman- 
dados por Gonçalo Coelho e Américo Vespucio, este 
como piloto-mór, e, chegando os na^dos perto da costa 
da Africa, encontraram grande temporal que os desviou 
de sua deiTota, levando-os para perto d uma ilha, sobre 
a qual o navio chefe naufragou. Américo por ordem 
do commandante foi procurar um porto onde pudesse 
recolher a armada, e encontrando esperou alli até que 
chegasse um outro navio com o qual seguiu em viagem 
para o Brasil, encontrando logo que chegou, um porto* 
a que deu o nome de Bahia de Todos os Santos, onde 
ficou dous mezes esperando noticia do resto dos navios. 
Seguindo ao Sul, Américo e seus companheiros chegaram 
em terra outra vez a 16 ^ gráos de latitude Sul, perma- 
necendo ahi dm-ante cinco mezes, vivendo em harmonia 



61 



cora os indígenas e, levantando um forte, deram-lhe o 
nome de Santa Cruz; e ahi ficaram vinte homens, vol- 
tando o resto para Lisboa. 

Em relação ao estabelecimento dos primeiros euro- 
peus n'asta costa, não pôde haver dúvida que elle co- 
meçou n'aquella epocha, ainda que não vingasse por 
causa das difficuldades encontradas pelos promotores da 
povoação d'este paiz, ao qual o Rei de Portugal dava 
pouco valor, como diz Fernando Diniz em sua Historia 
do Brasa. 

Não foi somente Américo Vespucio quem viajou 
n'aquella epocha n'esta costa, porque Christovão Jaques 
chegou ahi, entrando na Bahia de Todos os Santos. 

Francisco de Almeida e Tristão da Cunha também 
appareceram n'estas aguas. 

Um dos navios de Vasco de Gama, commandado 
por António de Campos, levou dois homens que ahi se 
achavam, conforme noticia dada em uma carta escripta 
por Francisco de Carvalhaes, entrando em Lisboa o 
navio de António de Campos e um outro de Ruy Men- 
des no dia 16 de julho de 1504, ambos de volta da 
costa do Brasil. 

Em 1508, o Rei de Ilespanha mandou partir Vi- 
cente lanez Pinzão e Juan de Solis a fim de tomar 
posse das terras descobertas por Américo Vespucio, 
que tinha abandonado o serviço de Portugal e voltado 
a Hespanha. 

Cliegando á costa perto do Caho de São Agostinho, 
seguiram para o Sul até 40 gráos de latitude, tomando 
posse das terras onde aportaram; deixando a 23 1» 
grilos de latitude Sul sete castelhanos n'um lugar em 
que pozeram o nome do Rio dos Innocentes, e dando 
o nome de Bahia dos Perdidos a um lugar perto da 
ilha de Santa Catharína, onde perderam mais homens. 



Entrando no immenso estuário do Rio da Prata que 
Solis denominou Mar-doce^ regressaram d'riH a Hes- 
panha em outubro de 1509, para obter do Rei as 
concessões necessárias afim de estabelecer-se colónias 
n'aquellas regiões. 

Da viagem que fez o navio Bretoa, commandado 
por Christovão Pires, existe o r^imento dado a sau 
capitão e o roteiro da viagem, que durou oito mezes. 
Partiram no sabbado 22 de fevereiro de 1511 do pwto 
de Lisboa, chegando no dia 6 de abril em frente ao 
rio S. Francisco] no dia 17 do mesmo mez entraram 
na Bahia de Todos os Santos e logo depois encontra- 
ram uma feitoria a 16 gráos de latitude Sul, partindo 
d'ahi para o porto de Cabo Frio, onde chegaram no 
dia 26 de abril, e d' onde partiram para Portugal no 
dia 28 de julho, chegando no dia 22 de outubro em 
Lisboa. 

No dia 24 de novembro de 1514 foi assignada uma 
convenção para Solis ir emprehender descobertas no 
Mar-docSy partindo para este fim do porto de Lepe no 
dia 8 de outubro de 1515, com três embarcações : uma 
de sessenta toneladas e cada uma das outras de trinta. 
Entrando outra vez no Mar-doce, seguiu a margem do 
Norte e reconheceu uma ilha situada 34 gráos de lati- 
tude Sul, á qual lhe deu o nome do Martim Gareia, 
commemorando assim o nome do seu piloto. Viram 
alguns indígenas que por acenos convidavam os nave- 
gantes a desembarcar, convite que Solis aoceitou com 
a intenção de apanhar alguns d'elles. Desembarcando, 
sem tomar as precauções devidas, uma partida grande 
d'estes indígenas cahiu de improviso sobre a tripolação, 
assassinando barbaramente Solis e seus companheiros 
que estavam em terra, com excepção de um que os in- 
dígenas levaram. Este acontecimento causou viva im- 



63 



pressão no animo dos homens que haviam ficado a bordo 
e resolveram incontinenti voltar a Hes{)anha com essa 
triste noticia, passando pelo Cabo de Santo Agostinho^ 
onde carregaram os navios com pau brazil, etc. 

Em 1519, D. Luiz de Gusman, em lugar de seguir 
para índia, desertou da armada em que ia e dirigiu-se 
com o navio á costa do Brasil onde chegou e viveu 
como pirata sem saber-se em que porto buscou abrigo. 
Foi dada ordem de prisão contra D. Luiz a 12 de ja- 
neiro de 1520, como consta dos Annaes da Marinha. 

Debalde havia Portugal prohibido que acceitassem 
08 seus pilotos emprezas marítimas d'outraa nações, 
pensando que assim havia de evitar a chegada d'estas 
em terras do Brasil. Os Francezes, os Inglezes e os 
Hespanhoes continuaram o seu trafico de pau brazil, 
aves, macacos, etc. E em fim, não podendo os Portu- 
guezes alcançar o que desejavam por outros meios, 
fizeram um tratado com os corsários João Affonso e 
Joã Ango, em bem de suas possessões no Brasil. 

No dia 10 de agosto de 1519, Fernando de Maga- 
lhães partiu do porto de Sevilha com cinco navios, tri- 
polados por duzentos e trinta homens, e entre outros 
pilotos levou Ruy Fallyero. Durante quatro mezes 
explorou as bahias da costa do Brasil, á procura d' uma 
passagem para a índia, entrando na bahia do Rio de 
Janeiro no dia 13 de dezembro, dando a ella o nome 
de Bahia de Santa Lucia^ e chegando ao Rio da Prata 
no dia 12 de janeiro de 1520. Em 31 de março elle 
chegou ao porto de São Jtdiào a 40 gráos de latitude 
Sul, onde perdeu um dos seus navios, e teve de usar 
de rigorosos meios para reprimir a insubordinação que 
lavrara em seu pessoal. Continuando a sua derrota 
para o Sul encontrou a 53 gráos de latitude, mais ou 
menos, o canal que até hoje conserva o seu nome, e 



64 



passando por este durai^te uma viagem tenebrosa de 
vinte dias chegou a encontrar o oceano em que pôz o 
nome de Pacifico. 



As obras de Sebastião Cabot e Christovâo Jaques 
e as viagens de 1520 a 1530 

Apezar de todas as reclamações e tratados do Go- 
verno de Portugal, no aimo 1521, Hugues Roger fez 
uma viagem ao Brasil. 

Em julho de 1525, uma armada partiu da Hes- 
panha e n'ella iam D. Rodrigues d'Acufia e Garcia de 
Loaysa, chegando elles na costa do Brasil em dezem- 
bro, ao Sul do Cabo de S. Thomé, seguindo d'alli para 
o Sul. Chegando D. Rodrigues com o navio São Ga- 
briel á ilha de Santa Catharina encontrou-se n'aste 
porto (que depois ficou com o nome de porto de Dom 
Bodrigues) com alguns companheiros de Solis, que de- 
ram taes noticias da terra, que trinta e tantos dos 
tripolantes do Sào Gabriel resolveram ficar alli. 

Partindo d'este lugar D. Rodrigues chegou ao Rio de 
Janeiro d' onde resolveu seguir para a Europa e assim 
dirigindo-se ao Norte entrou na bahia de Todos os San- 
tos, perdendo ahi mais nove homens que foram devo- 
rados pelos indígenas. Sahindo d'este porto entrou 
n*um outro próximo ao rio São Francisco, no mez de 
outubro de 1526, encontrando ahi três navios francezes 
carregados de pau brazil, etc. 

A principio os capitães francezes offereceram auxi- 
lio a D. Rodrigues ; porém mais tarde quizeram tomar 
o seu navio. D. Rodrigues vendo que qualquer re- 
sistência teria sido inútil, embarcou n'um bote para 
ir tractar com os francezes, e n'esta occasião os tripo- 



65 



lantes que ficaram a bordo do São Gabriel , aproveitan- 
do-se da ausência do coinmandante, fugiram com o 
navio. Apezar de D. Rodrigues seguir á força de 
remos para ver se os alcançava; foram baldados seus 
esforços, indo dar em terra com o bote dez léguas ao 
norte do iK)rto d'onde partiu. D'ahi voltou por terra; 
mas quando chegou, encontrou somente um dos navios 
francezes, cujo commandante négou-lhe passagem para 
a Europa. Seguiu até á ilha de Santo Aleixo e d'ahi 
á feitoria estabelecida por Christovâo Jaqúes, onde por 
uma carta «scripta por D. Rodrigues em 15 de ju- 
nho de 1527, devia elle ter chegado em novembro de 
1526. 

Sebastião Cabot, tendo deixado o serviço da Ingla- 
terra, foi nomeado pelo Rei de Hespanha primeiro piloto- 
mór e no dia 3 de abril de 1^26 partiu do porto de 
8, Ltuuis de Barrameda com quatro navios. 

Pouco antes havia partido Diogo Garcia, com quem 
ia como piloto Rodrigues d'Aroa. 

Por essa epocha mais ou menos, partiu de Portugal 
uma frota de seis navios commandados por Christovâo 
Jaques, acompanhado por Diogo Leite, Gonçalo Leite e 
Gaspar Corrêa, (^hegando estes no canal entre a ilha 
de Itamaraca e o continente, começaram a construcção 
d'uma casa de feitoria, junto do rio Igaraassu. Esta 
feitoria, segundo as deducçoes, chamava-se Paranà-mhiiCy 
nome dado a este lugar pelos indígenas. 

O estabelecimento d' uma feitoria neste lugar está 
provado pela carta escripta em 15 de junho de 1527 
ao- Bispo de Gsma por D. Rodrigues dAcufla, e uma 
outra do mesmo ao Rei D. João III em 30 de abril 
de 1530. 

Depois de ter estabelecido esta feitoria, Jaques per- 
correu a costa em direcção ao Sul, até o Rio da Prata, 

5 



66 



mandando um navio a Portugal carregado com pau 
brazil. Durante a sua viagem, percorrendo a costa, Ja- 
ques encontrou três navios mercantes da Bretanha que 
elle aprisionou, levando os homens em numero de tre- 
zentos para a feitoria em Parana-mlme,. O combate 
conforme as tradições teve lugar na Bahia de Todos 
os Santos. 

Havendo reclamações contra o procedimento de Ja- 
ques, o governo retirou-lhe o commando e elle voltou 
para a Europa, levando comsigo os prisioneiros que 
tinha na feitoria, e é provável que n'esta occasião 
D. Rodrigues também voltasse do Brasil. 

Antes d' isto a frota coramandada por Sebastiiio Ca- 
bot, tinha chegado á costa do Brasil, aportando em 
Parana-mhuc, onde encontrou a feitoria estabelecida por 
Jaques. Na travessia Cabot tinha perdido o maior de 
seus navios, e seguindo de Parana-mhuc para o >Sul, a 
falta de mantimentos e o descontentamento de alguns 
de seus officiaes, obrigou-o a aportar na ilha de Santa 
Catharina, onde encontrou desertores de diversas nacio- 
nalidades, permanecendo alguns ha muitos annos ahi e 
outros de pouco tempo, sendo estes ulthnos do navio 
São Gabriel de D. Rodrigues d'Acufia. Continuando 
a augmentiir o descontentamento a bordo dos navios, 
Cabot mandou lançar n'uma ilha deserta três das prin- 
cipaes pessoas da frota. Nâo bastou este acto de rigor 
para restabelecer a ordem, e depois de ter construído 
algumas embarcações pequeníis seguiu para o Sul, mas 
chegando no lUo da Prata ou de Sohs como era então 
chamado, ('abot teve, por causa do descontentamento, 
de abandonar a idéa que tinha de seguir mais ao Sul. 

Os navios do Cabot entraram no Rio da Prata e su- 
biram trinta léguas mais ou menos, chegando a unia 
pequena ilha a que Cabot deu o nome de São Gabriel, 



67 



descobrindo perto um lugar seguro para os navios, ha 
foz d'um rio a que deu o nome de São Salvador, onde 
mandou construir um forte, encontrando n'este lugar 
um dos companheiros de Solis de nome Francisco dei 
Puerte. 

Deixando o capitão Bracamante commandando o 
forte e dous navios, Cabot seguiu rio acima no dia 23 
de setembro de 1527 em exploração com os outros na- 
vios, e encontrando-se com os indigenas teve de pelejar 
com elles, perdendo n'este encontro três de seus ho- 
mens que foram levados prisioneiros. 

Nesta viagem Cabot mandou construir um segundo 
forte, pouco mais adiante do primeiro, a que chamou 
Rqnrito Santo, dando o nome de Sào Salvadar ao pri- 
meiro edificado. 

Durante este tempo Diogo Garcia tinha chegado á 
costa do Brasil, trazendo instrucções para fazer todo o 
possivel afim de descobrir Juan de Cartagena e um 
sacerdote francez que Magalhães, em sua viagem, tinha 
deixado n'esta costa. 

Chegando Garcia com os seus navios a uma bahia 
chamada Rio do.s Innoeentes encontrou um bacliarel por- 
tuguez que fonieccu-Ihe carne, peixe, etc., e deu-lhe um 
genro seu, que serviu-lhe de interprete. Aportaram de- 
pois na Ilha dos Fatos, onde os indigenas queixaram-se 
do mau comportiimento de Cabot, e, continuando a sua 
derrota, chegaram em frente ao forte Sào Salvador. 
Dahi Garcia seguiu com parte de sua gente até encon- 
trar-se com Cabot, que, depois de combater com os in- 
digenas, estava tratando com elles sobre o terreno em 
que mais tiirde foi edificada a cidade de Assumpção. 

Voltaram Cabot, Garcia e seus companheiros até o 
forte de Espirito Santo, onde sustentaram ataques dos 
indigenas, que levantando-se em grande numero, por 



68 



causa do mau tracto recebido de Garcia e sua gente, ca- 
hiram sobre este forte e por fim queimaram-no, reti- 
rando-se os europeus para o forte de São Salvado}-. 

Logo depois de ter começado suas explorações no 
Rio de Gahot ou da Prata, Cabot mandou um navio 
para Europa, levando um relatório, e esperava receber do 
Rei Carlos V ordens e meios de continuar com as suas 
obras; mas, demorando-se a chegada d'e8tes, e aborre* 
eido, resolveu partir para a Hespanha, levando com- 
sigo alguma prata e um portuguez chamado Gonçalo 
da Costa, de quem a corte de Portugal houve infor- 
mações a respeito do Rio da Prata. 

Em 2 de agosto de 1530 foi escripta uma carta de 
Sevilha por D. Simão Affonço, dizendo que Sebastião 
Cabot havia chegado muito derrotado do Rio da Prata 
e que ahi havia sido preso. 

Quando Cabot retirou-se do Rio de Solis ou da Prata^ 
como elle chamava em vista da prata que elle encon- 
trou no poder dos indigenas, elle deixou como com- 
mandante do forte de São Salvador Nuno de Lara 
com 170 homens. Logo depois, e durante uma sortida 
que a guarnição fez á procura de alimentos, os indi- 
genas Timhis atacaram o forte. Mongoré, chefe da 
tribu dos Timlnis, tinha-se apaixonado por uma mulher 
hespanhola chamada Luoia Miranda, mulher do capitão 
Hurtado, e para raptal-a surprehendeu o forte, e du- 
rante a defeza, que foi heróica, Mongoró foi morto, 
como também o commandante Nuno de Lara. 

Depois da morte de Nuno, Ruy Garcia de Mos- 
quera, que ficou sendo commandante, resolveu embar- 
car com o resto dos homens e seguir para a costa do 
Brasil, estabelecendo-se em um lugar chamado Iguape, 
principiando ahi a fazer plantações e vivendo algum 
tempo em relações amigáveis com os seus vizinhos. 



69 



A feitoria estabelecida por Christovão Jaques, fi- 
cando desprotegida {)ela retirada da armada, foi sa- 
queada em principios de 1531 por um navio francez, 
escapando o feitor Diogo Dias, como se verifica pelo 
diário de Pêro Lopes de Sousa. 



Pessoas deixadas n'este paiz antes do anno 1530 

É difficil esclarecer as datas das chegadas de cer- 
tas pessoas encontradas pelos viajantes nas suas ex- 
plorações n'esta costa; porém, é incontestável, em vista 
dos documentos existentes, que nós devemos considerar 
entre os primeiros europeus, que habitaram este paiz, 
Affonso Ribeiro e um outro degradado, que foram dei- 
xados em terra no Porto Seguro no dia 3 de maio de 
1500 por ordem de Pedro Alvares Cabral, junto aos dous 
homens que fugiram de bordo dos navios d'esta armada. 
Em seguida temos um bacharel que foi posto em 
terra n'um porto fora do Trópico de Capricórnio, por 
ordem do commandante da frota em que ia Américo 
Vespucio como piloto, no mez de fevereiro de 1502. 

Na viagem começada em 1503 por Gonçalo Coelho 
e Américo Vespucio, foi levantado o primeiro estabe- 
lecimento n'esta terra, e ainda que mais tarde fosse 
demolido pelos Francezes, d'elle restam vestígios. 

Em 1504 António de Campos levou para Lisboa 
dous homens encontrados na costa do Brasil. 

Juan de SoUs, na viagem que fez em 1508, perdeu 
alguns homens, ficando sete no lugar chamado Rio 
dos Innocentes, situado a 23 \ gráos de latitude Sul, e 
outros na Bahia dos Perdidos, perto da Ilha de Santa 
Catharina, 



10 

Em 1509 de\âa ter chegado Diogo Alvares CoiTêa, 
o celebre Caramurií, que salvou-se d' um naufrágio que 
se deu na costa próximo á barra do Rio Vermelho, e 
casou-se com uma filha do chefe dos indigenas. 

Em relação á chegada de João Ramalho e António 
Rodrigues em terra, na vizinhança de S. Vicente, 
não pude encontrar esclarecimentos que me satisfizes- 
sem, visto que o documento citado pelo Sr. Balthazar 
da Silva Lisboa, feito por um homem que devia, con- 
forme este documento, ter mais de cem annos de idade, 
não merece tanta confiança. Diversos auctores dizem 
que Ramalho esteve em terra vinte annos antes da che- 
gada de Martim Affonço; sendo assim de\da ter che- 
gado em 1510 mais ou menos. 

Fernão de Magalhães, em uma de suas viagens, deixou 
na costa do Brasil Juan de Cartagena e um sacerdote 
francez. 

Em 1516 quando Juan Dias de Solis foi assassinado 
pelos indigenas, elles fizeram prisioneiro um dos hes- 
panhoes de nome Francisco dei Puerte, que em 1527 
foi encontrado por Sebastião Cabot n'esta localidade. 

No principio de 1516, D. Rodrigues d'Acuíla foi 
obrigado a partir com o seu navio da Bahia dos Per- 
didos, deixando alli trinta e tantos dos seus homens, 
por causa das noticias dadas pelos companheiros de 
Solis, que ahi encontraram estabelecidas. 

Em novembro de 1526 ou um pouco antes, Chri- 
stovão Jaques mandou construir uma feitoria em Pa- 
rana-mhuc, deixando alli alguns homens e nomeando 
Diogo Dias feitor. 

Em fins de 1526 Sebastião Cabot deixou, n'urna 
ilha deserta perto de Santa Catharina, três officiaes por 
causa de insubordinação ; e em 1527 perdeu três dos 
seus homens que foram aprisionados pelos indigenas. 



71 



A respeito da feitoria ou forte construido em 1503 
por Américo Vespucio, a 16 ^ gráos de latitude Sul, em 
que foi posto o nome de Santa Cruz, este devia ser 
o mesmo que Christovão Pires encontrou entre a ba- 
hia de Todos os Santos e Caho Frio em 1511, ainda 
que depois não se encontrasse noticia relativamente a 
este estabelecimento e seu pessoal. 



Viagem de Martim Affonço de Sousa, constando 
do «Diário de Navegação»», por Pêro Lopes de 
Sousa. 

Havendo noticias dits explorações de Cabot e Gar- 
cia, no Rio da Prata, o Rei D. João III resolveu 
mandar tomar posse o estabelecer colónias no Brasil, 
para cujo fim foi organisada uma armada de cinco 
na\âos, levan<lo quatrocentos homens, sendo nomeado 
Martim Affonço de Sousa commandante em mar e 
terra. 

Partiu esta armada no dia 3 de dezembro de 1530, 
tendo o commando d'um dos navios o irmão de Mar- 
tim Affonço, que foi o auctor do diário d'esta viagem 

Chegaram no dia 31 de janeiro de 1531 perta do 
cabo de Santo Agostinho, defronte do cabo de Percaauriy 
onde tomaram um navio francez. Ao Sul do cabo 
de Santo Agostinho tomaram outro navio e na manh$ 
do dia 1 de fevereiro, em frente á ilha de Santo 
Aleixo, encontraram mais um navio que tomaram no 
dia 2, depois de uma noite de peleja. Em 16 do mesmo 
mez chegaram em frente ao porto de Parana-mhuc, 
onde tiveram noticias do saque da feitoria, dous mezes 
antes, e d'ahi no dia 18 foi mandado um dos navios 



7â 



coininandado por Joây de Sousa, com noticias para 
Portugal. Também foram expedidos dous navios, que 
se dirigiram para os lados do rio Maranhão. 

Seguindo a derrota para o Sul com os outros na- 
vios, passaram o rio S. Francisco no dia 1 1 de março, 
e no dia 13 chegaram onde diz Pêro Lopes: <^Reconhe- 
<(cemos a hahia de Todos os Santos. Faz a entrada Norte 
«e Sul: — Eni terra na pofita do padram, tomei o sol eni 
<ítre^e grãos e hum quarto. Nesta Bahia achamos um 
«homem portuguez que havia vinte e doiís annos que 
«estava nesta terra. Aqui deixou o capitam J. dous ho- 
«mens para fazer experiência do que a terra dava.» 

D*este porto partiram no dia 15 de março e no dia 
24, por causa do mau tempo, foram obrigados a ar- 
ribar, chegando outra vez na bahia de Todos os Santos 
no dia 26, onde encontraram o na\âo em que ia 
Diogo Dias, o feitor que escapou de Parana-mbu^. 

Partiram outra vez no dia 27 de março e no dia 29 
de abril chegaram em frente ao Cabo Frio, entrando no 
dia seguinte na bahia do Rio de Janeiro. 

Diz Pêro Lopes em seu diário: «Como fomos den- 
« tro, mando^í o Capitam J. fazer húa casa forte, com cerca 
«por derrador; e mandou sahir a gente em terra, e p&r em 
«mdem aferruria para fazermos cousas, de que tínhamos 
«necessidade. Daqui mandou o Capitam J. quatro homens 
«pela terra dentro; e foram e meram em dous mezes; e an- 
«daram pela tena cento e quinze legoas; e as secenta e 
«cinco delias foram po7' montanhas mui grandes, e as 
«cincoenta fm'am por hum campo mui grande ; e ftyram 
«até darem com um grande rei, senhor de todos aquelles 
«campos, e lhes fez muita honra e veo com elles até as 
«entregar ao Capitam J.; e lhe trouxa" muito chistal, e 
«deu novas como no Rio de Peraguay haiia muito ouro 
«e prata.» 



73 



Estiveram na bahia do Rio de Janeiro três mezes, 
e fizeram dous bergantins, sahindo d'este porto no dia 1 
de agosto. No diário de Pêro Lopes, no dia 8 do mesmo 
mez, encontramos o seguinte : « Ao meio dia fizemos o 
^caminho ao Noroeste; porque pelo dito rumo nos fazia- 
^mos com o Bio de Sam Vicente. Quarta-feira nove dias 
^d' agosto no quarto d' alva faziamos o caminho ao Nor- 
€oeste e a quarta do norte; e ás nove hora^ do dia sur- 
*ffimos bem pegados com tetra em fundo de oito bradas 
^d^area grossa. Estando surtos mandou o capitam J. 
oihum hargantim a tefra, e n^elle kàa lingua para verse 
cachavam gente, e para saber onde éramos; porque a 
<ícerraçam era tamanha, que estávamos hum tiro d^abom- 
*barda de terra e nam na mamos. De noite veo a bar- 
^gantim, e nos disse como nam pudet^a ver gente. » 

No dia seguinte partiram de S. Vicente e ao meio 
dia encontraram uma ilha onde mataram bastantes pás- 
saros. Com data de 12 de agosto diz Pêro Lopes em 
seu diário: ^E Jazendo o caminho de Sudoeste demos 
^com kúa ilha. Quiz a nossa senhora e a bemat>enturada 
€santa Crara, cujo dia era, que alimpou a neboa, e reco- 
mhecemos ser a ilha de Cananea; e fomos surgir antre 
*elle e a terra, em fundo de sete braças. Esta ilha 
^tem em redondo húa légua: e faz no meo húa sdlada: 
^está de terra firme hum quarto de légua : he desabri- 
^gada do vento Suhmdoe^te e do nord'este, que quando venta 
^mete mui gram mar. Desta ilha ao norte duas léguas 
^ se faz um rio mui grande na terra firme; na barra de 
^preamar tem trez braças, e dentro oito, naoe braças. 
*Por este rio arriba mandou o Capitam J. hum bargan- 
*tim: e a Pedre Anneji Piloto, que era lingua da terra, 
^ que fosse haver falia dos índios. Quinta feira dezasete 
^dias do mez d^ agosto veo Pedre Annes Piloto no bar- 
€gantim, e com elle veo Francisco de Chaves e o bacha- 



74 



«reZ, e dnco ou seis castalhanos. Este bacharel havia 
« trinta annos que estava degradado nesta ten^a, e o Fran- 
<iCÍsco de Chaves era mui grande lingua desta terra. 
<íPela informaçam que d'eUa deu ao Capitam^ J. mamlou 
«a Pêro Lobo com oitenta homes, que fossem descobrir 
^pela terra dentro; porque o dito Francisco de Chaves 
«*e obrigava que em de^t mezes tornava ao dito porto y 
<íCom quatrocentos escravos carregados de prata e ouro, 
«>Partiram desta ilha, ao primeÍ9'o dia de setembro de 
<kmil e quinhentos e trinta e hum os quarenta besteiros e os 
<í quarenta espingardeiros. Aqui nesta ilha estilhemos qua- 
^renta e quatro dias ; nélles nunca vimos o Sol.» ' . 

Partiram deste lugar no dia 26 de setembro e no 
dia 29 reconheceram a terra ao Sul do Porto dos Patos. 
No dia 14 de outubro a 34 ^ gráos de latitude Sul 
deram com três ilhas e desembarcando encontraram-se 
com duas onças grandes, e por essa razão deram o 
nome de Ilhas das Qnças. Chegaram no dia seguinte 
á tarde em frente ao Cabo de Santa Maria, e alli es- 
tiveram oito dias esperando um bergantim, e não ap- 
parecendo collocaram em terra sobre uma ilha uma 
cruz, e n'um dos braços uma carta. 

Sahindo d'aUi no dia 21 de outubro, logo encon- 
traram mau tempo e perderam algumas embarcações, 
mantimentos, etc. Apezar d'isto continuaram em suas 
explorações, chegando na embocadura do Rio da Prata 
e seguindo pela margem do Norte, pozeram nomes nos 
rios, ilhas, etc., descobertas, encontrando-se com alguns 
indigenas que lhes tratavam bem e depois de abasteci- 
dos de mantimento, tanto quanto possível, partiram da 
Ilha das Palmais no dia 1 de janeiro de 1532 em volta 
para o porto de S. Vicente. 

No dia 4 á tarde passaram em frente ao Porto dos 
Patos e ao pôr do sol no dia 8 chegaram á Ilha de 



76 



Cananea, ficando alli até o dia 17, em que seguiram, 
chegando em S. Vicente no domingo, dia 20 de ja- 
neiro de 1532. 

No dia 5 de fevereiro entrou um navio que Mar- 
tim Affonço tinha maíidado da Hha das Palmas ao 
Porto dos Patos buscar a gente d'um bergantim que 
ahi se perdera na viagem para o Sul, e encontrou alU 
estes homens construindo um outro bergantim com o 
auxilio de quinze homens castelhanos, que no dito porto 
ha muito estavam perdidos. 

De S. Vicente, Martim Affonço mandou dous navios 
para Portugal, commandados por seu irmão Pêro Lopes 
de Souza, que partiu d'ahi no dia 22 de maio de 1532. 

Durante o tempo que Martim Affonço explorou esta 
costa pelo Sul, um navio francez Le Pelerine, com- 
mandado por Jean Duperet, chegou em Parana-mbuc^ e 
encontrando ahi os vestígios da feitoria demolida, man- 
dou construir uma fortaleza, deixando-a guarnecida por 
setenta homens. Partindo Duperet para Europa e en- 
trando no Mar Mediterrâneo, arribou em Málaga, e depois 
na sabida d'aUi foi aprisionado pela armada de Portugal. ( 

A fortaleza franceza foi tomada em junho de 1532, 
depois de dezoito dias de lucta por Pêro Lopes, que 
deixando-a guarnecida com gente sua debaixo das or- 
dens de Paulo Nunes, seguiu para Portugal, levando 
trinta e tantos prisioneiros e alguns indígenas. 



Factos históricos que occorreram durante 
os annos de 1532 a 1573 

Em relação á data em que Ruy Garcia de Mos- 
quera chegou com seus companheiros para se estabe- 
lecerem em Iguape, vindos do Rio da Prata, não encon- 



76 



trei ainda documento que esclarecesse este pyonto; mas 
não duvido que em 1534 elles já ahi residissem e sendo 
Ruy Mosquera, segundo os auctores hespanhoes, ura 
homem turbulento, naturalmente não conformou-se com 
a intimação de Gonçalo Monteiro, capitão commandante 
do littoral, nomeado por Martim Affonço, quando aquelle 
mandou recolherem-se a S. Vicente o bacharel portuguez 
desterrado e os outros moradores ao redor de Iguape. 

Não ha dúvida que na vizinhança de Iguape existem 
alguns dos castelhanos, encontrados por Martim Affonço, 
em companhia do dito bacharel e de Francisco de Cha- 
ves, no dia 17 de agosto de 1531; os quaes, pa- 
recem os perdidos da frota de Juan de Solis, no lu- 
gar que elle chamava Rio dos Innocentes, no anno 
de 1508; e naturalmente elles durante os annos que 
viveram n'este logar, haviam de ter-se relacionado com 
os indigenas vizinhos. 

Parece provável que Aleixo Garcia de quem en- 
contramos noticias no alto Paraguay, era também re- 
lacionado com estes seus compatriotas, e que os com- 
• panheiros que tinham seguido com elle á procura de 
ouro em 1524 e que consta terem voltado levando 
noticia das riquezas encontradas por seus companheiros 
do Brasil, fossem os auctores da informação dada por 
Francisco de Chaves a Martim Affonço; tanto mais 
que não consta a existência de outros pessoas n'esta 
parte do littoral na occasião da chegada de Martim 
Affonço a não serem os homens com Francisco de 
Chaves, e João Ramalho com António Rodrigues em 
S. Vicente. 

Dizem alguns auctores que o roteiro seguido pelos 
oitenta homens de Fero Lobo, combina com aquelle 
seguido anteriormente por Aleixo Garcia; porém, ainda 
não encontrei cópia d'e8te roteiro. 



77 • 



Para o bem futuro do estabelecimento portuguez, 
que Martim Affonço estava fazendo em S Vicente, não 
convinha ter uma colónia hespanhola tão perto, ainda 
que fosse pequena, visto ser mais antiga e bem relacio- 
nada com os indigenas em redor ; e d*ahi as intimações 
para se reunirem em S. Vicente. 

Ao mesmo tempo estes hospanhoes, além dos bens 
adquiridos, tinham contra esta reunião as suas amiza- 
des com os indígenas e as suas antipathias de nacionali- 
dade, e não se sujeitariam de livre vontade a ir viver 
debaixo da bandeira portugueza. 

A prova da hostilidade entre o povo de S. Vicente 
e o de Iguape, consta existir em uma apostilha, como 
se vê d'uma dadiva de sesmaria concedida por Martim 
Affonço a Ruy Pinto, como tiimbem nos livros da Camará 
de S. Paulo, onde se diz que Ruy Pinto e Pêro de Góes 
estavam occupados em guerra com o povo de Iguape. 

Depois que Ruy Mosquera e seus companheiros sa- 
quearam a villa de S. Vicente, voltaram a Iguape, e 
sendo perseguidos {)elas forças de Pinto e Góes segui- 
ram para o Sul até á ilha de Santa Catharina. 

No dia 1 de setembro de 1534 Pedro de Mendoza 
partiu da Hespanha com quatorze navios, trazendo a 
seu bordo duas mil e seiscentas pessoas para colonisar 
as terras das margens do rio da Prata. Chegou n'este 
rio e fez reconhecer o lugar onde lançou os fundamen- 
tos da futura cidade de Buenos Ayres em princípios de 
1Õ35. Seguiu rio acima e depois de muita lucta com 
os indígenas, tendo-se-lhe escasseado os mantimentos e 
a seus companheiros, e estando elle mesmo bfistante 
doente, voltou para Buenos Ayres, mandando João de 
Ayolas seguir em ex[)loraç5es. 

Mendoza em quanto esteve em Buenos Ayres man- 
dou um navio ao Brasil á procura de viveres para os 



78 



seus companheiros, e depois, peiorando sua saúde, em- 
barcou em abril de 1537 para Hespanha, morrendo a 
botdo do navio em alto mar. 

João de Ayolas proseguiu suas explorações, em lucta 
sempre com os indigenas, chegando no dia 2 de feve- 
reiro de 1Õ37 em um porto a que deu o nome de Porto 
de Candelária. AUi deixou seus navios confiados aos 
cuidados de Domingos Martinez de Irala, com ordem de 
esperal-o seis mezes, entranhando-se com duzentos ho- 
mens nos sertões do Grande Chaco. 

Irala, esperando no porto de Candelária, recebeu os 
soi^corros, mandados buscar por Mendoza, do Brasil, e . 
que vieram em um navio commandado por João de Sa- 
lazar, com quem chegaram alguns hespanhoes vindos da 
ilha de Santa Catharina. Estes hespanhoes eram Ruy 
Mosquera e alguns de seus companheiros, que receiando 
os portuguezes de S. Vicente, aproveitaram a vinda 
do navio de Buenos Ayres para n'elle seguirem a re- 
unir-se com seus compatriotíJs no Rio da Prata. 

Em agosto de 1538, havendo certeza da morte de 
João de Ayolas pelos indigenas, Martinez de Irala foi 
acclamado chefe ; e, rcunindo-se á sua gente, edificou a 
villa de Assumpção, segurando-a o melhor possivel con- 
tra os ataques dos selvagens. 

Sabendo-se em Hespanha da morte de Ayolas, foi 
nomeado D. Alvares Nunes Cabeza de Vaca para go- 
vernador das possessões hespanholas no Rio da Prata, 
partindo elle de San Lucar de Barrameda no dia 2 de 
novembro de 1540, e chegando á ilha de Santa Catha- 
rina no dia 29 de abril de 1541 . Tendo perdido dous 
de seus navios, resolveu ir com piu*te da sua gente por 
terra até Assumpção, onde chegou no dia 11 de março 
de 1542 e nomeou Irala seu ajudante e mandou-o ex- 
plorar um caminho para o Peru. 



79 



Subiram o rio acima noventa hespanhoes e maior 
numero de indigenas até á lagoa Yaiha, a qual Irala deu 
o nome de Vorto dos Reis, por ter chegado alii no dia 
6 de janeiro de 1543; e seguindo viagem durante quatro 
dias para o lado do Oeste, foram obrigados a voltar d*alli. 

No dia 26 de abril de 1544 D. Alvares Nunes foi 
deposto pelos seus ofRciaes insubordinados, sendo eleito 
chefe pela segunda vez Domingos Martinez de Irala. 
Este em 1548, chegando aos confins do Perií, depois de 
suas explorações, mandou uma deputação composta de 
Ruy Mosquera, Miguel de Rutia, Nuflo de C'haves, Pe- 
dro d'Oniate e mais companheiros á cidade de Lima, 
para comprimentar o Vice Rei Padre Pedro de la Gasca. 

Em 1549 tendo havido divergências e insubordina- 
ções entre os hespanhoes, foi eleito governador Diogo 
Abreu; mas Irala, chegando outra vez a conquistar o 
poder, procedeu rigorosamente contra os seus adversá- 
rios. Diogo Abreu foi morto, e um dos seus compa- 
nheiros Ruy Dias Melgarejo, preso; porém Irala forne- 
ceu-lhe meios de escapar para o Brasil, seguindo por 
terra de As8um{>ção á ilha de Santa ( -atharina com mais 
companheiros, entre os quaes Ruy Mosquera 

Em 1552 partiu João de Salazar, de Hespanha, com 
três navios, [)erdendo um na costa do Brasil a 26 gráos 
de latitude Sul e (Vahi resolveu voltar ao Norte até S. Vi- 
cente, onde demorou-se algum tempo. Salazar, resol- 
vendo mais tíu^de ir para Assumpção, seguiu Y>ara a ilha 
de Santa Catharina, e dahi por terra em com{)anhia de 
Melgarejo e Mosquera, que eram amigos inseparáveis, e 
outras })essoas, chegando em principios de 1 555 em Assum- 
pção. Alguns dos companheiros de Salazar, não querendo 
seguir em sua companhia por terra, ficaram debaixo das 
ordens de Fernando de Trejo, resolvidos a fundar a colónia 
de S. Francisco, perto da ilha de Santa Catharbia. 



80 



Os dous, Ruy Dias Melgarejo e Ruy Grarcia de 
Mosquera, durante alguns annos, serviram ao governo 
estabelecido no Rio da Prata, occupando posições de con- 
fiança, çommandando tropas para castigar os indigenas 
e conter os portuguezes no Brasil em suas invasões. 

Melgarejo e Mosquera, depois da morte de Irala, 
continuaram a servir aos governadores : Gonçalo de Men- 
doza, Francisco Ortiz de Vergara, João Ortiz de Zarate 
e Martim Soares de Toledo. 

Por ordem d'esto ultimo foi preso Philippe de Cár- 
ceres e entregue a Melgarejo com ordens de vonduzil-o 
á Çuropa; partindo a bordo d'um navio em 1573, en- 
contraram mau tempo e tiveram de arribar ao porto 
de S. Vicente, onde n'e8ta occasião estava Joáo Ortiz 
de Zarate que tinha vindo da Europa para reassumir 
o governo das colónias hespanholas. 

Melgarejo ahi resolveu entregar o seu f)risioneiro a 
outras pessoas para conduzil-o á Euroi)a, voltando cora 
Zarate para o Paraguay, onde prestou bastante serviço, 
edificando no anuo de 1576 a cidade da Villa Rica do 
Espirito Santo. 

Ruy Mosquera, que acompanhara Melgarejo até 
S. Vicente, resolveu voltar a Iguapc, e consta por tra- 
dição que elle foi enterrado debaixo do arco cruzeiro da 
antiga egreja de Nossa Senhora das Neves de Igu^)e. 



Documentos que existem em Iguape e o que consta 
a respeito da sua antiguidade 

Os livros mais antigos que encontrei em Iguape re- 
montam somente ao anno de 1677, estando alguns no 
cartório e outros nos Archivos da Gamara Municipal. 



81 



Dos livros que pertencem á egreja, o mais velho é do 
anno 1762, o dos assentos de baptismos, e um outro 
rubricado em 10 de agosto de 1768 por António José 
d' Abreu, para Registro das Pastoraes e dos Capítulos 
das Visitas. 

Ha no cartório alguns autos velhos, que, por estarem 
estragados, tonia-se difficil a sua leitura e entre os quaes 
encontrei uma carta particular datada de 26 de outu- 
bro de 1636 com endereço á villa de Nossa Senhora 
das Neves; copiada fielmente acompanha este resumo 
com o titulo de documento n.® 1. 

N'um livro de notas ha um traslado de carta de ses- 
maria, que foi dado em 8 de dezembro de 1637 (Documento 
n.** 2) ao capitão Francisco de Pontes Vidal, morador na 
villa de Nossa Senhora das Neves de Iguape, provando 
que antes d'esta data haviam sido dadas outras sesma- 
rias, e que esta povoação n'aquella epocha era conhecida 
pelo nome de villa. 

No meio dos autos velhos citados, ha parte d' um 
do anno de 1655 e d*onde, ainda que bastante rasgado 
e cortado pelos bichas, copiei o que foi possível decifrar 
em virtude do valor e referencia ás minas de' ouro que 
cita: de Ivuporanduba, Iporanga, Apiahy e Sorocaba, 
como se pôde verificar pelo documento n.® 3. 

No livro de notas mencionado ha um traslado d'uma 
certidão passada pela Camará de Iguape em 20 de de- 
zembro de 1560 (Documento n.® 4) que prova a mudança 
da villa e a existência d 'uma outra muitos annos antes 
d'esta epocha, como também se refere ao mesmo capitão 
que figura no documento n.® 3. N*este mesmo Uvro ha 
documentos comprobatórios de que em Lisboa, antes 
do anno 1673, sabiam da existência de minas de ouro 
n'esta parte do littoral do Brasil. (Documento n.** 5). 
Nas Memorias Históricas do Bio de Janeiro, por 

6 



82 



Mons. Pizarro, náo encontrei menção de Thomé de 
Sousa Corrêa, provedor e ouvidor da Fazenda Real e 
administrador das minas da repartição do Sul; com- 
tudo, no referido livro de Notas ha diversos officios 
dirigidos por elle a diversas auctoridades em Iguape 
durante os annos de 1677 a 1679 e outros (depois de 
terem servido outras pessoas n'este cargo no Rio de Ja- 
neiro) no anno de 1683, quando elle foi reintegrado 
por oi-dem de Sua Magestade. Para prova d'isto vão 
os documentos n.<** 6 e 7. 

Também existem no cartório e no Archivo da Ca- 
mará, livros pertencentes ás officinas, dando a entrada 
e sahida do rendimento dos impostos pagos como quin- 
tos reaes; mas estes 1í\tos estão arruinados de tal 
forma, que torna-se impossível fazer uma relação exa- 
cta da quantidade de ouro lavrado; porém, devia ter 
sido considerável, segundo diversos assentos e recibos 
que ainda se podem decifrar e entre elles um, passado 
em 7 de junho do 1667, por seiscentos e vinte e nove 
oitavas de ouro remettidas ao Príncipe Real. 

Nos Annaes do Rio de Janeiro, volume ii, pagina 
205, consta que Pedro de Sousa Pereira, administrador 
geral das minas, estando em Iguape no dia -30* de 
abril de 1653, dirigiu um officio aos officiaes da Ca- 
mará de S. Paulo, ordenando que fizessem descer as três 
aldeãs do Real Padroado, necessitando d'este povo para 
o serviço das minas, provando assim o valor que eUe 
achou nas de Iguape. 

Existe um livro pertencente á Camará de Iguape, 
rubricado no dia 22 de outubro de 1785, para o fira 
de serem lançados n'elle os acontecimensos notáveis an- 
teriores áquella data e annualmente deimis. N*este livro 
consta que Pedro de Unhão Castello Branco, correge- 
dor d 'esta villa, em vista da destruição em que achou 



83 



toáos 08 seus papeis mandou queimal-os ; mas nâo 
consta em que anno foi isto. No livro das Notas, no 
cartório, ha cópia d'um ofRcio dirigido ao provedor das 
minas da villa de Iguape, por Pedro de Sousa Pereira, 
provedor e ouvidor geraJ do Rio de Janeiro, com data 
de 12 de novembro de 1678, em cujo officio falla-se 
d'um tal Pedro Unhão Castello Branco, como ouvidor 
geral em 1676 d'esta capitania, da qual fazia parte a 
villa de Iguape. Este officio prova a existência em 
Í676 do dito Pedro Unhão Castello Branco, e não en- 
contrando livros n'e8te cartório com data anterior a 
1677, posso julgar verídico o facto citado de ter elle 
mandado queimar os papeis (Documento n.® 10) e por 
causa d'isto, tirei cópia do resto do dito officio em do- 
cumento n.** 8. 

No Registro das Pastoraes a folhas 67 e seguintes, 
com a data de 13 de abril de 1825, assignado por Ma- 
nuel Joaquim Gonçalves d' Andrade, se encontra a cópia 
duma circular do Reverendo Vigário Capitular do Bis- 
pado, pedindo informações a respeito da fundação, ex- 
tensão e outros dados d' esta villa, cuja circular foi res- 
pondida pelo Reverendo Vigário João Chrysostomo d' Oli- 
veira Salgado Bueno. D'e8ta informação copiei diversos 
trechos conforme documento n.« 9, provando a existência 
dum Livro do Tombo da egreja de Nossa Senhora das 
Neves de Iguape, que remontava ao anno de 1577, cujo 
livro me disse o Reverendo Cónego Scipião Junqueira, Vi- 
gário de Campinas, ter elle mesmo visto muitíssimas vezes. 

No hvro aberto pela Camará em 1785, consta que 
por ordem do Reverendo D. Bernardo Rodrigues, 
Bispo desta Diocese,, foi rubricado um novo livi'o de 
Tombo em 1 725, pelo Vigário collado d'esta villa, An- 
tónio Ribeiro, como se verá pelo documento n.*' 10; porém 
çste livro do Tombo não pude ainda encontrar. 



84 



O unicó Livro do Tombo d'e8ta egreja, que existe 
n'ella hoje, foi rubricado em 8 de agosto de 1816. N'este 
ha no começo uma descripção semelhante á do do- 
cumento n.® 9 e ha uma noticia da fundação d' uma 
vUla entre Iguape e Cananéa (Documento n.<* 11); porém 
ha um pequeno equivoco em relação á data, como é fácil 
provar por um Uvro da Camará de Iguape, folhas 7, 
onde ha termo da nomeação e estabelecimento da nova 
povoação de Nossa Senhora da Conceição da Lage de 
Sabauna, em 7 de janeiro de 1767. 

Além d*este, existe no Archivo da Camará de Iguape 
uin livro aberto por Christovão Peniche França no dia 
1 de agosto de 1770 para servir á nova villa de Nossa 
Senhora da Conceição da Marinha. N*este livro a folhas 
3, ha o auto da erecção e estabelecimento da nova villa, 
na freguezia de Nossa Senhora da Conceição da Lage 
de Sabauna. Ha o termo da repartição do districto 
da nova villa com as divisas entre esta e as de Iguape 
e Cananéa ; como também da demarcação do lugar de- 
stinado ao Património e auto da nomeação das auctorida- 
des, todos com a data de 1 de agosto de 1770. No 
mesmo livro existem diversos termos lançados em dif- 
ferentes datas, sendo o ultimo o da eleição das auctori- 
dades que deviam ter servido durante o anno de 1776, 
ficando o resto do livro em branco, sem declaração al- 
guma a respeito da extincção d'aquella villa. 

A descripção do apparecimento da imagem do Se- 
nhor Bom Jesus (Documento n.<* 12) mandada escrever pelo 
Reverendo Padre Christovão da Costa e OUveira em 1730, 
existe na igreja Matriz como também uma cópia tran- 
scripta no Livro do Tombo. 

O documento n.^ 13 é a cópia da provisão do Padre 
Bernardo Sanches, e é a noticia mais velha que existe 
aqui em relação ao pessoal ecclesiastico d'esta villa. 



86 



Pelo documento n.^ 14 verifica-se que em 1691 foi 
nomeado o Reverendo Padre Frei António d' Assumpção 
como capellão das minas de ouro, ainda que nao ficasse 
declarado o lugar da capella ; mas não duvido em vista 
das tradições, que fosse nas minas de Ivuporaniduba, 
onde existe uma pequena capella que remonta a uma 
epocha antiga. 

Consta que logo depois do apparecimento da imagem 
do Senhor do Bom Jesus em 1647, foi construída uma 
ermida ao lado da pedra onde foi coUoçada a imagem 
para lavar, em cuja ermida viveu durante muitos an- 
nos um homem que tinha dotado a irmandade com to- 
dos os seus bens, e ahi elle era sustentado á custa das 
esmolas dadas pelos romeiros que visitavam a dita 
pedra, á qual até hoje dão grande apreço, consideran- 
do-a como milagrosa. 

Não ha um único documento em que possa ser ba- 
seada esta tradição, sináo em alguns autos onde figura 
Manuel Corrêa de Sousa como ermitão e procurador 
da irmandade do Senhor Bom Jesus, citando diversas 
pessoas que deixam de contribuir com seus annuaes. 
Parece que si fosse verdadeira a existência d' esta er- 
mida, o Reverendo Vigário João Chrysostomo daria 
alguma noticia em sua informação, tanto mais que elle 
fez adescripçáo da referida pedra. (Documento n.** 15). A 
casa citada por elle está collocada sobre a tal pedra mila- 
grosa, de forma a conserval-a dos malfeitores, e coberta 
a maior parte de tempo pela agua da fonte, que entra 
e sae por uns pequenos registros. 

No hvro dos acontecimentos notáveis ha referencias 
ao grande numero de navios construídos aqui em Iguape, 
desde os tempos mais remotos, como também ha uma 
noticia em relação á plantação de café em 1806 (Do- 
coniento n.<* 16); porém esta lavoura foi começada muitos 



â6 



annos antes, como verifiquei em cartas de sesmarias que 
fazem menção de uma divisa ao pé de um cafezal 
grande. 

Antes do anno 1815 houve divergências entre os mo- 
radores do rio Juquiá e seus afíiuentes e o Vigário à» 
Xiririca, cuja freguezia pertence ao districto d'aquelle 
rio, como é fácil provar por diversos documentos, entre 
«lies petições do povo ao Bispo, para este conceder li- 
cença afim de serem considerados como freguezes da 
vUla de Iguape; e no dia 8 de março de 1515 foi 
aquelle districto desmembrado de Xiririca e annexado 
a Iguape. 

Esta villa foi elevada a cidade pela lei n.*» 17 de 3 
de abril de 1848 com o nome de cidade do Bom Je- 
9US da Ribeira ; mas, no anno seguinte por lei n,° 3 de 
3 de maio, foi modificado o nome, ficando como cidade 
do Bom Jesus de Iguape. 



Edificação das egrejas da villa de Iguape 

A primeira egreja edificada em Iguape, conforme 
o que se pôde colligir dos livros e papeis existentes, foi 
n'um lugar, conhecido hoje pelo nome Villa Velha, de- 
fronte da barra de Icapara, edificação que deve datar de 
1577, epocha em que foi aberto o primeiro Livro do 
Tombo. 

A respeito da existência d'este Livro do. Tombo, não 
concordo com a noticia dada pela Camará no anno 1787, 
transcripta no documento n.** 10, onde diz: «não se acha 
este livro entre os mais antigos, talvez por ser com- 
préhendido no incêndio que antigamente houve na casa 
do Reverendo António Carvalho d*01iveira»; esta sup- 



87 



posição nao tem fundamento pelo facto do Reverendo 
João Chrysostomo transcrever diversos trechos d' este 
mesmo livro no anno de 1825. Mais tarde o Reverendo 
António Carneiro da Silva Braga, em uma informação 
dada ao Bispo em 1857, ainda fez menção do referido 
livro. 

Pelo documento n.** 17 torna-se impossivel qualquer 
dúvida a respeito do lugar onde existiu a primeira po- 
voação; como também parece provável que esta era 
conhecida pelo nome de VUla desde o seu começo, ou 
pelo menos desde o tempo em que foi construída a pri- 
meira egreja. 

Quem conhece esta localidade concordará que ella 
não possue as qualidades requeridas para o estabeleci- 
mento d' uma povoação grande, ainda que offereça certas 
vantagens pela proximidade da barra, por ser situada 
em terreno fértil, com agua potável, vertendo d' um pe- 
queno monte ao pé do qual foi coUocada a povoação; 
porém ha ao mesmo tempo a desvantagem de ser 
pequena a planicie e muito açoitada pelos ventos do 
.Leste e Sud'este, que são os que mais reinam em tal 
localidade. 

Com a communicação, que naturalmente havia por 
canoas, entre ò povo de Iguape e o de Cananéa, era 
impossivel ficar desconhecida a planicie, onde hoje 
existe a cidade de Iguape e sobre a qual Francisco Al- 
vares Marinho estabeleceu a sua fazenda. ^ 

Este homem provavelmente pela vontade de ver pró- 
ximo á sua fazenda uma povoação, para assim ter seu 
estabelecimento mais seguro contra os malfeitores, con- 
correu para a mudança da villa, como consta do do- 
cumento n.<* 4; cuja mudança dcAia ter sido de 1620 a 
1625, conforme se deduz da leitura do documento n.** 9. 
Ao mesmo tempo as melhores commodidades offereci- 



Ô8 



das á povoação e a facilidade de transporte entre o 
Mar-pequeno.e o Rio Ribeira, concorreram também no 
animo do povo para a escolha doeste lugar para a con- 
strucção da nova villa de Iguape. 

A egreja de Nossa Senhora das Neves, edificada n*esta 
localidade, foi construída de pedra e cal, estando os seus 
alicerces conservados até hoje, formando agora a base de 
um gradil, cercando um pequeno jardim feito sobre o 
terreno occupado pela antiga egreja. A descripçao d'esta 
egreja vae transcripta do Livro do Tombo, em documento 
n.o 18. 

• A egreja de Nossa Senhora da Conceição, edificada 
na povoação dá Lage de Sabauna em 1767, parece-me 
que foi abandonada em 1776, não podendo dar uma 
descripçao d'ella por falta de esclarecimentos a respeito. 

Encontrei um assento no hvro das visitas (Documento 
n.** 19) escripto em 1778, reclamando contra o descuido 
q\ie havia em alguns lugares pela falta dos assentos nos 
competentes livros, dizendo que não havia esta negli- 
gencia em Iguape ; porém está provado o contrario pela 
fa)ta de noticias com relação á dita egreja de Nossa Se- 
nhora da Conceição que devia existir ainda n'e8te 
tempo. 

Antigamente havia n'um lugar chamado Praia da 
Juréa, distante d'esta villa mais ou menos trinta kilo- 
metros, uma pequena ermida, construída de madeira e 
dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe. Esta ermida 
foi demoUda *e edificada uma que ainda existe de pedra 
e cfd ; mas não consta em que epocha foi esta construída, 
somente con^e que em 1816 já era muitíssimo velha. 

A matriz,, que existe hoje na cidade de Iguape, é um 
edificio grande, de construcção simples, porém muitíssimo 
solida ; os seus immensos alicerces, paredes e torres são 
de granito, tirado dos morros que cercam a planície onde 



89 



está coUocada a cidade, pelo lado do Nord'este. Não 
consta ao certo dos livros da egreja ou da Camará, em 
que anno foi principiada esta obra. Encontrei, porém, 
em alguns papeis particulares uma declaração a respeito 
doesta matriz, onde diz que foi começada em 1780 e 
que as suas plantas foram encommendadas no Rio de 
Janeiro, custando duzentos mil réis. 

Julgo que a obra foi começada em 1787, mais ou 
menos, em vista do documento n.® 20, e também pelo 
facto de ter encontrado no cartório entre papeis perten- 
centes ao anno 1788, algumas listas constando de vinte 
nomes, declarando serem estes de moradores de certos 
bairros, cujas listas vêm confirmar a noticia dada no Livro 
do Tombo, transcripta em documento n.^ 18 e a seguinte 
historia copiada fielmente d'uma descripção feita ha an- 
nos pelo Reverendo António Carneiro da Silva Braga e 
reraettida ao Bispo de S. Paulo: ^A Gamara concedeu 
tpara constmcção da nova Matriz e cemitério contíguo, 
tuma grande extensão de terreno atroz da velha Matriz, 
nnduso o local da Cadeia^ a qual foi depois demollida para 
^se poder continuar com a obra, Deu-se principio a esta, 
^trabalhando voluntária e gratuitamente todo o Povo do 
^Município e apenas se dava a cada trabalhador 80 rs. 
tpara seu sustento diário. Cada bairro fornecia semanal-^ 
emente vinte trabalhadores. A pedra tirada na face ma-^ 
^ritima da tnsinha montanha, era conduzida em canoas e 
^depositada na praia vizinha á obra. Nos Domingos e 
^Dias Santos, depois da Missa conventual dirigiãose 
ti aqudla praia o Reverendo Vigário, oshomes notáveis do 
^Paiz, e todo o Povo, que assistia á Missa, homens, mu- 
lheres e meninos. Era o Reverendo Vigário o primeiro 
ui carregar uma pedra e ir deposital-a no logar da obra, 
,^exemplo que todos seguirão, e trabalho, em que gastavão 
tduas horas. As pedras de dimensões tão grandes, que 



90 



«náo cahiÃo em canoas^ erão transportadas em carros. As- 
*sim se aceumulou ahi uma en&rme quantidade de pedras. 
^Os alicerces de vinte palmos de profundidade e duze 
«<fe largura forão abertos e trabalhados pdo Povo, pa- 
<tgando-se jo}*naes tão somente ao Mestre pedreiro e seus 
<i^o^ffÍ€Íaes.* 

No anno 1798, conforme se vê pelo documento n.*» 
21, estava a obra em adiantamento, ainda que vaga- 
roso, parecendo que em 1800 pararam com os tra- 
balhos. 

Entre 1816 e 1821 foi mandado apromptar em Santos 
grande quantidade de cantaria, que veiu numerada para 
ser assentada nos lugares competentes. 

{]m 1822 foram contractados no Rio de Janeiro um 
mestre e três canteiros, e em agosto do mesmo anno 
recomeçou-se a obra, ajudada pelo povo como d' antes, 
trabalhando gratuitamente. 

O Reverendo Vigário, auxiliado pelos sargentos-mó- 
res Bento Pupo de Gouvêa e Bartholomeu da Costa 
Almeida e Cruz, fizeram uma subscripção onde assigna- 
ram, entre muitas outras pessoas, o dito Bartholomeu 
da Costa a quantia de um conto de réis para ser en- 
tregue em dez prestações de cem mil réis annualmente, 
e o capitáo-mór José António Peniche prometteu con- 
correr com a telha necessária para cobrir o edifício; 
mas, por seu fallecimento, sua viuva e filhos remiram a 
promessa, dando para a obra um conto e duzentos mil 
réis em dinjieiro. 

A irmandade do Senhor Bom Jesus, além de mui- 
tas esmolas, entrou com o capital que havia em caixa 
na importância de quinhentos e noventa e quatro mil 
e duzentos réis, e jx)r fim esta obra foi auxiliada pelo 
Governo como se verifica pelas leis n.^ 20 de 30 d,e 
março de 1838; n.<» 11 de 23 de março de 1844; n.« 3ô 



91 



de 15 de março de 1845; n.^ 24 de 2 de julho de 1850; 
n.*> 10 de 7 de março de 1851 e n.^ 18 de 2 de maio de 
1853. Pela lei n.^ 27 de 8 de março de 1842 concedeu 
a Assembléa uma loteria de dez contos de réis por dez 
annos; *e pela n.® 13 de 17 de julho de 1852 foi conce- 
dida a metade da receita proveniente da contribuição 
do canal, que era vinte réis por alqueire de arroz ex- 
portado para fora do município de Iguape. 

D'e8ta forma conseguiram a conclusão da Matriz, em 
estado de receber a benção no dia 27 de julho de 1856, 
e no dia 8 de agosto do mesmo anno foram traslada- 
das com grandes festividades as imagens da velha Ma- 
triz para a nova. 

Até esta data a Matriz de Iguape estava sob a in- 
vocação de Nossa Senhora das Neves; mas, suscitan- 
do-se uma questão a respeito da nova Matriz, foi por 
lei n.° 11 de 3 de março de 1858 declarado que a Ma- 
triz d'esta parochia ficava sobre a invocação do Senhor 
Bom Jesus de Iguape. 

Em 1800, mais ou menos, as irmandades de Nossa 
Senhora do Rosário e de S. Benedito, começaram a 
edificação de uma capella, que depois de estar com os 
alicerces começados foram removidos do lugar onde se 
achavam para o local onde hoje existe a capella de 
Nossa Senhora do Rosário. Por falta absoluta de re- 
cursos d'estas irmandades, esta obra levou muitos annos 
em construcção, e somente no dia 6 de março de 1841 
foi benta e no dia seguinte trasladadas as imagens de 
Nossa Senhora do Rosário e de S. Benedito da egreja 
Matriz para aquella capella. 

A irmandade de S. Benedito, reunida no dia 5 de 
outubro de 1881, resolveu começar a edificiujão de uma 
outra capella, que recebeu a benção em 1888. 



"n 



92 



Terras pertencentes à municipalidade e património 
das egrejasi irmandades, etc. 

Nfto encontrei documento que declarasse a quanti- 
dade de terras dadas por Francisco Alvares Marinho, 
para o estabelecimento da villa de Iguape, no lugar 
onde existe a cidade, nem de outras dadivas posterio- 
res para augmental-a; consta, porém, que as terras hoje 
pertencentes á municipalidade, não foram dadas por uma 
só pessoa, mas sim por diversas e até uma parte foi 
concedida por lei do Governo. 

O terreno da cidade e arredores actualmente é pe- 
queno, tendo de frente sobre o Mar-pequeno dois mil 
e oitocentos metros por mil metras de fundo mais ou 
menos, como se pôde verificar pelo mappa das sesma- 
rias antigas que acompanha este resumo organisado 
segundo plantas locaes e documentos antigos encontrados 
em Iguape. 

Em relação ao terreno da cidade encontrei n'iim 
livro antigo da Camará, alguns termos de aforamento 
de terras, e entre elles dous termos de duzentas braças 
de frente cada um, além de diversos lotes menores. 
Não posso saber ainda em que parte ficam estas terras 
e nas immediaçôes actuaes não ha extensão sufficiente 
para comportar a quantidade de terras aforadas. 

Todo o terreno ao Norte da cidade até ao porto da 
Ribeira, que era incluido na sesmaria de Francisco Al- 
vares Marinho, hoje está dividido em pequenos lotes, 
pertencendo a vários particulares. 

A respeito do património da egreja do Senhor Bom 
Jesus de Iguape, ainda não encontrei um documento 
que me esclarecesse a respeito da sua proveniência, 
constando actualmente de algumas casas e terrenos na 
cidade, deixados em legados, mas sem que se possa 



98 



dizer com certeza em que epocha e por quem foram 
dotados. 

O único documento, que achei de doação feita á 
egreja, é condicional conforme documento n.® 22, e não 
posso saber si a concessão pedida pelo doador o Reve- 
rendo Padre António Ricciardelli, teve despacho favorá- 
vel ou náo. 

Existem alguns sitios perto da cidade, que, pela 
voz do povo, pertencem á irmandade das Almas, mas 
este consta é falso, como é fácil ver pelos documentos 
existentes. No bairro chamado Enseada, ha um sitio 
que consta ser d*esta irmandade; porém encontrei um 
traslado de escriptura de arrendamento do dito sitio, em 
um livro especial, rubricado por António Militáo de Sousa 
Aimberé, juiz de direito d'esta comarca em 1848, onde 
diz que o Reverendo Padre Francisco Pereira da Silva 
em 1685 deixou este sitio arrendado, com a condição de 
sua renda annual ser applicada a um certo e determi- 
nado numero de missas. Declarou mais que em falta 
de testamenteiros deviam os Reverendos Vigários tomar^ 
a seu cargo o serviço de arrendamento, dando prefe- 
rencia sempre a certas familias nomeadas pelo dito 
Padre Pereira da Silva. Como este traslado é um titulo 
de propriedade e não menciona irmandade alguma, não 
pôde este sitio pertencer sinão á egreja matriz, onde 
deve ser pago o arrendamento. Vae copiado o referido 
traslado em documento n.** 23. 

Existe um outro sitio no mesmo bairro, e um no 
Porto da Ribeira, em condições idênticas, cano parece 
pela leitura d um assento no Livro do Tombo, conforme 
se vê em documento u,^ 24. 

O património da ermida de Nossa Senliora de Iguape 
é cento e cincoenta braças de terras, conforme documento 
n.*> 25, copiado do Livro do Tombo; mas não esclarece 



94 



a epocha da compra de cem braças de terras, e não 
posso encontrar documento que prove o tempo em qtie 
existia a Dona Rachel de Sousa, que vendeu as refe- 
ridas cem braças de terras. 

. As irmandades de S. Benedito e de Nossa Senhora 
do Rosário tiveram ambas algumas casas, as quaes fo- 
ram vendidas para com seu producto auxiliar a edifica- 
çáo da capella de Nossa Senhora do Rosário. 

A do Santissimo Sacramento não possue património 
algum, constando, porém, ter sido a mais rica de todas 
as irmandades de Iguape, ao mesmo tempo, que ella 
existe desde a edificação da antiga egreja defronte á 
barra de Icapara. Encontrei um livro d' esta irmandade 
com os termos de entradas dos irmãos durante os annos 
1774 a 1851 eas listas dos empregados eleitos cada 
anno durante este tempo. N'este livro ha assentos co- 
piados de um mais velho, constando de trinta e uma 
pessoas que tinham entrado na irmandade anteriormente 
á abertura do mesmo livro, as quaes ainda eram vivas, 
como um tal Manuel Pereira de Faria que entrou em 
1729 e falleceu em 1808. 



Deducções em vista dos documentos e tradições 

Nos primeiros annos da descoberta e exploração da 
costa do Brasil, havia naturalmente alguma confusão a 
respeito dos nomes dados ás localidades, onde os diversos 
navegantes aportaram, causada em parte pela difficul- 
dade que houve de transmittir noticias d'uma nação a 
outra e em parte por causa dos erros nas observações 
astronómicas, naturaes d'aquella epocha, por causa dos 
instrumentos em uso; comtudo está provado que desde 



95 



as primeiras viagens um lugar chamado Rio de Cana- 
néa era conhecido e demarcado nos mappas com uma 
approximação admirável, enganando-se somente os au- 
ctores em considerar um rio o que em verdade é um braço 
do. mar. 

Por causa de erros das coordenadas, não podemos 
considerar 23 J gráos Sul a latitude exacta do lugar 
chamado Rio dos Innocentes por Vicente lanez Pinzão 
e Juan de Solis, onde perderam sete castelhanos, e com 
o mesmo nome o lugar onde Diogo Garcia encontrou 
um bacharel portuguez que lhe forneceu mantimentos e 
um genro seu para servir de interprete ; factos que fa- 
zem crer que o , Rio dos Innocenfes e Rio de Cananéa 
eram simplesmente differentes nomes dados a um só 
lugar pelos navegantes portuguezes e hespanhoes, que 
tinham visitado esta parte da costa do Brasil. 

Ha bastante dúvida a respeito do nome do comman- 
dante da flotilha occupada em explorações .no anno de 
1502, não se sabe si era Christovao Jaques, Alonço de 
Hojeda ou Gonçalo Coelho; porém todos os auctores 
concordam em relatar o facto como tendo-se, por ordem 
d'este commandante, deixado em terra, em um porto 
fora do Trópico de Capricórnio, um bacharel desterrado, 
deixando-se de citar o nome d'este homem que tor- 
nou se tão importante á historia deste paiz, e que pres- 
tou tão relevantes serviços aos navegantes europeus, 
fomecendo-lhes os mantimentos precisos e facultando- 
Ihes os meios de entreter relações amigáveis com os 
indígenas que habitavam este paiz. 

No Diário de Navegação, escripto por Fero Lopes de 
Sousa, está demonstrado claramente que havia n'aquella 
epocha noticias mais ou menos exactas a respeito da 
posição e configuração da Ilha do Abrigo, que os nave- 
gantes chamavam Cananéa; como também de ter sido 



96 



deixado n'este lugar um bacharel desterrado. Diz Pêro 
Lopes: ^Reconhecemos ser a ilha de Cananéa.» Isto, 
antes dos navegantes darem fundo a seus navios n'este 
porto, prova positivamente a exactidão das informações 
que elles possuiam a respeito da topographia do lugar. 
Mais adiante elle diz : « Veio Pedro Annes Piloto no bar- 
gantim e com elle veio Francisco Chaí>es e o bachar^», 
parecendo por estas palavras que Martim Affonço e 
seus companheiros conheciam a existência d*este bacha- 
rel ahi e que esperavam encontrar-se cora elle. 

Consta, por tradição em Iguape, que em tempos re- 
motos um bacharel desterrado estabeleceu-se ao pé d'um 
pequeno monte situado em frente á barra de Icapara, 
sobre cujo monte elle levava dias inteiros assentado 
olhando para o lado do mar, até que chegaram mais 
alguns homens náufragos d'um bote, com os quaes elle 
formou o núcleo da. antiga villa de Iguape. 

Esta tradição não pôde ser desprezada, visto as com- 
binações que offerece com certos factos históricos, e ainda 
mais por causa do nome do dito monte que se pôde ve- 
rificar pelo documento n.« 17, o que prova que era conhe- 
cido pelo nome de Outeiro do Bacharel. 

Tomando outra vez ao diário de Pêro Lopes vê-se 
que elle diz: «^Por eMe rio arriba mandou Capitam J. 
hum bargantim; e a Pedro Annes Piloto.^ 

Notando a configuração d'este braço do mar, que 
êlleâ chamavam rio, parece natural concluir-se que a 
direcção seguida por esta embarcação fosse ao lado de 
Iguape, d' onde voltou levando a bordo as pessoas ci- 
tadas. 

Em relação á morte dos oitenta homens que Mar- 
tim Affonço deixou n'este porto com Francisco Chaves 
para irem procurar ouro e prata, a maior parte dos 
auctores declaram que estes homens foram mortos pelos 



97 



indigenas, próximo ao lugar onde hoje está situada a 
cidade de Curityba. Creio que, si nós pudéssemos ve- 
rificar com exactidão este facto, ficaria provado que o 
lugar onde se deram os assassinatos foi nas proximi- 
dades das minas de Ivuporanduba ou de Iporanga, am- 
bas perto do rio Ribeira de Iguape. A configuração 
do terreno d'esta parte do littoral, combinando com a 
prova do lugar onde morava o bacharel, que parece ter 
vivido junto com Francisco Chaves e os outros caste- 
lhanos, formam certas bases em favor d'esta hypothese. 
É natural concluir-se que, durante os trinta annos em 
que o bacharel, e os vinte e três annos em que os cas- 
telhanos ficaram n'este lugar, todos haviam tido rela- 
ções as mais amigáveis com os indigenas, que conhe- 
ciam perfeitamente as minas nas margens do rio 
Ribeira; além do que, ainda ha uma outra circumstancia 
em favor da minha supposição, que é a seguinte: — En- 
tre as minas de ouro exploradtis antigamente, como é 
^acil provar por documentos, havia as de Ivuporanduba, 
Iporanga e Apiahy, e ao mesmo tempo existe entre 
Ivuporanduba e Iporanga grandes jazidas de Galena 
Argentifera, d'onde já foram tiradas, por vezes, amos- 
tras bastante ricas em prata, mineral que Francisco 
Chaves informou a Marti m Affonço haver igualmente 
com o ouro. Além d'oste facto ha outro, que é o nome 
d'um rio chamado dos Mmios, braço do rio dos Pilões, 
que fica próximo ás minas de Ivuporanduba; con- 
stando por tradição que o dito nome foi dado por causa 
de terem sido assassinados n'este lugar muitos homens 
brancos pelos indigenas. 

Si o ponto da partida dos oitenta homens fosse o 
Outeiro do Bacharel, ou outro qualquer lugar das mar- 
gens do Mar-pequeno, tomava-se mais fácil o conheci- 
mento para os moradores d'ahi deis minas de ouro de 

7 



^; ■■:.•>. 



Ivuporanduba e Apiahy e as jazidas de Galena Argeur 
ifera de Iporanga, do que qualquer mina do terreno 
inculto no lugar citado pelos auctores antigos. 

Baseado no conhecimento da zona a percorrer do 
Mar-pequeno em procura de ambos os lugares, Ribeira 
e Curityba, não duvido que o lugar do assassinato fosse 
em terreno circumvizinho das minas do rio Ribeira. 
Comtudo, si o lugar na verdade fosse na proximidade 
de Curityba, nem assim poderia deixar de pensar que o 
roteiro seguido pelos homens de Martim Affonço era 
subindo o rio Ribeira até Iporanga e d'ahi pelos rios 
Pardo e Capivary, em lugar de ser pelo lado de Para- - 
naguá, onde encontrariam, n*aquella epocha, difficulda- 
des enormes para vencer na passagem das serras escar- 
y)adas, que, começando na Itapitanguy, continuam até 
á serra do Espigão, que separa o Estado de Paraná do 
de Santa Catharina. 

A facilidade de transporte offerecida pelos rios e a 
probabilidade de serem as minas da Ribeira conhecidas 
pelos homens estabelecidos nas margens do Mar-pequeno, 
verifica-se pelo mappa d'esta zona que acompanha este 
resumo. 

Não duvido que o roteiro seguido pelos infelizes 
exploradores de Martim Affonço, fosse o mesmo seguido 
anteriormente por Aleixo Garcia e seus companheiros, 
porque acredito que estes fossem algims dos homens 
deixados por Juan de Sol is n'esta costa e companheiros 
de Francisco Chaves, como fica dito na pagina 76 d'e8te 
resumo. Não posso acceitar todos os escriptos em re- 
lação a Aleixo Garcia por Ruy Dias de Guzman, Fran- 
cisco Xavier de Charle voix e outros, e nem Frei Gaspar 
da Madre de Deus em relação á morte dos homens de 
Martim Affonço. 

Voltando outra vez á historia de Iguape ver-se-b^ 



99 



que logo depois do estabelecimento de Martim Affonço 
em S. Vicente, chegaram e estabeleceram-se em Iguape 
Ruy Garcia de Mosquera e alguns compaijheiros, vindos 
do Rio da Prata, augmentando desta forma o numero 
dos hespanhoes aqui residentes; e, revoltando-se contra a 
ordem de reunirem-se todos em S. Vicente, começaram 
as hostilidades, provocando a guerra entre o povo 
d'aquella villae ode Iguape. 

É natural concluir-se que os moradores d'aqui, sendo 
obrigados a fugir das forças expedidas contra elles, voltas- 
sem mais tarde a restabelecer-se no lugar onde forçosa- 
mente haviam de ter relações intimas com os indigenas 
residentes ao redor, e portanto, ainda que a povoação for- 
mada pelo bacharel portuguez com Francisco Chaves e 
seus companheiros fosse durante algum tempo aban- 
donada, nem porisso deixou de ser o núcleo da villa de 
Iguape, formada ao pó do Outeiro do Bacharel, em 
frente á barra de Icapara, e remontando este núcleo ao 
anno de 1531. 

Não é licito duvidar da edificação da primeira 
egreja de Nossa Senhora das Neves de Iguape no 
anno de 1577 ou o anterior a este, visto a data que 
consta ter o antigo Livro do Tombo, o qual ainda es- 
pero encontrar, e ó provável que desde aquelle tempo 
esta povoação fosse conhecida pelo nome de villa. 

Kstá provado pelo Uvro da Camará da villa de Nossa 
Senhora da Conceição da Marinha, que no anno 1770 
foi elevada a villa esta povoação, que somente dous 
annos antes foi começada; e, portanto, posso julgar a 
facilidade que havia, em tempos mais remotos, de dar 
o titulo de villa a qualquer pequena povoação. 

Talvez entre os papeis pertencentes á villa de S. Vi- 
cente ou da Conceição de Itanhaem, fosse possível 
encontrar algum documento que pudesse esclarecer mais 



100 



este ponto; porém, em virtude dos que existem em 
Iguape, sou obrigado a reconhecer que o nome de villa 
era dado áquella que existia em frente da barra de Ica- 
para e que em 1625 estava abandonada pelo povo. 

Pelo mappa das sesmarias, das immediações de 
Iguape, ver-se-ha a combinação que existe entre os do- 
cumentos apresentados e a posição do local da antiga 
villa e Outeiro do Bacharel. 

A única difterença encontrada é o rumo da di\â8a 
citada no documento n.® 17 entre António Fernandes Ser- 
rão e Domingos de Barros, dizendo no traslado ser 
Nor' oeste; mas creio que é um engano, visto que a di- 
recção das divisas hoje n'este mesmo lugar correm 
Nor'nor* oeste, igualmente com as que dividem os sitios 
situados no fundo d' este e que fazem frente ao rio Ri- 
beira. 

Encontrei grande numero de traslados de sesmarias, 
constando alguns d'elles de concessões de terras anterior- 
mente ás citadas; porém, não tendo relação directa- 
mente com a posição da antiga ou nova villa de Iguape, 
não transcrevi os traslados nem marquei a posição das 
suas terras no mappa das sesmarias. 

Conheço que ha bastante falta nos esclarecimentos a 
respeito das terras concedidas pelos antigos donatários, 
principalmente sobre as suas divisas; podendo, porém, 
provar com mais certeza os rumos pelas escriptiu^as de 
vendas das ditas terras feitas posteriormente, as quaes 
existem nos livros de notas no cartório d'esta cidade. 

Seria indesculpável si deixasse de mencionar os ser- 
viços prestados pelo Sr. Francisco Firmino de Pontes 
Oliveira, tabelliâo desta comarca, que auxiliou-me com 
tão boa vontade na procura dos dados precisos, sem 
os quaes não podia ter apresentado este pequeno re- 
sumo. 



101 



Não tratei de seguir o progresso d'esta localidade, 
mas simplesmente procurei salientar tanto quanto pos- 
sível o que diz respeito á sua fundação que infeliz- 
mente é tão desconhecida; mas creio que ninguém du- 
vidará das noticias d'um Livro do Tombo, que remonta 
ao armo de 1577, como também de ter sido esta antiga 
povoação fundada pelo bacharel portuguez, desembar- 
cado da frota que andava em explorações no mez de 
fevereiro de 1502, auxiliado pelos hespanhoes perdidos 
em 1508. 

Iguape, 1895. 

Ernesto Guilherme Young. 



NOTA 

O mappa da zona do río Ribeira organisei segando os 
trabalhos de diversos engenheiros, e, ainda que em parte defi- 
ciente, creio que é o mais exacto que existe d*e8ta zona. 

Alguns dos coordenados ai^resentados em certas obras pa- 
recem-me inexactos, especialmente o de Apiahy, que con- 
forme o Dr. Ache fica a 24<> 23' 26" de latitude Sul, como coUo- 
quei no referido mappa; mas, tendo assistido á exploração 
d'uma estrada de rodagem da ex-colonia de Canauéa a Ipo- 
ranga, e mais tarde feito o reconhecimento do rio Ribeira, 
entre Iguape e a barra do rio Pardo, além de outros traba- 
lhos semelhantes n'esta zona, parece-me que a dita villa de 
Apiahy deve ser mais ao Norte. 

As posições de Iguape, Cananéa, Xiririca e outros pontos 
creio que estão bastante exactas para não fazer differença 
n'um mappa com escala egual a este. 



102 



Documento n.» 1 

Ao Senh/ Ant.*^ Per.* Nunes 
A q.«"» D.« G.d« 

em A Villa 

de Nossa Sr.* das Neves, &. 
Snr. afilhado. 

Saberei estimar passe Vm.*^® com m.^* saúde q' hiso 
he o q- lhe desejo na Comp.* de toda sua casa, eu a 
logro bem pouca mas de todo o modo m.*** procuro não 
faltar nas occasioens de Vm.°® no q' prestar. Aqui me 
deráo o recado de Vm.^® de que fica sentidíssimo não 
poder remediar lhe o ouro q' me manda pedir por não 
ter ouro de promto como lhe dh^á la meu sobr.** Ant.*^ 
pr.* furtado q' p' aver de mandar o ouro apurado q' 
sempre a dias foi nesseçario, valer me do ditto de duas 
onças de ouro, porem inda assim se ouver melhor vindo 
por todo este mez o poderei fazer com o favor de Deus 
porque creio que o ou\âdor geral sempre se deterá por 
la e assim q' p' o tempo q' digo o poderei fazer com 
todo o gosto e Vm.*^ mo tem meresida, e o que lhe 
pesso a Vm.^® avendo sua madrinha mister algúa cousa 
he não falta Vm.^® q' eu o satisfarei, também pesso 
me mande hú sento de peixe p.*® portador q' he o 
Gapp.*™ Dom.? Dias, oú por meu sobrinho Ant.*» Pr.*, 
também me mande dizer o custo do manto e saya, e 
sempre llie rendo as graças de tantos favores, oferes- 
sendo me p.* todas as suas ocasioens, a q.®" D.^ G.*® 
26 de Outubro de 1635. 

Padrinho de Vm.*^® 

que m.**^ caro e 

P.« /r.« Lima. 

Vais hesse barrilote mande me Vm.'^® cheia de Aguar- 
dente que eu o satisfarei logo, &. 



103 



Doonmento n.^ 2 

Treslado de carta de Sesmaria antiga das terras na 
paragem chamada Mumima passada ao Capitam Fran- 
cisco de Pontes Vidal, lançada neste livro de notas a 
requerimento do Salvador Rodrigues Lima. 

Vasquo da Motta Capitam Mor e Ouvidor com al- 
çada nesta Capitania de Sam Vicente, na repartição da 
Condeça de Vimieiro, Donatária da dita Capitania por 
Sua Magestade e setra. Aos que o presente minha carta 
de datas de terras de sismaria virem, e o conhecimento 
delia com direito pertencer. Faço a saber que a mim 
me fez petição O Capitam Francisco de Pontes Vidal 
dizendo em ella que elle hera morador na Villa de 
Nossa Senhora das Neves de Igoape, e que elle sup- 
plicante tinha servido a Sua Magestade com sua pessoa, 
Armas e fazenda a sua custa sem emté o presente ter 
reoibido mercê alguma de Sua Magestade, E por quanto 
elle supplicante não tinha terras em que lavrar e fazer 
seos mantimentos para delles pagar Dizimos a Deos 
Nosso Senhor e a decima a Condeça de Vimieiro, me 
pedia lhe íizese mercê em nome da dita Condeça pelos 
poderes que delia tenho de quatro Legoas de terras na 
paragem que chamam rio de Mumuna, matos de varjas 
e ojteiros de matos marinhos e desaproveitadas que 
estavão e comessarião na fonna e maneira seguinte, 
comessando da data de Francisco Alvares Marinho, to- 
das as cavesseiras asim de areyas, varjas, e esteiros, e 
asim mais meya legoa de terras comessando da mesma 
datta do dito Francisco Alvares, ficando o dito Rio de 
Mumuna de premeyo o que todo podia ser quatro Le- 
goas pouco mais ou menos a saber duas legoas para 
elle supplicante e outras duas para seu Filho Francisco 
de Ponte Vidal o mosso com todas as madeiras, agoas, 



104 



pastos que nas ditas terras ouverem e as serventias ne- 
cessárias e que provendo receberia mercê, a qual peti- 
ção sendo me apresentada e vista por mim pus na dita 
petição por meu despacho o Seguinte § Dou aos suppli- 
cantes as terras que em sua petição fazem menção na 
forma das sismarias não sendo dadas, e sendo correram 
atras ou diante. Conceypçào, oito de Dezembro de seis 
sentos e trinta e sette annos. o Capitam Mór Motta, por 
vertude do qual despacho e na conformidade delia lhe 
mandei passar a presente carta pela qual, dou, e hey por 
por dado a dita terra na paragem ja nomeada ficando 
sempre o dito Rio de Mumuna de premeyo tanto de 
huma parte como de outra para elles supplicantes e 
para seos erdeiros acendentes e descendentes que após 
elles vierem, forras e livres de toda a penção, somente o 
Dizimos a Deos Nosso Senhor, com todas as entradas e 
sabidas, e logradores, as que ao presente sejam, e pelo 
tempo em diante necessárias forem, as quaes terras de 
avas e esteiros lhe dou e faço mercê d'ellas em nome 
da Condeça minha Senhora digo da Senhora Condeça 
de Vimieyro pelos poderes que da dita Senhora tenho e 
para que as goze lhe mandei passar a presente carta a 
qual vai por mim assignado e sellada com o sinete de 
minhas armas — em oito dias do mez de Dezembro Pedro 
Pires de bengos Escrivam das datas e sismarias a fes 
anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cliristo de 
mil e seis centos e trinta e sette annos* eu o sobredito 
que o escrevy — Vasco de Moita — Valha sem sello ex 
causa — Motta, — Nada mais se contem em a dita carta 
de datas e sismarias antigas a qual eu Tabelião aqui 
bem e fielmente a tresladei da própria a que me re- 
porto, com a qual esta conferi, e toda vai na verdade 
sem que leve cousa que duvida fassa, porque o ly corri 
comferi comsertei e asigney e entreguei ao Juiz Ordi- 



105 



nario Salvador Rodrigues Lima que ma entregou para 
lançar neste livro de notas que pela receber aqui comigo 
asinou nesta villa de Iguape ao primeiro dia do mez 
de Dezembro de mil e sete centos e oitenta e hum, Eu 
José Jacintho da Silva Rocha Tabellião que o escrevy 
e conferi e asigney. 

José Jacintho da 5." Rocha, 



Documento n.'' 3 

(I6BB) 

Diz Domingos Roiz Cunha q* por se acharem aqui 
pessoas de quaes p' bem da sua justiça preciso dos seus 
depoimentos e he incerta d' assistência d'ellas nesta villa 
quer que deponhão nos itens seguintes. 
1.^ Que elle sup.** tive uma sociedade com seu Irmão 
António Roiz Cunha em huma lavra que compra- 
rão com dez escravos do defunto António Soares de 
Azevedo em cuja trabalhava serviço braçal e ao 
mesmo tempo feitorisando os escravos todo por 
tempo de hum anno. 
2.** Que o dito seu Irmão António Roiz Cunha andava 
o mais do tempo fora da lavra ficando so o sup.^ 
nella e so na apuração das catas lavando ouro e 
como caixa o distribuhia. 
3-^ Que elle sup.*® achando-se nas lavras de upuranga 
anno e mejo em todo este tempo andava em co- 
^ branca do dito seu Irmão fazendo os gastos e da 
custa e em três viagens que fizera as minas do 
Piahy a huma cobranço de Capp.*"* Mór Fran.*^ Al- 
ves Marinho sem o dito seu Irmão lhe desse des- 
gostos. 



106 



4.<> Que elle sup.*® trabalhando nas lavras de Serocabas 
por perssuasão do dito seu Irmão e de Deonisio 
d' Oliveira o qual se empenhou a seduzillo p.* vir p.» 
esta villa afim de conseguir a sociedade em que 
lhe mandara fallar. 

Mandando vir fazendo do Rio para o Sup.*® nego- 
ciar com ella com efeito viher a dita. 

b.^ Que desertando o Sup.*® das lavras de vupuranduba 
d'onde se achava minerando estivera nesta villa 
lutando hum anno e o cabo delle faltando lhe ao 
ajuste se deliberou o Sup.^ a tornar p.* as ditas 
lavras de vupuranduba. 

P. a Vm.*^® seja servido admitUlos 

Aprez.** suas a justificar os ditos itens pella testi- 

Testim.'^^ citada munhas a margem referida e que fi- 

jp.* i)." v€fí' jurar que em segredo de Justiça p' seu 

F. B. Ruis sitado p.* ver jurar testimunhas 

e o d.** seo Irmão. 



Testimunhas, 
Dionísio d' Oliveira. 
Carlos Manoel Per.^ 



E. R. M. 



Documento n.^ 4 

Treslado da Certidão que os offisiaes da Camará 
Pasaram ao Capp.*™ Bernardo Roiz bueno que Deos aja 
na era de mil e seis sentos e sesenta ánnos. ^ 

Bernardo Roiz Bueno morador nesta Villa de nossa 
Senhora das neves de Iguape q' a elle p' justificaçam 
sua lhe he nesesario que Vms. lhe mandam paçar cer- 
tidão de como Sauom que seu ABó Ant.*' de Barsellos 



107 



foi doB primeiroB pouadores desta V.* e a sustentou e 
outro Sii Seu Sogro fran.*^ Alueres Marinho como po- 
uoador também foi o que mudou a uilla donde estaua de 
primeiro por não ser desente e o fez e a sustentou a 
custa de sua fazenda e deu sitio aonde oie está e nella 
sempre seruiou os cargos de Capp.»" e de Juiz e Breador 
e por ser ia velho e não poder seruir por força deu a 
dito Cappitania a hum genro seu em falta do dito en- 
trara na dita cappitania elle Sr. Bernardo Roiz bueno 
seruindo também os Cargos da Republica por uezes e 
sempre fora sulicito no seruiço de Sua Mag.^^e bem quisto 
de todo o pouo por tanto pede a Vms. lhe mandar passar 
certidão e o que na uerdade pede pêra mais tarde sua 
iustificaçam esta e bem merece Mercê. Certidão da Ca- 
mará os Juizes e Breadores e Procuradores do conselho 
abaixo asinados nesta villa de nossa Senhora das neves 
de Iguape. Certificamos em como he uerdade tudo o 
que o Capp.*"* Bernardo Roiz bueno dis em sua petiçam 
que seu abó Ant.° de barselós foi dos primeiros pouoa- 
dores desta villa e a sustentou e outro si Seu Sogro 
fran.*^ alures marinho com pouoador também foi o que 
mudou a Villa de onde estaua de primeiro por não ser 
desente e aumentou a custa de sua fazenda e deu o sitio 
a onde oie está e nella seruio os cargos de cappitam e 
de juiz e Briador e por ser ia uelho e não poder seruir 
pasou a dita cappitania a hum genoro seu e por falta 
do d.*** entrara elle d.*® Bernardo Roiz bueno na dita 
cappitania seruindolas bem os cargos da Republica por 
ueses e sempre fora mui sulusito ao serviço de Sua Mag,*® 
e bem quisto de todo o pouo e he merecedor que Sua 
Mag.**® lhe faça mercês, heisto certificamos que he uer- 
dade pelo iuramento de nossos offisios feita em camará 
aos viiite dias do mez de dezembro de mil e seis sentos 
e sesenta annos eu manoel mrz de fonte escriuão da 



108 



camará desta Villa que o escreui — Belchor frança — 
Inosensio de vercui — franS^ guedes — Jran.^*^ Cordeiro de 
Resendes — Pascoal pet^es. 



Documento n."" 5 
Treslado d'uma carta de S. Mag.^® 

Manoel Roiz d'01iveiro. Eu o príncipe vos enuio 
saudar pello papel incluso, intendereis o que aqui me 
Representou pessoa zelosa de meu seruiço portanto em 
beneficio de minha fazenda E augmento dos meus 
Vassallos me pareceu ordenamos como faço aos Capi- 
tais E camarás das capitanias de São Vicente, São 
Paulo, Tinhaem, Paranaguaj e Pernaiba que uendo to- 
das as mesmas propostas conuindo os Povos assen- 
tem o melhor modo que parecer para da fabrica de 
ouro de lauagam se continue e ua em agmento di- 
spondo uos e aos Capitais e camarás Este negocio de 
maneira q' tenha que uos agradecer e a elles elegendo 
pesso de satisfação para que administre negosios de 
tanto importância do que tereis Respeito para lhe man- 
dar fazer mercê que ouuir por bem ouuindo uos nelle 
as pessoas referidas cora cujo interuenção se entende se 
poderá conseguir melhor este emtabolamento e de que 
nisto obrardes me dareis conta com todo a meudeza e 
se procurando mina de beta se poderá descobrir e o q' 
para este effeito será nesesario quando asy suceda e 
fio de uosso zelo que neste particular ponhaes tudo o 
cuidado, escripto em LisBoa a 14 de Abril de 673. 

Ihique Signal Real. 

Príncipe 



109 



Treslado do papel emcluzo nesta carta em or.dem. 
Em despusisão do intabolamento das minas Em todas 
estas Villas nas cartas nomiadas. 

Pelas noticias q' ha nas Cappitanias de São Vicente, 
São Paulo, Tinhaem, Parnagua e Pemaiba do districto do 
Rio de Janeiro q' em todas ha ouro de lauagem entre os 
mais metaes q' nellas mostrou a experiência hauer nos 
annos passados em q' forem administradores Dom 
Francisco de Souza, Saluador Corrêa de Sa ou seu filho 
Martim Corrêa de Sa e seu neto Salvador Corrêa de Sa 
e Benevides e com deste ultimo se perde- 
mos de todo a assistência dos moradores nas mesmas 
minas de lauagem, deve S. A. ser seruido ordenar aos 
cappitais mores camarás e moradores daquellas cappita- 
nias assistão com seus índios e os que ouuerem nas 
aldeãs de S. A. para que continuem por seu turno o 
beneficio das ditas minas nomeando j)essoa q' os admi" 
nistre e se obriguem a pagar cada índio seu salário 
na forma do estillo dando lhe ferramento e o mais q' 
pêra o dito beneficio for nesesario para andarem nas 
ditas minas na forma q' os Cappitais mores Camarás 
e Pouo asentarem para que ia continuo este seruiço todo 
o anno mandando escreuer ao Prouedor da fazenda 
do Rio de Janeiro como administrador q' he das minas 
e aos Cappitais mores e camarás das ditas villas o ajus- 
tem como melhor pareser e se asentar Repartindo as 
ditas camarás os índios e os administradores dos das 
Aldeãs de S. A. aquelles nesesarios para este beneficio 
q' se encarregara a pessoa q' as camarás elegerem e 
que tenha cabadaes pêra poder fazer esta despeza 
pagando-se-lhe do rendimento áas ditas minas e por 
esta asistencia lhe fará S. A. mercê para o que auiarão 
o Prouedor da fazenda Cappitais mores e camarás o 
que nisto se obra para se lhes agradecer, e q' neste 



110 



negocio ouuirão tão bem ao Procurador Manoel Roiz 
de Oliveiro com cujo interuenção se poderá pôr neste 
negosio na melhor uia q' parecer o q' S. A. deue 
mandar obrar com toda a breuidade depois redunta ein 
beneficio dos Vassallos e Rendimento da fazenda Real e 
tratando os moradores das lauouras e jornada so do 
sertão perde a fazenda Real o lucro dos quintos q' ao 
presente não rendem quazi nada e por esta causa com- 
bera tornar-se a entabolar a dita lauagem. 



Traslado de outra carta de S. Mag.'^^ 

Manoel Roiz d' Oliveiro Eu o Príncipe vos enuio Sau- 
dar Recebeuçe a uossa carta de 7 de Junho pasado deste 
aimo porque me dais conta das 629 oitavas de ouro 
que Remettestes a thome dessousa Corrêa Prouedor 
de minha fazenda do Rio de Janeiro e pareçerme agar- 
deseruos o zelo de meu seruiço com que obrastes em 
uossa obrigação encommendandouos que uades conti- 
nuando nelle na juridiçáo que uos toca dandome conta 
do que fordes obrando e do que esta a uosso cargo 
escrita Em Lisboa a 10 de de dezembro de 677. Sinal 
Real eu Miguel fr. escriuão da camará tresladei todas 
estas cartas bem e fielmente da própria maneira q* esta 
no originais. 



Documento n.^ 6 

Diz António Teixeira que elle comprou o contiudo 
no rol induzo pêra a ofisina das minas da Cananea por 
mandado do provedor deias Manoel da CJosta e de vm 



111 



e p' que tem remetida as d.*" couxas p' a d.** oficina, 
e o comprou a sua custa. 

P. A. V. M. Mande pjisar mandado p' que o dito 
Provedor Manoel da costa lhe mande fazer paga- 
mento de trinta coatro mil e coatro sentos Reiz 
que tantos despendiu. E. R. M. 

Passe man.*** como pede Rio 26 de 
Agosto de 1677. Son^a, 



Thome de Souza Corrêa Provedor e contador da 
Fazenda real nesta cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro 
e nella iuis da alfandega, direitos Reaes, e meias annexas. 
Administrador geral das minas da repart.^*® do Sul por 
sua Alteza etc. Mando ao provedor Manoel da Costa 
que sendo lhe este aprezentado, indo por mim assignado, 
faça pagamento ao supp.*^ António Teix.* dos trinta 
coatro mil e coatro sentos reis das cousas que comprou 
para as minas, contheudas no Rol junto que tem re- 
metida, e com quitação sua feita pelo escrevão de seu 
cargo ou do Thez."* Geral, levados em conta nas que 
der de seu recibim.*^ cumprão no assim, cobro quita- 
ção, dado neste dia Cidade do Rio de Jan/** aos vinte 
e sete dias do mez de Agosto de mil e seis centos e se- 
tenta e sete annos e eu Francisco de Costa Mouro es- 
crivão da Fazenda Real o escrevi. 

Thome de Sotufa Corrêa, 



Aos trinta dias do mez de Dezembro de mil e seis 
sentos e setenta e sete Annos nessa Uilla de nossa S/» 
das neves de iguape aprezentou Este mandado M.®' te- 



112 



xera Como procurador do seu pai Ant.** texera na casa 
da ofisiiia junto o prouedor com o tizoureiro o qual 
por uertude do dito mandado uindo assinado pelo Srõ 
adiministrador geral thome de sousa curêa mandou o 
prouedor M.®* da costa Entregar os corenta e três oi- 
taua de ouro que Em porto ua o dro a dois cruzado 
sigindo a ordem Em tudo do dito Srõ de que fiz este 
termo onde asinou o dito M.®* texera. Eu Ignacio 
Martins Escrivão da ofisina que o escrevi. 



Documento n.^ 7 

Ordeno e mando ao Capp.*"* Bento Corrêa de Souza 
Coutinho que naquelles portos onde vir que ha nese- 
sario levantar colegir ofissinas para melhor arecadação 
e conveniência dos quintos Reaiz faz a levantar ponde 
lhe oficièies até me fazer avizo o a quem meu legar 
seruir para prouer em quem melhor cumprir. Rio de 
Jan.** 3 de Junho de mil e seis sentos e oitenta e três. 

Thome de Souza Coirêa. 



Documento n."" 8 

Pedro de Souza perejTa fidalguo da casa de sua 
Mag.^« prouedor e contador da Sua Real fazenda nesta 
cidade de Sam Sebastião de Rio de Janeyro e nelle juiz 
d'alfandegua direitos reaes e meay annexos administra- 
dor geral das Minas do Repartição do Sul ett.® 



113 



fasso saber o prouedor das Minas da Villa de Iguape 
e cananeya Manoel da Costa que o príncipe Nosso Senhor 
fez seruir da escrever me por carta do que o traslado 
he o seguinte Prouedor da minha fazenda no Rio de 
Janeyro Eu o principe nos emvio saudar hauendo man- 
dado nos o que me escreveste em carta de oyto de julho 
e seis sentos e settenta e seis sobre as differencias 
que tines tey com o ouvidor geral que foi dessa capi- 
tania Pedro de Unhão Gastei Branco em rasão do desco- 
brimento das minas da jurydição da dita capetania E 
o modo cora que uos auer deuer com os ofeciaes dos 
quintos de ouro que lograuão os preuelegios dos da prata 
sendo jurydição distincta de que Resultaua grandes 
descaminhos a minha faz.^* me pareceu ordenar uos que 
d'aquj em deante ponhaes em arecadação os quintos 
de ouro como a administrador das ditas minas conser- 
vando 08 oficiaes delias principalmente os de Pemagua 

e Iguape por ordem minha E no prazo do que 

oficiaes não disporeis couza ai 

han de asistia a dom Rodrigues .- 

tinha ordenado de são 

deligentia tocante ao des 

a prata para se averiguarem e depois disto se tratar 
o que for mais acertado sobre os oficiaes dos quintos 
de ouro na pemagua que sam os mesmos q' derão conta 
das minas de prata por ser conveniente que se conser- 
uem nos ofícios que com para este effeito escrivi em 
S. of .° a cinco de junho e seis sentos e settenta e seis 
Principe; «o Conde de Vai de Reis^y «P». Para o proue- 
dor da fazenda do Rio de Janeiro, etc. Ordeno a 
dita carta dada a mandy registrar — etc — Registou no 
livro do Registros das prouisams a folhas huma para 
a dar a sua deuida execucam E em seu comprimento 
mandy paçar o presente como treslada d'ella pia qual 



114 



ordeno e mande o dito prouedor das minas de uguape 
e cananeya ou quem seu cargos seruem que tanto que 
este lhe for aprezentado a mande Registrar nos livros 
da sua prouidoria e nos mais onde nesesario for pêra 
asim ser notório e dar a elle comprimento pondo em 
boa arecadagem os quintos de ouro não os diuirtindo 
d'aqui em deante pêra outra couza alguma e somente 
os entregarão asim os quintos de ouro que estiuer em 
ser como aqui em diente Render as ditas Minas a Dom 
Rodrigues de Castello Branco fidalgo da casa de 
Sua Alteza Prouedor e administrador geral das minas 
de ouro e prata que uay a descobrir na forma das or- 
dens q' dar o dito Senhor e que todo que se auer guar- 

Pedimentos emformar e mais papeis de 

do Regimento do dito adroinis- 

despeza de pesoa o que tocam 

prouedor e para conseruar 

os oficiaes das ditas minas nos cargos que cada hum 
tem e nos poruilegios e liberdades que atei gozo e goza- 
rão a fim e da maneyra que o dito Senhor manda em 
a dita sua carta nesta expencia e de tudo me fará a 
auizas com toda a distinção e clareza para asim o fazer 
presente a Sua Alteza que Deus guarda. 

O que a.sim cumprirão o dito prouedor e mais ofi- 
ciaes como neste se contem dado e paçado nesta dita 
cidade do Rio de Jan,^® sob meu sinal somente os doze 
dias do mez de novembro de mil seis sentos e setenta 
e oyto annos. Francisco de C-osta Moura escriuão da 
fazenda Real o sobrescrevj^ — Fedro de Souza Pereyra — 
Mandado por que Vm. ha por bem ao Prouedor das 
minas de uguape e cananeya entregue o ouro dos quin* 
tos que rendes c for rendendo A Dom Rodrigues de 
Castello Branco E por outro si faça conservar os oficiaes 
delias com athc gora por uertude de húa carta da sua 



115 



Alteza quQ uas nesta enveluca — P.* V. M. ver — Regis- 
trado no livro desta Poruidoria das prouisoens a folha 
8 — Rio de Jan.™ doze de novembro de 678 — Fran- 
cisco da Costa Moura — Registrada no livro dos Registros 
desta camará por mim escrivão a folha 2 e verso em 
22 de Marsso 679 — Luiz ferão Castd Branco — Regis- 
trado no livro dos Registros desta Villa por mim escri- 
vão as folhas 20 athe 22. em de Junho de 1679. 



Heronymo d' Araújo. 



Documento n."" 9 

Sendo recebido a Circular copiada a folhas 66 e 
seguintes deste Uvro e dando cumprim.*** a mesma, pa- 
receo a propósito transcrever aqui a Resposta e Infor- 
mação que diz em consequência da d.* ordem, para 
em todo o tempo constar, a qual he o seguinte: 

COPIA 

Informação circumstanciada da Freguezia da Villa 
de Iguape, relativamente a sua Fundação, alteraçõens, 
estado actual, extensão, limites e População; Ao estado 
de sua Matriz, seo Orago, Fabrica, Irmandades, Vazos 
sagrados, Alfaias, Paramentos, Côngrua, e rendimento 
da Estola, com as indicaçõens da suas preciçõens, re- 
formas e melhoramentos. 

Esta Freguezia da Senhora das Neves da Villa de 
Iguape, parece ser tão antiga como a mesma villa, não 
consta, nem do Archivo da Camará, nem de outros 




116 



papeis públicos qual tinha tida precisamente; a Época 
da sua fundação, apenas pelo Livro do Tombo da 
Igreja, que remonta ao anno de 1577 se coUige, que 
subsiste ha 247 annos. Tãobem não consta que fosse 
desmembrada de algúa outra Freguezia, nem quaes 
fossem seus fundadores, ou primeiros povoadores, e 
nem em que tempo, ou por quem fosse elevada a ca- 
thegoria de Villa. Suppoem-se que fosse descoberta e 
povoada por gente de São Vicente. O que sabe-se de 
certo he que a primeira Villa foi fundada junto a 
Barra, d' onde se mudou ha 200 annos para o logar 
onde hoje existe. Esta situada esta Villa legoa e meio 
distante d'aquella Barra na latitude Austral de 24 gráos 
e 43 minutos, e 330 gráos e 30 minutos longitude pelo 
meridiano de Ferro, em hum Isthmo ou Peninsiila, for- 
mada pelo caudaloso rio denominado — Ribeira de Iguape 
— pelo Mar e por hum braço ou canal chamado — Mar 
pequeno — que se estende ate a Barra de Cananea. 

2.^ (em parte) 

Confina ao Norte com a Villa de Conceição de Ita- 
nhaen, á Leste com o Oceano, ao Sul com a Villa de 
Cananêa, ao Sud' oeste com a Freguezia de Xiririca, ao 
Oeste e Nord'oeste com os Sertõens, que continão com 
os Districtos das Villas de Itapetininga e Serooaba. He 
dividida da Villa da Conceição de Itanhaen pela Barra 
do Rio — Yuna — que desagua no Oceano; da Villa de 
Cananêa pelo logar chamado — Entre ambos as aguas — 
segundo o Livro do Tombo, ou pelo rio Subauma, 
como vulgarmente se diz; da Freguezia de Xiririca pela 
foz do Rio — Juquia — que desagua na Ribeira, ou jwr 
hum penedo sito na mesma Ribeira, logo abaixo da 
mencionada foz do Juquia; e das Afilias de Itapetininga 
e Serocaba por matos e sertõens dispovoados. 



117 



O termo desta Freguezia com a da Villa da Con- 
ceição de Itanhaen foi antigamente a Barra do Rio Yuna, 
mas concordando entre si o Padre António Ribeiro, Vi- 
gário desta, e o Padre Diogo Rodrigues de São José, 
Vigário da Conceição, por ordem do Excellentissimo e 
Reverendissimo Bispo desta Dioseze Dom Bernardo Ro- 
drigues Nogueira, estabelecerão em 1748 por termo di- 
vidente entre as duas Freguezias o Cume ou espigão 
do monte denominado — Jurêa — perdendo esta mais de 
seis legoas de terreno. Porem tendo o Governo da Pro- 
vincia ordenado em 1817 ao Capitão Mor Comman- 
dante desta Villa, que reconhecesse aquelle terreno por 
Districto, e mandando outrosim o Excellentissimo e Re- 
verendissimo Dom Matheus de Abreu Pereira em 1818 
que ficasse por termo entre as duas Freguezias a men- 
cionada Barra de Yuna, esta recuperou o seu antigo 
limite, ficando pela antiga demarcação, isto he, pela 
Barra de Yuna. 

O Termo desta Freguezia comprehende diversos Bair- 
ros, todos mais ou menos povoados, exceptuando-se as 
6 legoas ao Norte na costa do Mar confinando com o 
Districto da Conceição. Comprehende toda a Fregue- 
zia pelo Rol de Desobriga de 1824, 910 fogos com 3974 
Pessoas, de Confessáo a saber, 2791 Brancos e libertos 
entre maiores incluindo ja neste numero 1246 homens 
e 1545 mulheres; 1183 Escravos entre maiores e me- 
nores, incluindo-se neste numero 692 homens e 491 
mulheres, os quaes todo fazem a Somma de 3974 q' 
satisfacem aos preceitos. Porem a população toda en- 
tre todos os sexos, idades, estados e condiçõens monta 
a ÔÕ73 pessoas como se vê melhor dos Mappas in- 
cluzos. 



118 



4.^ (Em parte) 

A Matriz desta villa, edificada ha 200 annos, anti- 
quíssima na sua duração, forma e architectura, se acha 
muita arruinada, e se conserva ainda á custa de bota- 
reos, e continuados reparos. O seu Orago he a Virgena 
Mai de Deos, com a Invocação das Neves, conservada 
desde sua antiguidade. A milagrosa Imagem do Senhor 
Bom Jesus, achada na Praia de Yuna junto ao Rio 
Pussauna, em 1647 collocada nesta Matriz, faz o seu 
maior ornato, assim como a alegria e consolação dos 
seus Habitantes, e dos devotos Romeiros. He de húa 
so Nave, e alem do Altar maior, onde está a Padroeira, 
tem mais dois Altares lateraes, todos formoseados com 
suas competentes Imagens, e estas com suas coroas, res- 
plendores ou Diademas de prata. O sacrário onde sem- 
pre se conserva o Sanctissimo Sacramento, está no Altar 
lateral do lado do Evangelho, que he o do Senhor Bom 
Jesus. He muito pobre de Alfaias e Ornamentos, Os 
que tem são os seguintes: etc., etc. 

A Fabrica desta Matriz he muito pobre. Não se 
pode fazer um calculo exacto do seu rendimento. Re- 
cebe da Fazenda Imperial e Nacional da Província õ$000 
chamados — Ordinária — isto he, quando se paga a Côn- 
grua ao Parocho, Tem de cada sepultura acima das 
grades 4$000 que rarisshnas vezes acontece perceber; 
porque os que morrem em circumstancias de serem 
nellas sepultadas, tem sepultura das suas Irmandades, e 
aos pobres he penozo pagalas do que resulta não ter 
quazi lucro algum destas sepulturas. 

Tem de cada húa das sepulturas abaixo das grades 
para os adultos 640 rs., para os menores 320 rs.e destes 
enterros tem 320 rs. da Cruz, e da Tumba quando he 
occupado 800 rs. Dos que se enterrão no Adro nada 



__j 



119 



recebe. Todo o seu rendimento annual poderá andar 
por õO$000 mais ou menos. Delles se fazem as despe- 
zas de toalhas, e ornamentos para o Altar mor, corpo- 
raes, veos para os Calixes, Alvas, e mais ornamentos 
cotidianos, as despezas com os Sanctos Óleos, Missas, 
Livros da Igreja, concertos e reparos da mesma, e d'elles 
se paga a lavagem e engomadeira da roupa, e ao Sa- 
christão 12$000 por anno. São tantas as necessidades 
que de ordinário anda a receita pela despeza, e alguas 
vezes fica alcançada. He administrada por hum Fabri- 
queiro que nem sempre he zelozo, e neiu mesmo pode 
bem fiscalizar; por isso (jue nenhum lucro tem, e ne- 
nhum privilegio; este he nomemlo pelo corregedor da 
comarca, o qual toma tãobem as contas na occíisião da 
Correição 

Há nesta Villa as Irmandades seguintes : A do San- 
ctissimo Sacramento, a da Padroeira, a do Senhor Bom 
Jesus, a das Almas, a da Senhora do Rosário dos mu. 
latos e pretos e* a do Suo Benedicto dos mesmos. A do 
Sanctissimo Sacramento, a das Almas, e a da Senhora 
do Rosário têm compromisso approvado pelo Ordinário. 
A da Padroeira não tem compromisso, nem forma de 
Irmandade; contemplão-se Irmãons todos os brancos aqui 
cazados, os quaes devem pagar de annuaes 160 rs. mas 
que a maior parte não paga; por cujo motivo he tão 
pobre esta Irmandade, que o seu rendimento não chega 
para pagar o Parocho húa Capella de Missas que diz 
nos sabbados do anno, e ao mestre da Capella por tocar 
órgão na occasião das mesmas. A chamada Irmandade 
do Senhor Bom Jesus não he propriamente Irmandade. 
Elegem-se a votos os Officiaes e Doze Irmãos de Meza, 
que são os zeladores das Alfaias, dinheiros, esmolas, e 
do mais que se diz respeito. 

Todas estas Irmandades são pobres e tem o seu 



lèo 



património na piedade dos fieis. Todo o seu rendimento 
he proveniente dos annuaes dos Irmãons e do limitir 
dissimo aluguel de alguas cazas, isto he, as que tem, 
o qual se dispende nas Festividades próprias, e no 
ornato dos seus Altares e Imagens. A do Senhor Bom 
Jesus tem quatro propriedades de cazas e recebe annua3- 
mente alguas esmolas, o que todo tem sido applicadt 
para a obra da Nova Matriz, que se está erigindo 
Quanto o seu Capital, este foi remettido para a Caixa 
dos Descontos da Cidade de São Paulo, e se faz inuito 
precizo que este dinheiro seja entregue, para ser empre- 
gado na mencionada obra da nova Matriz, attenta a 
necessidade. A Irmandade da Senhora do Rosário tem 
duas propriedades de cazas e a de São Benedicto tem 
húa ; mas todas estas cazas são térreas, pequenas e 
velhas. Os corregedores tomão conta das Irmandades. 
Não ha Capellas nesta Villa, nem mesmo no seu 
circuito. Deo-se principio ha quazi quarenta annos, 
a levantar-se húa nova Matriz, maior que a antiga, e 
mais magestoza, em razão da decadência e ruinas que 
ameaça; esta obra tão necessária parou logo no seu 
começo, tendo-se tirado apenas parte dos alicerces; po- 
rem novos esforços e diligencias de alguns devotos fizerão 
com que em Agosto de 1822 tomou-se a principiar e 
presentemente se acha com parte das paredes lateraes e 
da Capella mor levantadas á pouca altura, e com a 
maior parte da cantaria lavrada. Não sendo porem ba- 
stante o dinheiro do Senhor Bom Jesus, as esmolas e 
donativos e o serviço dos Parochianos para o andamento 
e conclusão da obra, esta pouca se adianta e está em 
circumstancias de parar outra vez, não sem grande pezar 
de vermos frustrados nossos esforços e dezejos e a co- 
operação e fadigas, com que em particular me tenho 
prestado. A Cadêa publica desta Villa he ainda um 



lâi 



obstáculo á continuação da obra. Velha, pequena, fêa, 
indecente, immunda, quando se tratou de edificar a 
nova Matriz, assentou-se em deitar abaixo este pardieiro, 
e faze-la nova em outro logar ; mas, ápezar disto, e dos 
reiterados provimentos e ordens positivas dos Correge- 
dores, he tal o desleixo, e criminosa ommissão dos em- 
pregados em Ciamara que até o presente se nílo tem 
dado o primeiro passo á este fim. Em attenção pois 
as circumstancias, em que estamos a respeito de Matriz, 
he de esperar com razão que Sua Magestade Imperial 
haja por bem mandar assistir por algúa das Reparti- 
ções das Rendas da Província, com algum subsidio para 
a factura da nova que temos principiada ou ao menos 
para a Capella mor, como parece de justiça e ha 
exemplos. 

Alem disto pretendemos de Sua Magestade Imperial, 
a confirmação de húa contribuição voluntária por nove 
annos em quanto dura a obra, nos géneros de expor- 
, tacão, á que se obrigarão por termo assignado, a maior 
parte dos Negociantes e Lavradores deste Districto, cujo 
Requerimento com os competentes documentos ja leva- 
mos a Augusta Presença da Sua Magestade Imperial, 
e tem sido informado pela Camará desta ViUa, pelo 
corregedor da Comarca e pelo Governo da Província. 

A Irmandade da Senhora do Rosário tãobem deo 
principio a levantar húa Capella própria á dispêndio 
do seu limitadíssimo capital, e de algúas esmolas, esta 
apenas se acha com parte dos ahcerces tirados, e com 
vagar chegará o seu fim, attenta sua pobreza. 

Somente no Bairro da Praia da Jurêa, 5 legoas dis- 
tante desta Villa se acha húa pequena Ermida da 
Senhora da Guadalupe, sem património, apenas com húa 
pequena porção de terras, de que não tira lucro algum, 
sem Alfaias nem ornamento. Ali se diz Missa algúas 



122 



vezes por occasião de administrar Sacramentos aos infer- 
mos, ou quando aJgum Devoto quer. A que primeiro 
existio n'aquelle mesmo logar era de madeira, e por 
isso durando pouco, se fez outra, á custa de esmolas, 
de pedra e cal. No seu Adro, bem que não seja bento 
para semeterio, se tem enterrado alguns corpos, dos que 
morrem em occasião de difícil recurso á Parochia, ou 
por não quererem esses remissos trazer para ella os 
seus defunctos, a fim de subtrahir-se a pagar os emo- 
lumentos Parochiaes, cujo abuzo não tem sido possivel 
obstar. Por cujo motivo proponho mandar-se fazer ali 
hum semeterio. 

5 de Setembro de 1825. 
Padre João Chrysostemo cTOliveiro Salgado Bueno. 



Documento n."" 10 

(Trechos da) 

Narração do que se pode deseiihrir memorável desde 
os princípios desta VUla ate o presente anno de 1787 con- 
forme a ordem de Sua Magestade q* Deus goarda. 

A Raynha Nossa Senhora que Deus Groarda, por 
carta de suas Reaes ordens ao Illustrissimo e Excellen- 
tissimo Senhor Francisco da Cunha e Menezes, Gover- 
nador e Capitam General da Capitania de São Paulo 
feito ao vinte de julho de 1782, determina que pelos 
Ouvidores de todas as Comarcas dessa mesma Capita- 
nia fassa impreterivelmente observar em as Camarás de 
suas respectivas Villas o arbitro por elle determinado, 
sobre as memorias annuaes que manda se la\Tem em 



lââ 



livros competenteg, declarando-se n'elles os novos esta- 
belecimentos, feitos, cazos mais notáveis e dignos de 
Historia, que tiverem sucedido e forem sucedendo. 
Para bem cumprir o que devo em razam do meu cargo 
era necessário examinar o Cartório desta Villa, porque 
so d'elle se podia bem conhecer a Fundação d'ella, mas 
como dos primeiros feitos já não ha memoria pela 
extincção do antigo que mandou queimar o Corregedor 
Pedro do Hunhão Castello Branco, vista a destruição 
em que se achou todos os seus papeis. Resta consultar 
os que existem de maior idade para saber delles todo 
o que pode ser útil a esta narração. A noticia que elles 
dão adqueridos des seus antepassados he que a pri- 
meira situação desta Villa foi em um lugar que se 
acha fronteira a Barra desta, onde vi seos poucos abi- 
tadores, não podendo ter cómodo susistencia, mudareín 
a sua habitação para o interior, mais acima da mesma 
Barra, distancia de huma legoa, e ahi firmarão o seu 
novo estabelecimento em hum terreno aprezivel junto 
ao Mar Pequeno e mais vizinha á Ribeira, um dos Rios 
mais formosos desta Capitania, cuja fertilidade e abun- 
dância de produçõens seria sem duvida a cauza da sua 
transmigração. Aqui mais comodamente estabelecidos 
ficarão e premanecendo comessando a Villa que existe 
hoje, fundado no sobredito citio. Lugar que para isto 
deo Francisco Alvares Marinho, hum dos primeiros po- 
voadores, com António de Barcellos, como se descobrio 
no traslado de huma certidão que os officiaes da Camará 
passarão ao Capitam Bernardo Rodrigues Bueno no era 
de mil e seis centos e sesenta, não constando ja mais, 
nem por noticia, nem por documento algum que fue 
o legitimo fundador desta Villa, nem tão pouco o tempo 
da sua criação no seu primeiro Citio. Ao menos pelo 
Líi\T0 do Tombo desta Freguezia podia tomar-se algum 



124 



conhecimento d'elle, mas nem (i'ahy se pode colher couza 
alguma a respeito dos seus principios, porquanto senda 
a edificação desta Igreja tantos annos, não se acha esse 
Livro entre os mais antigos, talvez por ser comprendido 
no incêndio que antigamente houve na caza do Reve- 
rendo António Carvalho d'01iveiro, Vigário desta Villa 
e também da Vara no tempo em que foi comarca ecle- 
siástica. Apenas se acha hum que foi feito e rubricado 
em o anno de 1747 pelo Reverendo Vigário Gollado 
desta Villa António Ribeiro, com ordem que para isso 
teve do Excellentissimo e Revèrendissimo Snr. Dom 
Bernardo Rodriguez Nogueira, primeiro Bispo desta 
Dioceze. 

Emtáo procurando o dito Reverendo Vigário Antó- 
nio Ribeiro, os principios desta Villa apenas soube por 
oitos dos mais antigos que ella existir a cento e setenta 
onnos, pouco mais ou menos, aos quaes ajuntado os 
quarenta que passarão desde a fatura do dito livro até 
o presente, julgaie que a sua existência andara por du- 
zentos e dez annos. 

Esta fundação como costumâo ser todas humildes 
por seus principios teria logo aumentado se os morado- 
res tivessem meio para adquerir fruto grande nas suas 
diligencias; porem como não podião sahir da pobreza 
com que principiarão, muitos annos se conservou esta 
Villa em abatimento sem poder ja mais aumentar-se 
nos edifícios, porque quazi todos erão cubertos de palhaa 
como se alcançou. Isto he o que consta a respeito da 
sua quaUdade, quanto a extensão do seu plano pelos do- 
micilios, era tam pequena, que tendo o Capitam Mor 
e Ouvidor Luiz Lopes de Carvalho ordem do Conde 
Donatário para aumentar as Villas desta Capitania, que 
era então de São Vicente, por hum edital que fez pu- 
blico aos quatro de Agosto de 1679, determinou aos 



125 



moradores desta que vistas as poucas moradas que 
haviâo nella, foce cada hum obrigada dentro de hum 
anno a fazer a sua, tendo de cem mil reis de bens para 
sima, sub pena de dez cruzados, como bem consta de 
hum Uvro que sérvio de Registro em a Camará deste 
tempo. 

Tal foi o estado em que se achava esta Villa quando 
sucedeu o Aparecimento da Milagroza Imagem do Se- 
nhor Bom Jesus, dadiva preciosa do Céo, penhor o 
mais rico de toda a terra , e a uniça riqueza que está 
pessuhindo esta mesma Villa, desde o anno de mil e 
seiscentos e quarenta e sete, tempo em que o Senhor 
foi servido entrar nella para enriquecer os seus pobres 
habitantes, fazendo-se achar por elles no lugar mais 
deserto de toda esta costa, como quem mostrava que 
elle só queria estar onde os homens viviáo debaixo da 
humilde palha. Com effeito, não se pode julgar que 
foi mero acaso a vindo desta Santa Imagem. E sendo 
que as circumstancias delia pela que tinhão de prodi- 
giosas erão dignas de iramortal memoria. Mas ja estarião 
de todo no esquecimento se o Reverendo Christovão da 
Costa e o Liveira, Vigário da Vara da Comarca de Pa- 
ranaguá, então visitador das Villas do Sul pelo Illustris- 
simo e Reverendissimo Senhor Dom Frei António de 
Guadalupe, Bispo do Rio de Janeiro, não deixasse como 
deixou em o anno de mil sete centos e trinta, huma 
autentica narração de todas as que pode adquerir dos 
homeins mais antigos para perpetuar aqui a memoria 
de tam maravilhosa aparecimento. 

Esta foi sem duvida a causa que tive esta Villa para 
seu aumento, porque sendo tam baixa e humilde no seu 
principio, como fica dito, comesou a crescer de tal sortte 
que achando-se ja occupadas as cituaçõens nas vizinhas 
dos seus limites, foi-se o povo estendendo pela Ribeira 



"ITít 



126 



sirna, Rio navegável ate quinze dias de viagem sem 
embaraço considerável. 

Emtam comessaram a descubrir-se as Minas de ouro, 
por aquellas partes, cuja extração foi permittida pela 
Sua Magestade, porque ainda hoje se conserva aqui com 
as Armas Reaes a casa que emtam servia para a fun- 
dição d'elle, durando este ate o de^cubrimento das Minas 
geraes em o anno de mil e seis centos e noventa e sete, 
porque quasi todos os Mineiros se auzentarão d' aqui 
para as ditas minas. 

Outras revoluçoens tem havido nesta Villa, como 
aumento de cazas, fundaçoens de estaleiros, estabeleci- 
mento de Paradas, Levas de gente para Real serviço, 
Novos empostos por ordem dos Soberanos e outras cou- 
sas que ordinariamente se movem com a sucessam doa 
tempos ; porem eu mo não as julgo notáveis e com 
circumstancias dignas de particular memoria, parecendo- 
me supérflua a individuação d'ellas, tenho por bem 
omítillas, assim como deixo de referir, que seria de 
grande entidade individuar sináo parecesse aposcrypla 
e tam fabuloza a noticia que neste povo corre, deixada 
pelas antepassados de duas serpentes que tinhão sua 
morada em hum Monte vizinho a esta Villa, das quaes 
dizem que huma fora morta pelos moradores com huma 
Pessa que para esse fim formarão de páu chapeado de 
ferro ; e que outra fugira voando para os sertoens in- 
cultos da Ribeira, ficando porisso o lugar do sobre dito 
Monte a denominação de Boycoara, que que dizer buraco 
de cobra. Eis aqui o que me foi possível achar para 
referir. Se algum memorável sucesso fica por se dizer, 
erro foi da ignorância, ou da inerzia que assim o deixou 
confundida na multidão dos annos, ficando porisso sem 
culpa a minha diligencia, porque com ella nada mais 
pude descubrir memorável ou digno da Historia ate o 



127 



presente anno de 1787. Villa de Iguape aos 29 de 
Dezembro de 1787. José da Silva Rocha — Escrivão da 
Camará. Fran.^^ Ant"* Gomes — António Fr an.'''^ (V Oli- 
veira — MJ Joaquim da S,"* 



Documento n.<> U 

Da Villa de Cananea he dividida pelo Rio Sabauma 
q' desagua no canal ou Mar desta Villa, na terra finne 
sinco legoas ao Sul, e bem q' pela fundação da Villa 
Nova da Senhora da Conceição da Lage, na Ilha quazi 
defrente ao Barra do dito Rio Sabauma, erecta no anno 
de 1769 pelo Coronel Affonso Botelho de Sampaio, Aju- 
dante das ordens do Governador e Capitão General 
desta Capitania Dom Luiz António de Souza Botelho 
Mourão, fosse tirado á esta Villa parte do seu território; 
como a mencionada Villa Nova subsistisse apenas dez 
annos, por falta do Parocho ou incapacidade do lugar, 
ou negligencia dos seus povoadores, tornou esta Villa e 
Freguezia á posse do seu antigo terreno, e o mesmo a 
Villa de Cananea d'onde se havia tãobem tirado parte 
do seu território, ficando outra vez por demarcação entre 
ellas a barra do dito Rio Sabauma. 

Os Livros da Igreja, Imagens e pobrissimos orna- 
mentos forem trazidos p.* esta, e as terras q' faziam 
o Património da Igreja da extincta Villa Nova, q* hoje 
faz um Bairro desta Freguezia, ficarem em poder dos 
moradores ociozos, dos quaes alguns pagão foros. 



128 



Documento n.^ 12 

Apparecimento da IMAGEM do Bom Jesus 

Sendo no anno .de mil e seisentos e quarenta e sete, 
mandados dous índios Bttçaes^ e sem conhecimento, e 
ignorantes da fé, por Francisco de Mesquita, morador 
na praia de Jurêa, para a Villa da Conceição, a seus 
particulares, acharão na Praia da Yuna, junto ao rio 
chamado Piissauna, rolando um vulto com as super- 
fluidades do mar e que vulgannente chamão resacas, e 
reconhecendo-o levarão para o Umite da Praia, onde fa- 
zendo uma cova o puzeráo de pé com o rosto para o 
nascente e assim o deixarão com um caixão que divi" 
sarão ser de cera do Reino, e umas botijas de azeite 
doce, cujo numero não pude saber de certo, as quaes 
cousas se acharão desviadas um pouco espaço do dito 
vulto, e voltando os ditos índios d'ahi a dias acharão o 
dito vulto que não conheciam, no mesmo lugar, mas 
com o rosto virado para o poente, no que fizerão grande 
reparo pelo terem deixado para o nascente, e não acha- 
rem vestigios de que pessoa humana o podesse virar; 
e chegados que forão ao sitio de seu administrador can- 
tando o caso, que logo se soube pelos vizinhos, resolve- 
rão que Jorge Serrano e sua mulher Anna de Góes, e 
seu filho Jorge Serrano e sua cunhada Çecilia de Gróes, 
a ir vêr o narrado pelos índios, e chegados, acharão a 
Santa Imagem na forma em que os índios a tinhão ex- 
posto, e tirando-a metterão numa rede e a trouxerão al- 
ternativamente, os dous homens e as duas mulheres 
até o pé do monte a que chamão Jurêa, onde os íJ- 
cançou a gente da villa da Conceição, que vinhão ao 
mesmo effeito pela informação dos índios, a qual gente 
da Conceição ajudarão aos quatro o conducção da dita 



129 



Santa Imagem, até ao mais alto do dito monte Jurêa, 
d*onde os dous homens e as duas mulheres, com a 
mesma alternativa, a transportarão até a barra do rio 
chamado Ribeira de Iguape, onde forão os moradores 
da Villa de Iguape buscar a Santa Imagem, e trazendo-a 
com muito grande acatamento, puzeráo no rio a que 
chamáo hoje com muito grande alegria a Fonte do 
Senhor, para lhe tirar o salitre e ser encarnada de novo, 
o que conseguirão depois de segundo encarne, pela im- 
perfeição com que ficava, e conseguindo o ornato, a 
coUocarão nesta Igreja da Senhora das Neves, em que 
está, aos dous dias do mez de Novembro de mil e seis- 
centos e quarenta e sete, conforme achei no assento de 
um curioso, tirado de outro mais antigo; também achei 
informação de que era tradicção, que a Santa Imagem 
do Senhor Bom Jesus, vinha do Reino de Portugal, em- 
barcada para Pernambuco, e que encontrando o navio 
outro de inimigos infiéis, lançarão os do navio Portu- 
guez a Santa Imagem ao Mar, para não ser tomada com 
o que se achou junto a ella de cera e azeite ; e que no 
mesmo tempo em que foi achada a dita Santa Imagem 
na Praia, foram vistas pelo Padre Manoel Gomes, Vi- 
gário da Dha de São Sebastião, passar pelo mar da parte 
do Norte para a do Sul, seis luzes uma noite, cuja lu- 
zerna illumínava grande circumferencia, a qual noticia 
dirá o dito Vigário ao Reverendo Padre António da Cruz, 
Religioso da Companhia de Jesus, e para que venha a 
noticia de todos, e estes louvem ao Senhor como convém, 
por tão Soberano favor, esperando a sua misericórdia, 
que foi servido que se cumprisse a prophecia : Orietur 
vohis Sol Ituftitup, se verifique também a subsequente Et 
Sanitas inpenisejus. Curando nossas almas do conta- 
gio da culpa, dando-nos o premio aos escolhidos pro- 
mettido, mandei escrever esta informação, que mando ao 

9 



'^- 



1®)' 



reverendo Vigário e seus successores a publiquem e leiáo 
no dia da festa do Senhor, no tempo em que costumão 
ler as esmolas do anno, o que cpmprirão sob pena da 
Sa^ta obediência. Dado em Visita, sob meu signal e 
sello, q^ie perante mim serve nesta Villa de Nossa Se- 
nhora das Neves, de Iguape, aos vinte e dous dias do 
mez de Outubro de mil e setecentos e trinta. E eu o 
licenciado Padre Manoel do Valle Palhano. Secretario 
da Visita o fiz e escrevi. — Christovão da Costa e Oliveira, 



Dootimeiíto n.* 13 

Provisão de Padre Bernardo Sanches para servir de 
Coadjuctor na Igreja de Bom lesus de Iguape. 

José de Barras de Alarcão por mercê de Deus E da 
Sancta See Apostólica Bispo desta Cidade, de São Se- 
bastião do Rio de Janeiro do conselho de S. A. RI. Aos que 
a prezente nossa prouisão virem saúde e paz p' sempre 
em lesus Christo nosso Salvador que de todos he ver- 
dadeiro remédio e salvação fazermos saber que a nos 
nos eniiiou a dizer por sua petição a P.® Bernardo San- 
ches Sacerdote do abito de S. Pedro q' por lhe vir a 
noticia esta vaga a coadjutoria da igresia do Bom lesus 
de iguape e ter a sufficiencia partes e bõ procedim.**** 
para seruir a d.** coadjutoria nos pedia lhe mandásse- 
mos pasar prouisão para a d.** seruentia o q' visto pornos 
mandamas que lhe pasase o prez. ^ pella qual o prouemos 
ao dito P.® Bernardo Sanches na seruentia de coadjutor 
da igreja do Bom lesus de jgoape e o seruindo asim e 
da maneira que seruem os mais coadiutores e com a 
dita seruentia hauera o ordenado próis e procalssas q 



lai 



direitamente lhe pertencem* E mandamos com pena 
de excumunháo aos freguezes da dita freguezia conhe- 
ças ao dito P.® por coadiutor d'ella e com a tal lhe obe- 
deças e assim o notificamos ao Rev.*** Vig.'^*' da dita 
igreija o deixe seruira asim como neste ordenamos 
emquanto o ouermos por bem e não mandarmos o 
contrario, o qual se registara nos lim'os da nossa car 
mara e onde mais deua ser. dado nesta cidade sob 
noBo signal e sello aos cinco dias do mez de julho de 
mil e seis sentos e oitenta e trez annos E eu gaspar 
gabete de andrade, escriuão da Camará o sob escreuio. 

o. 



Dooumento n.^ li 

Treslado daproírimo de Capdlão das minas de ouro 
ao Rv.^ P.* Frei António de Assumpção. 

Gaspar teixeira de azevedo Capp.*™ maior da Capp> 
de Pemagua e nella prouedor dos q.^ Reais em todo 
seu districto por Sua Mag. **• etc. 

Por quanto Sua Mag.**® tem recomendado e reco* 
menda a conseruação das minas desta Capitania e Igoape 
aos coais por ficarem longe de pouoado metidas em ser- 
tam dezerto lhe deficultam aos mineiros o poderem 
asistir nellas pela falta q' experementão de sacerdotes 
p.* lhes administrar os Sacram.*®* portanto auendo Resp.® 
a táo urgente nesecidade e diuendo por rezão de meu 
cargo acodir a reparalla e constandome não auer sacer- 
dote algum que possa asistir nesta ocupação e obra pia 
sem soldo saluo o Rev.*® P.® frei António da Asumpção 
soldado e comf eçor da Regular obseruancia de São 
Fran."* da província da Madre de Deus da índia "orien- 



1 



132 



taJ o coal de sua uertude faz este seruiço a Deus e a 
Sua Mag.**® p.* bem e augmento de seus quintos Reais 
sendo p' iso grande o do credito entre os mineiros de- 
pois de me constar comcorreres no d.*® Religioso todas 
as partes e requizitos necesarios para que Sua Mag.** 
o confirme. Eu por bem se o nomear e prouer como 
pellas prez.*® o proueio no cargo de Capeiam p.* aa 
ditas minas sem soldo athe m* da Sua Mag.**®, feita em 
Iguape aos oito dias do mez de Agosto de mil e seis 
sentos e noventa e hú annos. Eu António p.» escrivão 
que lhe escrevi como escrevão do Reg."*" Reais. — Gaspar 
teixeira de dzevedo. 



Documento n."» 15 

Ha uma Fonte, chamada com grande alegria, a 
Fonte do Senhor, na vizinhança de hum Monte, sobra- 
ceiro a esta Villa onde a dita Imagem do Senhor Bom 
Jesus, antes de ser collocada nesta Igreja, foi posto 
sobre húa pedra, para se lavar do salitre do Mar ; esta 
pedra tem crecido prodigiosamente, e faz ja uma gran- 
deza considerável a pezar da immensidade de pedaços, 
ou lascas, que d'ella se leva quazi diariamente, e se 
conserva em húa casa de abobada redonda feita de 
pedra e cal, em cujo frontispicio da porta se vê o Dí- 
stico seguinte: 

(f^Intus aqua dulces^ vivoque sedilia saxo,» 
^In quo e^i htm. — que meda nostra lat^at.^ 

Esta casa é a segunda, que se tem feita, por haver 

cabida a prmieira em razão do crescimento da pedra. 

Nâo deve admirar ficar a dita pedra tão retirada 



133 



da estrada; pois que o caminho que nesse tempo con- 
duzia ao Porto da Ribeira, passava por aquelle logar; 
e ao depois, admirando-se o crescimento da mencionada 
pedra, se desvio tãobem hum pouco espaço o alvêo do 
Rio, ou Fonte, para se levantar a casa, que se con- 
serva sempre feixada; mas que se manda abrir e se 
permittir aquém aquer ir vêr. 



Documento n."" 16 

Declaro mais que a plantação vai em augmento, por 
que a maior parte ou quazi todos os habitantes se apli- 
cáo na cultura, e presentemente vâo se ademitindo na 
plantação de Cafés, cujo género d*aqui alguns annos 
ha de haver com abundância a porpoção do Pais, alem 
disse também plantão cannas e vão levantando algumas 
Ingenhocas porimquanto em que fabricão Aguaradente, e 
pello tempo imdiante se der este género hade haver 
quem mais se aplique a elles, e levantarão imtáo fa- 
bricas maiores. De todos os géneros que se plantão 
neste Pais o que Superabunda he Arroz, por ser La- 
voura a que todos se inclinão por ser algú tanto fácil o 
Seo beneficio a porporção de outros géneros, porvir a 
colher-se logo, e por ser o seu preço de convidar ao 
Lavrador, mas este dito anno de 1806 não aconteceo 
asim aos moradores de Xiririca por causa da Xeia da 
Ribeira como se dirá. 



134 



Documento n."" 17 

Traslado de hum Titulo de medição de terras na pa- 
ragem chamada ViUa Vdha que forão do defunto Asi^ 
tonio Fernandes Sen^ào e hoje dos filhos Erdeiros do 
defunto Manoel Fernandez Sardinha aqui lançada a 
requerimento do Tutor dos ditos orfons. 

Luiz Lopes de Carvalho Cavalheiro Fidalgo da caza 
de Sua Alteza e pelo dito Senhor Capitão Mor em esta 
repartição da Capitania de Sam Vicente e nella Ouvidor 
com alçada pelo Conde da Ilha de Príncipe, Donatário 
e Governador desta Capitania e seu lugar thenente, Ses- 
meiro edesetra. Faço saber a todas as justiças e pes- 
soas desta Capitania que em cumprimento do Edital 
que mandei fexar em vinte e quatro deste presente raez 
de lunho, me apresentou António Fernandez Serrão a 
escriptura junta, pela qual consta haver comprado á 
Bartholomeu Gonçalves o terço de meya legoa de terra 
na paragem da Villa Velha como consta da dita escri. 
ptura e me requereo visto estar de poce da dita terra 
manca pacifica, e sem contradição de pessoa alguma 
lhe confirmaçe a dita terra, em nome do Senhor Conde 
Donatário, e visto por mim ser seu requerimento justo, 
lhe confirmo e hey por confirmada a dita terra, em 
nome do dito Senhor, e mando as Justiças desta Villa o 
conservam na dita poçe, para o que lhe mandar passar 
a presente sellada com o ginete das Armas do Senhor 
Conde Donatário e Governador desta Capitania de Sam 
Vicente. Fica registrada no Livro da Fazenda do dito 
Senhor, e eu Bernardo da Cunha de Carvalho, Escri- 
vão da Correyção e ouvidoria pelo dito Senhor Conde 
Donatário. Dada nesta Villa de nossa Senhora das 
Neves de Iguape aos vinte e nove do mez de Junho de 



iâ5 



mil setecentos, digo de mil e seiscentos e setenta e nove 
annos — Fica registrada no livro da fazenda do Senhor 
Conde Donatário a folhas três — Bernardo da Cunha de 
Carvalho — Escritura de venda de um pedaço de terras 
na Villa Velha de uma paragem chamada Oiteirinho, 
idonde say hum ribeiro, que vendeu Bartholomeu Gon- 
çalves a António Fernandez Serrão, hum terço de meya 
legoa de terras. Saibam quantos este publico instru- 
mento de escritura de venda de hum terço de terras 
digo de meya legoa de terras na Villa Velha correndo 
para o Oiteirinho do Baxarel deste dia para todo o 
sempre virem, como no anno de Nascimento de Nobso 
Senhor Jesus Christo da era de mil e seis centos e set- 
tenta e nove annos aos catorze dias do mez de Março 
do dito anno, nesta Villa de Nossa Senhora das Neves 
de Iguape da Capitania de Nossa Senhora da Concey- 
ção parte do Brazil edesetra, nesta dita Villa, em pou- 
zadas de António Fernandez Serrão, a donde eu publico 
TabeUâo ao diante foi chamado digo nomeado fui cha- 
mado, de Bartholomeu Gonçalves pelo qual me fui dito 
perante as «testemunhas aodiante nomeados, que elle 
dito Bartholomeu Gonçalves, vendia e doava a António 
Fernandez Serrão hum terço de meya legoa, onde cha- 
mão a VUla Velha, as quaes terras lhe ficou de erança 
do defunto seu pay Francisco Gonçalves, as quaes ter- 
ras he possuhidor e entregue pela Justiça de Sua Alteza 
e por húma poçe viva que lhe tomarão a dar de novo 
pelo Doutor Manoel Dias Ea,poza, Ouvidor Geral da 
Repartição do Sul, por quanto lhe tinha tomado por 
ordem de Sua Magestade para villa se fazer, e como 
não vejo o effeito e façer-se nellas villa lhe tomarão a 
dar, como consta da dita poçe asima declarada, e pela 
mesma poce asima dita e pelo poder que tenho das ditas 
terras as vendo por preço e quantia de quatro mil reis, 



m 



o qual dinheiro logo lhe contou perante mim Tabelião 
em moeda corrente, e pode o dito António Femwidez 
Serrão, tomar ipo(fe do dito terço de meya legoa de 
terras de hoje por todo o sempre por ser couza com- 
prada com seu dinheiro e pode fazer das ditas terras o 
que lhe benj estiver porquanto sam suas e llie traspasso 
todo o Dominio que nellas tinha estive ate agora por 
senhorio delias todo traspasso no dito comprador na ma- 
neira sc^redita nomiada ao dito António Femandez Ser- 
rão por senhor e pussuhidor delias, promettendo por sua 
pessoa e beins moveis e de rais, havido e por haver 
de lhe fazer boas e de pas a dita venda, e darão por 
empossado digo por opoentes verdadeiros defensores a 
toda a duvida e embargos, que a ella foce posta, e por 
estar presente o dito comprador aseitou esta venda e 
de tudo mandou fazer nesta nota e delia dar os tresla- 
dos necessários que cumpriçem. Testemunhas que foram 
presentes, Severino de Veras, António Cardozo, Manoel 
de Pontes, moradores nesta villa pessoas de mim Tabe- 
Uão reconhecidas, que assignarão com o outorgante, e 
por ser hum velho falto de visto pedio a Sebastião Ro- 
drigues Bueno que por elle asignace eu Graspar Pacheco 
Tabelião que o escrevy, o qual treslado de escritura de 
venda de terras eu Gaspar Pacheco Tabelião desta Villa 
de Iguape tresladei bem e fielmente das notas, corry, e 
comsertey, e vae todo na verdade sem que leva couza 
que duvida fassa o que me reporto em fê do que me 
asinei de meu signal publico e razo eu sobredito Tabe- 
lião que o escrevy — em fé de verdade — lugar do signal 
publico — Gaspar Pacheco. Paca confirmação na forma do 
estillo, Iguape Junho vinte e nove de mil e séiscentes 
séttenta e nove — D. Caf^alho — Bartholomeu Gonçalves 
morador nesta villa de Nossa Senhora das Neve^ de 
Iguape, que o seu pay ja defunto possuhio junto a barra 



iâ7 



meya legoa de terras, donde se chainão ViUa Velha, « 
se ajuntarão os Ofliciaes da Camará e os homens do 
povo lhe pedh-em quisece dar sitio para se asituar villa, 
e elle ja deram muito de boa mente prometendo lhes 
os asimo ditos de lhe darem outras tantas terras em 
outra parte as quaes lhe não deram nem servia para 
Villa e agora se apegão a chamar lhe terras do conselho 
e lhe fasem pagar estopendio delias. Pelo que pede a 
Vossa Mercê visto não lhe deram outras o mande meter 
de po<^ de suas terras outra vez. E Recebera Mercê — 
Respondão os Officiaes da Camará — Rapoza. Respon- 
dendo a petição do supplicante dizemos que não pomos 
duvida alguma ao empossarem das ditas terras, por 
quanto nos consta ser verdade o que pede em sua pe- 
tição, hoje vinte e hum de Abril de mil e seiscentos e 
secenta e sete annos. Nossa Senhora das Neves de Iguape 
eu Baltazar de Souto TabeUão a passey por mandado 
dos Officiaes da Camará em ausência do Escrivão da 
Camará, Gonçalo MartinSy Domingos Gomes da Cunha, 
Bdxior TorãOf Valentim Roiz, Pedro Cubas, Visto a 
resposta dos Officiaes da Camará a não terem duvida a 
o que o supphcante pede o Escrivão e húm dos Juízos 
lhe va dar poce das ditas terras, Iguape vinte e dois de 
Abril de mil e seiscentos e sessenta e sete — Rapoza — 
Termo de poçe que o Juiz Ordinário Felippe Pereira da 
a Bartholomeu Gonçalves por vertude de despacho asima 
do Senhor Ouvidor Geral. — Aos onze dias do mez de 
Junho do anno de mil e seiscentos e sesenta e oito an- 
nos, por vertude do despacho asima do Senhor Ouvidor 
Greral o Juiz Ordinário Felippe Pereira comigo escrivão 
fomos ao sitio do Bartholomeu, Gonçalves e lhe demos 
poce de meya legoa de terras na paragem nomeada 
Villa Velha e lhe deu poce e mandou apregoar para ver 
se avia quem contradicece ou pozese embargos algum a 



138 



dita poce o que foi logo apregoado três vezes pelo dito 
Bartholoineu Gonçalves em altas vozes e de bom son e 
visto não haver quem contradicece a dita poce nem em- 
bargos alguns lhe meteu o dito Juiz hum ramo verde 
na mão em signal da poce Real na dita meya legoa de 
terras partindo com as terras do Capitão Francisco Pon- 
tes Vidal da barra de hum Ribeiro que bota a praia 
correndo pela praia adiante caminho de Nord'e8te ate 
a barra de hum pereique que chamão de Capara as 
quaes ditas barras lhe servem de marco, e como o dito 
Juiz lhe deu a dita poce comigo Tabelião que fiz est« 
termo a onde se asignou o empossado Bartholomeu Gon- 
çalves com o dito Juiz. Eu Bartholomeu digo Balta- 
zar de Souto, Tabelião que o escrevy — Felippe Perdra— 
de Bartholomeu Gonçalves huma cruz — Baltasar de 
Souto — Amtonio Gomes — como testemimhas desta poce 
que se acharão presentes a ella Francisco Pereira da 
Silva, de António Pires húma cruz. Auto da medição 
de terras e poce que o Juis Ordinário Diogo Pereira 
Nunes fez á António Fernandez Serrão. Anno do nas- 
cimento de Nosso Senhor Jesus Cliristo de mil e seis- 
centos e noventa e sete annos aos dous dias do mez de 
Dezembro do dito anno nesta Villa de No&sa Senhora 
das Neves de Iguape o Juiz Ordinário Diogo Pereira 
Nunes comigo escrivão de seu cargo a requerimento de 
António Fernandez Serrão fomos com o dito Juiz a 
medir lhe suas terras onde foi também o Capitão João 
de Aguiar Siqueira morador nesta dita villa também o Ca- 
pitão Francisco de Aguiar Siqueira assistente nesta dita 
villa com que chegando a paragem chamada villa velha, 
sendo ahi em vertude da escritura, e mais poce, e conficma- 
cão, logo o dito Juiz deu juramento ao Capitão Joãe de 
Aguiar de Siqueira e o Capitão Francisco de Aguiar 
de Siqueira para que debaixo de dito juramento inedi- 



lâô 



cem as terras comtheudas na dita escritura e eUes as- 
sim o prometeram fazer, onde perante o dito Juiz e eu 
Tabelião medirão húma corda de vinte e cinco In^aças 
craveiras, e com ella comessarão a medição de húm Ri- 
beiro chamado Acarahy, que say a praya como cons- 
tada da escritura e venda, que o defunto Bartiiolomeu 
Gonçalves fez ao dito António Femandez Serrão, e cor- 
rendo os ditos nomeados com a medição pela Praya 
adiante caminho do Nord'este tê encheram a quantia 
de quinhentas braças craveiras de que reza a sua escri- 
tura e chegarão a barra de húm ribeirinho que fica 
antes de chegar ao oiteiro do Baxai*el, cortando terra 
dentro a rumo de Noroeste a Sueste, e sendo chamado 
Domingos de Barros que parte com o dito António Fer- 
nandez Serrão perante o dito Juiz e eu Tabelião e o 
Capitão Francisco de Aguiar de Siqueira e o Capitão 
João de Aguiar de Siqueira dicerão ambos estavão con- 
tentes e satisfeitos da medição e rumo que entre elleâ 
havião botado para que em nenhum tempo entre elles 
nem seos erdeiros haverião duvidas pois os ditos avião 
por bem avião requerido essa medição judicialmente para 
que em nenhum tempo seos erdeiros não duvidaçem 
na dita poce e rumo que corta a noroeste a sueste apa- 
nha pela ponta do Oiteiro mais chegado ao Monête do 
Baxarel e logo mandou o dito Juiz apregoar trez vezes 
pdo dito António Femandez Serrão se havia quem 
contradioece, ou puzece embargos a dita medição, e 
não ouve que contradicece a dita medição é poce me- 
teu o dito Juiz húm ramo verde na mão do dito An- 
tónio Femandez Serrão em signal da poce de que de 
tudo para assim constar fiz este Termo de medição e 
poce em que se asignarão com o dito Juiz Domingos 
de Barros como meeyro com o dito António Feman- 
dez Serrão e também se asignarão os ditos homens que 



140 



andarão com a medição eu Miguel Fernandez Bicuda 
Tabelião que escrevy — Diogo Pereira Nunes — Domingos 
de Bairros — João de Aguiar de Siqueira — Francisco de 
Aguiar de Siqueira — Antomo Feyuandez Serrão. Nada 
mais se contem em a dita escritura e titulo de medição 
o qual eu Tabelião aqui bem e fielmente o tresladei 
dos próprios a que me reporto com o qual esta conferi, 
e vai toda na verdade sem que leva cousa que duvida 
fassa porque o ly, corry, conferi, comsertei, e asigney 
nesta villa de Iguape aos vinte e sete dias do mez de 
Julho de mil e sete centos e oitenta e hum annos eu 
José Jacintho da Silva Rocha Tabelião que o escrevy 
comferi e asignei. — José Jacintho da S.^ Bocha. 

Conferido por mim Tabelião, 
JBocha. 



Bocumento n."" 18 
Titulo 

Da erecção de^ta MaUiz, seu ornato, Apparição da 
Imagem do Senhor Bom Jesus e das Irmandades. 

Esta Igreja Matriz foi erecta ha perto de Duzentos 
annos. A sua Padroeira he a Virgem Mai de Deus 
com a invocação das Neves. Não consta que tivesse 
anteriormente outro Orágo, e deve se prezumir, que a 
primeira villa, que, como ja dice, existio distante desta 
húa legoa, a tivesse ja por sua Padroeira. 

Esta Igreja tem três Altares, todos de Nave antiga, 
e não muito decentes; mas que se ornão nas occasioens 
de festividade. Sendo o lateral da parte do Evangelho 
o do Senhor Bom Jesus, e outro, que lhe corresponde o 
da Senhora do Rosário, e ornados todos com vaiías Ima- 



141 



gens. No Altar maior está a Padrpeira; neste mesmo 
em dois pequenos Nichos aos lados para dentro da ban- 
queta estão as Imagens de Senhora do Carmo e de Santo 
António, aos dois lados do dito Altar as da Senhora 
da Conceição e de São João Baptista de húa parte, e 
da outra as da Sancta Luzia e São Sebastião: no Altar 
do Senhor Bom Jesus as da Senhora da Conceição e 
São Francisco de Assis; e no Altar da Senhora do 
Rosário as de Sancta Anna, de São Miguel e São Be- 
nedicto. Deste mesmo lado está um pequeno Altar 
com húa respeitável Imagem de ordinária estatm-a, per- 
feitíssima da Senhora das Dores, no qual se não cele- 
brar pela pequenez. A sacristia he bem indecente, o 
arcaz velho, e sem commodos; sobre elle está húa Ima- 
gem do Senhor Crucificado de mediana grandeza, e no 
fim da sacristia ha tãobem em hum nicho húa grande 
Imagem de São Francisco de Paula. 

O Altar do Senhor Bom Jesus he privelegiado desde 
29 de Janeiro de 1782 por carta de privelegio do Exmo 
Revmo Dom Frei Manoel da Resurreição, Bispo de São 
Paulo, em consequência de Breve Apostólico do Sancto 
Padre Clemente 14 de gloriosa memoria de 18 de Julho 
de 1781 que se acha copiado no livro dos Capítulos de 
Visitas a fl. 14 ver. 

Tem esta Igreja dois sacrários, hum no Altar Maior 
e outro mais decente no Altar do Senhor Bom Jesus, 
onde se conserva sempre o Sanctíssiuio Sacramento, 
cuja despeza de azeite, e será, se faz por conta do 
mesmo Senhor. Tem húa Pia Baptismal de Mármore, 
boa, e húa capsella ou ambula de prata, com três vazas 
tãobem de prata, para os óleos sagrados, que se con- 
servão em húm pequeno armário junto a dita Pia, e 
húa concha de prata para a administração do Baptismo. 

He repartida em sepulturas, que todas pertence a 



142 



Fabrica, exceptuando quatro asima das grades, e quatro 
logo abaixo, que são da Irmandade do Sanctissimo Sa- 
cramento asignalados; e três logo ao pé da porta prin- 
cipal, que forão cedidas a Irmandade da Senhora do 
Rosário em 1750 pelo Doutor Manoel de Jesus Pereira, 
Vigário Capitular deste Bispado sede vaeante: todas 
são numeradas. 

Tem três Sinos, hum, a que chamâo grande, e dois 
mais pequenos. 

Ha de haver mais de trinta annos que se deo fHrin- 
cipio a Nova Matriz; este ficou parada depois de se 
haver ajuntado bastante materiaes, e tirado os alicexces, 
talvez por discordância entre os administradores da 
obra. Sei que o povo trabalhava de boa vontade em 
esquadras de vinte pessoas cada húa; este ainda hoje 
a dezejo, e está prompto^ o povo sempre he bom e 
mormente havendo quem o dirija bem. Até aqui tem 
sido inuties os dezejos de se levantar húa Matriz de- 
cente, e tal he a desgraça de Iguape, que podendo na 
sua infância e pobreza eregir Matriz, nos seus dias flo- 
rentes não tem hum homem, que sacrifique por algum 
tempo os interesses pessoaes e se revista do espirito de 
quem faz obra publica, para cuidar em húa obra de 
tanto momento e necessidade. Neste estado de enfer- 
midade nos podemos dizer como o ParaUtico da Pis- 
cina — Non habeo hominem. 

8 de Setembro de 1819. 



Documento n."" 19 

Em muitas Freguezias deste Bispado se achão mui- 
tas faltas de assentos, por terem os Rev.*® Parochos os 
livros em suas cazas e de descuidarem de os fazerem, 



143 



e poeto que no Rv.*® Parocho desta Igreja não se expe- 
rimentáo estas negligencias, comtudo lhe ordeno que terá 
todos os livros da Freguezia na Sachristia em alguma 
gaveta do Arcas, e não havendo commodidade, mandará 
a custa da Fabrica fazer um bufete com duas gavetas, 
nae quaes recolherá os livros, e depois de fazer algum 
enterram.*®, baptizado, ou Cazam.***, lansará no livro 
competente o assento antes de recolher-se a sua caza. 

Iguape, 26 de Novembro de 1778. 

P.* João Ferreira d'Oliveiro Bueno, 
em Visita nesta Yilla de Iguape. 



Documento n.'' 20 

Em data de 13 de Janeiro 1827, escreviu P.® João Chry- 
sostomo d'01iveiro Salgado Bueno, no Livro das Visitas 
pagina 96 o seguinte : Lançou-se ha 40 aimos os fun- 
damentos de húa nova Matriz, que parou logo no seu 
começo, e tendo-se nella trabalhado com algum fervor 
desde Agosto de mil oito centos e vinte e dois, apenas se 
tem conseguido tirar a maior parte dos alicerces, e le- 
vantar as paredes á pequena altura. A i)obreza da Fa- 
brica, e das Irmandades, a mediana fortuna dos Paro- 
chianos, que alias tem concorrido com seus donativos, 
e serviços a proporção das sues faculdades, as esmolas 
que os Devotos tem prestado ao Senhor Bom Jesus, 
as quaes tem sidas applicadas para esta obra, não per- 
mittem smão hum vagarozo andamento, e com tão 
fracos recursos não he possivel concluir-se. 



144 



Boctimento n.^" 21 

Dom Matheus de Abreu Pereira, Bispo de S. Paulo, 
estando nesta villa de Iguape em 2õ de Junho de 1798, 
escreveu no Livro das Visitas fls. 23 o seguinte : 

Exortará aos seus Parochianos, visto serem tam 
amantes do culto Divino, que para fazerem as suas 
funçoens com o aceio que he devida, cuidem muita na 
continuação da Obra da Sua Igreja Matriz, ajudando-o 
e a fervorando-o mesmo Rev. Parocho a fim de não 
desanimarem. 



Documento n."* 22 

Escritura de doação feita pello P.* D, António Rie- 
ciardélli. Saibam q.*' esta p.*^ instrum.^ descritura de 
doação virem q' no anno do nasim. ^ de nosso Senhor 
Jesu Christo de mil e sete sentos e sete annos Em os 
sinco dias do mez de Julho nesta V.* de Nossa Senhora 
das Neves de Igoappe Capp> de Nossa Senhora da 
Consepçáo estado do Brazil etc. Em as pouzadas 
do Rev.^<» P.® Dom António Rechiardelli Clérigo do Abito 
de Sam Pedro donde eu p.^ t.*°* ao diante nomeado e 
assignado foi a seu chamado e sendo ahi pello dito 
Padre me foi dito em presencia das testemunhas ao 
diante nomeados e assignados que elle intentaua como 
com effeito ententa ser Cappellão Perpetuo the sua morte 
do S.^ Bom Jesus desta V.* de Iguappe e administrador 
de seus bens por seu motu próprio com o zelo que Deos 
ha de aumentar, os ditos bens e que a dita confirmação 
espera venha confirmada e retificada do mão e juizo 
do Illustrissimo S/ Dom Fran."* de Sam Jerónimo Bispo 
da Gid.® do Rio de Jau.® e sua' diosize a çuio juizo 



145 



pertence a dita confirmação e que confirmando o dito 
Senhor no dito intento asima ao dito adoaua e daua 
como com effeito dará da scriptura desjta p' sempre todos 
os seus bens q* pesuhi the o presente pesuhidas e fu- 
turas sobreuindas adqueridas por qualquer titullo que 
fic&o asím bens moveis como de rais outro sy dise o 
dito P.® que reseruaua como com effeito reserua quatro 
Bentos mil reis para húas obras pias que intenta fazer 
o que posuhia o dito P.® quatro sentos digo coatro mil 
e quinhentos cruzados asim em D.^ como em diuidas 
que lhe deuem por papeis autênticos e que todo adoaua 
com dito he ao dito Senhor p.* sua obras e administra- 
ção p.* o que lhe não empediriáo fazer elle capella mís- 
tica na mesma Igreja, com declaração que por morte 
delle ou T.' g.* o emcerrarião na dita capella junto ao 
Altar do dito S.' Bom Jesus com os sufrágios custu- 
mados que se fazem a hú sacerdote officio e Missa can- 
tada e pompa custumada alimentando ce outro sy elle 
outorg.^ dos bens adoados em q.**" sua uida outro sydise 
elle dito P.® outorg.^ que dato caso que o dito Ulustris-* 
simo não confirme nem retefique o dito seo intento esta 
não valerá nem terá força nem vigor e será destratada de 
que de tudo mandou fazer este instrum^ em meu 
este meu livro de notas sendo por testemunhas Ant.<* 
de Freitas Ramos o Capp.*" Diogo Per.» Pais e Capp.»" 
Man.* Gon.®* Cruz pessoas reconhecidas de mim com 
que todos assignarão Eu Ant.^ Roiz Medeiros escrivam 

que o escrevy. 

P.' D. Ant"" Ricciardeai, 

AnL^ de Freitas Ramos. ManJ GonV Cruz. 

Diogo Per.'* Pais 



10 



146 



BoMmento ii.^23 

António José Pinto Tabelião do publico Judicisd e 
Notas e Escrivão do Jury e CorreçSo desta Villa de 
Iguape e seu Termo por S. M. O Imperador qwe Deus 
Guarde ete. Certifico que em cumprimento do orde- 
nado pelo meritissimo Doutor Juiz de bireito Correge- 
dor e Provedor da Camará Antcaiio MiKtão de Sousa 
Aimberé, na lauda retro, passei a rever o Lavro do 
Tombo da Igreja Matriz desta Villa, e nelle as folhas 
cinco verso te folhas seis verso, encontrei a Escríptura 
aqui maaidada trasladar a qxial he pela forma e ma- 
neira seguinte^ — Traslada da Escriptura de arrendameiito 
de terras que fez o Pa(be Vigário Francisco Pereira da 
Silva — Saibam quantos este publico instrumento de Es- 
criptura de arrendamento virem, como no anno do 
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil seis 
centos e oitenta e cinco annos, aos vmte dias do oaez 
de Agosto da sobredita era, nesta Villa de Nossa Se- 
nhora das Neves de Iguape, Capitania de Conceição, 
de que he Donatário d*ella o Conde da Ilha do Príncipe 
por Sua Magestade etcetra, nesta dieta Villa em casas e 
morada do Reverendo Padre Vigário Francisco Pereira 
de Silva, donde eu publico TabeUão ao diante nomeado 
fui a seu chamado, e ahi presente as testemunhas ao 
diante nomeadas, que foram chamadas, me foi dito pelo 
dicto Padre que elle possuia obra de quinhentas braças 
de terras no sitio e paragem chamado Cubixativa, que 
tinhão sido do defuncto Francisco Fernandes o velho e 
de Eugenia Lopes, que partem com Salvador Pereira 
donde tem marcadas com o dicto seu vizinho com qua- 
tro pedras grandes, correndo para esta Villa athe a pe- 
dra grande que chamão Ita-ca-caya as quaes terras disse 
o dicto Padre as tinha comprado com o seu di- 



147 



nheiro como consta das Escripturas e títulos delias que 
apresentou e que nas ditas terras fizera o dito Pc^dre 
Sitio e casas de telha donde tinha sua chácara as 
quaes quinhentas braças de terras sitio e casas de hoje 
por diante arrendava a João Abreu filho do Victorino 
Gonçalves com tudo quanto no dito sitio e oasas se 
achar com obrigação e pensão de que o dito João de 
Abreu desde o dia da morte do diòto Padre todos os 
annos lhe mandará dieer duas Missas nesta Igreja Ma- 
triz 'a Sempre Virgem Maria Mae de Deos Senhora 
Nossa por tenção do dito Padre, e que duraria este 
arrendamento em quanto o dito João de Abreu vivesse 
e por sua morte substituia no dito arrendamento a qual- 
quer de seus sobrinhos filhos de seu Irmão António Pe- 
reira de Abreu, com mais algumas Missas conforme o 
augmento em que for esta dieta Villa de Iguape e que 
^as dietas terras e do que nellas lavrassem pagaríão 
Dízimos a Deos e logo a dita pensão de Missas como 
dito he e dado caso que o dito João de Abreu e Jda 
mesma maneira os substitutos seus sobrinhos queirão 
largar do dicto arrendamento os Testamenteiros do 
dito Padre e em falta d*eTle8 os Reverendos Padres Vi- 
gários, seus successores mandarão pôr hum escripto 
por serviço de Deos na porta desta Matriz para que 
venha a notida de quem quizer arrendar e que os ditos 
Testamenteiros ou os Reverendos Vigários farão o ar- 
rendamento por papel particular que valha por escri- 
ptura por tempo de nove annos ou de dous nove annos 
ou de três nove annos como he estilo em semelhantes ar- 
rendamentos preferindo sempre nelle os dictos Sobrinhos, 
filhos e netos do dito seu Irmão António Pereira ou o 'dieto 
João de Abreu, filhos ou netos legitimes aquém maisMis- 
sas mandar dizer pela dita tenção do dicto Padre, disse 
mais o diçto Padre que concedia ao dicto João de 



148 



Abreu em sua vida somente visto ser pobre e quazi 
mudo quando não pudesse dizer huma somente em 
cada anno, tudo assim houve por bem o dicto Padre 
e em fê do que assim outorgou mandou fazer esta 
escriptura neste meu livro de Notas que me pedio e 
assignou para delia se dar os traslados necessários, a 
qual eu Tabelião ac<5eitei sendo presentes por testemu- 
nhas o Reverendo Pswlre António Barboza de Mendonça, 
Domingos Ribeiro, e Bartholomeu Francisco, Pessoas 
de mim TabelUão reconhecidas e moradores d'esta Villa 
e assim mais o dicto João de Abreu, que acceitou o 
dito arrendamento, que todos assignarão aqui com o 
Outorgante e eu Manoel Pereira da Silva Tabelião do 
Publico Judicial e Notas desta Villa e seus Termos pelo 
Senhor Conde da Ilha do Príncipe que o escrevy — Ma- 
nod Pereira da Silva — O Padre Francisco Pereira da 
Sãva — Domingos Ribeiro — O Padre António Barboza de 
Mendonça — Berth^Aomeu Franciseo digo Bertholomeu 
Francisco — João ^ Abreu — O qual traslado de escriptura 
como atraz se declara e contem eu Manoel Pereira da 
Silva Tabelião do Publico nesta Villa de Iguape Judi- 
cial e Notas pelo Conde da Hha do Príncipe o trasladei 
bem e fielmente do meu livro de Notas a que me re- 
porto vai na verdade que o corri e consertei com o 
proprío em fê do que me assigno em publico e razo 
signal nesta dieta villa aos vinte e hum de Agosto de 
era acima sobredito Tabelião o escrevi — Mando, digo o 
escrevi — Em fé de verdade — Manoel Pereira da Sãva — 
He quanto se continha e declarava em dieta escriptura, 
a qual aqui bem fiel e verdadeiramente, e em cumprí- 
mento do quanto ordenado foi pelo Meritissimo Doutor 
Juiz de Direito Corregedor e Provedor da Comarca An- 
tónio Militão de Souza Aimberê a folha prímeiro verso 
copiei do próprio original que foi apresentado pelo 



149 



Muito Reverendo Vigário Collado e da Vara José Alves 
Carneiro, e a elle me reporto. Vai esta por mim es- 
cripta conferida e assignada, nesta ViUa de Iguape, 
Provincia de Sáo Paulo, aos dezoito dias do mez de 
Agosto do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus 
Christo de mil oito centos e quarenta e oito, vigésimo 
sétimo da Independência e do Império. Eu António 
José Pinto Escrivão do Jury e Correição que o escrevi, 
conferi, e assigno. António José Pinto — Confere— ^ínto. 



Documento n.<> 24 

Pensões pias e Missas Perpetuas. 

O logar do Porto da Ribeira antigamente chamado 
sitio, q' de tempo immemorial pertenceo aos assendentes 
de Raimundo Rodrigues e q' hoje pertence a seu filho 
Salvador Rodrigues Lima he obrigado a pensão de húa 
Missa por anno a qual manda dizer o dito Salvador 
Rodrigues Lima cuja obrigação ha de passar á seus 
herdeiros. A certidão desta Missa se lança em hum 
caderno que mandei fazer para esse fim que existe em 
casa do Parocho entre os Livros da Igreja. Não tenho 
achado o titulo desta pensão, e ninguém me sabe imfor- 
mar donde venha esta obrigação, ou Legado, só achei que 
no anno de 1700 o dito sitio pertencia já ao Provedor 
Valentim Rodrigues; mas não sei se já era pensionado. 

No Bairro de Enceada próxima a esta Villa para 
Nord'este, o logar, chamado antigamente Cubixativa, está 
obrigado á pensão de duas Missas por anno pelo arren- 
damento, que fez por escriptura pubUca o Reverendo 
Vigário desta Freguezia Francisco Pereira da Silva a 
João d^Abreo em 1685. Muito depois foi commutada 



160 



esta pensão em húa Missa por anno pelo Revertido 
Visitador o D.<*' Manoel da Costa de Andrade. Porem 
havendo hoje vários moradores afforado as mensionadas 
terras, estes pagão annualmente — pro^rata — e de meu 
tempo si tem dito trez Missas por cada hum anno, con- 
forme a instituição do Legado. A certidão he lançada 
em outro caderno próprio, onde já transcrevi o titulo 
que achei no antigo Livro do Tombo. 

Mys adiante no mesmo Bairro estão sitas duzentos 
e dez braças de terras, que confinão com o Sitio de 
Dona Narciza Dias Baptista ao Sud'oeste e ao Nord'este 
com o Sitio de Theodozio Pereira, as quaes estão sujeito 
a pensão do Legado de trez Missas por anno, como se 
ve de outro caderno, que mandei fazer, onde tãobem 
transcrevi o titulo, que aehei, e no qual se passa a cer- 
tidão competente; porem, subindo o preço estimativo das 
ditas terras na forma da intenção do fallecido Legatário, 
Dona Narciza Dias Baptista, pela terça parte, de que 
he foreira, hade mandar dizer d'aqui por diante quatro 
Missa» por anno, a cuja pensão se obrigou; e António dos 
Reis e Ignacio da Costa pelos outros dous terços de que são 
f oreiros, mandão dizer húa Missa cada um e se aumentará 
o numero d'ellas conforme a estimação das ditas terras. 

8 de Setembro de 1819. 



Documento n,^ 25 

Noticias de cento e sincoenta hracas de terras na Praia 
da Jurêa que pertencem â Senhora de Guadalupe. 

A pequena Capella ou Ermida da Senhora de Gua- 
dalupe, erecta na Praia da Jurêa tem cento e cincoenta 
braças de terras no logar onde está situada dita Capella, 



151 



as quaes lhe servem de Património, e vem a ser: Cem 
braças deixadas p* Lucas da Silva, o qual as houve p' 
compra q' fez no valor de quatro mil réis (dinheiro que 
tinha das esmolas dadas pelos Devotos á mesma Se- 
nhora) á Raquel de Souza, que as passuia p' herança 
de seus antepassados, os quaes as tinhão havidos por 
sesmaria concedida pelo donatário o Conde da Ilha do 
Príncipe, e fazião antigamente parte de húa sesmaria de 
meia legôa. E cincoenta braças ao Sul, mixtas as mes- 
mas, dadas pelo Reverendo Vigário Diogo Rodrigues 
Silva, as quaes pertencerão á Maria Gracia, filha de 
Agepito Gracia, de quem herderá, e q' sendo deixadas 
p' aquella para o seu enterramento, como o d.^ ReV.**** 
Vigário se encarregasse de toda a despesa do mesmo, 
ficarão-lhe por isso pertencendo, e como possuidor d'ellas 
as deu á dita Senhora de Guadalupe, para que juntas 
as referidas cem braças, ficassem estas duas porçoens 
de terras fazendo o Património da mencionada Capella. 
Para em todo o tempo constar, e tirar toda qual- 
quer duvida q' se possa offerecer a respeito das men- 
cionadas terras, faço aqui está declaração. Iguape 23 
de Janeiro de 1828. — João Chrysostemo d'Oliveiro Sal- 
gado Baeno. 

Vigário, Collado e da Vara. 



ESTUDOS HISTÓRICOS 



QUESTÕES DE DIVISAS 

ENTRE 

es Esnoos u nmi i »iin ciihiriu 



Existe actualmente entre os Estados do Paraná e de 
Santa Catharina uma séria questão de limites que tem 
tomado um caracter gravíssimo e adquirido um tom 
de azedume que não se justificam de modo algum. 

Cada Estado tem o seu advogado encarregado ' de 
defender a sua causa, sendo o dr. Ubaldino do Ama- 
ral o representante do Paraná' e o dr. Silva Mafra o de 
Santa Catharina, ambos jurisconsultos illustres que po- 
dem trazer estas questões a uma solução justa, baseada na 
Historia e nas leis, sem necessidade da applicação dos 
meios violentos que estão sendo empregados, os quaes, 
longe de facilitarem a remoção das difficuldades occurren- 
"tes, mais aggrava a sua situação. 

Uma commissão nomeada pelo governo do Paraná 
veiu a S. Paulo e, com permissão do Presidente d'este 
Estado, incumbiu-me de estudar a questão á luz dos 
documentos existentes no Archivo Publico, de que sou 
director, e de fornecer ás partes interessadas cópias de 
tudo quanto possa interessar á matéria. 

Aproveitando os documentos encontrados, resolvi for- 
mular a respeito d' esta grave questão um parecer, que 



164 



auxiliasse o encaminhamento das dúvidas a uma solução 
immediata e definitiva; porém, atarefado com os ser- 
viços ordinários da repartição e com o estudo de outras 
questões de limites dos nossos municipios entre si e do 
nosso Estado com o do Paraná, na fronteira de Apiahy, 
pouco tempo me sobrou para fazer um trabalho regular 
e bem docunitôntado sobre as divisas d'aquelles deus 
Estados. 

Entretanto a gravidade da questão e a intensidade 
da crise, porque ella está passando, obrigam-me a não 
demorar mais tempo a publicai^ do resultado dos estih 
dos até hoje feitos ; e os dados obtidos no Archivo 
Publico e fora d'elle constituem o assumpto da presente 
exposição. 

I 

Como preliminar, pai^a esclarecimento da matéria, 
julgo csonveniente declarar que parecem-me mal ^^plí- 
oados os nomes de capitania^ ás doações feitas pelo Sa 
João Hl a portuguezes illustres em território brasUeiro,* 
deveriam taes doações chamar-se sismarias ou danãtariãs 
e nõú eapitamas. 

A principio uma capitania era uma circumscripção 
poUtico-administrativa, de limitada extensão, governada 
por um capitão-môr, que tinha certas regalias e poderes 
adequados aos costumes e ás necessidades do tempo e 
do lugar. 

Mais tarde o nome de capitania foi dado a vaatafl 
províncias, com governos autonómicos e magistratma 
regular, tendo como administradores capitães-generaes^ que 
dependiam somente do Vice-Rei do Brasil e do Rai de 
PcHtugal, sem ter relações de espécie alguma com os do- 
natários das terras e seus descendentes. 



156 



Uma donatária era uma propriedade particular, mais 
ou menos extensa, doada pelo Rei a algum vassallo 
illustre em recompensa de serviços feitos ao seu paiz ; 
era administrada por seu proprietário ou donatário, por 
si ou por seu procurador, e este tinha direitos e deveres 
esta,beIecido6 na respectiva 'carta de foral, e limitadissi- 
mos diireitos politicos que por conveniência do serviço 
o governo português foi servido conceder-lhe. 

Esta mesma pouca autonomia politica, concedida aos 
donatários, foi mij^rimida de todo com a creaçâo das 
aqjitamas gerae» e transferida, com grandes augmentos, 
aos capitães*generaes, que eram delegados da imme- 
diata confiança da coroa portugueza. 

Os capitães-móres foram no começo dependentes do 
donatário chi do seu locotenente, depois passaram a ser 
representantes da pessoa do c^pitão-general nas villas 
da capitania. 

Uma donatária podia estar contida em varias capita- 
nia»^raes, assim como uma capitania-geral podia con- 
ter, no todo ou em parte, varias donatárias. 

Exemplifiquemos : 

A doação feita a Martim Affonso de Sousa consistia 
em duas grandes secções, sendo uma de 45 léguas, que 
se estendia de Santos até doze léguas ao sul de Cananéa, 
e outra de 55 léguas, que começava no rio Juqueri- 
queré, poueo além de S. Sebastião, e seguia pela costa 
do mar até Macahé, comprehendendo a bahia do Rio 
de Janeiro, e ambas as secções com os respectivos 
sertões. 

A donatária de Pedro Lopes de Sousa se compunha 
de três partes, sendo uma de 10 léguas intercalada nas 
terras de Martim Affonso, entre Santos e o rio Juqueri- 
queré ; outra de 40 léguas, contadas pela costa do mar 
desde doze léguas ao sul de Cananéa até perto da La- 



156 



guna ; e a terceira em Pernambuco, de 30 léguas de 
costa, incluindo a ilha de Itamaracá, todas com os re- 
spectivos sertões. 

Com a fundação da cidade do Rio de Janeiro, sua 
conquista pelos francezes no século xvi e reconquista 
pelo governo portuguez, parece qne os herdeiros de 
Martim Affonso perderam os direitos que -tinham sobre 
essa parte da sua propriedade, porque não a souberam 
defender da invasão estrangeira, ficando, entretanto, man- 
tidos esses direitos sobre todo o resto da sua donatária. 

Com a creação das capitanias-geráes, todas as terras 
doadas a Martim Affonso e as duas secções do Sul da 
donatária de Pedro Lopes ficaram sob o dominio do 
capitão-general do Rio de Janeiro, emquanto a secção de 
Itamaracá ficava annexada á capitania de Pernambuco. 

Pela carta régia de 23 de novembro de 1709, foi 
creada a capitania-geral de S. Paulo, abrangendo os ter- 
ritórios de S. Paulo, desde Paraty inclusive, de Minas 
Greraes, Goyaz, Matto Grosso^ Paraná, Santa Catharina 
e Rio Grande do Sul até a Colónia do Sacramento. 

N'esta capitania estavam incluídas aquella parte da 
donatária de Martim Affonso, do rio Juqueri-queré até 
Paraty, toda a secção de Santos até Cananéa e também 
as duas secções do Sul da donatária de Pedro Lopes. 

Estas duas ultimas foram encampadas n*esse mesmo 
anno pela coroa portugueza, mediante a indemnisação 
de 40:000 cruzados, paga aos herdeiros de Pedro Lopes. 

A nova capitania de S. Paulo era tão vasta e os seus 
territórios intçriores se estendiam tanto para o Norte que 
ficavam ainda n'ella contidos os sertões da capitania do 
Rio de Janeiro, que eram propriedade dos herdeiros de 
Martim Affonso; todo o sertão da donatária de Pedro 
de Góes da Silveira, que possuia 30 léguas de costa 
maritima, desde Macahé até o Rio Itapemirim ; o sertão 



157 



da donatária de Vasco Fernandes Coutinho, que se es- 
tendia de Itapemirim até o rio Macury ; o sertão da 
donatária de Pêro de Campos Tourinho, que estava 
situada do rio Mucury para o Norte até á distancia de 
50 léguas e era conhecida com o nome de PortoSeguro ; 
o sertão da donatária de Jorge de Figueiredo Corrêa^ 
que corria, na costa, desde a divisa da donatária ante- 
rior até á Bahia de Todos os Santos ; o sertão da dona- 
tária Francisco Pereira Coutinho, que ficava entre a 
Bahia e a barra do rio S. Francisco ; o sertão da dona- 
tária de Duarte Coelho Pereira, limitada na costa pelos 
rios S. Francisco e Iguarassú, e ainda mais o sertão de 
uma parte da donatária do grande historiador João de 
Barros, que possuia 100 léguas de costa além de Itama- 
racá até ao Maranhão ; isto é, a nova capitania-geral de 
S. Paulo abrangia os sertões de nove antigas donatárias, 
que occupavam a costa desde Laguna, em Santa Ca- 
tharina, até ao Maranhão, como se poderá verificar na 
carta geral do Brasil, relacionando as diversas donatárias 
ao longo da costa com os respectivos sertões sittiados 
ao poente em territórios de S. Paulo, Minas Geraes, Groyaz 
e Matto Grosso. 

Os primeiros três governadores da capitania de 
S. Paulo foram Albuquerque Coelho, D. Braz Balthazar 
da Silveira e D. Pedro de Almeida, que preferiram ir 
residir em Minas Geraes a ficar n'esta capital, porque 
com a descoberta de riquissimas jazidas de ouro, aquella 
região tinha adquirido tão grande importância e attra- 
hido tantos immigrantes de toda a parte, que tomou-se em 
pouco tempo muito mais prospera e rica do que S. Paulo. 

Esta rápida prosperidade da região mineira justificou 
a medida tomada pelo governo portuguez de elevar o 
seu território á categoria de capitania geral, desmem- 
brando-o da de S. Paulo em 1720. 



158 



n 



Em 1721 installou-se • n'6»ta capital o primeiro ca- 
pitôo-general, Rodrigo César de Menezes, que orgasmo 
todos os serviços públicos e deu começo ao Archiyo do 
Estado de S. Paulo. A sua auctoridade se estendia ao- 
bte todos os territórios acima mencionados, menos Mi- 
nas Greraes, que se tinha tomado capitania autonómica 
desde o anno anterior. 

Durou até 1727 o governo de Rodrigo Oesar e du- 
rante esse periodo de tempo nenhuma modificação legd 
se deu nas divisas da sua capitania, a não ser a trans- 
ferencia da villa paulista de Paraty para a capitania 
do Rio de Janeiro, pela carta regia de 16 de jantíro 
de 1726, sobre o fundamento de estar muito distante 
da cidade de S. Paulo, e da Justiça alli ser mais íacStr 
mente distribuída pelo governo do Rio de Janeiro. 

Durante a sua administração, Ouyabá prosp^xw 
muito em virtude da descoberta, pelos paulistas, de ricas 
minas de ouro em seu districto, em 1718. Rodrigo 
César seguiu para lá em 1726, regulou a concessão de 
sismarias e arrecadação dos quintos reaes, devou a 
povoação á categoria de villa, em 1 de janeiro de 1727i 
organisou o seu governo municipal e administração áa 
justiça, e voltou a S. Paulo em 1728, quando já não«fia 
mais governador desde o anno anterior. 

Goyaz, descoberto e explorado em 1726 pelo grMtde 
sertanejo paulista Bartholomeu Bueno da Silva, o se- 
gundo Anhanffuera, começou a ser povoado pelos esfor- 
ços de Rodrigo César e deu logo mostras das grandes 
riquezas encerradas no seu solo. 

Caldeira Pimentel, que substituiu Rodrigo César, 
governou a capitania de 1727 a 1732. A sua admini- 



159 



straçfio se tomou notável principalmente pelos roubos 
àos quintos reaes, de que elle próprio era o auctor (1), 
e pelos sanguinolentos combates travados entre o» pau- 
listas e os Índios nos caminhos fluviaes e terrestres dos 
sertões de Matto Grosso, combate em que nem sempre 
a victoria coube aos nossos bandeirantes. 

A Caldeira Pimentel succedeu, no governo, Aaitonio 
Luiz Távora, Conde de Sarzedas, que exerceu o cargo 
de 1732 a 1737. Tendo Groyaz tomado um grande de- 
senvolvimento, este capitáo-general teve ordem do go- 
verno portuguez de seguir para lá, regular as datas de 
sismarias nos terrenos auríferos e de pôr mais ordem 
na mineraçlU) dos metaes preciosos e nas arrecadações 
do fisco; porém, infelizmente, cahiu doente no caminho 
e falleceu no .arraial de Trairás, em território goyano, 
sem nada ter realizado da missão que levara áquelles 
sertões. 

Ficada a capitania inesperadamente acephaJa com a 
morte do seu capitáo-general, Conde de Sarzedaa, em 
1737, assumiu o seu governo interino o illustre Gomes 
Freire de Andrade, governador do Rio de Janeiro e mais 
tarde Conde de Bobadella e Vice-Rei do Brasil. Esta 
interinidade durou dous annos e como o governador in- 
terino não residiu n*esta capital ha uma lacuna nos 
papeis officiaes do Archivo Publico correspondente a 
este período de tempo. Comquanto fosse de pequena 
duração, foi esta interínidade de summa importância 
para S. Paulo, porque durante ella soffreu a capitania 
nm grande desmembramento e teve as suas divisas ao 
&d profundunente alteradas pela carta régia de 11 de 
agosto de 1738. 



(1) Vide vol. XIII e annexos da Bevista Árchivo do Esicido 
ãe 8. Paulo. 



160 



A ilha de Santa Catharina era considerada um ponto 
maritimo estratégico de alto valor, era visitada por na- 
vios mercantes estrangeiros e por piratas, sem licença 
do governo portuguez, e estava exposta aos ataques das 
esquadras hespanholas em transito entre a metrópole e 
as suas colónias do Rio da Prata. 

Do mesmo modo, o território do Rio Grande do Sul, 
estendendo-se até á Colónia do Sacramento, estava conti- 
nuamente, ameaçado de invasões pelos hespanhoes de 
Buenos- Ayres e era de facto um verdadeiro campo de 
batalha entre brasileiros e castelhanos. 

Tomavam-se* portanto, necessárias medidas prom- 
ptias e rápidas do governo portuguez para a defesa d'esta8 
partes do território brasileiro. Sendo S. Paulo, a sede 
da capitania, uma cidade central, sem estrada para 
Santos, da qual era separada pela escabrosa serra do 
Mar e por extensos alagadiços do oceano e dos rios 
Cubatáo e Casqueiro, e tendo a villa de Santos limita- 
díssimas communicações com os territórios que ficam 
ao Sul, a boa defesa d'aquellafi regiões não podia ser 
feita pelo capitáo-general de S. Paulo com a mesma 
presteza e eíficacia com que podia sel-o pelo governa- 
dor do Rio de Janeiro. D'aqui originou-se a necessidade 
politico-estrategica de desmembrar de S. Paulo ã ilha de 
Santa Catharina e o continente do Rio Grande do Sul, 
e de annexal-os á capitania do Rio de Janeiro, como 
consta da referida carta régia de 11 de agosto de 1738, 
que diz assim : 

«D. João por graça de Deus Rey de Portugal e dos 
«Algarves, daquem, e dalém mar em Africa, Senhor de 
«Guiné, etc. — Faço saber a vós Governador, e Capitão- 
« General da Capitania de S. Paulo, que attendendo a 
«que do Porto do Rio de Janeiro devem sahir todos 
caquelles soccorros, e ordens que se fizerem precisog 



161 



«para a defensa da nova Colónia do Sacramento (1), 
<e ajuda do novo estabelecimento do Rio de S. Pedro 
«do Sul, sendo conveniente que fiquem todos os portos 
«e lugares da marinha debaixo de um só mando: Fui 
«servido por Rezoluçâo de 5 do prezente mez e anno, 
«tomada em consulta do meu ("onselho Ultramarino, 
«haver por bem separar desde logo desse Governo de 
«S. Paulo e unir ao doRio.de Janeiro a Ilha de Santa 
«Gatharina, e o Rio de S. Pedro, de que vos avizo para 
«que assim o tenhaes entendido. El-Rey nosso Senhor 
«o mandou pelos Drs. Jozé Ignacio de Arouche, eThomé 
«Gromes Moreira, Conselheiros do seu Conselho Ultra- 
« marino, e se passou por duas vias. Manoel Pedro de 
«Macedo Ribeiro a fez em Lisboa Occidental a 11 de 
«Agosto de 1738. O secretario Manoel Caetano Lopes 
«de Lavre a fez escrever. — Jom Ignacio de Arouche — 
*Thomé Gomes Moreira.» 

Si Gromes Freire de Andrade não foi quem directa- 
mente aconselhou a expedição d'esta carta régia, elle 
devia necessariamente ter sido ouvido a respeito e ter 
concordado (*om ella ; porque, como governador effectivo 
do Rio de Janeiro e interino de S. Paulo, tinha a res- 
ponsabilidade da defesa e conservação d'aquelles terri- 
tórios, e a execução d'esta tarefa era-lhe muito mais fácil 
tendo a cidade do Rio de Janeiro como base de opera- 
ções. Além d'isso, a passagem definitiva d'aquellas re- 
giões para o seu governo tinha a vantagen) de trazer a 
harmonia e a continuidade das medidas que tivesse to- 



(1) Fundada, em 1(>«0, por Manuel Lobo, governador do 
Rio de Janeiro, foi mnitas vezes tomada pelos hespanhoes e 
retomada pelos portuguezes; pertenceu ao Brasil de 1817 a 
1828 e foi perdida por Pedro I depois da derrota de Ituzaingo; 
hoje pertence á Republica Oriental do Paraguay. 

11 



162 



mado para a sua defesa, as quaes poderiam ser mal 
comprehendidas, mal executadas e mesmo regeitadas 
pelo capitáo-general que o viesse succeder no governo 
de S. Paulo. 

Demais, não é de crer-se que o governo portuguez, 
que consultava os capitâes-generaes sobre os menos 
importantes serviços públicos, deixasse de ouvir a sua 
valiosa opinião sobre matéria de tão transcendente im- 
portância como era o objecto d'esta carta régia. Pot- 
tanto, o grande desmembramento da capitania de 
S.Paulo, operado por esta ordem real, foi obra de Gomes 
Freire, de quem não podemos, como paulistas, nos quei- 
xar, porque ella era aconselhada pela experiência e pela 
necessidade de se cuidar, antes de tudo, da manutenção 
da integridade do território colonial. 

Em 1739 cessou a interinidade do governo da capi- 
tania de S. Paulo, por ter vindo administral-a, como 
capitáo-general effectivo, D. Luiz Mascarenhas, que a 
governou até 1748; porém este, apenas aqui chegou, 
tractou logo de seguir para o sertão de Goyãz, onde ficou 
vários annos occupado em dar execução ás medidas que 
lá deveriam ter sido applicadas pelo fallecido Conde de 
Sarzedas. 

Com o espirito preoccupado com assumptos de im- 
mediato interesse para o Fisco Real, como era a boa 
administração das minas e a severa arrecadação doa 
quintos reaes, D. Luiz Mascarenhas defendeu com tena- 
cidade e energia as fronteiras do norte de S. Paulo, 
contra as frequentes invasões dos governos de Minas 
Greraes, porque n'aquellas regiões o preço de cada palmo 
de terreno era calculado pela quantidade de ouro que 
poderia produzir, e quanto mais avolumados eram os 
quintos, mais cabiam na graça real os capitâes-generaes, 
que antes se pareciam com agentes fiscaes do governo 



163 



portuguez do que com administradores encarregados de 
promover a prosperidade do paiz e a felicidade dos 
povos. 

Porém, nunca tractou elle de reagir contra o acto de 
Gomes Freire, consentindo no desmembramento da ca- 
pitania durante a interinidade de 1737 a 1739 e menos 
ainda de definir os seus limites do sul, profundamente 
modificados pelo seu antecessor. Voltando de Goyaz, 
no fim de alguns annos, depois de lá ter applicado as 
providencias que julgou úteis para a boa organisaçáo 
dos diversos ramos do serviço publico, e ter elevado a 
villa a povoação de Villa Boa de Goyaz, demorou-se 
ainda D. Luiz Mascarenhas em S. Paulo até ao anno de 
1748, quando foi removido para o governo da índia por- 
tugueza. 

Aqui termina o primeiro e o mais importante período 
da historia colonial de S. Paulo. Aquellas famosas 
gerações de intrépidos bandeirantes pauUstas que, com 
António Raposo, tinham desvastado o Goayrá, assoUado 
as missões dos jesuítas de Além-Uruguay e C!orrientes, e 
ido dar combate aos hespanhoes sobre os Andes; que, 
com Luiz Pedroso de Barros, foram combater com o ini- 
migo estrangeiro, no Recôncavo da Bahia, e depois tra- 
varam novos combates contra os hespanhoes, no Peru ; 
que, com Pedroso Xavier, invadiram o Paraguay, e de 
lá trouxeram ricos despojos; que, com Domingos de 
Brito, fundaram a villa da Laguna e exploraram as 
campinas do sul até ao Rio da Prata; que, com João 
Amaro Maciel Parente, invadiram e devassaram os ser . 
toes do norte até ao Piauhy e Maranhão; que, com 
Domingos Jorge, foram os únicos capazes de destruir a 
legendaria republica africana dos Palmares ; que, com Ra- 
poso Tavares, foram a Pernambuco auxihar a restauração 
do dominio portu^ez contra o poder dos hollandezes ; que, 



164 



com Fernando Dias Paes, tinham descoberto as riquezas 
de Minas Geraes e enchido a Europa de inveja da opu- 
lência do subsolo brasileiro; que, com Paschoal Moreira 
Cabral e Bartholomeu Bueno da Silva, haviam explo- 
rado e povoado os sertões de Matto-Grosso e de Goyaz 
e exhibido ao mundo os thesouros occultos que en- 
• cerravam, — tinham todas desapparecido para sempre, 
para serem substituidas por outras gerações pacificas 
de cultivadores das terras e exploradores das minas 
já conhecidas. 

EspeciaUso o fim d'esta epocha, porque o período 
seguinte, com quanto de curta duração, foi calamitoso 
para S. Paulo. 

m 

A carta régia de 11 de agosto de 1738 não definiu 
os limites entre o extremo sul da capitania de S. Paulo 
e o território do Rio Grande, d'ella desmembrado para 
ser annexado ao Rio de Janeiro. A linha divisória no 
interior foi acceita pelo rio Pelotas ou Uruguay, porém 
na costa ella ficou obscura e duvidosa. 

Segundo as aftirmações posteriores do capitão-general 
D. Luiz António de Sousa, a divisa deveria subir pelo 
rio Pelotas até á sua mais remota cabeceira, e, atraves- 
sando d'ahi a serra do Mar, devia ganhar as nascentes 
de algum riacho, como o Mampituha ou Ararangiíá, e 
descer por elle até ao mar. 

N'este caso qualquer que fosse o riacho escolhido 
para linha divisória desde a serra até ao mar, a villa da 
Laguna e a sua importante bahia ficariam, como de facto 
ficaram, pertencendo á capitania de S. Paulo por esta- 
rem ao norte d'esses riachos, não obstante a carta régia 
acima citada, que mandava que todos os portos e lugares' 



165 



de marinha f cassem de baixo de um só mando. Porém 
a pouca, ou nenhuma attençáo dada por D. Luiz Masca- 
renhas ás questões de limites do sul da sua capitania e 
a grande influencia exercida por Gomes Freire sobre o 
governo portuguez, combinadas com as necessidades po- 
Utico-estrategicas da occasião, trouxeram a carta régia 
de 4 de janeiro de 1742, que nos arrancou a villa da 
Ijaguna, e diz assim : 

«D. João, por graça de Deus, Rei de Portugal e dos 
«Algarves, daquem, e dalém mar em Africa, Senhor de 
«Guiné, etc. — Faço saber a vós governador, e capitão- 
« general de S. Paulo, que attendendo a ficar muito 
«distante da capital desse governo a villa de Laguna, e 
«que por elle se não pôde providenciar naquella parte, 
«em qualquer caso que peça immediatamente remédio 
«Fui servido determinar por resolução de 18 de dezem- 
«bro do anno passado, tomada em consulta do meu 
«Conselho Ultramarino, que a dita villa se separe desse 
«governo, e se una ao da capitania do Rio de Janeiro, 
«de que vos aviso para que assim o tenhaes entendido. 
«El-Rei nosso Senhor o mandou pelo dr. Thomé Gomes 
«Moreira, e Martinho de Mendonça de Pina e Proença, 
«Conselheiros do seu Conselho Ultramarino, e se passou 
«por duas vias. Caetano Ricardo da Silva a fez em 
«Lisboa a 4 de janeiro de 1742. O secretario Manuel 
«Caetano Lopes da Lavre a fez escrever. — Thomé Gomes 
^Moreira, Martinho de Mendonça de Fina e Proença.^ 

Com esta carta régia, que aliás era uma consequên- 
cia lógica da outra de 11 de agosto de 1738, não -só 
perdeu a capitania de S. Paulo um pedaço importante 
do seu território, como mais confusos ainda ficaram os 
seus limites ao sul, porque si no interior permanecia 
o limite irrecusável do grande rio Uruguay, desappare- 
ceu na costa a divisa natural pelo riacho Mampiti;ba 



166 



óu Araranguá, quando ao norte da Laguna náo se en- 
contra outra divisa alguma natural que pudesse substi- 
tuir aquella abolida pela ordem real acima transcripta. 
Como a idóa dominante no governo portuguez ei» 
explorar em proveito próprio a sua immensa colónia, e 
garantir o seu território contra os possíveis ataques dos 
hespanhoes, e em pequena conta eram tidos o bem-estar 
e a tranquillidade dos povos habitantes das fronteiras, 
fonun consideradas questões de pouck importância os 
numerosos conflictos de jurisdicçâo, que da falta de divi- 
sas se seguiram entre as auctoridades paulistas de Curjrtíba 
e as auctoridades rio-grandenses de Viamão, conflictos 
estes que duraram annos e continuaram, mesmo depois 
da restauração da capitania de S. Paulo, em 1765, como 
se poderá verificar da correspondência de D. Luiz An- 
tónio de Sousa, publicada nos volumes xix e xxiii da 
Reirista d*este Archivo. 

Em relação a Santa Catharina, as duas cartas régias 
acima citadas declaram que ficam desligados de S. Paulo 
e annexados ao Rio de Janeiro a ilha d*aquelle nome 
e a villa da Laguna, sem se referirem aos sertões con- 
tidos entre os rios Yguassú e Uruguay, que, por este 
silencio das ditas cartas régias, deve-se suppôr que con- 
tinuavam a pertencer á capitania de S. Paulo. Entre- 
tanto, ainda durante a administração de D. Luiz Masca- 
renhas foi expedida de Lisboa uma outra carta régia, 
datada de 9 de maio de 1747 e dirigida ao brigadeiro 
José da Silva Paes, que servia de capitáo-general interino 
do Rio de Janeiro na ausência de Gomes Freire, que se 
achava em Minas, na qual o governo portuguez recom- 
mendava áquelle brigadeiro que tomasse todo o cuidado 
no estabelecimento de alguns immigrantes açorianos que 
vinham povoar Santa Catharina, que os agasalhasse e 
tractasse bem, escolhendo para elles boas situações tanto 



167 



na ilha de Santa Catharina, como nas visinhanças de 
S. Francisco do Sul, nas terras de S. Miguel (1) e no 
sertão correspondente a esse districtOf e tendo o dito bri- 
gadeiro toda a cautella em não dar justos motivos de 
gueixas aos hespanhoes confinantes. 

Pelos termos d' esta carta régia, cujo original deve 
existir em algum dos archivos fluminenses, vemos que 
o governo portuguez considerava como pertencente a 
Santa Catharina o sertão correspondente ao districto ma- 
rítimo de S. Francisco até S. Miguel, na fronteira da 
actual Republica Oriental do Uruguay, porque si esse 
sertão fosse considerado como parte da ex-capitania de 
S. Paulo, parece que ao coronel Alexandre Luiz de Sousa 
6 Menezes se devia recommendar o cuidado de estabe- 
lecer n'elle os colonos açorianos, tendo em vista náo 
ofEender os hespanhoes. 

Os hespanhoes confinantes, que estavam no caso de 
serem incommodados com a coUocação d*e8tes colonos, 
só podiam ser os das Missões, visto que os de Corrien- 
tes e Entre-Rios tinham as suas fi*onteiras com o Brasil 
bem demarcadas pelo grande rio Uruguay e não podiam 
razoavelmente se queixar do estabelecimento de colonos 
portuguezes na margem esquerda d'este rio. Os hespa- 
nhoes das Missões podiam e deviam-se incommodar com 
a c^lonisaçâo do território brasileiro nas suas frontei- 
ras, porque alli os seus Umites eram por de mais vagos 
e incertos e não havia em toda a sua extensão uma 
linha natural bem definida, serras altas ou rios grandes, 



(1) B. Miguel era tuna espécie de colónia militar e fortaleza, 
ao sul da lagoa Mirim, na fronteira de Montevideo, no valle 
do rio Chny, tinha perto Castilhos Pequenos, Castilhos Grandes 
e Santa Theresa, lugares estes que figuram na historia das 
guemiB do Bio Grande do Sul. 



168 



que pudesse ser respeitada como divisa entre as posses- 
sões das nações confinantes. 

Assim, pois, si esta carta régia, nâo era positiva, era, 
pelo menos, muito suggestiva em relação aos direitos: 
de Santa Catharina sobre os sertões contidos pelos rios 
Uruguay e Yguassú. Toda a costa, desde S. Francisco 
até o extremo sul, tinha sido desligada de S. Paulo 
por positivas ordens reaes anteriores ; depois vem esta 
ordem ao governo do Rio, determinando o povoamento 
do sertão por colonos açorianos, declarando que esse ser" 
tão coiresponde ao districto desmembrado de S. Paulo 
e recommendando que se tenha a devida cautela coin 
os hespanhoes confinantes. Que era esta a intenção do 
governo portuguez ficará demonstrado mais adiante. 



IV 



Com a retirada de D, Luiz Mascarenhas do governo 
de S. Paulo começou para esta capitania uma epocha 
de verdadeiro desmoronamento. 

Por cartas régias d' esse fatal anno de 1748 foram 
desmembrados os territórios de Matto-Grosso e de Goyaz 
para formarem novas capitanias, que se installaram com 
António Rolim de Moura, Conde de Azmnbuja, e Mar- 
cos de Noronha, Conde dos Arcos, como capitâes-gene- 
raes, e o que restava da grande e histórica capitania de 
outr'ora foi annexado ao Rio de Janeiro, desappare- 
cendo S. Paulo da lista das capitanias brasileiras, em 
que figurava desde 1709, tendo n'este espaço de qua- 
renta annos fertilisado com o seu sangue e o seu trabalho 
os sertões de Goyaz e Matto-íírosso e as campinas do 
Sul até o Rio da Prata. 

A capitania do Rio de Janeiro, augmentada agora 



169 



com esta annexa<jáo, ficou abrangendo todo o território 
do sul do Brasil até á Colónia do Sacramento. Fo- 
entáo que se confundiram de uma vez todos os limites 
entre as regiões de que se compunham as capitanias 
de S. Paulo e do Rio de Janeiro. O governo era agora 
um só e effectivo, a auctoridade dé domes Freire se 
estendia, absoluta e incontrastavel, sobre toda esta vasta 
região e desappareceu mesmo a necessidade iimnediata 
de limites claros e definidos entre as suas diversas sec- 
ções. Si algumas questões surgiam por este motivo 
entre as camarás dos diversos municipios ou entre os 
ouvidores das varias comarcas, a auctoridade do capitão- 
general era suprema e fazia silenciar os conflictos, dando 
ás difliculdades a soluç&o que no momento lhe parecia 
mais conveniente. 

Occupado o capitáo-general com a alta politica co- 
lonial e com a defeza do território brasileiro contra os 
frequentes ataques dos nossos buliçosos vizinhos do sul, 
não teve elle tempo para cuidar seriaiViente da admi- 
nistração interna da extincta capitania de S. Paulo. O 
seu governo foi deixado, por delegação, ao- coronel Ale- 
xandre Luiz de Souza Menezes, commandante militar 
da praça de Santos, que não conhecia as condições eco- 
nómicas, politicas e moraes dos paulistas, não tinha 
interesse em cuidar da satisfação das suas necessidades, 
e, por força do seu cargo militar, residia em Santos e 
vivia isolado da população civil de serra-acima. Desap- 
pareceram a justiça, os bons costumes e o espirito de 
emprehendimento característico dos nossos bandeirantes; 
a instrucção, a industria e o commercio retrogradaram, 
a lavoura e a mineração definharam, e o crime campeava 
impune e insolente por toda a parte, conforme affirma 
o capitão-general D. Luiz António de Sousa em sua 
correspondência, já citada, com o Marquez de Pombal. 



170 



Sendo as grandes distancias e a falta de estradas a 
maior difiiculdade para a boa administração da justiça, 
o governo portuguez expediu ainda a carta régia de 20 
de novembro de 1748, despachada pelo Conselho Ultra- 
marino em 19 de novembro de 1749 e registrada na 
villa do Desterro em 10 de março de 1750, que diz 
assim: 

tD. João, por graça de Deus Rey de Portugal e dos 
< Algarves, daquem e dalém mar em Africa, Senhor de 
€ Guiné, etc. — Faço saber a vós Governador da Ilha de 
€ Santa Catharína, que eu houve por bem, por Rezoluçâo 
«de 20 Junho do presente anno, em consulta do m&à 
«Conselho Ultramarino, crear nessa Ilha com o mesmo 
«ordenado e precalços, que tem a de Paranaguá huma 
«Ouvidoria, e que o districto dessa nova Ouvidoria ficará 
«para o norte pela barra autral do rio S. Francisco pelo 
«cubatão do mesmo rio, e pelo Rio Negro, que se mette 
«no grande de Curityba, e para o sul acabará nos xnon- 
«tes que desaguão para a Lagoa Ymery de que vos 
«avizo para que assim o tenhaes entendido. Ea-Rey nosso 
«Senhor o mandou pelo Conde de Tarouca, do seu Con- 
«selho, e Presidente dp de Ultramar, e se passou por 
«duas vias. Theodoro do Abreo Bernardes a fez em 
«Lisboa a 20 de Novembro de 1748. O secretario Joa- 
«quim Miguel Lopes de Lavre a fez escrever. — Conde 
«cte Tarouca.* 

A divisa que esta carta régia estabeleceu ao nwte 
para a nova ouvidoria de Santa Catharina era suffi- 
cientemente clara para evitar qualquer questão entre 
auctoridades bem intencionadas. Partia ella da barra 
do sul da bahia de S. Francisco, dirigindo-se para o 
cubatão do rio do mesmo nome e subindo a serra pwra 
o poente a gi^liar o alto Rio Negro, pelo qual descia 
até a sua foz no rio Yguassú. 



171 



O Rio Negro, portanto, ficou servindo de linha divi- 
sória, legal e natural, entre a ouvidoria de Paranaguá, 
mais tarde comarca de Gorityba, da ex-e^pitania de 
S. Paulo, e a nova ouvidoria do Desterro, da capitania 
do Rio de Janeiro; isto é, em todo o seu curso o Rio 
Negro ficou sendo o limite legal entre as duas comar- 
cas que hoje formam os Estados do Paraná e de Santa 
Catharina. 

A declaração contida na mesma carta régia de que 
os limites do sul da nova ouvidoria do Desterro seriam 
os* montes que desaguam para a Lagoa Ymery era ex^ 
cessivamentè vaga e prestava-se a dúvidas futuras ; 
porém, esta declaração não tem relação alguma com o 
assumpto que estou tractando, porque os montes a que 
ella se refere estão além do rio Uruguay e inteiramente 
contidos em território estranho á capitania de 8. Paulo. 
Entretanto, me parece que a ella podem ser dadas duas 
interpretações muito diversas : 

1.* A Lagoa Mirim, o canal de S. Gonçalo e a 
Lagoa dos Patos formam uma só massa de agua doce; o 
nome de Lagoa Ymery podia ter, n'esta carta régia, sido 
applicado ao conjuncto d*essas massas de agua doce, 
por isso que a geographia do Brasil era mal conhecida 
pelo governo portuguez e as ordens reaes nem sempre 
primavam pela clareza da linguagem e nitidez do pen- 
samento. N'este caso os montes a que allude podem 
ser aquella porção da serra do Mar que serve de con- 
travertente para as aguas que vêem engrossar o rio 
Pelotes, para as que correm para a Lagoa dos Patos e 
para as que vão directamente para o mar. Esta inter- 
pretação teria a vantagem de dar então para Santa Ca- 
tharina, approximadamente, os mesmos limites que hoje 
ella tem com o Estado do Rio Grande do Sul, que são 
o rio Pelotas, a serra do Mar e o riacho Mampituba. 



172 



2.' Si o nome de Lagoa Ymery era applieado se- 
mente á actual Lagoa Mirim, então os montes que 
desaguam para ella devem ser aquelles que estão além 
de Jaguarão, na linha divisória do Estado do Rio (irande 
do Sul com a Republica Oriental do Uruguay, e n'este 
caso o território do sul do Brasil, desde a bahia de 
S. Francisco até o extremo sul da Lagoa Mirim, ficaria 
subordinado a uma só ouvidoria, cuja sede era a villa 
do Desterro. 

Esta segunda hypothese tem o seu pró e contra, por- 
que si por um lado tinlia a vantagem de coUocar todo 
aquelle território sob a administração judicial de um só 
ouvidor, que uniformisaria os julgamentos e estabelece- 
ria a coherencia nas decisões, por outro lado trazia a 
grave diíRculdade das distancias enormes para a distri- 
buição da justiça, que serviu de pretexto para o governo 
portuguez nos arrancar anteriormente as villas de Pa- 
raty e da Laguna com os seus districtos. 

• Entretanto, esta segunda interpretação, em espirito, 
está de accordo com o disposto na carta régia de 9 de 
maio de 1747, que mandava estabelecer colonos açoria- 
nos no território que se estende da bahia de S. Fran- 
cisco até o rio Chuy, e da Ilha de Santa Catharina até 
ás Missões hespanholas. Si ao governador competia 
estabelecel-os em boas situações, agasalhal-os e tractal-oe 
bem, era natural que ao ouvidor d'e8sa região, e não ao 
de outra comarca, competisse a distribuição da justiça a 
todos elles. 

A ordem real de 20 de novembro de 1749 veiu com- 
pletar a obra da extincção da capitania de S. Paolo, 
iniciada pelas cartas régias anteriores, retirando do seu 
bispado toda a região que já, temporalmente, tinha sido 
d^ella desmembrada para ser annexada ao governo do 
Rio de Janeiro ; diz assim : 



173 



-^Deão e Cabbido Sede Vacante da Igreja Cathedral 
«de S. Paulo (1). Eu El-Rey vos enviu muito saudar. 
«Attendendo as muitas razões que se me representarão 
«para ficar sujeito a jurisdicção do bispado de Rio de 
«Janeiro todo o districto do Sul, desde o Rio de S. Fran- 
« cisco até a colónia do Sacramento, em virtude da fa- 
«culdade Apostólica, que para este effeito me foi conce- 
«dida, houve por bem rezolver que na referida forma 
«se observe interinamente emquanto Eu náo determinar 
«o contrario, o que vos aviso para que o fiqueis enten- 
«dendo. E^riptaem Lisboa a 20 de novembro de 1849. 
*— RAINHA {2).^ 

Declarando esta carta régia que o território desmem- 
brado do bispt^do de S. Paulo se estendia de S. Francisco 
do Sul até a C!olonia do Sacramento, nada determinou 
sobre o sertão brasileiro correspondente a esta longa tira 
da nossa costa marítima ; porém, logicamente deve-se 
suppôr que ella inclue todo o interior, porque havia con- 
veniência em que toda essa região ao sul de S. Fran- 
cisco e do rio Yguassú ficasse, temporal e espiritualmente, 
sob dominio do Rio de Janeiro, assim como, judicial- 
mente, sob a jurisdição de um só ouvidor. A cefitralisaçáo 
e a unidade são o característico dos governos absolutos 
e era manifesta a vantagem da concentração dos poderes 



(l) O bispado de 8. Panlo foi creado em 22 de abril de 1745 
e confirmado pelo Papa Benedicto XIV em B de dezembro doesse 
mesmo anno. O primeiro bispo, D. Bernardo Rodrignes Nogneira, 
foi nomeado em B de dezembro de 1745, tomou posse a 8 de 
dezembro de 1746 e falleceu a 7 de novembro de 1748. Ficou 
a diocese acephala até 28 de junho de 1751 quando tomou posse 
o segundo bispo, D. António da Madre de Deus Galvão. 

(2; Rainha esposa do rei João V e regente do reino durante 
uns ataques de paralysia que soflFreu seu esposo e que o leva- 
ram á sepultura no anno seguinte. 



174 



temporal, judicial e espiritual nas mãos de um só go- 
vernador, de um só ouvidor e de um só bispo. 

Sem missa não se governam os povos, diziam os ci^i- 
tães-generaes (1), e isto quer dizer que o governo e a 
egrejja estavam de tal forma ligados que não era possí- 
vel a existência d'aquelle sem o auxilio doesta, e este 
auxilio era mais etlicaz e proveitoso quando os limites 
do governo civil coincidiam com os do bispado, quaodo 
havia unidade e harmonia de acção no govenio, tanto 
temporal como espiritual. 

Era tão absoluto o governo de Gomes Freire, que 
modificava á vontade as divisas dos municípios e ouvi- 
dorias da sua capitania, mesmo em contrario de dispo- 
sições de cartas régias, que eram as supremas leis do 
paiz. Assim ordenava elle, por -carta de 20 de junho 
de 1750, dirigida ao capitão-mór da villa de S. Francisco, 
que aquella villa e a ilha em que está situada ficassem 
pertencendo ao governo de Santa Catharina, passando 
a divisa com S. Paulo a ser pela barra do norte da 
Bahia de S. Francisco e não mais pela barra do sul 
como de antes era. 



A suppressáo da capitania de S. Paulo tinha sido 
um grave erro praticado pelo governo portuguez, acon- 
selhado pelo Conde de Bobadella, que o defendeu até á 
sua morte, em 1763. O novo Vice-Rei Conde da Cunha, 
que o succedeu no governo geral do Brasil, reconheceu 
logo a impossibilidade de bem administrar a vasta re- 
gião do Rio de Janeiro ao Rio da Prata, que formava a 



(1) Vide vol. xxui, pag. iW da revista Archivo do Eftai» 
de S, Fauio. 



175 



sua capitania, e por isso pediu e obteve do Marquez de 
Pombal a restauração da extincta capitania, que foi 
effectuada pela carta régia de 6 de janeiro de 1766, 
sendo nomeado seu capitáo-general D. Luiz António de 
Souza Botelho Mourão, morgado de Matheus, um dos 
mais hábeis políticos e enérgicos administradores que o 
governo pertuguez enviou ao Brasil. 

O governo d'este illustre general durou dez annos e 
foi uma lucta incessante pela defesa das fronteiras da 
sua capitania, que eram continuamente inVadidas, ao 
sul pelos delegados do capitão-general do Rio de Ja- 
neiro e ao norte pelo capitão-general de Minas Greraes. 

Na Revista d*este archivo, vols. xi, xix • xxiii, se 
encontram claros vestígios dos seus grandes esforçosf 
pela manutenção da integridade do território que elle 
suppunha pertencer ao seu governo. 

Havia dezesete annos que a capitania tinha deixado 
de existir e havia uma correspondente lacuna nos pa- 
peis officiaes do archivo do seu governo, de modo que 
ao tomar posse da administração, em 1765, D. Luiz An- 
tónio se achou ignorante sobre os factos occorridos n'e8se 
período de tempo e sem meio de se esclarecer, porque 
08 documentos respectivos não eram, nem por cópias, 
encontrados na sua secretaria. 

Teve elle de reclamar a entrega de todos os papeis 
referentes ao serviço publico doesse tempo, espalhados 
pelas secretarias dos governos das diversas capitanias 
limitrophes, principalmente nos archivos do Rio de Ja- 
neiro, e apesíu: de toda a sua diligencia muito poucos 
conseguiu elle obter. 

Não conhecendo algumas das cartas régias acima 
transcriptas, tratou D. Luiz António de tomar posse im- 
mediata de vários territórios que, pelas ditas cartas ré- 
gias, não mais pertenciam á capitania de S. Paulo, como 



176 



fossem os Campos Corytihanos, situados na uiargem di- 
reita do rio Pelotas, onde fundou logo a villa de Lages, 
não obstante os protestos do Vice-Rei, Conde da Cunha 
e do Governador de Vianiâo. Explorou em seguida os 
Campos de Guarapuava; organisou varias expediçõ^ 
pelos rios Yguassú, Yvahy e Tibagy e chegou mesmo 
a invadir a fronteira da capitania de Matto-Grosso, sal- 
tando por cima da divisa natural e legal do grande rio 
Paraná e formando uma desgraçada colónia de paulis- 
tas no território de Yguatemy, que nos era contestado 
pelos hespanhoes do Paraguay. 

A linha divisória na costa foi tenazmente defendida 
pela barra do norte da bahia de S. Francisco, e para 
garantil-a foi iniciada a fundação de S. Luiz de Gua- 
ratuba, que foi elevada á categoria de villa, em março 
de 1770, e cujo districto devia-se estender ao sul até á 
dita barra do norte da bahia de S. Francisco. O go- 
vernador de Santa Catharina não se descuidou de pro- 
testar, d'esta vez sem razão, contra este acto do gover- 
nador de S.Paulo; más D. Luiz xVntonio respondeu-lhe 
que não somente aquelle districto pertencia á sua ca- 
pitania até á barra do norte da dita bahia de S. Fran- 
cisco, como também que estas terras todas eram do rei 
de Portugal, que a fundação da villa de Guaratuba era 
serviço feito ao rei, e com licença do rei, e que portanto 
não havia fundamento algum para uma tal reclamação (1). 

Entretanto, em relação a esta matéria, chegou-se em 
2 de março de 1771, a um accordo approvado pelos 
dous governadores, segundo o qual as divisas entre Gua- 
ratuba e S. Francisco passariam a ser pela barra do rio 
Sahy no oceano, seguindo para o poente por uma aberta 
entre os morros chamados Araraquara e Ykrim^ ficando 



(ly Vide vols. XIX e xxni do Árchivo do Estado de S. Paulo, 



177 



para Santa Cathariíia o território ao sul e para S. Paiilo 
o território ao norte d^enta linha» que se acha quasi equi- 
distante de ambas as villas. Esta divisa, apezar de feita 
em contrario ao disi)osto na ordem de (romes Freire, de 
26 de junho de 1750, subsiste até o presente e parece 
ser bem acceita pelos governos dos doas Estados inte 
ressados. 

Cedendo pelo accordo supra citado algum terreno 
na costa, ao qual elle tinha amplo direito, D. Luiz An- 
tónio de Sousa, ignorante ou esquecido da carta régia 
de 26 de novembro de 1748, que estabelecia a linha 
divisória do Rio Negro, atravessou muitas vezes este rio, 
durante a sua activa e enérgica administração, para pro- 
seguir na fundação da villa de Lage^s e manter a sua 
posse sobre os Campos Coritybanos e Campos de Palma, 
que elle continuou sempre a explorar e povoar como si , 
de direito pertencessem á capitania de S. Paulo. 

Em apoio dos seus actos allegava D. Luiz António 
que a sua capitania tinha sido restaurada e reposta no 
pé em que estava quando foi supprimida em 1748 ; 
como n'aquella epocha esses sertões lhe pertenciam, era 
evidente que continuavam a pertencer-lhe depois da sua 
restauração e, portanto, assistia a elle, como seu capitão- 
general, o direito de explorar e povoar toda essa região. 

Acceito o accordo sobre o rio Sahy como linha divi- 
sória na costa, affirmava D. Luiz António que a divisa 
seguia para o poente, entre os morros de Araraquara e 
de Ykrim, em distancia de cerca de quinze léguas e, 
fazendo ahi quadra para o sul, c»orria péla lombada da 
serra do Mar, atravessava o rio S. Paulo pouco acuna 
da sua barra no rio Ytajahy e descia, sempre em Unha 
mais ou menos recta, para o sul até alcançar as cabe- 
ceiras do rio Pelotas, descendo por este rio até o l^ru- 
, guay e por este até ás Missões. 

12 



\ 



178 



Comtudo, fazendo estas affirmações de modo bastante 
positivo, D. Luiz António não apresentíiva em seu abono 
uma só carta régia que invalidasse as anteriores, acima 
transcriptas, e baseava-se unicamente no acto da restau- 
ração da sua capitania, que elle dizia ter sido reposta 
no estado em que se achava quando foi supprimida em 
1748. Isto se deprehende da sua correspondência já 
publicada, e diversas vezes acima citada. 

No mappa de Santa Catharina, desenhado e publicado 
em 1863 por Woldemar Schultz, vem traçada esta linha 
divisória pretendida pelo capitâo-general de S. Paulo, 
com uma pequena modificação, devida ao alvará de 9 de 
setembro de 1820, que separou de S. Paulo o distrieto 
de Lages para annexal-o ao governo de Santa Catharina. 

Por esse mappa a barra do rio Sahy fica a 26" de 
latitude sul e por este parallelo segue a hnha divisória 
para o poente até encontrar o meridiano 49^* 30* no 
oeste de Greenwich, descendo d'ahi ao sul por este meri- 
diano até a latitude 27", pendendo ahi para o sudoeste 
até ganhar as cabeceiras do rio Canoas e descendo j>or 
este rio até o Uruguay, de modo que a villa de Lages 
e o território contido na forquilha dos rios Canoas e Uru- 
guay ficassem pertencendo a Santa Catharina, conforme a 
interpretação dada ao alvará de 9 de setembro de 1820. 

O mappa de Schultz não traz a declaração de ser 
offiçial, ou organisado com a approvação do governo 
catharinense ; é, por conseguinte, um elemento mais 
para o estudo d' esta matéria, porém não é auxilio decLsivo 
para a solução das dúvidas occurrentes. 

Além d*isso, parece haver n'elle incorrecções na de- 
terminação das posições astronómicas, estando a barra 
do rio Sahy não exactamente em latitude 26", mas um 
pouco mais ao norte, segimdo se verifica de vários 
outros mappas posteriores d'aquella região. 



179 



Omappa da parte da proinncia de Santa Catharina, 
publicado etn 1867, também não traz a declaração de 
ter sido publicado por ordem do respectivo governo, mas 
declara que foi organisado para auxiliar a colonisação da 
província, por Pedro Luiz Taulois, engenheiro do go- 
verno. 

Dá Qf divisa como partindo da barra do rio Sahy e 
subindo por este rio cerca de doze kilometros ; d'ahi 
corta para o poente em linha recta, pai'allela com a 
latitude 26*^ e uns quinze kilometros ao norte, a ganhar as 
cabeceiras do rio Negro, sendo de cerca de 65 kilometros 
de extensão o trecho d*este parallelo desde o ponto em 
que deixa o rio Sahy até ganhar o leito do Rio Negro. 
D'ahi para baixo o Rio Negro é considerado como 
limite dos dous Estados, de conformidade com o disposto 
na carta régia de 20 de novembro de 1748, que creou 
a ouvidoria de Santa Catharina. 

Si as cartas régias mencionadas determinavam, di- 
recta ou indirectamente, que todo o sertão, situado entre 
os rios Yguassú e Uruguay, ficasse pertencendo á capi- 
tania do Rio de Janeiro, parece uma desnecessidade o 
alvará de 9 de setembro de 1820, que separou Lages 
de S. Paulo para annexal-a a Santa ('atharina, porque 
essa yilla estava n'aquelle sertão e, por essas ordens 
reaes, já não pertencia mais a S. Paulo. Porém D. Luiz 
António tinha tomado posse d'aquelle território de modo 
tão firme e decisivo que apesar dos continuados protes- 
tos dos governadores de Santa Cathmna ella foi trans- 
niittida ininterrupta aos seus successores até 1820. 

Para inutiUsar esta posse de mais de meio século 
foi que o governo colonial expediu esse alvará, trans- 
' ferindo para aquelle governo este território que pelo 
direito escripto já lhe pertencia, desde 1748. 

Deixando o governo de S. Paulo, em 1775, o in- 



180 



telligente, enérgico e bem intencionado capitáo-general 
D. Luiz António de Sousa, foi elle substituído pelo tyranno 
e perverso Martim Lopes Lobo de Saldanha, cujo governo 
durou a*é 1782 e se tomou notável pelo assassinato 
jurídico do Caetaninho e pela conquista de Santa Catha- 
rina pelos hespanhoes e pela destruição da colónia pau- 
lista de Yguatemy. 

. Os governos de Francisco da Cunha Menezes, 1782-86, 
e do cavalheiro de Malta Raymundo Chichorro, 1786, 
duraram poucos annos e não alteraram o estado das 
questões das nossas divisas do sul. 

Bernardo José de Lorena governou S. Paulo de 1788 a 
1797, passava por ser filho natural do Rei D. José I, era sol- 
teiro e notabilisou-se em S. Paulo mais como assassino e 
devasso do que como politico e administrador (1); passou 
depois a infeUcitar a capitania de Minas-Geraes. 

António Manuel de Mello Castro e Mendonça, fraco 
e pouco capaz, deixava pesar sobre os outros a respon- 
sabilidade dos actos do seu governo e ficou conhecido 
somente pelo seu appellido de Pilatos, 

Franca e Horta era a personificação do enredo e da 
intriga ; cioso da reputação e talento de Martim Fran- 
cisco e outros paulistas illustres, cuidava mais em delações 
do que no governo da capitania; ganhou o cognome 
de mexeriqueiro e deixou as cousas no seu antigo pé. 

No tempo em que governava Franca e Horta, cuja 
administração durou de 1802 a 1811, os territórios do 
Rio Grande do Sul e de Santa Catharina foram desmem- 
brados do Rio de Janeiro para formarem uma nova capi- 
tania, por provisão régia de 19 de setembro de 1807. 

A villa de Porto Alegre foi designada para ser a 



(1) Vide vol. XII, pags. 152 e 153, do Archivo do Eetado <U 
S. Paulo. 



181 



capital do novo governo e para lá foi removida a sede 
da ouvidoria de Santa Catharina. 

Entretanto, continuavam sempre em conflicto o direito 
de Santa Catharina e a posse de S. Paulo sobre o sertão 
.contido pelos rios Yguassú e Uruguay, principalmente 
pela razão das auctoridades catharinenses considerarem 
uma boa porção d'aquelle território como parte integrante 
do districto de Lages e, portanto, incluída nas disposi- 
ções do alvará de 1820. A esta allegação continuavam 
a responder os governadores de S. Paulo, que aquelle 
sertão, descoberto e povoado pelos paulistas, pertencia 
ao districto de Curityba e não ao de Lages, que ficava 
por isso excluído do disposto no referido alvará e per- 
tencia ao governo de S. Paulo. 



VI 



Como amostra da argumentação empregada, depois 
da independência, pelos presidentes de S. Paulo na defesa 
da sua posse sobre os sertões de Santa Catharina, tran- 
screvo aqui um extenso e interessante officio do presi- 
dente Manuel da Fonseca de Lima e Silva, dirigido em 
1844 ao presidente da provincia de Santa Catharina. 

«111."** e Ex."** Sr. : — Tenho presente o officio que 
V. ex.* serviu-se dirigir-me em data de 27 de agosto 
próximo passado, acompanhado de duas cópias de ou- 
tros que tinham sido remettidos aos meus antecessores (1), 



(1) Estes predecessores eram o brigadeiro IUphael{ Tobias 
o marquez de Monte- Alegre, o visconde de Macahé e Mannel 
Felizardo. O primeiro d'e8te8 teve longa polemica com o pre- 
sidente de Santa Catharina sobre esta matéria; Monte- Alegre, 
occupado com a revolução, de 1842, pouco ou nada fçz, e os 
deus últimos pouco se demoraram em S. Paulo. 



■T^^ílPl 



182 



versando todos acerca da persuasão em que v. ex.* se 
acha, fundado em tradição e ainda por instancia de mo- 
radores kntigos do districto, de que os Campos de Pal- 
ma, sitos no território mais occidental d'esta província (1), 
fazem parte d'aquelle que se comprehende no iDunici- 
pio do Lages ; porque, partindo da parte do norte a linha 
confinante doesta Província com o mesmo município da 
Serra Greral onde principiam as vertentes do rio Canoi- 
nhas, segue por elle até á sua confluência no rio Covo, 
Yguassú ou Corityba, e por este ató desembocar no Pa- 
raná; e que por isso representando v. ex.* os ditos Cam- 
pos como pertencentes á Província a que preside, seria 
para desejar que abrisse eu m.ão de conservar alli uni 
destacamento para ser substituído por outro expedido 
d*essa ProvínciaT 

«A cujo respeito, e como v. ex.*^ exija pontual re- 
sposta permitta-me v. ex.* que lhe diga previamente que 
não é pela simples inspecção de mappas que se podem 
estabelecer cabalmente os verdadeiros limites territo- 
riaes entre as diversas províncias do Brasil ; porque nada 
ha de mais inexacto e que menos possam dirigir-nos do 
que os mesmos mappas, i)rincípalmente os que pro- 
curam designar o interior do Brasil, de que não existem 
senão noções incorrectas, notícias infundadas e conje- 
cturas formadas por analogia, que quasi sempre são in- 
verosímeis. 

«Devendo reconhecer-se, pois, que por este meio nada 
se [)óde collígir que exacto seja para poder-se sustentar 
a reclamação que, por parte d'essa Província, faz v. ex.* 
dos Campos de Palma, como porção de território do 
muníçipío de Lagos, idêntica insubsistência reside na 



(r Em relação ao todo da província de S. Paulo os Cam- 
pos de Palma efttuvaiií ao sul einão to pdente, como aqtii se-tte. 



183 



outra razão expressada por v. ex.* de que assim affirma- 
vam antigos moradores do districto, porque quando 
mesmo se devesse excluir de taes boatos a idéa que se 
lhe pôde associar de interesses privados, quasi sempre 
subsistem n'elles o vago e o incerto que, como v. ex.* 
bem sabe, não constituem direito algum. 

«E para que melhor possa demonstrar as razões em que 
me fundo para não acceder a esta exigência, consinta v. ex.* 
que lhe exponha resumidamente a maneira originaria 
porque a Província, a que presido, teve a acquisição d*estes 
campos, remontando-me a pontos da sua primitiva histo- 
ria, que se acham registrados no archivo da sua secretaria. 

«Além de estarem incontestavelmente caracterisados 
como factos históricos os praticados pela afouteza e ener- 
gia dos antigos paulistas no descobrimento dos longín- 
quos e immensos territórios em que hoje se acham for- 
madas as províncias de Minas-Geraes, Groyaz e Matto 
Grosso, e depois d' isso nas explorações das extensissimas 
mattas, serras e campos, que medeiam entre os rios 
Yvahy e Uruguay-mirim ou Goyocim ; estão estes factos 
consignados nos antigos registros da secretaria d*este go- 
verno e de modo tão authentico e official que repelle toda 
a dúvida ou equivoco, que sobre elles se prociu'e suscitar. 

«Para os primeiros descobrimentos houve a exponta- 
neidaíle daquelles homens celebres (1), movidos sem dú- 

(1) Fernando Dias Pae8, Lourenço Castanho Taques, Car- 
los Pedroso da Silva, Borbeira Gato, Rodriguez Arzão e Bartho- 
lomeu de Siqueira foram os Paulistas que mais se notabilisaram 
na descoberta de Minas Geraes ; Pachoal Moreira Cabral, Fer- 
nando Dias Falcão, os irmãos Subtil, irmãos Maciel, irmãos 
Leme, António Pires de Campos e Domingos Rodrigues do 
Praílo foram os principaes descobridores das minas de Matto- 
Grosso ; Bartholomeu Bueno da Silva, pae e filho, e João Leite 
da Silva Ortiz foram os exploradores de Goyaz. Todos estes tra- 
balharam por conta própria, sem auxilio algum do governo colonial. 



184 



vida, pelo pensamento, que prevaleceu a outro qualquer, - 
de ceder ao estimulo de interesses privados ; mas para 
os segundos foi por elles ouvida e obedecida a voz da 
auctoridade (1), que facilmente calou em seus animes 
e recordou-lhes suas antigas promessas. 

«É de então que datam, entre outra-s, as descobertas 
dos sertões do Tibagy, das extensas mattas e camf)oe 
de Guarapuava e de todo esse territorrio destendido das 
margens do Goyocim, ou primeiros affluentes do l^ru- 
guay, até o Yguassú (2), comprehendendo-se n'elle os 
reclamados Campos de Palma. 

«A exploração e reconhecimento d'este território 
começaram em 1767, os primeiros trabalhos que n'este 
sentido foram emprehondidos em tempo que governou 
esta Provincia o Morgado de Matheus (3)^estendendo-se 
até ás margens do Paraná, como attestam os roteiros 
de Bruno da Costa, capitão Sil\reira, tenente-general Cân- 
dido Xavier e coronel AfEonso Botelho (4), registrados 
na correspondência referida a aquelle capitão-general ; 



(1) Vide explorações do Tibagy no vol. iv do Archivo do 
Estado de S. Paulo, diário do coronel Affonso Botelho. 

(2) A primeira exploração d'aqnelle sertão foi feita por 
António de França e Silva, que chegou até o Paraná e de lá 
trouxe D. Maurício e outros criminosos hespanhoes do Para- 
gnay. Vide vol. v do dito archivo e Nota no fim do vol. vi. 

(3) Chamava-se D. Luiz António de Sousa Botelho Mou- 
rão e governou S. Paulo dez annos, de 17G5 a 1775. 

(4) O roteiro de Bnino da Costa já foi publicado, com a 
correspondência de D. Luiz António, na r^sta d'este Archivo. 
O capitão Silveira foi infeliz iK>r ter sido agarrado pelos he- 
spanhoes e levado a Buenos- Ayres, onde ficou preso i>or muitos 
annos, sem que o governo tratasse de resgatal-o, vide Nota no 
fim. do volume vi do Archivo citado. Cândido Xavier de Al- 
meida e Sousa era então um simples tenente; fez figura no 
tempo da independência e governou S. Paulo em lb23. 



185 



emquanto que o território que hoje abrange o inunicipio 
de Lages fora rauito antes descoberto, e mesmo desig- 
nados 08 seus limites pelo ouvidor Raphael Pires Par- 
dinho, que foram ao depois rectificados pelo seu successor 
Manuel José de Faria, como melhor illustrarão a v. ex.* 
as cópias hiclusas ; e tanto assim que sabidas as vanta- 
gens d'esse território, cuja extensão tinha sido então bem 
reconhecida, mandou o capitão general povoal-o, pre- 
venindo, em ofiScio datado de 11 de agosto de 1766, ao 
Governador do Rio Grande do Sul, o coronel José Cus- 
todio de Sá e Faria, que para semelhante fim ( o de 
povoar os campas de Lages) destinara o paulista Antó- 
nio Corrêa Pinto (1), a quem tinha nomeado qapitão- 
mór regente do novo povoado. 

«Do exposto fácil é de comprehender que ao tempo 
que se descobriu e reconheceu o território que hoje forma 
o districto de Lages, ainda não tinham sido descobertos 
os Campos de Palma, e que essa antecipação exclue 
formalmente toda e qualquer pretenção que se haja pre- 
meditado sobre a posse d'esse8 campos, em virtude da 
ulterioridade do seu descobrimento, e que os mesmos cam- 
pos, posto que situados na parte mais occidental d'esta pro- 
víncia (2), a ella incontestavelmente pertencem: — piimo, 
porque foram descobertos pelos habitantes d'esta provín- 
cia, com seiencia e j>or expresso e positivo mandado do 



(1) Paulista muito distincto, que foi o fundador da villa de 
Lages e seu capitão-mór por muitos ânuos; iigura muito na 
correspondência, já citada, de D. Luiz António, vols. xix e 
xxxiii da revista Archivo do Estado de 8. Paulo. 

(2) O presidente Lima Silva continua a affirmar errada- 
mente que estes campos estão na parte mms occidental d 'esta pro- 
vincia; não só a sua longitude não era a mais occidental, como 
em relação a todo o tenitorio de S. Paulo elles fícam quasi 
ao sul. 



186 



respectivo goveruo; — segundo, porque anteriormente « 
esse facto nenhum outro se pôde evidenciar que apre- 
sente um vislumbre se quer de direito, que ponha-os na 
totalidade do território que fora adjudicado ao município 
de Lages ao tempo da sua povoação primitiva; — tertk^ 
finalmente, porque ainda quando em tempos subsequen- 
tes estivessem os mencionados campos deshabitadas e 
desaproveitados, geralmente fallando, o que jamais se 
pôde considerar como prescripçâo de direito de dominio 
e posse, porque esse ónus nâo se dá em semelhantes 
casos: logo, pois, que foram elles reconhecidos, e que se 
puderam calcular as suas vantagens, destinou-se-lhes po- 
pulação, foram distribuídos em sismarias pelos habitantes 
d'esta Província, tem-se dispendido com elles grossas 
quantias na conservação e manutenção de um destaca- 
mento para a sua segurança, e defendel-os das incursos 
das hordas selvagens, que infestam as suas mattas; e 
hoje não ha alli um só palmo de terreno aproveitá- 
vel que não esteja concedido áquelles que ousaram 
habital-os. 

«Das cópias inclusas conhecerá v. ex.*' que pelo ou- 
vidor Pardinho foi designado como Ihiha confinante do 
lado do sul, entre o território de Lages e do Rio Grande, 
hoje província de S. Pedro, o rio Pelotas, e que foi 
marcado como limite entre a villa de Lages e de Co- 
rityba o ribeirão do Campo da Kstiva, cujo nome é hoje 
desconhecido n'aquellas paragens, podendo-se inferir da 
sua posição que talvez seja uma das ramificações que 
o rio Uruguay-mirim ou Goyocim tem mais ao oriente; 
e de uma Memoria dos limites d'esta Província cora as 
suas confinantes, attribuida ao desembargador Sousa Chi- 
chorro, antigo secretario d'este governo, vê-se que hoje 
o limite entre esta e essa Província é o rio Caiioinhas, 
um dos que formam as nf»seenças do rio Uiiiguay, mas 



187 



não só n'ella como nos registros antigos, que tratam d'e8te 
objecto, se não vê que fossem descriminados os limites 
do municipio de Lages, que no interior devem percor- 
rer do rio Canoinhas ao rio Pelotas. 

«Todavia conhece-se do Mappa Chorographico d' esta 
Provincia, confeccionado pelo marechal MuUer, no anno 
de 1837, e pelo qual se regula esta Presidência em 
objecto que tem relação com a topographia do paiz, que 
no ponto onde terminam a oeste os limites pactuados 
entre o Brasil e os Estados que faliam a lingua hespa- 
nhola, percorre a linha divisória desde a foz do rio Santo 
António no Yguassú até a do Pipery no Uruguay-mirim 
ou Goyocim, cortando de norte a sul a cordilheira que 
se prolonga da serra do Espigão na direcção de óste e 
oeste ; e que d'este ponto, margeando a linha este rio 
para a parte das suas nascentes, vae terminar na con- 
fluência dos rios Marombas e Canoaes. 

«Além d'isto, acha-se traçado no mesmo mappa uma 
linha ponctuada, que começando no rio Canoinhas, a meio 
da distancia que ha da sua foz no Yguassú, a b^rra que 
n'este faz o ribeirão S. João, procura em rumo de su- 
doeste encontrar-se com a serra do Espigão, com a qual 
percorre o espaço que vae d'este encontro até á origem 
do rio Chapecó, seguindo o curso doeste rio termina no 
ponto em que elle desemboca no mencionado Uruguay- 
mirim; linha esta que supponho estabelece a divisão de 
limites entre o municipio de Corityba e o de Lages. 

«Comquanto, pois, estejam assim descriptas estas li- 
nhas no mappa da Província, e por elle se regule esta 
Presidência no que é concernente a objectos limitrophes 
e interprovinciaes, não merece, comtudo, semelhante de- 
signação de limites tão implicita confiança comparati- 
vamente com a que vem do direito irrecusável que a esses 
campos adquiriu esta Provincia pelo facto incontestável 



188 



de os ter descoberto, e de sua posse primeiro que ne- 
nhuma outra Provincia ; e assim penso por conformar- 
me com q que levo precedentemente expendido, quando 
signifiquei a v. ex."^ que geralmente tem-se notado grande 
cópia de inexactidões nos mappas geographicos do Bra- 
sil, principalmente nos que descrevem o seu interior. 

«São estais as razões em que me estribo para deneg^- 
me á transacção solicitada por v. ex.* a favor d'essa Pro- 
vincia, do dominio sobre os Campos de Palma, que é 
inherente á que eu governo, e se ellas não puderem 
convencer a v. ex.* da inexequibilidade de semelhante 
reclamação, parece que deverá v. ex.* recorrer aos Po- 
deres competentes, a cuja decisão me submetterei como 
me cumpre , 

Palácio do Governo de S. Paulo, 21 de setembro de 
1844. 111.™*» e ex.™° sr. Antero José Ferreira Brito, 
Presidente da Provincia de Santa Catharina. — Manuel 
ãa Fonseca de Lima e Silva. 



vn 



Os primeiros argumentos empregados n'este longo 
officio do' presidente de S. Paulo, são os mesmos usa- 
dos, oitenta annos antes, pelo capitão-general D. Luiz 
António de Sousa, que é, por vezes, nominalmente citado, 
e se basêam todos unicamente sobre a posse d'aquelle 
sertão por ter sido descoberto e povoado pelos paulistas. 

Nenhum argumento novo é trazido para a discussão 
e nenhuma referencia é feita ás cartas régias de 9 de 
maio de 1747 e de 20 de novembro de 1748, das quaes 
uma determinava o povoamento d'aquella região pelo 
governo de Santa Catharina, com o devido respeito pelas 
fronteiras hespanholas das Missões, e outra fixava os 



189 



limites da nova ouvidoria do Desterro pelo rio Negro, 
affluente da margem esquerda du Yguassú. 

Era natural que as disposições d'estas cartas régias 
não fossem devidamente executadas até o anno de 1765, 
porque o referido sertão e a respectiva costa marítima 
pertenciam á capitania do Rio de Janeiro, e os conflictos 
de jurisdicção entre as auctoridades locaes eram facil- 
mente resolvidas pelo capitão-general Gomes Freire como 
melhor lhe parecia, na occasião. Porém, logo que foi 
restaurada a capitania de S. Paulo e esta teve o seu go- 
verno autonómico, deviam aquellas ordens reaes. ter im- 
raediata execução, tornando-se effectivos os limites por 
ellas estabelecidos afim de evitar os conflictos, que das 
câmaras municipaes e dos ouvidores das comarcas pas- 
savam aos capitáes-generaes e só podiam ser resolvidos 
pelo governo de Lisboa, que ou não se importava com 
elles, como no presente caso, ou os decidia com annos de 
demora e com enorme prejuizo das partes interessadas. 

Os capitáes-generaes de S. Paulo até o tempo da in- 
dependência e os seus presidentes até 1853 não davam 
a entender que sabiam da existência d' estas cartas régias 
e todos elles se apegavam ao facto material das explora- 
ções e descobertas d'aquelle sertão terem sido feitas 
pelos paulistas, por ordem de D. Luiz António de Sousa, 
para affirmarem o direito de S. Paulo sobre aquelle ter- 
ritório. 

Com o mesmo direito que este capitáo-general teve 
de mandar explorar e povoar o sertão de Santa Catha- 
rina, ordenou elle simultaneamente que os paulistas atra- 
vessassem o grande rio Paraná, explorassem e povoas- 
sem o sertão de Yguatemy, que pertencia á capitania 
de Matto Grosso e que, entretanto, nunca foi posterior- 
mente reclamado como parte integrante do território 
paulista. 



190 



Para estas invasões de territórios legalmente perten- 
centes a outras capitanias, D. Luiz António tinha pedido 
e obtido o consentimento escripto do governo portuguez, 
então concentrado nas mãos do Marquez de Pombíd (I). 
Este consentimento nao lhe foi recusado porque todos 
os serviços de exploração e povoamento dos sertões de 
Santa Catharina e de Matto Grosso eram feitos á custa 
do sangue e do dinheiro dos paulistas, não custavam 
um só real ao governo de Lisboa, e diante das vanta- 
gens que taes seviços llie traziam o Rei D. José I não 
fazia muito empenho em que o sou grande ministro 
tornasse effectivas as ordens emanadas de seu pae João V. 
Aquellas cartas régias ficaram esquecidas, porém não 
foram abolidas, e n*ellas se fundavam os capitáes-geue- 
raes do Rio de Janeiro e seus delegados em Santa Ca- 
tharina para protestar contra as invasões dos paulistas 
no sertão contido pelos rios Yguassú e Uruguay e as 
Missões Argentinas. 

O presidente Lima e Silva, pessoalmente, não conhe- 
cia a geographia da região contestada e fez confusão 
entre os rios Canoas e Canoinhafi^ chegando a acceitítf 
a affirmação de Sousa Chichorro que o rio Canoinhas 
é um dos affluentes do Uruguay e forma o limite entare 
as duas provincias, o que é um erro gravissimo ; entre- 
tanto, mais adiante reconhece elle que o rio Canoas é 
que é affluente do Uruguay e declara que, pelo mappa 
do marechal Muller, que elle segue em questões inter- 
provinciaes, o rio Canomhas desagua no rio Yguassá. 
Por esta confusão e apparente perfilhação de opiniões 
contrarias, sem perceber a contradição em . que cahira, 
o presidente de S. Paulo invalidou em boa parte a 



(1) Vide Corresjxyndencia de D. Luiz António de Sousa, y oh, xix 
e xxxiu do Archivo do Estado de S. Paulo, 



191 



força dos seus argumentos e mostrou que eram impres- 
táveis algumas das fontes em que colhera as informa- 
ções sobre esta grave matéria. 

Si o marechal Muller traçou no seu mappa as divi- 
sas entre as duas províncias e especialisou com linhas 
pouctuadas os limites entre os municipios de Lages e de 
Corityba, devia o seu trabalho ser o resultado da legis- 
lação vigente para ser a fiel expressão da verdade geo- 
graphica; porém, é o próprio presidente quem declara 
que, comquanto seja esse mappa usado pelo governo 
de S. Paiilo nas suas relações com os governos visinhos, 
não merece elle confiança e que o direito de S. Paulo 
sobre aquella região se basêa sobre os factos históricos 
registrados nos livi-os da sua secretaria, isto é, na sua 
descoberta e povoamento pelos paulistas. 

As divisas estabelecidas pelo ouvidor Raphael Pires 
Pardinho e rectificadas i^elo seu successor Manuel de 
Faria não tem valor algum interprovincial, porque Par- 
dinho era um funccionario subalterno, dependente* do 
eapitão-general de S. Paulo, e os limites estabelecidos por 
elle estavam todos dentro da capitania, cujo território 
se estendia naquelle tempo até á Colónia do Sacramento. 
Era, portanto, um seiTiço inteiramente interno, de cara- 
cter puramente local, que uma vez aj)provado pelo ea- 
pitão-general, tinha força de lei para esta capitania so- 
mente. 

Ainda mais, esta demarcação fora realisada no pri- 
meiro quarto do século passado e ficou inteiramente 
invalidada j)elas certas régitis acima citadas, que são 
muito posteriores e deram novas divisas para o sul da 
capitania e territórios d'ella desmembrados. Estas divi- 
sas, portanto, não somente tinham na occasião um ca- 
racter todo local, como foram abolidas por ordens pos- 
teriores, emanadas do governo portuguez, e não podiam 



192 



ser invocadas, 120 aimos depois, como base para a so- 
lução de ura confticto iuterprovincial. 

Em 1812 a Villa de Corityba passou a ser a sóde 
da comarca de Parauaguá, que então era a õ.* na ordem 
das comarcas da capitania de S. Paulo. Depois da in- 
dependência algumas reformas alteraram o numero e 
a ordem das comarcas da provincia e pela lei de 17 de 
julho de 1852 o seu numero foi elevado a 10, sendo a 
de Corityba a ultima. Compunha-se ella dos municí- 
pios de Corityba, Paranaguá, Antonina, Morretes, Lapa 
e Castro, quando foi desligada de S. Paulo e elevada á ca- 
tegoria de Provincia pela lei de 9 de agosto de 1853, 
com as mesmas divisas anteriores, que não eram conhe- 
cidas, nem bem definidas. 

Aqui cessa toda a interferência do governo de S. Paulo 
na mais que secular questão de limites com Santa Catha- 
rina, passando a responsabilidade d'ella a pesiu* sobre o 
governo da nova provincia, que tomou o nome de Paraná. 
As dúvidas, hoje como dantes, versam ainda sobre a posse 
da extensa região contida pelos rios Negro e Yguassú ao 
norte e Uruguay ao sul, até ás Missões Argentinas. 

Na collecção dos actos do poder executivo do tempo 
do império se encontra o decreto n.^ 3:378, de 16 de 
janeiro de 1865, que tentou pôr um termo a estas dú- 
vidas, determinando que, emquanto a assembléa gerai 
não resolvesse a questão entre aquellas duas províncias, 
se observasse o seguinte: 

«Alt. 1-^ — Os limites entre as Províncias do Paraná 
«e Santa Catharina são provisoriamente fixados pelo rio 
«Sahy-guassú, Serra do Mar, rio Marombas, desde a 
«sua vertente até o das Canoas, e por este abaixo até 
«o rio Uruguay. 

í<Art. 2.<^ — Ficam revogadas as disposições era con- 
«trario». 



193 



Por este decreto ficíivmn revogadas as cartas régias, 
que serviam de base para as reclaiiia(;ões do governo 
de Santa C-atliarina e era mantida a posse do Paraná, 
sobre o sertão contestado quasi nos mesmos termos pro- 
postos pelo capitão-general D. Luiz António de Sousa, 
100 annos antes, com a differença somente que, em 
vez do rio Uruguay, em todo o seu curso, o decreto 
estabelecia os rios Marombas e Canoas, como linha di- 
visória a partir da Serra do Mar. 

O governo imperial, que podia tudo, publicando este 
decreto em janeiro, teve tempo de sobra para, na ses- 
são das camarás, que se abriu em maio, apresentar e 
fazer votar um projecto de lei, que de qualquer forma 
resolvesse definitivamente a matéria; porém, tal não 
fez e diante das reclamações e protestos produzidos em 
Santa (Jatharina pela exorbitância d'este acto dictatoria 
e expoliador dos direitos d'aquella província, o governo 
recuou e por aviso de 21 de outubro d'esse mesmo anno 
cassou aquelle decreto e deixou a questão no mesmo 
estado anterior, que permanece até hoje e constitue um 
dos pesados encargos que a monarchia legou á Re- 
publica. 

A enorme extensão e a summa importância da região 
contestada, unidas á antiguidade do direito escripto de 
Santa Gatharina em antagonismo mais que secular com 
a posse material do Paraná, vem dar a este litigio um 
caracter de maior gravidade do que possam vir a ter 
quaesquer outras questões entre os Estados da Federa- 
ção Brasileira. Porém, a capacidade jurídica, o senso 
pratico e o espirito de justiça que distinguem os repre- 
sentantes dos dous Estados, unidos á inteUigencia e im- 
parcialidade do juiz arbitral, justificam a esperança de 
serem essas questões trazidas a uma solução pacifica e 
honrosa para ambas as partes litigantes. 

13 



194 



Si c licito ao narrador e coinmenUulor dos facto? 
exprimir iu< suas incliiuK^ões pessoaes em Ciusos desbt 
natureza, em litígios pendentes de decisão, direi (jue aí» 
minhas sympathias estão com Santa Catharina, porque 
não somente a seu lado militam a(|uellas cartas régias, 
(jue mandam (jue lhe fique pertencendo o sertão cor- 
respondente á sua costa maritima, mas taml)em porque 
ella tem ainda por si a eijuidade e mais o direito de \)0&- 
suir limites naturaes incontestiiveis como sejam os rm 
Xegro e Ygufissú ao norte, o rio Truguav ao sul, o mar 
á na.scente e íi5 fi*onteiras argentinas ao ])oente. 

Ainda mais, as leis económicas estão todas a seu 
favor; a sal i ida natural dos pro<luctos d*a(j[uelle sertão, 
não é j)elo })orto de Paranaguá, cpie é inferior e fica ao 
noii;e, muito distante, mas {)elos ]>ortos catharineuses. 
(]ue são superiores e Hcam nmito mais ]»roximos, prin- 
cipalmente o porto de S. Francisco (|ue é um dôs me- 
lhores da costa sul do Brasil. Sendo a saliida natimil 
pelas linhas de latitude e não j)elas de longitude, aquella 
região teria de hictar com as ditficuldades das distancias 
por um lado e com atí barreiras e impostos interp>ro- 
vinciaes por outro lado, que não ]>odem ser cobrados 
])or seus agentes directos e licam dependentes da boa 
vontade dos funccioniu-ios do Estado expoi^tador. Des- 
viar por qualíjuer forma o commercio do seu caminho 
natural e os productos dos seus mercados obrigados é. 
com certeza, praticar um clamoroso attentado contra as 
leis económicas. 

Antigamente, o governo de Santa (^atharina, fraco 
e incapaz de se defender contra as es<juadras hespanho- 
las em transito para o Rio da Prata, nem siquer podi^i 
pensar em defender os seus sertões contra as possiveis 
invasões dos hesj)anhoes das Missões. Ao capitão-ge- 
neral de S. Paulo, D. Luiz António de Sousa, que es- 



195 



tava sempre a exagerar este j)erigo de invasão pelas 
Missões (l), e era o mais forte e o mais visinho, foi 
deixada pelo governo portuguez, egoista c uzurario, a 
tarefa de acudir a este perigo, mais apparonte do que 
real, do explorar e povoar aquelles sertões, tanto mais 
que este servi<,'o, considerado pelo capitáo-general como 
de alta conveniência para a coroa real portngueza, era 
todo executado á custa do sangue e do dinheiro dos 
paulistas. 

Pela leitura da coiTcsponílencia do D. Luiz António 
com o Marquez de Pombal se verifica que era necessá- 
rio o povoamento d*aquella região para defendel-a das 
invasões dos castelhanos, que podiam subir pelo rio 
Uruguay e cortar as comnumicações de Corityba com o 
Rio Grande do Sul, com grave perigo para a integri- 
da-le do território brasileiro (2), perigo que elle podia 
conjurar, porque tinha boa vontíide o gonte, comquanto 
fosse pedir algum auxilio pecuniário ao vicc-rei e aos 
capitães-generaes de Minas e de Goyaz. O Marquez de 
Pombal consentiu n'isso porque reconhecia, realmente, 
as vantagens que dahi i)roviriam para o governo portu- 
guez, sem, comtudo, declarar nulhus tus cartiis régias 
anteriores e confessar que aquelles terrenos, explorados 
e povoados, ficariam })ertencendo á ca{)itania de 8. Paulo. 

Porém, hoje, os tempos estão nuidados e as actuaes 
necessidades politicais não são as mesmas d'aquellas re- 
motas eras. 

A defesa de toda iiquella immensa região está agora 
a cargo dç toda a nação e não mais sob os cuidados 
exclusivos do governo do Estado do Paraná, filho eman- 
cipado do S. Paulo, c arrancal-a de Santa Catharina 



(1) Vide vol8. XIX e xxni do A nh^ro do JCsiado de S. Foulo 

(2) Idem7 idem, 



K)6 



cm proveito do Pamná, seria consíigrar u iiijustiç/i e 
iniquidade do facto consumado, mutilar aquelle Estado, 
reduzindo o a uma estreita tira de costa marítima, mon- 
tanhosa e quasi estéril, e tonial-o incapaz de exercer as 
altiUj funcções politicas (jue llie competem desemi)enhar 
entre os outros Estiidos irmãos da União Brasileira. 



A. DE Toledo Piza. 
S. Paulo, nuiio do 1897. 



trif MAPP£ ASTIâO 



DE PARTES DAS 



CAPITAIUS DE S. PIOLO, IIUS 6EMES E RIO DE JliEIRO 



Com a devida licença do nosso illustre consócio, 
Dr. António de Toledo Piza, Director do Archivo do Esta- 
do, tenho a satisfacçâo de apresentar ao Instituto Histórico 
de S. Paulo cópia de um documento pertencente ao 
iVrchivo do Estado que me parece ser extremamente im- 
portante para o estudo do desenvolvimento dos conheci- 
mentos geograj>hicos do teiTÍtorio que especialmente inte- 
ressa a esta associax^ão. 10 uma nota descriptiva de um 
mappa, (jue infelizmente tem desapparecido, de grande 
parte <la antiga capitania de S. Paulo, esboçado poucos 
annos depois da sua creaçãoem 1701) e antes do desmem- 
bramento, 1720, do território (jue hoje constitue o grande 
Estado de Mintus-iferaes, sendo, provavelmente, o pri- 
meiro maj)])a geographico especial da i)ai*te oriental da 
capitania de R. Paulo e da região mineira entiio recen- 
temente descoberta (jue ainda lhe pertencia. 

Devemos, o Dr. Piza e eu, conhecimento da existên- 
cia d'este documento aos raros (conhecimentos históricos 
e bibliographicos do nosso illustre conscn^io, Dr. Eduardo 
Prado, que chamou a nossa attenção a um item no cata- 
logo da Bibliotheca de Évora rehitivo a um manuscripto 
inédito conservado n'aquelle estabelecimento. A requi- 
sição do então Presidente do Estado, o Dr. Bernardino 



198 



de Campos, e por intermédio do Ministro Brasileiro ei.i 
Lisboa, o . Dr. Assis Brasil, o Arcliivo do Estado de 
de S. Paulo hoje possue uma cópia devidamente au- 
thenticada d'esse interessante mánuscripto. 

O mánuscripto em questão não traz data nem nome 
de auctor. A primeira pôde ser determinada proxima- 
mente pelas referencias a actos administrativos do se- 
gundo Governador da capitania D. Braz Balthazar da 
Silveira que governou desde agosto de 1715 até setem- 
bro de 1717. É pois de presumir que o mappa e de- 
scripção foram organizados no anno de 1717 ou nos 
anteriores de 17 IG ou 1715, em todo o caso antes da 
creação da villa de S. José d'El-Rei a 19 de janeiro 
de 1718, visto que est-a localidade vem mencionada com 
o nome antigo de Arraial Velho. Quanto ao auctor, é 
possível que fosse o mesmo que o de um mappa espe- 
cial do Governo de Minas, egual mente anonymo, con- 
servado na Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, com 
a indicação de ter sido offerecido ao Governador Conde 
de Assumar, que fixa a sua data entre os annos de 1717 
e 1721. Este ultimo trabalho é um esboço tosco, uma 
espécie de roteiro figurado, porém com indicação rela- 
tivamente boa da posição relativa das diversas localida- 
des, rios e vias de communicação então conhecidas. É 
de presumir que o mappa descripto no mánuscripto junto 
fosse d*este mesmo typo e natureza, se não é que os 
dous não foram da mesma mão, differindo apenas na 
área representada. Seja isto como fôr, parece certo que 
o mappa do documento de Évora, embora nunca publi- 
cado e hoje desapparecido, fosse conhecido e aprovei- 
tado por geogi-aphos do século passado na confecção 
de mappas que ainda existem publicados ou conserva- 
dos inéditos nos archivos. Os motivos em que se basêa 
esta opinião serão expostos mais adiante em nota. 



Í99 



O niíiTiuscripto (*oiii o titulo do «Descripçao do 
Mappa Geo^-apliieo, etc», consta das seguintes partes: 

1.*^- rma listíi dos j)ortos, ilhas o povoações da costa 
maritiuia (juc tígurani iio mappa 

2." — Roteiros dos diversos caminhos para as mhias, 
partindo dos portos de Santos, Paraty e Rio de Janeiro. 

3." — Uma lista dos rios que figuram no mappa com 
uma nota descriptiva dos principaes. 

4." — Uma lista dívs lavras [)rincipaes de ouro. 

5.** — Uma notíi descri ptÍA^a das chico comarcas repre- 
sentadas no mappa. 

O manuscripto original acha-se conservado na Biblio- 
theca de Évora com a numeração «C^odice .^-j^ n." 30. > 

A cópia fornecida ao Archivo do P^stíido de S. Paulo 
traz a seguinte advertência do copista, o Sr. A. F. Barata: 

«Vae fiehnente (*opiado nâo só na orthographia in^e- 
gular, e mesmo errada, como, qunnto possivel, na dis- 
posição da matéria. 

«As i)0ucas interrogações signiKcam dúvida na leitura. 

«E possivel (jue, nos nomes próprios^ os w fossem toma- 
dos por //, ou vice- versa. 

íTambem nos jiomos j^roprios os // se poderão ter lido 
por cCy etc. 

<'As palavras, manifestíunente erradius, levam o (.v/^). 

«O mais ó cópia fiel orthogra[)hica até nas con'u- 
jMjões, e na húU\ de pontuação e ac(»entos.> 

E mais as seguintes declarações : 

«Foi esta cópia feita com auctorisação superior. ('O- 
nheço o códice e confio na cópia do sr. A. F. Barata, em- 
pregado da Bibliotheca Publica Eborense, de cuja lettra é 
todo esse escripto. Bibliotheca Nacional de Lisbca, 13 
de novembro de ISíh"). — O Director, (iahrid Victor do 
Monte Pereira.» 



200 



«J. Vieira da Silva, Cônsul Geral dos E. U. do Brasil 
em Portugal , etc. 

«Roíionheço verdadeira a assignatura retro de Gabriel 
Victor do Monte Pereira, ( 'onservador e Director da Biblio- 
theca Nacional d'esta cidade. E para constar se passou 
o presente que assigno e vae sellado com o sinete da 
Republica. 

«Consulado Geral dos E. IJ. do Brasil em Lisboa, 19 de 
novembro de 1895.^Pelo Cônsul Cxereà, Jaeintho Di^ de 
Aguiar, Vice-Consul. — N.« 1559. — Recebi 1$900.- 
Aguiar, » 

Segue o manuscripto ao qual tenho accrescentado 
algumas notas destinguidas das do copista pelo signal — 
(N, da R). — Orville A. Derby. 



Descripçâo do Mapa Geographico que com- 
prehende os limites do Governo de S. Paulo 
e Minas e tfiobem do Rio de Janr.^ 

Costa marítima 

1 Barra de Sanctos 

2 Bertioga barra pequena 

3 Rio d 3 Vna só capaz de lanchas 

4 Barra do Toque Toque da Ilha de 

5 S. Sebastiam 

6 Barra das Canavieiras da mesma Ilha 

7 Rio de Vbatuba de lanchas 

8 Barra do Cairussu 

9 Barra da Marambaya 

10 Rio de Garatiba de lanchas 

11 Rio de Tujuca de lanchíus 

12 Barra do Rio de Janr.'' 



20Í 

llhaa 

Ilha de Lamuela 
Ilha dos Alcatrazes 
'Ilha de S. Sebastiam 
Ilha dos Porcos 
Ilha das couves 
Ilha grande 
Ilha de Jorge Galego 
Ilha do Pay 

Povoações marítimas 

a S. Vicente 

b Santos 

c V.* de Vna 

d V.» de S. Sebastiam 

e V.» de Vbatuba 

/ V.» de Parati 

p V.* de Angra dos Reis 

h Cid.® do Rio de Janr.^ 

/ V.» de Malalu (1) 

l cidade de Cabo frio 

Caminho para as Minas partindo de Santos 

Embarcasse em canoas, e se vay pouzar ao pe da 
serra do cubatam pella menhâ, se sobe a serra, a qual 
hoje esta capaz de se sobir a cavallo excepto em dous 
ou três passos donde se apeyâo os que se não querem 
ver em perigo ; porque p.* qualquer parte p.* onde escor- 
regue se percepita infalivem.** Em pouco mais de três 
horas se vence a imminencia d'aquella serra da qual se 
ve o mar e a planície da terra commonicada de transpa- 

(1) Macaca (?). Veja se a advertência do copista. —(N. da R.J 



202 



rentes agoas de inKiiitos Rios que serve p.* a vista 
de agradável e lisongeiro objecto a esta serra e sua cor 
dilheira derfio os Íncolas prini."** o nome Parananipia- 
caba que significa na liiigoa (leral do Brazil lugar donde 
se ve o mar ; e porseguindo a jornada se vai pernoitar 
no Rio dos Couros e no outro dia se entra na cida<1e 
athe o meyo dia ou húa hora em jornada ordin.* 

Desta cid.® se parte p.*^ as Minas passandosse pellas 
paragens seguintes : 

a N. S.* da Penha 

h Faz.^* dos P.^* da Comp.» passasse logo hum 

Rio ao ssair 
c V.* de Mogi — passasse hum Rio ao entrar 
d V.» de Jacaray passasse antes de entrar na V." 

o Rio de Paraiba em canoa 
e Principio do Capão Grande 
/ Capella 
g V.» de Taubate 
h V.* de Pindamunhangaba 
i V.* do guaratingueta 

A esta V.* tão bem vem dar o Cam.*» de Parati (1) 
que chamâo o Cam.*^ velho e q."* sae de Parati vem ao 

(1) Este caminho de Paraty a Guaratingueta recebeu do 
povo do Rio de Janeiro a denominação de «Caminho Velho» 
para o distinguir do Caminho Novo para as minas que da babia 
do Rio de Janeiro ia pelas actuaes cidades de Petrópolis, 
Juiz de Fora e Barbacena. Conforme o Dicciotiariú Geogra- 
phico de Milliet de Saint-Adolphe, o caminho de Parat.v foi 
aberto em 1660 jwr um bando de aventureiros «para irem da 
villa de Paraty aos districtos de Minas (íeraes novamente des- 
cobertos » . Se esta data fôr correcta, a communicação entre as 
villas do alto Parahyba e o littoral em Paraty é anterior ao 
de8col)rimento das minas. Em S. Paulo este caminho era geral- 
mente conhecido pelo nome de Estrada de Facão i>or passar i)elH 
Freguezia de Facão, a<»tualmènte a cidade de Cunha.- (^N. daB.) 



203 

1 Bananal, sobesse a innacessiuel serra e se des- 

cança na 

2 Pariçâo 

3 Passasse o Rio pirapitininga que toma aqui o 

nome das serranias por onde passa, e logo 
depois se chama Paraiba do sul e se por- 
noita no citio q* também toma o nome do 
Rio 

4 Afonço Miz' passasse adiante o Facão que he 

hum careirinho q' se passa pello alto de hum 
cume no qual apenas cabe hú cavallo ou hú 
homem a pó e se acazo escamba p.* húa das 
bandas se percepita 

5 A Encruzilhada, e se entra depois na V.* de 

Guaratingueta já dita e delia se parte p.* 
as Minas passando em canoa dahi a breve 
distancia o Rio de Paraiba no citio do 
l Aypacarê: (1) e se procegue o caminho das 
Minas 

Citios ou roasaa deste Camp 

1 Embaú — passasse hum Rio vinte vezes e por 
isso se chama o passa vinte, sobesse a notável 
cordilheira ou será da Mantiquira : passasse 
outro Rio trinta vezes, por isso se chama 
passa trinta (2) 



(1) «Gnaipaearé, aonde ficam as roças de Bento Eodrigne8> 
no roteiro de Antonil. É perto da actual cidade de Lorena.- - 

(N. DA R.) 

(2) O roteiro dado por Antonil na obra intitulada Cultura 
e opulência do Brasil^ que antecede este esoripto por uma 
meia dúzia de annos, tendo sido impressa em 1711, dá o nome 
de cAmantiquira». Ainda hoje ouve se muitas vezes, no lado 
paulista da serra, o nome de «Mantiquira». Os nomes dos corre- 



204 



2 Pinheirinho 

3 Rio verde 

4 Pouzos altos 

õ Boas Vistas, sobesse hum monte em cujo cume 
se dilata a vista circulanii.^ pelos òiu-izon- 
tes com igualdade e sem algum obstáculo ou 
estoruo de outro mote q' se oponha, prova 
de sua gr.^® innninensia 

6 Cachambu, onde ha hum monte cuja fralda he 

lambida de todo o género de cassa, que ali 
vem gostai d'aquella terra por ser salitrada 

7 Maipendi 

8 Pedro Paulo 

9 Engaí 

10 Taran-ituba 

11 Carrancas 

12 Rio Grande 

13 Tojuca 

14 Rio das Mortes, pequeno 

Entrasse na V.* de S. João de El Rey no Rio daí 
Mortes desta V.* se vay para as Minas Gerais em 5 
ou 6 dias por húa de duas estradas ambas quasi igiiaes 
asim na extençâo como nas comodidades e cam.^^ húa 
se intitula o ( -am.** velho e outra o Cam.^ novo. A estrada 
da velha se toma á mâo direita fica a esquerda a noua 
cujos citios ou rossas de húa ou outra são os seguintes 

g08 «Passa vinte» e «Passa trinta > identificam o i>onto da pft^ 
sagem com a garganta do Cnizeiro, onde hoje passa a Estrada 
de ferro «Minas e Rio». Hoje o nome «Passa trinta > acha se 
mudado em «Passa quatro». Provavelmente os antigos, náo 
conhecendo outra cal)eceira do Rio Verde, tomaram o eorre^ 
de «Passa quatro» como tronco principal, de mo<lo que as 
trinta passagens incluem também as do Rio Yerde propriamente 
dito.— (N. DA R.) 



205 



Cam." Velho 



Passasse em canoa o Kio das Mortes logo q' se sae 
ilu V." e dahi se vai ao 



.4. 


1. Caiiaiidai 










h. 


Cataguazes 










c. 
d. 


Camapoam 
Amaro Ribr. 


u 








c. 


Carijós (ou 
Ma Ca])ello 


(/arisos ?) 










Ca/n. 


Hovo 






1. 


Cauaiidai 










2 


Alagoa dourada 


este citio 


toma o 


nome de 




hiia alagoa 


ahi 


ueziulia 






3 Camapoam 

4 lledondo 










5 Congonluuí 
H Ma (W»ello 











Paremos neste citio e vamos ao ( /am." novo do Rio 
<le Janr.'' Passasse da C-id.® do Rio de Janr.® em 
lancha e se entra pello Rio Aguassu e em húa 
niare se j)ode chegar aocíitio do 

1 Pilar daqui em canoa pello rio tussima se 

uai ao 

2 Couto, acjui se monta a cav.'* e se segue jor- 

nada 

3 Toquarussu pe da boa vista aonde estii o 

Registo sobesse a sen^a com inexplicável tra- 
balho do mais imminente da estrada se ve 
o mar, os Rios e a planície da terra em 
recii)orco comercio goza acjui a vista de hum 
fermozo espetaculo e porseguindoa jornada 



206 



fica a mão esquerda hum monte inacessível 
tão redondo e igual q' paresse feito ao tomo, 
he todo de pedra e por húa banda de sua 
fralda vai a estrada deixando a Gigantaria e 
innninencia m.*® atras os Athlantes e olimpos. 
No pe da serra da p.^ do Norte se situa a rc«- 
sa do 

4. Silvestre 

5. Bispo 

6. G.«' 

7. Alferes 

8. Róssinha 

9. Pao Grande 

10. Cavaru-Merim 

11. Cavarú-Assú 

12. D. Maria 

13. D. Maria 

14. D. Maria Aqui se passao Rio Paraíba em canoa 
lô. D. Maria Taquarussu 

16. D. Maria Paraibuna, pjissasse aqui o Rio deste 

nome 

17. Rosinha do Araújo 

18. Contraste 

19. Oaptiuo 

20. Medeiros 

21. Joseph de Souza 

22. Juiz de fora 

23. Alcaide mor 

24. Alcaide mor 
2õ. Ant.« Mor.» 

26. M.®* Correya 

27. Azeuedo 

28. Araújo 
^9. Goncalvos 



207 



30. Gonçalves 
ai. Pinho 
82. Bispo 

Sohesse a(|ui a grando cordilheira da Manteciuira (1) 

H3. Rossinha saesse ao Campo 

H4. ('Oronol borda do campo 

i\ò. Regisco: (iuem quizer hir p.** a V.*' do 8. João 
de El Rey toma húa estrada a mão es(|uerda 
e vai ao citio do X. Barrozo 
Em outra jornada pode cheguar a V.* e vamos 
porseguindo o nosso cam." da*j Minas Ge- 
rais. 

36. José Roiz 

37. José Roiz 

38. Alberto Dias 

39. Píissagem 

40. Ressaca 

41. Ganandai 

42. Outeiro 

43. Os dons irmãos 

44. Gallo cantante 

45. Rosinha 

1 Num estudo sobre a denominação < Serra da Man ti 
queira», publicado no primeiro numero da Revista d'e8te Insti- 
tuto, foi notado (jue o nome Mantiqueira ^Mantequira ou Aman- 
tiquii*a; só ai)i>areee nos roteiros de Antonil íque para o Cami- 
nho Novo são mais minuciosos do que os do manuscripto de Évora) 
na estrada jiaulista de (luaratinguetá a 8. João d 'El Rei. D'ahi 
se tirou a conchisão que o nome era i)rimitivamente de appli- 
caçáo local n'esta estrada e que ]>assou a ser fçeneralisatlo para 
designar toda a cordilheira. O ])resente documento prova que 
já <»m 1717 o nome era coiTeute no caminho novo de Barba 
cena, sendo alli a]>])licado conu) denominação geral para a cor- 
dilheira.— (N. DA R.) 



208 

d Amaro Ribeiro 
e Carijós 
/ Macabello. 

Passasse aqui o Rodeyo isto he hir a roda 
de húa serra a q' chamão a Titiaya 

g Os Hheos 
h Lana 

Daqui se toma a mão esquerda quem quer 
hir cam.** direito p.* V.* Real e se vai pella 
cachoeira a vista da caza Branca buscar . 
a passagem do garauato e porseguindo o 
Cam. *»das Minas Geraes do Lana se vaj as 

i Três cruzes 

l Tripui este citio fica meya legoa da V.* rica 
e logo se entra nella p.* se passar daqui a 
V*. real se toma pelo Tripui as três cruzes 
e pella Bolaina (1) ou outras mais duas 
ou três estradas se vai a vista da Caza 
Branca e buscar passagem do. 

1 Garavato 

2 Corralinho 

3 Rapozos 

E se entra em V."^ real e desta se passa a todas as 
mais V.*® de sua Comarca 

E já que acabamos de tratar dos cam.*" e estradas 
terrestres descreueremos agora as estradas aquáticas que 
são os Rios, e principiaremos pellos mayores porq' sem- 
pre aos grandes se lhes deve os primeiros lugares. 



(1) Bocaina (?)— Veja-se a advertência do copista.— (N. da R./ 



209 

Disposição dos Rios 

Rio da Prata 

A. Rio da Prata 

a. Kio (írancle 

h. Rio díxs Mortes 

c. Rio dixs Mortcís [)equeno 

d. Theete 

e. Rio de S. Francisco 

f. Rio das Velhas 

ff. R. da.s Congonhas 

k. R. de S. Bert."^^^ 

/. R. das Pedra.s 

k. R. da Pratíi 

/. Rio Sahará 

m. R. (iaya 

n. R. do Inferno 

0. R. Pará 

^). R. Parau[)eha 

q. R. de S. João 

r. Rio do Parail)a do Sul 

s\ ires oliios de a<;oa de seu na,sciuiento 

t. R. Paraihuna 

//. Rio do Ks}).*" Santo 

.r. Ribeirão do Carmo 

//. R. Sumidouro 

^. R. Gualaelios 

c. R. Guarapiranpi 

1. Rio Doce 

2. R. S. Rarboza 

3. R. S. Matheus 

4. R. Cattas alt^us 

5. R. dos ('amargos (1) 

^1) Nota se u'esta listii a falta de referencia ao Sapuoaby 

14 



210 



Rio da Prata 

Procede este seg.^^ Ihiareo dc^s Kios, de prineipios e 
fontes pobres nitis com a visinhança do Rey dos Met^ies 
enobrecidos tem da parte do leste o nascijii.^^ porque 
athe nestii circunstancia tenba arejiiedos de sol : o 
Rio grande Ibe oferece os pr."* cabcdaes p.** (jue seja 
tão bem grande a sua opulência: Nasce este de áwãs 
pequenas fontes liúa junto das Minas de Il)itupoca, ou- 
tra das de Juruoca e logo a pouca distancia se mostra 
rápido e caudalozo depois entra nelle o ido das Morte* 
que nasce da bordado campo do Cam." novo encorpo- 
rado com o das Mortes pequeno e todos identificados 
passando ]>ello merediano de S. Paulo leuão comssigo o 
celebrado Teete (4) e de romaria vam paiTar a Buenos 
Ayres ou A nova colónia, e sae ao mar em altura de 
33 (ou 35) grs' min. o 

Kio de S. Francisco. He este o 3." Rio na ordem 
de sua grandeza dos que i)raticão com curso mais ex- 
tenso as terras do Hrazil constroelhe a nuiyor parte de 
sua riqueza o famozo Rio das velbíus com tíuita^s alfayjis 
de ouro quantas são as suas correntes de Prata, com 
este se faz não só caudalozo mas logo soberbo com 
poente o Rio das Velhas do das ( ongonlias, de S. Ber- 
tolameu q' lhe careda (?) o cabedal, entrão nelle m}^ <le- 
pois vários Riachos^ os mais notáveis são o das pedras, 
e o da prata e o Rio Sabara (pie trás comsigo e em 
suas agoas as dos riachos Gaya e do Inferno, chamado 
assim porq' se passa i)or elle por húa ponte de menos 
de 20 palmos de conq)rido ; correndo elle por baicho por 
mais de 200 de profundidade o qual eu tenho passado 



e Rio Verde. C) iirimeiro devin ter sido iuteirameiít^» desço 
nhecido n'eKta ei)oclia. O segundo era conhecido uas cabeceiras 
no córrego Piujsa Trinta até a altura de Pouso Alto luais ou 
jnenoH ; porém nada se sabia do seu ciurso inferíor. ;^N. da R.) 



211 



m.^ vezes. Tainl)em dosagoa no Rio do S. Fran.*^<^ jun- 
tamente com o dius Velhas, o do Para. Este se com- 
põem do Rio Paurapeba e S. Jofio (lue onidos entrâo 
iiolle e este rio no mar \>^^ a p.^® de leste em altura do 
10 grs e 48 min. 

Rio Paraíba do Sul 
Na.sce este Rio de três olhos de agoa perto da V.* 
de Angra dos Ileys e vai discorrendo por entrei as serra- 
nias e Montanhas de Pira[)etinga, das (piaes toma a<|ui 
o nome poreni dilatando-se p.'^ oeste o perde e toma o 
da Paraiha dando volta pella Y.**' de Jacarai ftis cam." 
]).* leste passando no citio do Aypacare, j)ello cam." velho 
díus Minas, e no Cam." novo pello citio de Gracia Roiz 
que tomou o nome do mesmo Rio p.* o dar ao seu citio 
e depois fí»rtilizar aos campos dos (íoaitazes sae ao mar 
peUa banda de leste em altura de 22 grs' e 30 Min. 

Rio do Spirito SJo ({) 
Da serra da Titiaga e da Tapanhuaganga no ouro 
preto, da banda de leste nascem duíis fontes (pie depois 
unidas pro(Uiziím o Ribeirão do ('armo enrcíjuecido de 
ouro por todas as duas marg(*ns, fundo e (unitornos este 
recebe em si os rios do sumidouro e o dos gualaxos en- 
corporados dous dias de jornada da V.*' do Carmo e (en- 
trando nelle mais abaixo o da guaropiranga, perdem 
ambos o nome e tomfio o do espirito S.^" e vai desem- 



(l^i Este no hypotlu^tico tio Espirito Santo, ao qual se re- 
feriu ivs cabeceiras do liio Doce da n^fi^ião de Vi lia Kica, tif^ira, 
eoniorme se a<*ha aijui descripto, no mai>j)a da America do Sul 
de D'An\âlle, }ml>lica<lo em Paris em 1748; jmrém náo no mappa 
das Cortes confeccionado em Tâsboa em 174ÍK E bem i>ossivel 
ÍJue D' Anville tenha tido conliecimento do mappa deacripto nVste 
documento. 

Os tributários Gualachos e Guarapiranfí^a íipruram no mappa 
francez com o nome de Torguim (Eonpiim?; em logar de Sumi- 
douro O liio Doce de D'Anville também concorda com esta 



212 



bocaralesto na V.'* {\uv «lo Hio tão l»em se intitulou com 
o mesmo nome em altura de 20 grs' e 15 Minutos. 

Rio Doce 
Este Rio se eompõe ilos Rios kS. Barbara e S. Mii- 
tlieus, catas altas e eaniar^os e outros (jua^i sem nome 
e todos correm pelos districtos de Matto dentro nas Mi- 
luis Gerais e oriundos da gr. ^^ serra Tapanhuae^mga (jue 
.se estende do ouro i)reto p." o >soroeste. Este Rio en- 
tra no mar da banda de leste em altura de 11) grs.' e 
34 min. 



tlescrípvíío, t*nm a excei>vãi) «pie o iioim* Matto Doutro «ubstitue 
o de Sant.i Darbaia. Na rogião ile S. FmncÍ8co faltíuu no ma))iMi 
de D*Auville alguns detalhes aqui meneionados, e lia outros 
(jue não tiguram nesta descni)<;ão. Os dons eoneordam em li 
gar o Pará e Paraojíeha i-oiu omissão do tnmeo i)riucij)al do 
S.Franeiseo. Os !<> arraiaes da deseni><;ão íiguranint) mai>i)a fran 
eez, eom exeei><;ão <le Itaberaba, Itacolmui, Santa Barbara e 
Itambé; havendo, i)orém, d(ms, Torguini Foniuim?; e Jabaralm, 
<iue não liguram na deseríi>vão. E' ]}ossivel <|ue o mappa fosse 
mais minueioso <lo que a descri) )(;ão, o\\ então o geogmpho 
francez teve outras fontes de infonuação. E' tiuasi eerto, i>orém, 
«lue a sua rei)resenta^'ão d\'st:i ])art'» do Bmzil foi basea«la prin- 
cipalmente no ma])])a atjui descrii)to. O argumento mais jHMle 
roso a favor d'esta conclusão vem de haver elle empregado o 
nome tAiTayal Velho- que, em mai)pas de orígem j>ortugueza' 
organisados dejíois de 171H, t(*ria sido substituido ])p1o de 
8. José d'El Kei. 

O sui>posto Kio th) Esjnrito Santo, bem que eliminado do 
Mai)pa das Coites, organiztulo i'm 17ii), oatinuou a tigurar em 
alguns mai>i)as, impressos ccmfonne se ve no Atlas de M. Bonne 
]>nblicado em Pans cc ca de \1>M) ? . Erros d'esta natureza, 
devidos á ligarão hypothi'tica de barras e cabeceiras c(mluH*tdíi.s 
são freípientes na historia da geograjdiia. l'm exemplo frisante 
temos no pnquio Estado de S. Paulo com o INfogy guiíssii. Os 
map])as antigos anteríorcs ao do Brigí\deiro MuUer de lí<'»0 
representaram o Mogy guassú e Pardo .conhecidos somente nas 
part es superior e média dos seus cursos; como rios independentes. 



213 



Serras 

A ílo Paranampiaoalni so donotta com o earater 

... (1) 

A paisagem, ou subida do lubatani ((íiibatão? ) 

A do Parati ou Pirapetinga. A da Boa Vista no 
Rio de (2) 

A cordilheira da Manteíjuira. O Morro do Rio dns 
Mortes 

A ponta do niorro no Arrayal velho — ('aniapoaiu — 
A serra de Ittunbira- A de Tapanhua(*anga- A de Ita- 
eolomim A de Pitangui ™A do serro do frio- o Morro 
da Oonceipçfio - 

As fíizendas de engenhos e rossas se assignalâo eoni 
estes cara(íteres O 

Os AiTayaes, isto he [)ovoíi(;oens (jue nao sâo \'."*' 
mas lugares dos seus termos onde s(* dn o catíus p.** tirar 
ouro com estes 

A paragem onde s(» toma o eam/' p.'^ as esmeraldaí?. H. 

A Lagoa doiu^ada- (ãc) 

Lavras varias 

1. Juruoca 

2. Ibutupoca 



O geograi)ho pRílro Ayres <le ( 'asai na Hiia {yreviona (^M-ographi a do 
Brasil inihlicMlíí tnn ISlTfazdo M(>g^^-firii*V^^^í ^wu aMiionto do 
Tietê desaguando i><4a barra do Jacaré. O on*o «jno hojo paroci» 
bastante estranho, é entretanto muito natural. O auetor sabia (jue 
no Tietê havia a l)arra <le um rio imi)ortante eujo curso era 
desconhecido e i)rovavehuente tinha recebido a informação que 
no Kio Grande nâo havia <bias barn\s corres])ondentes ao Pardo 
e Mofç>' guassú. O iMirso superior do Mogy-guassú ia em direc- 
Çíio da baiTa ão »Tacaré e com os conhecimentos «h» então a li\^)o 
these apresentada i)arecia conciliar os factos conhecidos. 

;N. DA R.) 

(1) Falta a<iui um bocadinho á pagina. ;N. do (.'opist.v.) 

(2) Idem. 



214 



3. Arrayal \'olh() 

4. Congonhas 
õ. Itaberaba 
G. Itaubira 

7. Canissa 

8. Guarapiranga 

9. Itacoloniini 

10. Canmrgos 

11. ('attíts altas 

12. S. Matlious 

13. SM Barl)ara 

14. lUxmhé 

15. IUicanil»ira 
1(). (^oncHMpção 

Oníitto outras infinitas lavras por não fazer mayor 
processo : e faço menção das refferidas \yoT([ dellíis se 
trata em outros lugares deste extracto, p."^ se saber onde 
estão cituada.s. 

Comarcas deste mapa são cinco 

A Capitania do Rio de Janr.^ tem som.*® húa a qual 
espira pella parte do Norte no pe da sserra da boa Vista 
no Cam.« novo das Minas antes de a subir e com a Ca- 
{)itíinia do Rio de Janr.^ digo do espirito S.*^ Pella do sul 
fenece no mar oceano pella de leste no mesmo pella de 
oeste na V.^ de Vna inclusiue com a comarca de S. Paulo. 

O G."" de S. Paulo e Minas tem 4 comarcas 

A 1.» be da cid.^® de S. Paulo 

A 2.** he do Ouro Preto 

A 3.^^ be do Rio das Velbas 

A 4.^» be do Rio das Mortes 
A comarca de 8. Paulo parte do Norte com a do Rio 
das Velbas do Sul com a do Rio de Jam\" jK^llas tonus da 
sserra acima atbe a V." de Xua e em parte com o mar 



21.^ 



CKíeano <lo lesto cõ a do Rio de Jiiiir." e com a do Rio das 
Mortos polia oordilhoira da Mantoqiiira : o polia do oeste 
se podo estender athe a Noua (bloiniiia. 

A comarca <lo()uro Preto parto do Norte com os Mat- 
tos dos Illieos o da Baya do sul com a do Rio das Mortes 
pello lemite do Riírdas Con^oidias <le leste com a do spe- 
rito H}'* ode oeste com a do Rio das velhas i)ellos lemitos 
da passagiiem (sie) do (luarauato e ( 'atíus alta,s, 

A comarcía do Rio da*< velhas parte do Nortcí com a 
Baya : do sul em j).**" com a do Rio das Mortes i)ellas 
Montanhas da Ituuhira inclusiuo o em p.*® com a de 
S. Paulo polia p.'*" do lesU^ com a do ouro preto pellos 
lemites da passagem do guarauato o das ('atíis altas : 
Pela do oest(^ pellos (Hírtoens som coidie(*ido lemite. 

A do Rio das Mortt\s parte do Nf)rte em p.*"* com a do 
ouro preto pello Rio das Congonhas e em parte com a do 
Rio das velhas do sul em p.^^ com a do Rio de Janr.^ pella 
serra da Boa vista no cam." novo e em p.^ com a da Ci.*^ 
de S. Paulo de lesto com a do Rio de Janr." de oeste coma 
de S. Paulo pello lemite da Mantoípiira no cam.'* velho. 



Descripçâo das v.*^^ das minas segd.^ as antiguid.^ 
em que forão creadas 

OCt."''^ ('ap.'*"»gn/*' Ant." do Alhuquorq' Coelho de 
Carv.** levantou as V."" seguintes. 

V." de N. S.* do (-armo que tomou o nome do 

Riheirão que corro junto a ella 
V.* Rica no Ouro Preto 
V.'' Real no Rio das Velhas 
O G."»* e cap.*"» gn.'*' D. Braz Baltezar da Silveira ere- 
gio as seguintes: 

yj" de S. João d'El lioy no Rio das Mortes 
y.^ Nova da Rainha no Caete 



216 



V.^ Nova do IMiicipe no serro frio 
V.'* da Piedade em Pitíingui. 

K« do Carmo 
Esta cituada em altm*a de 20 grs.' e 15 min. de cli- 
ma favorável p.* todo género de plantas mas não tem 
em si o milho e feijão qne llie baste e gr.**^ p.^ deste 
mantim^^ lhe vem dos eampos da cachoeira curalinho 
e Caza Branca comdnzido em cíiv.*** dLstiincia de sineo 
seis sete legoa^s esta fundada em eitio alegre assim do Ri- 
beirão como da serra se tem tirado m.*^*" thezouros e actual- 
mente em todo o sen termo se tira bastante ouro; mas 
em forma q' tenha conta só a q.*" a Divina Providencia 
premite em todas as mais Minas, he o mesmo. 

K« Rica 

Entre montanhas de immensa altura e delias rodeada 
em forma q' a vistíi se mio pode estender por quebrada 
alguma se levantou estii V.*^ e sui)osto que abatida pella 
porfundidado em q' esta a mayor j).*^ delia cituada mais 
soberba e opulenta que todas assim pella ferguesia dos 
commerciantes como pella fiança de suas Minas morm.** 
da innacecivel serra de Tapanhuacanga em cujas fi'aldas se 
encosta e descança a qual serra he um Potosi de ouro mas 
por faltas de agoa no verão não inri(|uessc a todos os q' 
nella munerão suposto q' os remedeia. 

Hé esta V.* falta de tudo o q' depende de agricultura 
assim que todo o mantim.*" lhe nem dos já ditos campos 
por distancia de três quatro sinco legO:is esta em altura de 
20 grs.' e 20 min. 

*^.« Real 

No principio desta V.* pella parte que olha p.* o sul 

corre o Rio das Velhas a lauarlhe as margens a este ronde 

vasalagem o Rio Sabara que saindo-Ihe aqui a so])seguiído 

(sie) se despoja de seu nome com o tributo de suas agoas 



217 



(rodeando este a V.* pellas bandas de leste e do Norte) 
correm ambos turvos porq.® actualm.*® nelles se munera 
mas raras vezes saem os Mineiros lucrados nestes distri- 
ctos porque não correspondem os haueres a ordinr.® dis- 
pêndio sendo assim que as terras desta comarca são abun- 
dantissimas de todos os fructos os quaes nelia se com- 
prão por menos ametade que nas Minas Gerais. A V.* 
esta cituada em terrontorio (òic) aprasivel, e os moradores 
se tratáo aqui com in}° lusim> e porq' tem em as suas fa- 
zendas amenos pastos conservão com pouca despeza 
ni> cavalaria. A esta V.* vem parar todas as carrega- 
coins que sabem da Babia Parnambuco pella estrada dos 
Curraes Rio de S. Francisco e nella antes que em outra 
parte entrâo os gados (comum sustento das Minas quasi 
reputado como o mesmo pão) Esta V.* esta em altura 
de 15 grs' e 52 min. 

K.o de S. João de El Rey 

Ao sul de todas as V.»^ e em grs' 21 e 6 min. se 
erigio esta \.^ em bua planicio (sic) que convida a 
interior alegria aos q' delia gozão rodeada de amenos 
campos que seruem de proueitozos pastos e não menos 
he enrequecida de lucrosas Minas mas de suma difficul.*® 
e não p.* todos se não be no inuerno de cujas encborradas 
se aproveitáo bindo os negros a guandaya (a q' se cbama 
faisq.™ ) pella fralda de bum monte de mais q' mediana 
grandeza todo composto de pedra de Beta de ouro que 
moida com bum pedasso de ferro mais se esperdissa do 
q' se aproveita, por mera incúria e evidente imperícia 
de artefactura e no tempo seco perece o comum e som.*® 
lucrão alguns particulares com força de escravos dando 
catas na fralda do monte q' são de mais otelidade e 
com menos comueniencia se dão tão bem por aquella 
dilatiula vargem: e buas e outras m.**** vezes se não 
aproueitão por não poderem vencer a agoa que 



218 



vertem: assim q* nas partes inferiores a m.^ e nas supe- 
riores a pouca agoa são as deficuldades q' se encontrão 
nas fomentadas conueniencias a pouca distancia desta 
V.* corre o Rio das mortes cujo fundo se sabe que em 
m.*^ paragens he empredado de ouro e delle se tirava 
o q' a boa m.^ podia trazer Imm negro de margulho 
arranhando com um abnocafre emq.^^ lhe durava o 
fôlego agora com novo arteficio se tira em canoas com húas 
grandes colheres de ferro, quazi da fonna de um murrião 
com hum saco de pano pendente da p.^® comiexa e 
encheridas em húa astea comprida de pao, e com sa- 
rilhos em terra p.* pucharem pellas colheres q' se cravão 
no fundo e tirão lodo areya e pedras as q' possivelm.*** 
sofrem os cabos com q' se puchão e se deve entender que 
o mais perciozo fica por se não poderem mover nem 
arrancar as pedras de estranha grandeza q* estão no 
fundo p.* serraspar a piçarra delle onde o ouro fas seu 
natural asento. 

Ka Mova da Rainha 

Esta V.* he a 5.* na ordem de sua antiguidade dista 
de V.* real perto de 4 legoas esta fundada em citio ale- 
gre, e dezafogada de montes he abundante de manti- 
mentos tem bastantes lauras : se pouco lucrão menos 
gastão e por esta causa ha no termo desta V.* m.***"^ ho- 
mens opulentos e tem pastos p.* conseruarem os seus 
cav.®^ com commodid.® esta ao Norte de todas as V.*^ das 
Minas em altura de 19 grs' e 38 min. 

K.« Mova do Princepe 

Nem em sua altura indiuidualm.^ me afirmarei nem 
tão pouco da situação e propriedades dest^ V.** porq' 
ainda não fui a ella mas referirei aquellas cousas q' são 
caleficadas com a commua not.* Esta V.* se fundou na 
pouoação q' antes se nomeaua serro do frio q' jxgora 
se toma genericam.^ por todo o seu termo no qual se 



219 



achão infinitas Minas e part.^m.*® na conceipção aonde 
ha hum monte de desmedida grandeza no qual se 
acha o ouro como o q' dissemos de Tapanhuacanga em 
V.* rica. 

Tem esta V.* terrenos mui dilatados e p.* a p.*® 
de oeste ainda se não tem averiguado o seu lemite delia 
se vai a Itacambira aonde tão bem se minera e dous 
dias antes de chegar a estas Minas da Itacambira se 
toma o cam.<* p.* o descobrim.^ dm esmeraldas fazendo 
cam.*^ de leste 15 dias e outros tantos p.* Nordeste mas 
os q' as buscarão athe o perzente se guiarão som.*® pello 
tino sem not.* alguma geographica e por esta cauza an- 
dando com m.*** trabalho mais cam.^ do q' lhe era ne- 
çesr.** porq* se partissem da V.* nova da Rainha p.* o 
Norte atalhauão mais de meyo cam.^ e em i>oucos dias 
andados poderião tomar o seu rumo ou seguir o seu 
tino e com m.^ breuid.® chegarião ao lugar destinado. 

K.a da Pied* (7) 

A ultima e septima V.* he a Pied.® citio antes no- 
meado Pitangui p.* onde se ajuntarão m.*® n.** de Pau- 
listas tão bem não direi delia se não que tem hum serro 
aonde actualm.^ se minera, e em húa paragem delle a 
q* chamão o Batatal se tirarão m.**^ quintaes de ouro 
eiu pedassos de grande pezoe q' ainda nelle se trabalha 
ferq.'®in.^ et hrevitatis causa non tdterius prosequor em 
outra ocazião ex professo tratarei esta matéria mais di- 
fuzam.*® se toda via a aceitação deste pequeno porem 
util dcsvello, me lizongear a curiozidade. 
Sit quarauis (?) Nohis labor jucundus, 
Laude aucta clarior, vir tus amanda nitit. (1) 



( 1 ; Einentlfula, a ]ialftvra quo tem iutorrogação, parece não 
se poder ler de outro modo. (N. do Copista .) 



^ 



ALEXANDRE DE GUSMÃO 



ESTUDO LITTERAMO-BIOGRAFEICO 

SOBRE 

O eminente Diplomata e inspirado poeta paulista 

Trahalho offerocido ao li):<tituto Histórico e (icographico de 8. Paulo, de qae é ^ 
auctor «ócio effectlvo. 



O vulto !ni<^estos:iin'Mite syin[)athico de Alexandre de 
(Tiisinãí) ainda não foi bem estudado entre nós. 

(ína.si todas as obnís históricas e biographicas tratam 
em resumidas linhas da vida gloriosa e também triste, prin- 
cipalmente durante seus últimos annos, do extraordinário 
lilho da terra fundada por Braz (-ubás, a mesma que mais 
tarde fora o berço natal dos legendários Andradas. Assim, 
Manuel Eufrasio de Azevedo Mar(|ues no seu interessante 
livro — A pont<i mentos Históricos, Biogntphicos^ Estatísti- 
cos e (rcographicos da Proriticia de São Paulo: Joa" 
quim Manoel de Macedo, na conhecida e apreciável 
produccão de seu talento — Anno Biographico Brasileiro: 
J. M. Pereira da Silva, na obra valiosa que publicou sob o 
titulo d'* V^aròcs lUiistres do Brasil; Innoí*encio Fran- 
cisco da Silva, no seu inqmrtiinte trabalho —/>/mowan*o 
BihJiographico Portuf/ner e Brasileiro: José Marcellino 
Pereira de Vasconcellos, no cem 'oituado volume que sob 
o nome de Selecta Brasil ioi^e, [)ublicou \m trinta annos 
na Capital do Espirito Santo; Cónego Fernandes Pinheiro, 



222 



no seu bello Curso de Litteratura Nacionnl e José V. do 
Sacramento Blake, no primeiro tomo da sua útil obra 
Dkeionario BihJiographico BrcusileirOf muito i)OUco es- 
crevem sobre Alexandre de Gusmão. 

Tratam apenas doillustre paulista somente como diplo- 
mata e prozador, guardando completo silencio v<?obre 
sua brilbante inspiração poética, que tornou-o tão notá- 
vel, tão querido e popular entre os mais festejados vates 
d'a(juelle tempo. Vamos pois tratar de estudal-o como 
diplomata e especialmente como poeta de elevado mere- 
cimento. 

O Sr. José Maria da ('Osta e Silva, escri[)tor por- 
tuguez fallecido em 1854, n*uma obra que imblicou sob 
o titulo de Ensaio Biographico, tratando de Alexandre 
de Gusmão disse que o poeta nascera em 1615. 

Puro engano, e felizmente todos os outros seus biogra- 
phos salvam esse lapso. Alexandre de Gusmão nasceu 
em 1695 na então villa de Santos. 

Era nono filho do cirurgião do presidio da villa Fran- 
cisco Lourenço Rodrigues o de sua consorte D. Maria Al- 
vares. Levado á pia baptismal i>elo padre Alexandre de 
Gusmão, virtuoso e estimadíssimo sacerdote, nascido eui 
Lisboa, porém creado no Bnisil, onde fizera todos os seus 
estudos, foi o pequeno Alexandre educado i)elo padrinho, 
e tão grato ficara ao santo homem, que resolvera tomar o 
seu sobrenome — Gusmão. 

Ainda n'este ponto não está correcta a obra do Sr. J. 
M. Pereira da Silva Varões [Ilustres do Bra^^l (piando 
referindo-se sobre o homem que ora estudamos, diz que o 
pae d'este chamava-se Francisco Lourenço de Gusmão. 
O illustre historiador nticional equivocou-se certamente, 
O progenitor do poeta tinha por nome Francisco Lou- 
renço Rodrigues, a«sim como seu irmão mais velho 
assignava-se Bartholomeu Lourenço, somente, como se 
poderá ver em alguns de seus escriptos. Mais tarde, 



223 



talvez, em homenageiíi íio heiíeuierito protector de sua 
fíiinilia — o padre ( UisniAo, — tomara o futuro homem voador 
o seu cognome. O nosso eximio biographado cursou 
com *^raude aproveitamento as aulíus dos jesuítas, que 
em Santos n'aíiuella epocha eram popularissimas. 

Contava apenas 15 annos de edade o illustre j)au- 
lista, quando I). João V, então rei de Portugal, tivera 
occivsião de prestiir um valioso servi(,*o a S. Paulo. Enthu- 
siasmado, cheio de amor á sua terra e rico de tíilento, 
Alexan<ire de (iusmão, grato ao soberano portugucz 
|>eIos seus favores em prol do torrão paulista, empu- 
nhara valentemente a }>enna e jiroduzira alguns versos 
forniosissimos e cheios de ardores patrióticos, envian- 
do-os depois ao monarcha, (jue lera-os com bastante 
pnizer. 

Infelizmente esta producv^ío de uma criança de lõ 
primaveras não é conhecida, ou mesmo não existe 
iictu ai mente. 

Dias depois e em vista de já ter Alexandre com- 
pletado seus estudos preliminares, seu pae enviou-o a 
Lisboa, onde desde ha muito se achava Bartholomeu Lou- 
renço, occupando um honroso logar junto á Corte. Este 
grande pauUsta, irmão mais velho do poeta e ttunbem 
uma díis íigunus mais salientes do Brasil nos tempos 
coloniaos, ninguém ignora, foi sacerdote illustrado, orador 
sacro elocjuentissimo e inventor das macbinas aerosta- 
tictis. 

Foi pois Alexandre de (íusmão confiado aos cui- 
dados de Bartholomeu Lourenço, que gozava nas cortes 
portuguezas de honrosissimos créditos. 

Estudioso, applicado e de fac*il comprehensão, o grande 
vulto nacional (k-dicára-se logo aos estudos das scien- 
cias naturaes e de varias línguas, ficando cm breve tão 
illustrado como os mais afanuidos mestres da epocha. 

Frecjuentou ainda o curso de Direito da Universidade 



224 



de Coimbra, tendo sido um estudante distincto, e ge- 
ralmente considerado pelos lentes ecollegas. Dejmisde 
laureadas notas em exames, recebera o grau do doutor 
em leis. 

Logo depois de formado, gozando já a fama, aliaz 
justa, de moço hábil, talentoso, trabalhador e hona^to, 
fora nomeado secretario da embaixada portugueza em 
França. 

Aproveitando sua permanência na grande capital 
franceza, o moço extraordinariamente trabalhador, fre- 
quentou as aulas de direito civil, romano e ecclesia-stico, 
recebendo após brilhantes estudos o diploma de doutor 
em leis pela Faculdade de Paris. O talento de Alexandre 
do Gusmão triumphava sempre e honrava no estran- 
geiro o nome sacrosanto de sua querida Pátria. 

Durante o pouco tempo de sua estada em França. 
l>rocurou o nosso glorioso biographado estudar os auctores 
mais em voga nas letras, no direito, nas sciencias e 
especialmente na alta dijdomacia, tornando-se íussini uma 
illustração cheia e celcl)re, uma individualidade sui)erior 
emfim. 

Como secretario da embaixada i)oi*tugueza em Franva, 
Alexandre de Gusmão dera i)rovaM de possuir um fino 
engenho dijdomatico, desempenhando com maestria 
diversas connnissões a seu cargo e honrando a contiança 
que merecidamente lha depositara o rei de Portugal, 
Em 1720 a embaixada portugueza regressou a Lisbmi. 
recebendo o nosso illustre patrício por essa occaí^ião íis mais 
sinceras felicitíiçòes do monarcha. Seu tíilento fora lop:o 
aproveitíido. O rei nomeou-o secretario de Estado dos 
Negócios do Reino e fidalgo da (\\si\ Imperial, dizenias 
Real. 

N'este mesmo anno seu irmão Bartholomeu Ix)urenço 
fora 8 Roma encarregado de uma importante missão 
junto á Santa Sé, e como durante muitos mezes nada 



225 



tivesse conseguido, o inonartília portugiiez enviou Uuubeni 
como a<ljunto á coiuiiiissão o.sj)Oí;ial (resteo joven secre- 
tario de Estado íjue tudo «.'oiiseguiu, gra^íis a sua táctica 
e noUivel sagacidade diplomática. Alexandre de Gusmão 
(ieúra definitivamente em Roma, occupando o alto cargo 
de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário de 
Portugal. Conseguiu angariar o elevado titulo de Fide- 
lissinio para D. Jofio V e crear um patriarchado em 
Lisl)oa Sete annos esteve o eminente brasileiro em 
Roma, onde dera demonstra(,'5es cabaes de ser senbor 
de um talento genial, tanto na carreira diplomática como 
na da litteratura poética. Durante as horas vagas, que 
eram i)ouquissimas, Alexandre não esquecia-se de cortejar 
com elegância e gosto as musas. O papa Benedicto XIII, 
verdadeiro amigo e admirador do poeta, offereceu-lhe a 
impotente dignidade de príncipe romano, honra que foi 
nobremente recusada, porcjue Alexandre com ella perderia 
a sua nacionalidade. 

A par de um poderos3 talento, possuia o digno brasi- 
leiro e paulista um caracter modelo. 

liegressando de novo a Portugal, foi logo nomeado 
secretario particular de D. João V. 

Manejava Alexandre de (rusmão, sem caracter oíHcial, 
todos os negócios politicos do reino, com uma perícia 
digna somente do grande cardeal-duque d(^ Richelieu. Km 
J732, fallecendo o notável escríptor conselheiro António 
Rodrigues da (Josta, membro da Academia Real de 
Historia Portugue/a, foi o nome de Alexandre de Gnsmão 
proposto para substítuil-o, sendo unanímente acceito pela 
casa. 

Incumbido depois pela Academia para escrever em lín- 
gua latina a historia das possessões ultramarinas, desem- 
{)enhou senão inteiramente, pelo menos em parte, tão 
difficil como espinhosa tarefa. 



226 



Como já dissemo8, seu talento invejável triumpliava 
sempre. Elle entendia de tudo e em tudo sabia-sc mostrar 
um espirito grandemente admirável. 

Apezar de illustradissimo, erudicto e de genial intelli- 
gencia, Alexandre de Gusmão era homem cheio de mo- 
déstia. A prova do que dizemos está na carta seguinte 
por elle endereçada ao padre Diogo Barbosa Machado, o 
popular abbade Barbosa, muito considerado n'aquella 
epocha pelos seus estudos históricos e vastos conheci- 
mentos litterarios, ein resposta a um convite que este fi- 
zera-lhe para tomar parte na «Bibliotheca Lusitana», carta 
esta que merece ser lida por mais de uma vez. Eil-a: 

«Sinto nmito que vossa mercê tomasse o incommodo de 
buscar-me, e que o não achar-me em casa me roubasse o 
gosto da sua estimável conversação, da qual procurarei 
sempre aproveitar-mo sem moléstia sua. 

«Muito tenho que agradecer a vossa mercê occon-er-lhe 
o meu nome ao formar o catalogo dos portuguezes illustres, 
sendo o maior agradecimento quanto menos razão havia 
para que eu devesse lembrar-llie ; e supposto que não de^- 
conlieça ou deixe de apreciar a honra que vossa mercê me 
faz, é justo também <jUo me não induza o amor-proj)rio a 
abusar d'ella. 

«Alguns amigos me fazem a honra de espalhar ao 
publico um conceito vantajoso dos meus estudos; porém 
como estes, emquanto se não dão a conhecer pelas obra*^, 
dependem de mui pia fé para se acreditarem, não devo 
attribuir o estabelecn mento d'a(]uella fama senão á be- 
nevolência dos que me favorecem, pois até ao presente 
não tenho mostrado composição por onde pudesse ad- 
quiril-a ; e fazendo conti\s com o meu talento, tenho por 
mui provável que o perderia de todo, saliindo aliaz com 
algum volume. 



227 



«Supposta estíi vordado quo sou obrigado a confessai 
ainda que uie cause difusão, discorro que também vossa 
mercê se tem deixado engannr com aciuella nâo mere- 
cida opinião, e que seria extranhada a boa exacção e 
boa critica de vossa inercô contíu* na Bil)liotheca Lusi- 
tiuia entre os auctores a um individuo, que o não é ; 
assim como não tenbo f|ue responder ao interrogatório 
principal diis obnus (pie compuz, julgo desnecessário dar 
satisfacção aos mais re(|UÍsitos que contém a cartíi de 
vossa mercê. 

«No seu livro terei que invejar os varões (jue pelos 
seus trabalhos se fizeram merecedores dos elogios de tão 
discreto e intelligente juiz, e sempre conservarei uma 
viva lembrança do lugar que a bondade de vossa mercê 
me queira dar n'elle, que será um novo motivo para 
desejar rei)etidas occasiões em (pie possa servir a vossa 
mercê e mostrar o meu reconhecimento. Deus guarde 
a vossa mercê muitos annos, 

Cíisa, 2 de Maio de 1 740. 

Alexa.ndre de (tUSMÃO.» 

Depois da morte de D. João V, o illustre paulista 
perdera o seu valor perante a ('(ute, embora se toriuusse 
cada vez niaior para o povo. O successor d'aquelle mo- 
narcba, D. José I, exonerou-o do cargo de secretario 
particular ou secreto, no qual tinha o notável diplomatíx 
e estadista prestado assignalados servií^os a Portugal e 
ao Brasil. 

Alexandre de Gusmão foi casado com uma bellis- 
sima dama e de familia hnportiuite e nobre de Portu- 
gal. Do consorcio possuía o poeta dous filhinhos ape- 
nas, consolo de sua vida agitada e cheia de sacrifícios. 
Em 17Õ1 um pavoroso incêndio destruiu toda r. casa 



228 



onde o grande brasileiro residia com sua família, devo- 
rando moveis, manuscriptos, livros e para maior fata- 
lidade — os dous entes que alegravam a vida amargurada 
do bardo, os dous pedaços de seu coração — os dous 
fillios 1 

• Quantas jóias litterarias brilhantissimas não seriam 
devoradas pelas labaredas inconscientes da terrível pyra! 
Se não fosse aquelle lamentável acontecimento, que além 
de matar os anjos do poeta, ainda queimou-llie os manu- 
scriptos litterarios, hoje, quem sabe, o Brasil teria ' em 
suas mais ricas bibliothecas um livro ímmortal I 

São poufiuissimas as producções poéticas de Alexan- 
dre de Gusmão. 

Das [)oucas que conhecemos, existem duas, que bas- 
tam para collocai* seu nome no rói dos mais notáveis 
vates brasileiros. 

Uma compõe-se de 16 quadras plenamente lindas, 
um inspirado poema pastoril. 

Vamos lel-a : 

EGLOGA 

Pastora a mais formosa e de^humana 

Quo fazes do matar-me alarde e gosto, 
Como ó possível que a um tâo lUido roeto, 
Unisse o Cén uma alma tóo tyrainia? 

Cruel, que te fiz eu, que me aborreces? 

Tens duro o coraçJlo mais que um rochedo 
Boa tigre, sou le^, que metta medo. 
Que apenas tu me vês. de.-sappareces ? 

Por ti tfto esquecido ando de tudo, 

Que o gado no redil deixei faminto ; 

O sol me fere a prumo, e nSo o sinto, 

A ovelha está a chamar-me, e níio lhe acudo. 

La vai o tempo já que em baile e canto, 
Eu era no logar o mais famoso; 
Agora sempre affliclo e pezaroso 
Tudo o que~sei é desfazer-me em pranto. 



229 



Hft poaco qae encontrei ul^ns pastores, 

Qne Tfto oommigo ao monte apóz o gado, 

B nfto me conheceram do mudado, 

Qae tat mo tem parado os teus rigores? 

Até o rebanho men, qne um dia viste 

Tfto lindo, antes que eu enlouquecesse 
Nfto come já, nem medra e se emag^rece 
Por dó que tem de ver-me andar ^o triste. 

EUe me guia a mim, nfto eu a elle, 
Que vou nos meus pesares elevado; 
Bem pode o lobo vir matar-me o gado 
A minha vista, sem que eu d6 fé delle. 

Nfto sei que nuvem trago neste peito, 
Que tudo quanto vejo me e8cur'éce, 
A flor do campo parda me parece, 
E até o mesmo Sol acho imperfeito. 

De alegre prado fojo, e só no escuro 

Da serra me retiro entre os rochedos; 
Ali pergunto ás feras, e aos penedos 
Bi alguém ha mais que tu cruel e duro. 

Ali ouvo soar, rompendo o mato 

Dos ribeirinhos as saudosas aguas. 

E em competência vfto as minhas magnas 

Dos olhos despedindo outro regato. 

O mal, que me succede, eu o mereço, 

Que ingrato desprezei quem me queria ; 

Agora se me vG faz zombaria 

Que bem vingada está no qne eu padeço. 

Bntfto nfto conhecia o que amor era 
Também me ria do tormento alheio; 
QuAo cedo (ainda mal !) o tempo veio 
Que Já conheço mais do qne quizéral 

Nfto me desprezes nfto, gentil pastora 

Que igual castigo Amor talvez te guarda; 
Nfto sejas á piedade avessa e tarda; 
Tem dó de maltratar a quem te adora. 



KOTJL: Conservo a orthographia do originai. — A. (jIoulart. 



é30 



Versos artisiicaiu uite correctos e ricos de bellissimas 
figuras, attestam cahalmente a piivilegiada vocação poé- 
tica de sou auctor. 

Só aquella quadra em que o poeta maviosamente 
cantou 

« De alegre prado fojo e só no oácuro 

« Da serra me retiro entre os rochedos, 
« AU pergunto ás feras, e aos penedos, 
« Bi alguém ha mais que tu cruel e duro.» 

é quanto basta para elcval-o á altura de um bardo 
de primeira ordem. 

Era um mestre na arte da rima e sabia empregar 
no verso imagens formosíssimas, como por exemplo estíi : 

« B cm competência vfto as minhas magnas 
« Dos olhos despedindo outro regato. 



1 



Outra producção de que falíamos atraz, é igualmente 
iiLspirada, correcta e cheia de belleza. É um soneto 
magistral. Vamos lel-o : 



A uma estatua de Júpiter 



Oh tu que tens do mundo o regimento, 
8e amas o bem, se odeias a maldade, 
Como vejo com premio a iniquidade, 
E abandonado o sfto merecimento? 

Devo crer que de tartare o tormento 
Castiga uma mortal leviandade. 
Que seja alta sciencia, amor. piedade 
Expor-me a um mal sem meu consentimento? 

Guerras cruéis, estúpidos tyrannos. 

Males, queixumes e moléstias tristes, 
Enchem o curso dos pesados annos, 

6:6 és Deus, se isto prevês e assim permitte^, 
Ou faxes pouco apreço dos humanos 
Ou só aqui em pedra bronca existes. 



231 



Quem eiiriíiueceu as lottras <la lingua portugueza 
com uma jóia (Veste (luilate, bem merece ter seu nome 
escripto com caracteres de om'o nas paginas mais impor- 
tantes da nossa historia litteraria. 

Alexandre de (rusmâo, triste e abatido desde a des- 
graça que devorára-lhe os amados e queridos filhos, 
pouco a pouco foi definhando, até que, em 17Ô3, no dia 
31 de dezembro, o xVtropos resolvera acabar com os seus 
soflfrimentos. 

Foi sepultado o grande paulista, exímio poeta e 
grande diplomata, no convento de Nossa Senhora dos 
Remédios dos Carmelitas Descalços de Lisboa. 

Alexandre de Gusmão, que fora um dos maiores ho- 
mens de estado da Corte de D. João V, que regeitára 
dignamente o elevado titulo de príncipe romano, fallecera 
completamente pobre, deixando os parentes próximos 
sem rccureo, porém legando á Pátria um nome illustre. 

Arthur Goulart. 
S. Paulo, Julho 97. 



3r^iar@ 



Oração fúnebre, offerecida ao instituto Histórico e Geographico de 
S. Paulo, por João Mepomuceno da Motta 



No meio de uns inanus(TÍptos antigos que pertence- 
ram ao meu finado avô o Sr. Cândido José da Motta, 
auctor do drama O Tira-Dentes^ encontrei o rascunho 
de um sermão por elle escripto, e que deveria ser 
recitado em Itú por occàsião do funeral do grande 
paulista o Padre Diogo António Feijó. 

Essa petja oratória, quando outro merecimento não 
tenlia, é a biographia mais completa que conheço do 
illustre finado. 

E ninguém em melhores condições para escrevel-a 
do que o seu intimo amigo, o seu compadre, o seu 
fiel companheiro nas luctas politicas d'aquelles tempos; 
ninguém melhor do que Cândido Motta poderia referir 
á posteridade as minuciosidades da vida d'aquelle 
preclaro cidadão. 

Creio prestar um bom serviço á Historia da nossa 
Pátria, passando a limpo esse discurso, acompanhado 
de 'algumas notas explicativíis devidíis ao seu auctor, 
além de outras que julguei conveniente accrescenUir, 
e offerecendo este pe({ueno trabalho ao Instituto Histo- 



234 



rico e Geographico de S. Paulo, couio subsidio para a 
historia dos acontecimentos politicos - de nossa terra. 
Possa elle servir um dia para se completar a Historía 
do nosso prospero e heróico Estado. 

Amparo (S. Paulo), 13 de novembro de 1894. 

Joio Nepomuceno Nogueira da Motta. 



Oração fúnebre á memoria do Padre Diogo António Feijã 

Non recedet memoria Qjuâ. 
(ECCLES., CAP 39, V. 13) 

8ea nome sempre immorUt. 

Soberbos niausuléos, que se levantam em honra dos 
heroes, que tingiram a terra de sangue com suas 
espadas vencedoras ; magestosos obeliscos que recordam 
a vaidade e o orgulho d'esses homens que estatuíam 
a sua gloria nos combates e nos triumphos, — sois nada, 
para o Ente Pensador 1 

A memoria dos conquistadores ó regada de lagrimas 
de innumeros pães, esposas e filhos, é salpicada de 
sangue das victimas immoladas, quasi sempre só ao 
capricho e á ambição! 

Não é, porém, assim o monumento que se dedica a 
perpetuar a lembrança do cidadão benemérito e paci- 
fico, do patriota illustrado, devotado sempre ao serviço 
de sua Pátria, sacrificando impávido por ella até sua 
própria existência, do filho leal da Igreja, do verdadeiro 
philosopho christão! 

Se a este se inaugura uma estatua, o homem moral, 



2â6 



em sua presença, é tocado da mais tema emoção, e, 
trazendo em revista as acções do heroe que ella repre- 
senta, como que se curva respeitoso, e se separa do 
mudo monumento, desejoso de imitar seu original: — 
tal é o tributo ao verdadeiro merecimento. 

Um d'esses mortaes em que os séculos não abundam, 
que tivemos a ventura de conhecer, tratar e admirar, 
que faz honra a nossa Província e ao Império, e cujo 
nome será sempre immortal, é o que hoje sufPragamos 
na Casa de Deus, repassados de dôr e de saudade. 
É o Ex.'"® e Reverendíssimo Sr. Diogo António Feijó, 
Gran-Cruz da Ordem do Cruzeiro e Senador do Império, 
esse nosso patrício, em tudo grande, cuja vida a His- 
toria levará sem mancha aos archivos da posteridade, 
esse martyr heróico da liberdade, digno de duradouros 
monumentos, para quem, entre as nenias religiosas, 
suppUcamos o descanço na eternidade. 

Sim, Senhores, a gratidão e o respeito ás virtudes 
do Sr. Feijó, nos dirigiram a este acto tão solemne 
da piedade christã e é indispensável que da tribuna 
sagrada retumbem as acções de sua vida, que nos 
constituiu devedores d'este testemunho publico; porém, 
outro deveria ser o orador, e não eu, que tenho con- 
sciência do meu nada; mas assim mesmo, não posso 
deixar de render esse melancholico tributo ao illustre 
finado, e talvez consiga arrancar de algum coração 
sensível e grato ao menos um gemido saudoso ou uma 
lagrima reconhecida sobre seu tumulo. Eu principio. 



Não me demorarei em descrever miudamente a 
vida do Sr. Feijó até á epocha em que elle entrou 
na grande scena nacional. Só me limitarei a dizer 
que nascido em S. Paulo no aiino de 1784, teve a 



236 



educação litteraria do tempo, na qual se fez reconhe- 
cidamente distincto, mostrando desde a sua infância a 
maior intelligencia e firmeza de vontade. 

Seu juizo claro, seu ctu^acter nobre e a pureza dos 
seus costumes, lhe grangearam verdadeiras amigos aos 
quaes foi sempre presta vel e fiel. 

Como sacerdote, cumpria zelosamente seus deveres, 
tomando-se digno do alto ministério a que sua vocação 
o chamara. 

Seu estylo claro e conciso o fazia apreciável no 
púlpito. Sua illustração em matérias ecclesiasticas o 
faziam procurado por pessoas assaz respeitáveis, mas 
timidas de consciência, que n'elle achavam o director 
izento de fanatismo e o moraUsta profundo, cujos con- 
selhos, os faziam tornarem-se úteis aos seus semelhantes. 

O indigente, Senhores, nunca deixou de sersoccor- 
rido pela mão caridosa do Sr. Feijó; a innocencia 
perseguida teve sempre n'ello um poderoso defensor. 
Summamente inclinado á lavoura, d'onde tirava sua 
subsistência, sobrava-lhe, ainda assim, tempo para ins- 
truir gratuitamente a mocidade nas matérias em que 
era profissional, fazendo-se notável pela clareza dos seus 
compêndios, e pelo methodo do seu ensino. (1) 

Tal era o Sr. Feijó , até á epocha em que o 
magastoso brado da Liberdade, soltado alem do Oceano, 
repercutiu nas plagas })rasileiras. 



(1) Ha mnitos annoH tive occasião de apreciar, ainda em 
manuHcripto, uma Syntaxc Latina, devida á penna d'aquelle 
notável professor e que meu pae e mestre guardava religiosa- 
mente, tendo servido de compendio a muitas celebridades 
actuaes. Infelizmente, porém, parece que se perdeu táo precioso 
trabalho, se algum amigo de velharias, menos vândalo do que 
eu, não teve o cuida<lo de guardar alguma copia. 

'No(a rio aucO.r.) 



237 



Seu coniçílo i>iilou do onthusiasino e suas vistas 
de lynce descortinaram no futuro a independência de 
sua Pátria! 

Ahl e de quanto não lhe é ella devedora? ! 

Não obstante estar o Sr. Feijó em uma villo 
central, (l) distante do borborinho' das capitães, exer- 
cendo tudo quanto a pliilantropia reclamava de uma 
vida retirada, todavia, seu mérito era conhecido e seu 
nome obteve, a par das maiores capacidades, os 
sufEragios para representar sua Província na Metrópole 
Portugueza. 

Grande era então o sacrificio, mas, por isso mesmo, 
digno do Sr. Feijó, a quem seus patrícios considera- 
vam com justiça habilitado, pelas brilhantes qualidades 
de seu caracter, a servir sua Pátria. Desde então 
votou-se só a ella, e veiu a ser (com magua o digo) 
veiu a ser o seu distincto mart}T! 

Divina Providencia, quanto são insondáveis vossos 
desígnios! Religião sancta, tu nos ensinas a beijar a 
mão suprema que nos fere! 

Tempo, Historia, Posteridade, vós vingareis o nome 
de tão preclaro cidadão! 

Senhores. 

O Sr. Feijó parecia ler no futuro; sua perspicácia 
admirável tocava no porvnr. Elle previu que a Mãe 
Pátria não cederia dos direitos de conquista sobre a 
parte mais rica e importante da Monarchia, elle conhecia 
a força dos hábitos e a difficuldade de fraternizar-se 
com sinceridade um povo habituado a dominar, com 
vara de ferro; desconfiou do convite portuguez, não se 
illudiu. Possuiu-se da dignidade brasileira, e julgou 
ser opportuna e indispensável a Independência de sua 



(1) Itú. (xY jj do aucíor.) 



238 



Pátria, quando as vozes d'ella se esvaecessem no 
Parlamento Constituinte de Portugal, e por isso pediu 
n'este sentido instrucções ao governo da Provincia, e 
partiu a exercer a sua alta e honrosa missão. 

Não foi necessário muito tempo, depois de sua 
chegada a Lisboa, para o Sr. Feijó conhecer quão 
fundadas eram suas suspeitas. 

Os portuguezes em Oôrtes não occultavam o seu 
despeito contra o Brasil; avaliando-o como habituado 
aos ferros coloniaes, entendiam que, mergulhado na 
ignorância, não estava habilitado a saborear a liberdade 
(como se ignorassem os exforços dos brasileiros em 
diversos tempos para obtel-a). 

Então o Sr. Feijó, com aquelle accento grave que 
lhe era próprio e que lhe captava profunda attenção 
no Congresso, com aquella nobre audácia que o civismo 
auctoriza, fez ouvir o Direito que tinha a sua Pátria 
de ser independente 1 (1) 

Baldados, porém, foram os seus exforços: os portu- 
guezes queriam a liberdade para si e a oppressão 
para a parte mais importante da Monarchia; e n'isto 
firmes, concluíram a sua Constituição, deixando só para 
o Brasil a ignorância e a escravidão! 

Era impossível que o illustre PauUsta se humilhasse! 
A dignidade que borbulhava em seu coi-ação não 
j)ermittia que assignasse e jm^asse esse pacto vergonhoso 
para a sua Pátria; e, resoluto, com mais seis dignos 
companheiros, atravez de ameaças e perigos, largaram 
do Tejo e foram á Inglaterra acobertar-se da sanlia 
perseguidora. 

D'alli veiu o Sr. Feijó a Pernambuco, onde, rece- 



ai) Celebre discurso e projecto de Feijó na» Côi*tes de 
Lisboa, {Nota do mictor.) 



239 



bendo as maiores deinoiístrações de estima d'aquelle 
povo generoso, publicou um manifesto da sua eonducta 
cm Poitugal, no qual exprimia com franqueza seus 
sentimentos de liberdade, (l) 

De Pernambuco foi ao Rio de Janeiro, onde regei tou 
as honras e distincções (2), que se lhe offereceram, (C, 
forçoso é dizer que no intimo de seu coração desap- 
provava a marcha politica do Governo de então. (3) 

Chegou emfim á sua Província, onde, repousando 
de tantas fadigas, gozava da presença de seus amigos 
que á porfia o procuravam. 

Já então a Independência se tinha proclamado e a 
Assembléa Constituinte Brasileira, esperança de todos os 
amigos da liberdade, foi dissolvida, não segundo a lei, mas 
segundo a jurisprudência do canhão e da bayoneta ! 

Acontecimento fatal !... cerramos, porém, um véo 
sobre essa i>agina negra da nossa Historia, não recor- 
demos iis consequências d'esse impensado golpe d'Es- 
tado, que pareceu abalar todo o Império, afastemos 
nossas vistas d'esse aiTanco de arbitrariedade, levando 
ás masmorras os servidores da Nação, que mais 
tinham pugnado por seus direitos no Templo da Lei 
e sigamos o Sr. Feijó. Este é o dever que me impuz. 

Sigamos o Sr. Feijó, que, firme no propósito de 
servir a sua Pátria, não esmorecia no meio do torpor 
geral, que começou logo em symptomas de agitação, 
mas que se acalmaram, (piando o monarcha offereceu 
a Constituição (]ue houvera promettido aos povos. 

(1) O Governo não ({iiiz que se imprimisse o manifesto 
tal qual estava, e sim eom algumas modificações, por ser muito 
liberal; Feijó, i)orém, não o eonsentiu. 

(2; Uantmieato, etc. 

(S) Isto deu motivo a ipie o (lovemo o mandasse vigiar 
jia Provincia. [Notas do autor.) 



240 



O Sr. Feijó fez com ((iie a Caintini de Itú offertasso 
as eniendíis que ellc judiciosamente redigira; trabalhou 
para que a Coiistituiçrio se adoptasse c (}ue a tran(|uil- 
lidade publica ufio fosse perturbada. 

Em todos os lugares onde elle a{)parecia era cscutiido 
como oráculo, embora sua linguagem livre molestiisf<e 
a um ou outro, que não se persuadia ])oder haver 
(loverno esUivel, sem ser ornado com os dentes ferinos 
do absolutismo. 

Foram estes talvez a causa de ser o Hr. Feijó 
chamado á Corte como suspeito. (1) 

Foi alli que elle com a dignidade do verdadeiro 
patriota fez ver ao ministro de Estado suas idéas de 
liberdade, subordinadas ao systema representíitivo, e 
quanto era impróprio que elle^ ministro, rehaixasse o 
Monarcha, fazendo-o timorato de um cidadão que não 
tinha injiuemia a temer-fsc, e que (juando a tivesse nunca 
a empregaria senão em prol do consorcio do Poder 
com a liberdade, e pediu, por fim, a declaração de 
seus crimes, e a prisão se a haviam destinado aos 
presos de Estado. (2) 

Este estoicisjuo, filho de uma consciência pura, des- 
pertou os sentimentos de Justiça, no meio do terror 
cujo manto íissombrava todo o Brasil, e o 8r. Feijó, 
illibado da minima imputação, j'egressou a seus lares 
trium[)hante, d'onde voltou i)ara tonuir assento lui 
primeira Assembléa Legislativa. 

Foi alli que o Sr. Feijó mais deu a coidiecer a 
rigidez de seus principios, a fecundidade de seu génio, 



(1) Foram eom elle o P.^ Dr. Manoel Joainiim do Amaral 
Gargel, os Barros, Prado e outros. 

(2) Se diz que foi interesHantissima esta conferencia eom 
o Ministro João Severiano. {Xfí( s (lo aaclo .} 



241 



a incorruptibil idade do seu caracter: tudo quanto de 
útil partiu (raquella respeitável corpora^ilo, teve ou sua 
iniciativa, ou sua a[)pr(ívavrio, que era sempre conscien 
ciosa e por isso, algumas vezes, votava em opi)osiçrio 
a seus amigos politieos, (]uo mesmo por ttil indeiK3nden- 
cia, mais o respeitavam. (1) 

Reeleito para a segunda legislatura, previu o futuro 
que nas ameaçava, mas não descorçoou; antes parecia 
redobrar de exforços, j)ara que a Ordem e a Liberdade 
triuniphassem. 

As Camarás, os ('Onsellios Geraes e o Governo 
testemunbaram (pianto trabalhou para táo nobres e 
patrióticas íins; mas o Génio do Mal tinha emftm 
conseguido tocar o Pórtico Imperial e o Monarclia, 
infelizmente, se fascinou, Surdo ás vozes da verdade, 
íio clamor })ublico, ao soffrimento dos povos e, julgan- 
do-se escorado na fingida affeição do partido, que lhe 
deslumbrava a verdade; cavando sua ruina, lançou-se 
nos braços dos architectos dos jnales e cahiu do Tlirono 
que a Nação sint;era, enthusiasta e agradecida lhe 
levantííra! 

Quão fecunda nâo é a historia (Vestes exemplos, e 
quão pouco são elles aprovei tiidos!... 

Sim, Senhores, o 7 de Abril de 1831 foi considerado 
(*omo um triumpho nacional, foi saudado pela Nação 
incauta com a mais viva demonstração de contentiunento; 
j>oréni, o Sr. Feijó o considerou como precursor de 
innnensos males. EUe o desa[)[)rovou e o declarou em 
sessão publica no Senado. Mas por isso mesmc» que 
parecia ler no futuro, foi incansável em promover os 
meios de evital-os. 



(1) Este facto era attestado por Paula Bouza e outros po- 
líticos d'aquelle temjx). {N ia d'/ 'tUa 



242 



Ninguém lhe clisputavíi a primjizia n*este honroso 
trabalho, nem a de lembrar Uuitos recursos! 

O Governo o escutava, os verdadeiros patriotas se 
uniam a elle, e, (|uando tudo parecia conflagrar-se na 
lava revolucionaria, o Sr Feijó por unanime iiccordo 
dos amigos da Ordem foi nomeado Ministro da Justiça, 
pois que tudo d'elle com razão se esperava ! 

Collocado no ])oder abriu-se a epocha mais gloriosa 
da vida de nosso heroe I 

Tragamos, Senhores, á memoria o estiido anarchico 
cm (]ue estava a Capital do Im})erio no tempo em que 
o Sr. Feijó subiu ao Ministério, e então avaliaremos 
a efficacia de suíis medidas, a calma de suas delibe- 
ra<;ões, a i)romptidão de suas providencias, o sangue- 
frio no meio dos maiores })erigos, a energia de sua 
acção! 

Admiremos sua coragem no meio dos perigos e a 
rapidez com que j)ôz dique ils desordens, restíibeleeeu a 
segurança individual e [)ublica e restituiu a tranquilli- 
dade em toda a (.'apitai. 

Não o acobm*dava o punhal do assassino, ao mesmo 
tempo que centenares de cidadãos fluminenses, temendo 
])or sua existência, por vezes guardaram (1) em efe- 
ctiva vigilia sua morada da tentativa dos malvados. 

Lembremo-nos... mas para que recordar mais fiictos 
quando tudo foi publico e de todos conhecido? 

Basta dizer qu(* o Sr. Feijó foi o snlvador do Brasil 
e o sustentador do throno constitucional. 

Assim o reconheceu a Nação, assim o Mundo 



(1) Cerca de duzentas pessoas guai*daram sua casa em 
certa noite, sem que elle o soubesse senão no ília seguinte. 

(^\ola do aaclor.) 



243 



civilisado, assim a Historia marvMrá o seu nome na 
posteridade. 

Paulista illustre! Embora inimigos refalsados tentem 
desbotar teus feitos em {)rol da Pátria, elles estão muito 
altamente abrigados de sua maledicência! 

Senhores. 

O nobre Ministro da Justiça era iU3clamado como 
o primeiro ci<ladão do Império, mas notae que só elU^ 
parecia ignorar esses votos de gi^atidâo e de publica 
estima. 

Sempre modesto, sempre inalterável na simplicidade 
do seu tratar, extranho ás futilidades, elle nSo differen- 
çava com pessoa alguma. 

Tendo concluído sua espinhosa missão com admira- 
ção geral, elle largou a pastíi e retirou-se [»ara sua 
Província, com sua saúde deteiiorada. 

A gratidão dos fluminenses aos seus recentes serviços, 
era preciso que se manifestasse a despeito da opposiçâo 
dos que soffreram pela fortaleza do illustre Paulistíi. 
Elles o collocaram na Camará dos Anciãos, fazendo 
prevalescer sua vontade em segunda votação, com maior 
triumpho do que na primeira. 

Seguiu-se a discussão do Acto Adiccional, e o 
Brasil inteiro testenumbou o reconhecimento e o alto 
conceito en que tiiiha o Sr. Feijó, nomeando-o Regente 
do Império, apezar d'elle não querer e declarar que 
não receitaria. (1) 

Obrigado, porém, por seus amigos e por um longe 
de esperança de fazer algum bem ao Paiz, empossou-se 
da Regência. (2) 



(r Invoco o tostemnnho dos seus rnaiove» amigos qtio 
o ouviram. X<tfa do anrtor.) 

;,á) Na minha eoUecvão de manuscríptos oneontrei mn 



244 



Como verdadeiro homem d'Estado começou logo a 
fazer com que se congraçtissem todos os Brasileiros, 
esquecendo-se das disseuções anteriores. Partiu d'elle o 
exemplo, empregando pessoas aptas, fosse qual fosse o 
seu credito politico: trabalhou para que viessem ao 
Paiz elementos de rique:5a, para que só dominasse no 
Governo a Justiça, a Moralidade, a Economia, e tudo 
começou a prosperar. (1) 

No Norte se pacificaram as desordens e o Sul não 
promettia uma lucta duradoura, que t^ria de todo 
finalisado, se iião fosse embaraçado o seu plano. 

Parecia, Senhores, que era chegado o teniiK) do 
Brasil começar a ser feliz e na funcção de sua grandeza, 
apparecer na escala das priíneiras nações do Globo. 

Mas, quão falliveis sâo os cálculos humanos! 

Uma op[)osiçâo violenta e desleal, manejada com 
arte por pessoas astutas e especuladoras se tornou em 



carta escripta por Feijó em um quarto de papel de linho azulado, 
concebida }k)uco mais ou menos nos seguintes termos: 

«Sr. Cand.o 

Aiinal estou regente e carregando pezo com que ninguém pó 
de. Estive enfermo e já melhor. Tantas são as occnpações em re^ 
ceber os cortejos do estylo que náo posso continuar. 

Seu Comp. — Diogo.» 

Esta carta deve existir ainda em poder do Sr. José da Costa 
Almeida Nogueira, a (piem, quarto proprietário da Gazeta de 
Capívnry, confiei para ser x^ublicada como uma curiosidade liis 
torica. Não sei que impoi-tancia mereceu esse documento; o fecto 
é que nunca foi publicado, nem me foi restituido. Por esse moti 
vo não posso gai-antir a fidelidade da reproducçáo dos últimos 
termos da carta.— J. Motta. 

(1) Andreas foi um dos primeiros despachados para Presi 
dente do Pará. 

{Xota do audor.) 



245 



breve um baluarte contra a nuiivha do Governo do 
Regente, tudo se lhe negando. Faeil si^-ia a este remover 
todas as difJicaildades, fácil lhe seria fazer calar as 
ambições, se fjUíil lhe fora renegar os seus princípios 
e capitular com seus inimigos; mas então Feijó nâo 
seria Feijó. 

A Imprensa e a Tribuna coiLspiravam desabrida- 
mente contra a sua pessoa. Homens, que elle chainava 
para altos empregos, excusavam-se com o temor de 
serem abocanhados (1). As calumnias mais atrozes se 
lhe assacavam ; tudo que havia de mau se lhe imputava ! 

Então o grande homem, declarando conhecer os 
homens e as cousas, superior ás honras e glorias 
mundanas, conhecendo que não podia ser útil no 
cargo eminente que occupava, resignou-o. 

Chamou para elle um seu adversário, por lhe 
parecer próprio a neutralisar os ódios e felicitar a 
Nação, alvo único de seus pensamentos, e posto que 
doente, voltou traníjuillo á sua vida privada, tendo 
também regeitado a Mitra de uma das maiores Dioceses 
do Império, a (jue o chumaram suíis altas virtudes, 
mas de que elle se não julgava digno!! 

Ambiciosos do século, confundi-vos em presença do 
incomparável Feijó! 

Senhores. 

Este rasgo sublime de desinteresse, pouco frequente 
na historia das nações, ])or si só seria capaz de immor- 
talisar o nome do virtuoso paulista! 

Seus amigos o admiraram, seus contrários conhece- 
ram a elevação de sua alma! 

Mas estes nutridos de [)aixões ignóbeis, e sem um 



(1) . Um d'elles foi José Clemente Pereira. 

(^Xota do auci(yi\) 



24(5 



só sentimento geiíiTos;), nfu) cessaram de ^lerrear aquí41e 
mesmo, que lhes entregara o destino do Império; e, 
com a mais negra ingi-atidão e baixeza, deprimiam 
seu bemfeitor. EUe, porém, rej^ousando no testemunlio 
de sua consciência inalterável, via com dor a quanto 
chegava o excesso das paixões desenfreadas! 

Com sua ausência da Suprema Magistratura, findou 
o período honroso da Historia do Brasil independente. 
Neguem-no muito embora pennas venaes, neguem-no 
os encarniçados inimigos do Sr. Feijó, negue-o também 
a parte immoralisada da Nação, a Historia, que 
imparcial vinga o mérito, attestará esta verdade eterna! 
O novo Regente rodeou-se dos principaes coripheus 
da opposiçâo ao Sr. Feijó; teve do Corpo Legislativo 
quanto quiz; prometteu tudo aplainar com os meios 
que puzeram á disposição do Governo, e parecia 
indubitavelmente que salvaria a Nação dos males que 
a ameaçavam. Porém, tudo foi illusão, tudo peiorou: 
o egoismo alçou seu collo (^ a immoralidade seu 
predominio I 

Uma nova politica im])erava, politica que feria 
perigosamente os interesses brasileiros. 

O Sr. Feijó ainda acudiu aos reclamos da Pátria. 
Em 1839, não obstante sei' Presidente do Senado, 
envolveu-se por vezes nas discussões òm defeza dos 
direitos dos povos, contra as tendências perigosas do 
partido dominante, e não foram baldados os seus 
exforços. 

A reacção nacional começou desde então, e tempo 
virá em que colha os trophéus do sou triumplio, 
como devemos es])erar no Deus de Bondade e de 
Justiça, que tem promettido a paz a seu povo e 
guiado os destinos do Brasil. 

Retirado o Sr. Feijó á sua Provincia, fez pela 



247 



imprensa sua protostiu^-ião do iV ivli^^iosa a íim de fazer 
calar seus inimigos, (|ue [)unliam em duvida sua ortlio- 
doxia, em virtude de suas luminosas opiniões em 
matérias des(*iplinares da Igreja , as quaes sempre 
sustentou victoriosamente na Camará temporária e pela 
imprensa ; porém a má íe o a períidia, torcendo tudo, 
o estigmatisavam! 

linfim, Senhores, (iliegou o tempo dos maiores 
padecimentos do Sr . Feijó ! Atíicado repentinamente 
de paralysia, ficou sem movimento de metade do 
corpo, porém sua alma nada perdeu de seu vigor. 
IJin só pensamento parecia nâo liaver em seu espirito 
em que se não mistunisse o desejo sagrado de felicitar 
sua Pátria; e foi por isso, que vendo que o grande 
iicto da Maioridade do Monarcha, em vez de trazer a 
cura aos males públicos, fez dobrar de energia e 
astúcia o partido que a elle se o[)poz, partido que 
desde 1837 solapava os alicerces do edifício social, 
partido cujos chefes desde então trabalhavam para o 
mando exclusivo, embora se falseasse o systema jurado, 
já n'essas leis da Reforma Judiciaria e ('Onselbo d' Esta- 
do, já em tudo que embaraçiusse seus planos, que 
antecipadamente se conluxíiam, sendo um d'elles dis- 
solver a (^amara dos Deputados, caso se não compuzesse 
em maioria dos seus asseclas, foi por isso, digo, que 
o Sr. P^eijó já no leito de dor, [)ossuido da mais 
patriótica indignação, manifestou seus sentimentos á 
xVssembléa Provincial de S . Paulo, n'esse celebre 
officio, onde resumbra seu no])re patriotismo e dedicação 
ao systema jurado, officio que não será esquecido em 
sua historia. 

Porém, Senhores, tudo tendia á explosão: o acinte, 
a injustiça, a (luebra da Lei, as ameaças, o nenhum 
caso da vontade publica, tudo, tudo de mãos dadas, 



248 



)3rovocava a revolta e ella infelizmente appareceu em 
17 de maio de 1842, em Sorocaba, nâo contra u 
Monarcha, nâo contra a Constituição, mas contra 
aquelles que em nome de ambos leyavam a Nação ao 
maior abysmo! 

O Sr. Feijó, sempre prompto a sacrificar-se por fins 
tâo justos, apezar da sua gravíssima enfermidade, 
pai-tiu para ajudar seus compatriotas de Sorocaba. 

EUe conheceu o perigo do movimento, elle previu 
o desfecho, mas attendendo só á Justiça da c^usa, 
não fez caso das consequências. Elle firmemente se 
capacitou que seria a maior indignidade e baixeza, 
não arriscar sua vida para salvar o Monarcha e a 
Constituição, e quiz fazer mais um exforço. 

O governo, porém, teve força para tudo esmagar, 
e o senador Feijó foi prezo e deportado, sahindo de 
Santos, n'um vapor, sem roupa, sem dinheiro, e apenas 
chegado ao Rio teve ordem para se passar no meio 
do mar tempestuoso para outra embarcação que o 
deveria "no dia seguinte levar á Província do Espirito 
Santo I 

Em vão se fez ver a falta de commodos para o 
illustre enfermo (1), a razão do ])orão lhe foi assigna- 
ladal 

Honra seja feita ao digno otticial commandante, que 
fez quanto lhe era possivel para minorar os soffrimen- 
tos da infeliz victima, a quem seguiremos no seu 
martyriol 

Os elementos lhe foram mais benignos do que os 
homensl Elle summamente inconnnodado, foi lançado 



(1) Feijó n'essft oecasião ostava também soflfrendo ilos 
olhoR. 

{N<ila (to anclm:) 



240 



nas praias da cidade da Victoria, sem ter unia humilde 
choupana, ao menos, [)ara ahrigar-se. Pediu a prizâo 
pubhea, e mesmo esta llie foi negada! 

É muito, Senhores! Que mais se faria ao mais 
abominável scelerado! 

Pois um ministro de Jesus Christo, o heroe de 
1831, o Regente do Acto Addicional, o patriota incor- 
ruptivel, o amigo da Constituição, o salvador do Throno 
Imperial, o primeiro brasileiro é assim tratado?! 

E no século xix, e pelos que descendem d'essa 
Nação (|ue reprehende seus antepassados pela ingratidão 
a seus Albuquerques, Pachecos, Cíistros, Camões e outros, 
que se sacrifica uma das maiores glorias nacionaes?! 

Era, porém, preciso que tudo isto occorresse, para 
provar a incomparável conformidade do illustre pros- 
cripto. Era tudo necessário para que seu nome se 
associasse ao dos heroes, (pie a Historia respeita, e 
com direito se collocasse no pantheon americano! 

Se a })olitica de então, meus Senhores, aconselliava 
este bárbaro procedimento, a humanidade reclamava 
seus direitos e a virtude sua homenagem! 

Apenas foi divulgada a situação da infeliz victima, 
como á porfia correram a amparal-a pessoas gradas 
do logar; ellas a tractaram com o maior esmero; nada 
faltou ao illustre martyr. 

Nobres cidadãos da Victoria, (jue prestasteis soccorros 
ao benemérito da Pátria, receitei os votos reconhecidos 
das almaí? sensíveis e particularmente dos bons pau- 
listas! 

A poderosa mão do Omnipotente não permittiu (}ue 
o Sr. Feijó succumbisse no seu exilio. EUa (juiz que 
elle desse ainda publico testemunho do sua coragem, 
sua firmeza de (*aractt»r e admirável fraiujueza. 

Foi no Senado, Senhores, de volta do seu desteiTo, 



250 



que elle ainda fez uni oxforço para vingar a lei fun- 
damental do Império, (1) porém debalde. 

As paixões revoavam então no Asylo da Prudência, 
nada conseguiu... 

Chegou o seu processo; elle deveria respondel-o, 
mas como fazel-o já moribundo? 

Assim mesmo, Senhores, arrastando-se, elle pôde 
penetrar no templo da lei e no meio dos seus pares, 
em frente de seus capitães inimigos, escudado pela 
pureza de sua consciência, depois de relatar, em desem- 
penho de sua palavra, quanto passou e soffreu no 
tirocinio de Santos á cidade da Victoria, e isto só 
porque julgava offendida a prerogativa do Senado, que 
elle já tocando a sepultura queria ainda defender, 
apresentou essa grande resposta, só própria d' elle, ou 
de um Spartanol 

Vós a tendes lido, vós não me taxareis de exage- 
rado! 

Se seu corpo n'aquella occasião annunciava próximo 
anniquillamento, sua alma conservava o vigor que não 
pôde ter n^aquelle grande acto o homem culpado! 

Que profundas meditíições não offerecia aquella 
scena?!... Que sensações não deveria produzir em todos 
que a presenciaram?!... Como appareceu grande o Sr. 
Feijó entre os seus inimigos! 

Plácido se retirou pela ultima vez d'esse magestoso 
salão, onde tantas vezes fez soar a sua voz a bem <la 
Pátria! Todos os olhos se fixam n'elle, lagrimas reben- 
tam, a commoção é geral ! 

Homens do mundo, vede a«i futilidades que vos 
rodeiam, meditae e confundi-vos! 



(1) Quiz que fossem responsabilisatlos os Ministros pela 
prisão de senadores. 

[Xota do (luctor.. 



251 



Demorada foi a decisão <l> Senado íicerca do pro- 
cesso do Sr. Feijó, (jiie desenganado pelos médicos de 
que na Corte seria certa a sua morte, se n'ella se 
conservasse, pediu que ou se decidisse o seu processo, 
ou licença para voltar á sua Provincia. 

Esta lhe foi concedida por mui grande maioria de 
senadoras, e o venerando ancião que como Temistocles 
queria que seus ossos se entregassem á ten-a onde 
pela primeira vez viu a luz do dia, chegou á capital, 
e depois de penosa e longa txgonia, em cujo periodo 
recebeu todos os Sacramentos da Igreja, como seu filho 
fiel, rodeado de seus amigos consternados, deu a alma 
ao seu Creador! 

Já não existe! 

Inimigos do virtuoso Feijó (se os ha alem da moi-te) 
lançae as vistas sobre o seu cadáver; vede ar vossa obra! 
E, se sois christãos, tirae proveito d'esse espectáculo! 

Sinceros amigos das instituições livres, chorae a 
perda do seu maior defensor! 

Orphãos, viuvas, indigentes, vinde pela ultima vez 
beijar a mão bemfazeja que matou vossa fome! 

Sinceros amigos do Sr. Feijó, antes que o seu corpo 
se esconda na morada da morte, regae-o com lagrimas 
de gi*atidão (í de saudade e dizei-lhe o adeus j>ara 
sempre! 

Ambiciosos, (jue tudo saerifi(*aes ao interesse do ouro, 
adniirae o Dentato Brasileiro (l), que tendo sido De- 



(1) CuriíiH Dentatus (ManiuK) Cônsul Romano, a quem 
dejiciB da guerra tios Samnitas se attrílme esta pln*ase magnâ- 
nima lie orgulhoso desinteresse: 

• Eu pretiro eommandar t)s rieos a ser rieo tm mesmo. > 

J. MOTTA. 



252 



putado, Senador, Ministro e Regente do Império, morreu 
pobre! 

Sim, Senhores, já nfio existe o virtuoso heroe paulista, 
nâo veremos mais o nosso amigo o Sr. Diogo António 
Feijó. 

Campa sepulchral, que enceiTas seus restos mortaes, 
sede mais grata a elles do que o foram os homens ao 
virtuoso cidadão que tanto os serviu! 

Se elles, ingratos, o assassinaram, sô tu ufana eiu 
guardar esse deposito precioso para honra de sua Pá- 
tria! 

E se a mão da amizade quizer sobre ti esculpir um 
epitaphio seja elle: 

FEIJÓ, ULTIMO DOS PAULISTAS ! — • 

Senhores. 

Roguemos a Deus pelo descanço eterno do nosso 
amigo.— DISSE. 

Cândido José da Motta. 



TYPOS TTUANOS 



O «lominio de eMli*an§;oirofi^ tMii Ylú 

Em novembro de 1894, em Ytú, ao passar pelo 
pateo do Patrocínio, surprehendeu-me n'aquella egreja 
uma facliada nova, ainda não bem acabada, a qual 
me pareceu bonita; mas, lem})rando-me logo da origem 
d'aquelle templo, tive um desgosto vendo destruído o 
monumento de gloria do sempre saudoso padre Jesuino 
do Monte-Carmcllo. Desejava que nunca se tocasse 
n'aquella architectura original de Ytú, que sempre des- 
perta nos ytuanos tantas recordações dos tempos idos, 
das grandes festas do Patrocínio, que levavam a Ytú 
os povos das villas vizinhas e até de dezenas de 
léguas. (1) 

Vi que se trabalhava também no interior, e sensi- 
bilisou-me muito ver destruída a architectura origina- 
líssima do génio artístico do padre Jesuino, destruindo-se 
as columnas, arcos e mais ornamentos do corpo da 
egreja. 



(1) Vinham famílias dos Campos Geraes (como se chama 
vam antigamente), de Cniytiba, Castro, etc., expressamente porá 
assistirem a essas festas. 

{Xota do auctor.] 



254 



Na capella-mór nâo so tinha tocado, e, como ella era 
(lo mesmo estj^lo, peiíHci (jue o vandalismo deixasse ao 
menos isso, por onde se i)()doria julgar ainda o grande 
mérito d'a(iuelle monumento, producto de uma cabeça 
que tinha a intuição da <irte, o ideal do bello, \'isto 
que sem instrucçâo alguma, sem ter visto melhores 
modelos que pudessem oriental-a, era, entretanto, archi- 
tecto, pintor, esculptor e nmsico compositor! 

Já tive occasiâo de fazer um esboço biographico do 
padre Jesuino e do padre- António Pacheco da Silva. 
O primeiro edificou a egroja do Patrocínio; o segundo 
mandou edificar á sua custa, em terras de sua chácara, 
o hospital do morpheticos ainda existente ; recolheu 
para alli os morpheticos do município o todos quantos 
depois appareciam em Ytií; sustentou-os emquanto vi- 
veu (nâo poucos annos), e só depois da sua morte a 
camará tomou conta d'elle e o sustenta até agora. 

N'este esboço astygniatisei o procedimento vandalico 
de estrangeiros, que nâo tom amor a esta ten-a e nem 
ás suas tradicções, e só cuidam em accumular riquezas 
qut3 vâo desfructar em seu paiz; e procurei mais 
despertar nos ytuanos o amor dos monumentos de sua 
gloria passada, e disse «que seria um crime se consen- 
tissem que se destruísse também a capella-mór». Os 
ytuanos deviam n'essa occasiâo os expellir do templo 
com o mesmo instrumento com que Jesus expulsou 
os mercadores do templo de Jerusalém. 

Estes esboços terão de ser publicados no Boletim 
do Instituto Histórico do Estado de S. Paulo. Circum- 
stancias imprevistas retardaram até agora a publicação, 
e isto me incommodava porque eu bem recriava que 
se completasse a destruição e o povo nâo fizesse o que 
devia, expellindo d'alli os vândalos. Nâo me enganei. 
Se me informa agora que o vandaHsmo de batina e 



255 



de saia tudo destruiu, e que da arcliitectura do padre 
Jesuiiu) só restíun íis paredes e pouquíssimo mais!... 
Os estrangeiros, (jue foram o pandemonium de batina 
e de saia (jue alli reina absolutamente, coinmetteram o 
atteutiido desi)rezando a opinião publica. 

Ciuando presidia o Estado de S. Paulo o Sr. Jorge 
Tybiriçá, se pretendeu demolir aquella arapuca, digno 
monumento do talento architectonico dos jesuitas, que 
cm S. Paulo se chama «Egreja do Collegio», e o bispo 
diocesano de então, fazendo-se acompanhar do clero 
da cidade, foi a palácio e pediu-lhe em nome do povo 
«que não fizesse isso porque seria um verdadeiro atten- 
tado; e se o jizesòe mostraria não ser paulista, i)OÍh 
que nenhum paulista (jue ama sua terra poderia ver 
com bons olhos a destruição do primeiro templo edi- 
ficado em S. Paulo. >' 

Ora, se aíjuelle monstruoso parto do génio artistico 
dos jesuítas, (jue não era obra de paulistas mas de 
estrangeiros, não devia desapparecer s() por ser o 
primeiro templo edificado em S. Paulo, como pôde o 
|)ovo de Ytú ver com bons olhos destruir-se o monu- 
mento de gloria do génio artistico de Ytú? Jamais 
deveriam ter consentido a realisação do attentado. 

Levam o dinheií-o do jiovo a troco de verónicas, 
rosários e agua de Lourdes, como antigamente faziam 
os bandeirantes aos Índios, e aqui só deixam o 
aviltamento e a desmoralisação do povo. E nem será 
isso uma novidade na historia, pois foi o (jue aconteceu 
aos grandes povos que se entregaram ao dominio ul- 
tramontano. Observem quaes são os povos da Europa 
que em vez de cahir se elevaram, e verão que são 
aiiuelles (jue se libertarnm (Vesse dominio. Olhem para 
a Hespanha, Portugal e Itália e nu^ditem sobre o futuro 
(Je S. Paulo. 



256 



Náo, os ytuanos têm cochilado! Deviam mostrar 
mais amor á sua terra, mais bairrismo e veneraviio ás 
memorias gloriostis dos seus antei)assados, que honraram 
sua terra pelas suaa virtudes e talentos. 

Porque essas aves de arribiição (ou de rapina) nada 
destruiram no Recife, onde intentaram reinar? Porcjue 
lá exisleui íiomons que não deixam ensinar a seus 
filhos que v peímittido nientir e perjurar quando conrier 
fazetulo reó-ervoò' nientaeò', e outras lições semelhante^s 
nne pervci-tem o caracter do homem. 

8e os homens livres de Ytú fizessem meeting, onde 
o orador esclarecesse o povo e o fizesse comprehender 
a magnitude do attentado premeditado, elle nâo con- 
sentiria com certeza. 

Em breve será {)ublicado no Boletim do Instituto 
o esboço referido, e os que o lerem verão se tenho 
ou não razão de me achar indignado contra esses 
vândalos e desculparão a aspereza de minha linguagem, 
se jKide haver asj^ereza censurável quando se trata de 
assumpto como este. 

Mogy-mirim, ô de novembro de 189Õ. 

António A. da Fonseca. 



Padre Jesuíno do IVIonte-Carmello 

No século XV, quando as scienciíis renasciam na Itália 
e as bellas-artes floresciam rápida e brilhantemente, 
nasceu em íb><2 na aldeia de Vinci, perto de Florença), 
Leonardo de Vhici, um dos nmiores génios das bellas- 
artes e das sciencias de que a liistoria tem perpetuado 
p nume e a gloria. Filho natural de um obsciu'o notário 



257 



de nome Pioro, desde a mais tenra odáde manifestou 
logo decidida vocação por as bellas-artos o principal- 
mente para a pintura. 

Seu pae, observando os seus variados e tão precoces 
talentos, levou-o a Florença, apresentou-o a Verachio, 
pintç)r já bem conhecido, e pediu-lhe que o admittisse 
em seu atelier. Aos vinte annos o discipulo de Verachio 
era já celebre pintor, musico, esculptor, architecto, e 
depois de mais alguns annos era também Leonardo de 
Vinci reconliecido grande homem de sciencia! 

Se Vinci tivesse nascido em Ytií no ultimo quartel 
<lo século passado, como Jesuino ds Monte-Carmello, 
de uma familia obscura e pobre, não passsria da altura 
de Jesuino, assim como este se tivesse nascido em 
Vinci talvez tivesse chegado á altura do Leonardo, ao 
menos nas bellas-artes, se encontrasse o atelier de Ve- 
rachio e a protecção de Lourenço dei Mediei, o magnifico. 

Jesuino aj)enas pôde aprender íis primeiras lettras 
e deu-se ao otKcio de f>intor como quem procura um 
ganlia-pão, e d'isso viveu alguns annos. Nunca viu um 
atelier, nem teve um mestre qualquer: entretanto ficou 
bom pintor, esculptor, musico, compositor e architecto, 
como adiante se verá. 

Jesuino casou-se e teve três filhos varões e uma 
filha; e enviuvou aos trinta annos, mais ou menos. 
N'esse tempo foi procurado e encarregou-se de fazer 
na egreja do Carmo algumas pinturas, de (jue precisava. 
Era então prior do Carmo um frade portuguez, frei 
Thomc, que, segundo a tradição, era homem illustrado 
e conhecia bem i)rincipalmente as mathematicas. Frei 
Thomé, emquanto Jesuino trabalhava, estava sempre alli 
palestrando com elle. Logo conheceu a sua grande 
intelligencia. e numa dessas j)alestras lhe dissera Jesui- 
no: «Desde a minha infância tive decidida vocação 

17 



258 



para o estado ecclesiastico, e não me ordenei, como 
tanto desejava, porque a pobreza de minha família não 
permittia que eu estudasse o latim, e dei-me a e^te 
officio como meio de vida. Hoje, que estou viuvo, 
quantas vezes me tenho lembrado com magua não saber 
o latim 1 Se eu o soubesse ainda me ordenaria.» . 

Disse-lhe então frei Thomé: «Se é esse o único 
obstáculo, furtae do vosso trabalho uma a duas horas 
todos os dias, ide á minha cella e eu vos garanto que 
em dois annos estareis habilitado para vos ordenardes. > 
Jesuino assim o fez e em dois annos, mais ou menos 
era o padre Jesuino do Monte-Carmello, tão celebre 
pelas suas grandes virtudes como pelas obras de arte 
que fez. 

Edificou uma casa, que até hoje existe em frente 
da egreja do Patrocínio, tomando toda a largura do 
pateo d'aquella egreja, que é também obra exclusiva- 
mente sua e de seu filho EUseu, que o ajudava. Esta 
casa tornou-se uma espécie de cenóbio onde residiam 
elle e seus quatro filhos, o menino João Paulo, creado 
e educado por elle, ao qual ensinou a musica, o fez 
estudar latim com o padre Manoel Floriano e ordenou-o. 
O padre João Paulo Xavier foi quem substituiu o padre 
Manoel Floriano na cadeira de latim. Moravam também 
os irmãos José Luiz e Francisco do Monte-Carmello e 
sua irmã Maria, que alli foram creados e educados e 
se tomaram bons cidadãos; e como estes muitos outros. 
AlU todos eram bem-víndos, os pobres achavam sempre 
(gasalho. 

Dos três filhos do padre Jesuino dois fizerain-se 
também padres, Simão e Elias, santo homem, que mor- 
reu velho, sempre gozando da maior estima e veneração 
do povo ytuano por suas virtudes evangélicas e pela 
pureza dos seus costumes. O terceiro filho, Eliseu, 



269 



casou-se e foi sempre o auxiliar de seu pae como 
esculptor e pintor, e notiivel pela extraordinária voz 
de baixo profundo: nunca se ouviu voz mais grave, 
uiais sonora e profunda. 

Padre Jesumo emprehendeu fazer a egreja do 
Patrocinio, pedindo para isso esmolas ao povo e traba- 
lhando elle e seu filho Eliseu com a dedicação, economia 
e zelo com que trabalha quem edifica uma casa para 
sua residência ou machinas para fazer uma fortuna. 

Entretanto estes homens nada esperavam receber 
n'este mundo em recompensa de tanto trabalho! 

Padre Jesuino fez a planta de sua egreja e exe- 
cutou-a tal qual como lá esttl. Tudo quanto alli se vê 
de arcliitectura, esculptura o pintura é obra exclusiva 
d'estes dois bravos homens, (jue se nílo tivessem vivido 
em Ytú, n'aquelle tempo de tanto obscurantismo, seriam 
celebres esculptores e grandes mestres das bellas-artes. 

Em 1817, concluiu-se a obra e preparou-se a inau- 
guração para o mez de novembro. Jesuino, que tinha 
largado o escopro de esculptor, com que tinha feito as 
imagens {)recisas para o templo, o pincel com que 
tinha feito iis pinturas e quadros e o compasso do 
architecto, tomou a penna e escreveu todas as musicas 
precisas para a festa da Senhora do Patrocinio. 

Este homem, que nunca tivera um mestre de musica 
(|ue lhe desse algumas noções de contraponto, escreveu 
as musicas para novenas, vésperas, matinas solenmes, 
Te-Deum laudamus, Pangelingua e missa solemne a 
dois coros, que todas foram executadas na grande festa 
da inauguração com applausos dos melhores mestres 
de musica que existiam na capital, entre os quaes 
figurava o poj^tuguez André da Silva Gomes, compositor 
muito estimado n'aquelle tempo e professor publico de 



260 



latim e rhetorica em 8. Paulo e membro do governo 
provisório de 1821 a 1822. 

Depois compò/v todíis aa musicas precisas para a fe«ta 
da semana santa, com Matinais de quai-ta, quinta e 
sexta-feira, musica que até hoje ainda se canta n'essa 
festa. 

O poeta portuguez Emilio Zaluar viajou em S. 
Paulo em 1858, mais ou menos, e nas suas Impre.^fnhs 
de viagpn<{, que publicou em um jornal do Rio, disse 
o seguinte: «Em Ytú ha o templo da Senhora do 
Patrocínio, de estylo gothieo, que attrahe a attençílo do 
viajante pela sua belleza e elegância; nem um viajante 
deve deixar de vel-o.» 

Em 1862, mais ou menos, (|uando eu residia uo 
municipio de Campinas, o finado senador Firmino Ro- 
drigues Silva, (jue foi um dos ornamentos do senado 
brazileiro, foi a Campinas em viagem de recreio. Depois 
de estar dois dias em minha fazenda, leyéi-o pani 
Ytú; e como não haviam estradas de ferro, levei-o em 
um troly. Viajámos, pois, sete léguas no mesmo assento 
e muito conversámos durante o dia. Então tive occasião 
de contar-lhe a historia da construc<;ão do Patrocínio, 
e contei-lhe o que d'e!=;sa egreja disse o Ztiluar. 

— Pois quero ver esse templo amanhã, — me disse 
elle. No dia seguinte lá fomos; estava a egreja aterta 
e deserta, porijue já tinham dito a missa. 

O senador entrou, parou em baixo do coro e em 
silencio examinou e observou tudo por muito tempo; 
seguiu depois vagarosamente até á capella-mór e díi 
mesma sorte voltou até onde me deixara, e ainda cm 
silencio observava. Então llie disse eu: 

— Sr. senador, o que acha? C) Zaluíy' teve on não 
razão no que disse d' esta egreja? 



261 



— Não tem razão, — me rospjiuleu seccaraente.--- 
Isto nunca foi estylo gothico. 

— Então que estylo tem? — eu lhe preguntei. 

— Nem um, — me replicou. — Não é gothico, nem do- 
rico, nem corinthio, jião tem estylo algum conhecido. 
E ó n'isso mesmo que está o seu grande mérito! F, 
um parto .vm/ generis, um estylo original, que saiu da 
cabeça de um artista que não conheceu estylo algum, 
nia'^ tinlia naturalmente n'aquella cabeça o ideal da 
arte. E um templo digno de verse pela sua elegância 
original. 

Em novembro próximo passado estive em Ytú, e, 
passando pelo Patrocínio, vi-o com uma fachada intei- 
ramente nova e elegante : gostei de o ver assim renovado. 
Vi também que haviam obras interiores. Entrei e vi 
que tinham tirado aquellas bonitas columnas que, em 
distancias regulares, subiam unidas ás paredes até 
certa altura, onde serviam de pedestal para os arcos 
que atravessavam o espaço de uma columna a outra, 
em frente, fingindo sustentar o tecto com os seus 
grandes ziml)orios; e eram certamente estas columnas, 
arcos e zimbórios que lhe davam aquella original ele- 
gância. Fiquei contristado e sahi immediatamente, 
maguado pela idéa que reformariam todo o templo e 
desappareceria para sempre o monumento que attestava 
que em Ytú houve um homem de génio, que tinha 
uma grande cabeça, assim como também um gi^ande 
coração e gi^andes virtudes! 

Se ha, como me disseram, necessidade de fazer-se 
columnas de tijolos para firmarem as paredes, podiam 
fazel-as ; mas coUoquem as antigas columnas em seus 
logares, unidas ás de tijolos, de maneira que seja con- 
servado o mesmo original estylo. Não sei se assim 
farão, e será um crime se o não fizerem. 



262 



Notei que na capella-mór não tinham tocado, e 
talvez seja conservado o estylo primitivo: se assim fôr 
se poderá tolerar a destruição no corpo da egreja. Os 
bons ytuanos deviam intervir e pedir a quem dirige 
essa obra que deixe ao menas a capella-mór intacta, 
de maneira que por ella se possa julgar o que foi o 
Patrocinio do padre Jesuino, e esse monmnento attes- 
tará o seu génio artistico. 

O seu filho padre Simão, que conservou o Patroci- 
nio até mil oitocentos e cincoenta e tantos, guardava 
com amor filial tudo quanto fora obra de seu pae e 
tinha bem conservadas as musicas de sua composição. 
Não sei quem foi seu herdeiro, nem onde param, ou 
se ainda existem as differentes peças de musica próprias 
ás grandes festas que outr'ora se celebravam n'aquelle 
templo. 

Ha 35 annos, mais ou menos, perguntei ao finado 
Manoel José Gomes, pae de Carlos Gomes (o qual foi 
amigo e admirador do padre Jesuino, e todos os annos 
ia a Ytú tocar o primeiro violino n'essa festa), se elle 
conservava alguma musica do padre Jesuino. Respou- 
deu-me que tinha todas, e as conservava com muito 
cuidado: que algumas vezes ainda se entretinha tocando 
em sua rebeca grandes trechos d^essas musicas de tão sau- 
dosa recordação. 

É provável que os seus filhos as conservem, e 
quiçá tenham em suas composições aproveitado algumas 
phrases ou themas. 

Como já disse, a casa do padre Jesuino era uma 
espécie de cenóbio onde viviam alguns padres e outros 
agregados á familia Monte-Carmello, e era também o 
rendez-vons diário de outros padres e seus amigos. N'esse 
tempo havia em Ytú muitos padres, não do aquelles 
que se ordenam por ofKcio, mas por vocação natural e 



èeà 



desejo de bem servir a huinanid i«lo segundo as suas 
crenças religiosas. Eram quasi todos filhos dos mais 
abastados fazendeiros, entre os quaes preponderam a 
idéa tque toda a familia nobre devia ter um filho no 
altar e outro no exercito.» Os frequentadores do cenó- 
bio patrocinista eram doesse género de padres, e muito 
respeitáveis por suas virtudes. 

O franciscano frei Ignacio de Santa Justina, perten- 
cente á familia Silveira, era intelligente, tinha estudos 
profundos da philosophia theologica, foi professor d'essa 
matéria no convento do Rio de Janeiro. Foi elle o pro- 
fessor do grande Mont'Alverne, que, quando por sua 
vez professor da mesma matéria e no mesmo convento 
frequentemente citava com respeito nas suas prelec- 
ções as opiniões de seu professor «frei Ignacio de Santa 
Justina, que ainda vive em Ytú», dizia elle. Referi u- 
me isto um discípulo de MonfAlverne, o dr. José Ma- 
noel da Costa Bastos, natural de Campos. O padre 
Arrudinha, que passava por santo, quando se desceu 
o seu cadáver no fundo da sepultura alguém se lem- 
brou de dizer que esta ficou ilhiminada! E tal era o 
credito de santidade do padre Arrudinha, que o povo 
facilmente acreditou isto e a tradição chegou até o meu 
tempo. O padre João Leite Ferraz (ou de Sampaio), 
conhecido por padre sargento-mór, porque fora casado 
e sargento-mór das milícias, fazendeiro rico e que, en- 
viuvando e sabendo seu latim, como grande parte dos 
fazendeiros de Ytú, ordenou-se ; padre António Joaquim 
de Mello, depois bispo D. António, homem de intelli- 
gencia superior ; padre José Galvão de França, muito 
bom sacerdote; padre Francisco Pacheco, que sendo 
engenheiro abastado, deu quanto tinha e morreu pobre; 
padre Manoel Floriano, filho do capião-mór Vicente da 
Costa, o qual foi professor de latim muitos annos ; pa- 



264 



dre Miiiioel da Silveira, (^ue inutilisou-se tornando-se 
anaclioreta e afinal cahiu em verdadeiro nevrosismo mys- 
tico, encerrou-se em um quarto do cenóbio, onde passou 
vinte e tantos ânuos sem dirigir uma palavra a alguém, 
nem responder a quem se dirigia a e!le, excepto ao 
padre Elias, filho do padre Jesuino, o único com quem 
junto rezava o officio divino e conversava o que era 
preciso e nos domingos ia ouvir sua missa na visiiiha 
egreja do Patrocinio ; padre António Félix, padre Je- 
ronymo Pinto Rodrigues e outros excellentes sacerdotes, 
que não foram padres de officio. 

Pertencia a este mesmo grupo o padre Diogo Antó- 
nio Feijó, depois regente do império, o qual n'esse tempo 
já níio se limitava á pliilosophia theologica, ensinava 
a philosophia kontiana e outras matérias. E já era dos 
que no Brasil mais conheciam a sociologia, e com o 
mesmo ardor com que propagava a doutrina christã, 
propagava também o direito publico, e conjunctamente 
com o finado Senador Paula Souza preparavam os 
ytuanos para a revolução de 1822, na qual elles tive- 
ram grande parte como consellieiros e directores da 
camará de Ytú. O padre António Pacheco, de quem 
já faJlei em outro logar; padre Nuno de Campos; padre 
Campos, o ex-jesuita, que á sua custa fez o antigo se- 
minário com boa capella, e por seu testamento o legou 
á camará municipal para que a!Ii se fundasse uma casa 
de educação. Doação de prédio feita com tão boas 
intenções e que hoje está transformado em uma hydra 
de mil cabeçais, que devoram a liberdade, a intelligeií- 
cia, os bons costumes, pêam a civilisação e pretendem 
reduzir aquelle povo a um rebanho de carneiros. 

Eram também d'esse tempo os padres Francisco 
Leite Ribeiro (meu tio avô) e Melchior de Pontes Ama- 
ral, homens de intelligencia que, em falta de biicha- 



265 



reis em direito, se demui ao estudo de jurisprudência 
e advogaram; Melchior de Pontes era um virtuoso sa- 
cerdote. Os padres Manoel Fiusa e os irmíios Thoinaz 
e António de Mello; padres Joaquim d' Almeida Leite 
e Joaquim Duarte Novaes eram todos filhos das prin- 
eipaes familias, bem differentes pelos seus costumes cí- 
vicos e religiosos d'essas aves de arribação (ou de rapi- 
na) que hoje dominam as egrejas de Ytú. Ordenavam- 
se pelo desejo de bem servir a Deus, segundo suas 
crenças, bem servindo a humanidade, e não pensavam 
em accumulai" grandes riquezas como aquelles phariseus 
do catholicismo, que têm vinte e uma mãos fechadas 
para regeitar hypocritamente (1) e duzentas e noventa 
e três mfios abertas para receberem (2) o que pedem, 



(1) Padre Elias passou toda a sua vida preoccupado com 
as cousas celestes. Quando cumpria seus deveres ecclesiasticos 
nas orações, festas e sermões, que elle não perdia occasiâo de 
pr^gal-os, mesmo sem remuneração, o tempo que lhe restava 
empregavao na edificação e reconstrucção de templos. Em 
18.-M) deteriorou-se o tecto da matriz de Ytú; o pa<lre ELias im- 
mediatamçnte, sem remuneração alguma, i>edindo esmolas ao 
povo como quem pedia o pão para a hocca e administrando 
como cousa sua, reconstruiu inteiramente o templo fazendo um 
tecto novo, retocou as pinturas e dourados e levantou uma 
grande e elegante torre, que o templo não tinha, onde collocou 
um bom relógio. Em três annos de trabalho estava tudo con- 
cluído. 

Apenas acabado este trabalho, foi elle concluir outro, que 
já tinha começado -o chamado conventinho, (pie ainda existe 
na esquina em frente do templo do Patrocinio, hoje reduzido 
a sanzala das escravas... ou das victimas da regi*a de Verga. 

(2) As mãos que não recebem são as casas dos padres 
professos, e as duzentas e tantas cpie recebem são as dos padres 
não professos, que vão pelo mundo creando (íollegios e accu 
moíam grandes riquezas. (Xolas do aaclor.) 



066 



fingindo-se muito pobres e sendo, entretanto, certo que 
pertencem á associação mais rica do mundo. 

Quando se removeu os ossos do padre Jesuino do 
convento do Carmo para a egreja do Patrocinío, o illus- 
tre padre Feijó fez um discurso fúnebre que é um do- 
cumento importante. O finado coronel GaJvâo, que era 
intimo amigo e grande admirador de Feijó, o conser- 
vava em manuscripto e deu-me uma cópia; eu mos- 
trei-a ao finado Joaquim Leme, que tinha em 1860 uma 
typographia em Ytú, e elle imprimiu muitos exempla- 
res e lá os distribuiu. Eu perdi o que finha, e ainda 
não pude descobrir um exemplar dos impressos. Se eu 
puder ainda encontral-o publicarei, e então se verá qual 
era o juizo que Feijó fazia do padre Jesuino e quanto 
venerava a sua memoria. 

N'esse discurso disse mais ou mencs o seguinte: 

«Quem pela primeira vez f aliava com este homem fi- 
cava, como fiquei eu, subjugado, como que magnetisa- 
do I Desejava sempre vel-o e ouvil-o ! Seu olhar, sua voz, 
seus gestos eram attrahentes ! Sem ter instrucçâo philo- 
sophica, subia ao púlpito e discorria sobre um ponto 
de religião ou de moral de modo que prendia a atten- 
ção dos ouvintes, porque as suas palavras sabiam do 
coração, eram o que elle sentia em sua consciência, 
eram a expressão do mais fino bom senso e d' uma 
philosophia santa, que lhe era natural, que não recebera 
dos livros.» 

O grande Erasmo, acabando de ler os TiíscuJunm, 
de Cicero (a maior cabeça da antiguidade, segundo a 
opinião do padre Ventura de Raulica), exclamou: — Fjite 
livro parece qtw foi dictado pelo próprio Dem! 

Eu creio que o padre Feijó podia accrescentar ao que 
ncima referi: — Elle era ^mn, porque stuas palatraa pa- 
reciam dictadas pelo próprio Detks! 



267 



II 



O menino Salles 

Km seu livro Os je^tiiita.^', disse Edgard Qiiiiiet: 
«Os jesuítas apresentiun-se em todo o mundo como 
propagadoras das sciencias, quando o seu verdadeiro 
fim latente e exclusivo é estorvar a propagação das 
sciencias: seus collegios tem por fim apoderar -se dos 
meninos para lhes ensinarem uma falsa pliilosophia e 
faLsissima historia univei^sal, nâo deixando que elles 
vâo a outras escolas onde poderiam aprender a verda- 
deira sciencia.» 

E para esclarecer melhor e demonstrar a verdade do 
que acima refiro, traduzirei em resumo mais alguns 
trechos do mesmo livro referentes ao assumpto, e 
também referirei alguns factos que tenho observado nos 
collegios ultramontanos de nosso Estado, os quaes 
provam cabalmente tudo quanto disse Quinet. 

Tratando do espirito de seita, disse: 

«Os da ordem comprehenderam perfeitamente os 
instinctos do seu século tempo; elles nasceram no meio 
de um movimento de innovaçílo, que tinha-se apode- 
rado de toda a Europa: o espirito de creaçâo, de 
descobertas, transbordava por toda a parte e arrastava 
o mundo. Havia uma sorte de embriaguez de sciencia, 
de poesia e de pliilosophia. A ordem de Loyola 
comprehendeu a necessidade de suspender e gelar o 
pensamento humano no meio d'este tm-billuio de idéas. 
E para conseguir isto só havia um meio, que foi 
applicado. EUa fez-se representante d'esta tendência, 
fingiu obedecer para melhor retel-a. Edificou casas de 
sciencias para prender o voo da mesma sciencia, dar 



268 



ao espirito um moviniento appareute que tornasse im- 
possível o real: ao^irieiar a curiosidade, extinguir no 
principio o génio de descobertas, al)afar o saber, eis o 
grande plano de educação seguido com tanta prudência 
e uma arte consumada. Jamais se viu tanta razão a 
conspirar contra a razão! Se accusou a ordem por 
perseguir a Gallileu, e ella fez ainda mais que isso, 
trabalhando com habilidade incomparável para extirpar 
do espirito humano a mania das invenções. Ella pre- 
tendeu resolver o problema de alliança da crença e da 
sciencia, da religião e da philosophia. Se, como fizeram 
os mysticos da média edade, ella tivesse desprezado 
a philosophia e exaltado somente a religião, também 
nada conseguiria, o século não lhe teria escutado. A 
ordem, porém, resolveu o problema da alliança fazendo 
brilhar nominati vãmente, concedendo-lhe as chanças da 
vaidade, as exterioridades da potencia, recusando-Die o 
uso. 

« Eis porque em qualquer parte que se estal>elecerara, 
nas cidades, nos ciimpos, na America ou nas índias, 
edificaram uma casa de crença, o templo, e a seu lado 
uma casa de sciencias, o collegio, com tudo quanto 
j>óde satisfazer o orgulho, para melhor illudir, bibliothoca, 
maimscriptos, instrumentos de physica, de astronomia, 
etc. 

«Mas nas regidas destinadas a serem secretas, a sociedade 
dirige ella mesma a constituição da sciencia sob o titulo 
de ratio stu(lio7'U77i. Vum das primeiras regras que nellas 
se encontra é esta — ninguém, nem mesmo nas matérias 
que não são de algum perigo para a piedade, deve 
apresentar uma questão nova, fienio nonis intrndueat 
qu(Fstioneji, nem deduzir d'uma verdade consquistada 
uma verdade nova. 



269 



«Que! quando nâo ha algum perigo nem para as 
coisas, nem para as idéas, se encadeiar desde a origem 
em um circulo, nem jamais olhar além, nem deduzir 
duma verdade conquistada uma verdade nova ! não é 
esterilisar o bom dinheiro do evangelho?... Não im- 
porta, os termos são precisos. 

«Adivinhareis jamais de quem, primeiro que tudo, 
se prohibe f aliar na philosophia dos jesuítas ? É nece.^fsario 
o menos posmel de DeUrS\ e mesmo não foliar absolutamente 
— QufPstione de I)eo... pretereantar? (Jue se não perinitta 
demorar-se sobre a idéa do Ente supremo* mais de 
três ou quati-o dias (e o curso de philosophia é de três 
ânuos !) Quanto ao pensamento de substancia é necessário 
nada absolutamente dizer, mhildieant. Sobretudo bem 
evitíir de tratar dos princípios, e principalmente, tanto 
aqui como em qualquer outra parte, se abster quanto 
possível (multo vero maffis abstinendnm) de se occupar 
em coisa alguma, nem da causa primaria, nem da 
liberdade, nem da eternidade de Deus, que elles não 
digam nada, que nào façam nada^ palavras sacramentaes 
(jue vêm cessíu* e formam todo o espirito <reste methodo 
j)hilosophico : que elle^ passem sem ejcanie (sans exanUner), 
não examinando é o fundo da theoria.» 

Quando li isto ha trintii ou trinta o seis annos na 
grande obra de Ciainet — O jesuitismo — e muitas outras 
gravíssimas accusações, eu, ({ue ainda mal conhecia os 
jesuítas, confesso que duvidei da sinceridade de Quinet, 
julguei-o um escriptor apaixonado e por isso um tanto 
{)arcial. Parecianie (jue havia exagera<;ão nas sutis 
accusações. 

Mas depois que puz-me em contacto com elles, em 
I8(>7, observei seus actos no collegio S. í^uiz, em Ytú, 
onde eu tinha collocado três filhos, convenci-me da 
verdade de tudo quanto tinha dito (Quinet. Então 



270 



procurei ler outros escriptores, estudei-os com aquelle 
interesse que todos os pães devem ter aíim de bem 
conhecerem quem sao os preceptores do seus filhos 
e o que lhes ensinam. E o resultado d'oste estudo foi o 
mesmo que obteve Litré. Conta Rénan que o velho Litré, 
antigo companheiro dos encyclopedistas, convencional 
de 93, depois da proclamação do consulado e do império, 
desgostoso e detestando os homens que deram aquelle 
golpe de estado, retirou-se completamente da politica, 
passou a morar no campo, onde permaneceu não poucos 
annos. Alli, meditando sobre os acontecimentos do seu 
paiz, chegou a receiar que suas opiniões philosophicas 
e politicas nâo fossem verdadeiras, como suppunha; e 
não querendo transmittir a seu filho, que entretanto 
estava na edade de aprender, senão o que elle thiha por 
verdades incontestáveis, lembrou-se de fazer uma revisão 
de suas crenças para rectifical-as, eliminando o que, 
porventura, offerecesse alguma duvida ao seu espirito. 
E o result^ido d' este estudo consciencioso o fez dar ao 
filho tal desenvolvimento e direcção ao espirito, que 
formou a intelligencia, o caracter e opiniões philosophicas 
do grande E. Litré. 

Eu desejava dar a meus filhos boa educação intelle- 
ctual e moral; e por algumas coisas que tinha lido, i>ela 
péssima tradicção que desde mijiha infância ouvira a 
respeito d'esses padres, e ainda mais por alguns actos 
que já tinha visto praticar-se no collegio, comecei a 
receiar de que não fossem estes os preceptores de 
que eu precisava. 

Observei-os então attentamente, estudei seus costu- 
mes e metliodos de ensino, e convenci-mo de que tudo 
quanto tinha Hdo em (iuinet e tantos outros escriptores^ 
que li com o fim de estudar a famosa Sociedade de 
Jesus, era tudo verdade incontestável. Firmei, pois, como 



271 



o velho Litré, conscienciosainente, minha opinião sobre 
a educiKjTu) que devia dar a meus filhos e a direcção 
do seu espirito: e ainda não me arrependi. E a obser- 
vação de certos factos praticados no collegio firmaram 
cada vez mais a minha opinião sobre os jesuitas. 

E desde então passei a detestal-os, sem que estes pa- 
dres em tempo algum me tivessem feito a menor offensa. 
Nada tenho com os individuos; mas detesto a companhia 
como associação perniciosa, que perverte o coração e 
estraga a intelligencia. Só o estado de perturbação das 
idéas sociaes politicas e moraes da Europa n^este fim 
de século xix tem consentido que ainda viva. Convicto, 
pois, do que é aquelle collegio, retirei immediatamente 
os filhos doesse foco de perdição para o coração e in- 
telligencia da mocidade. Vou agora relatar os factos 
que observei e firmaram minha opinião sobre os 
jesuitas. 

Quando, constrangido pela falta de collegio em 
que pudesse coUocar meus filhos, resolvi-me a levar 
para Ytú os jesuitas, no requerimento que dirigi ao 
governo em nome d*elles disse que elles se obrigavam 
H dar uma aula primaria externa para os pobres, gra 
tuitamente, e que jamais usariam de castigos physicos. 

E fiz isto sem consultar o padre Onorati, que era 
o futuro reitor, coni quem eu me entendia, e depois lhe 
disse que assim procedera por estar certo que elle 
acceitaria estas duas clausulas sem a menor repugnância, 
porque eram muito razoáveis e porque o collegio do 
Patrocínio as acceitára e praticava. E elle mostrou-se 
satisfeito. 

Poucos mezes de|)ois de inaugurado o collegio tive 
o primeiro desgosto, que mais me despertou o desejo 
de bem observar os costumes e rnethodos de ensino 
dos jesuitas. É o c^o : 



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Soube cj»ue o padre Onorati praticou o seguinte 
iicto ile astuciosa velhacaria para saber os mais iuti- 
inos desejos de seus aluinnos e por ahi estudar os 
seus caracteres e tendências; e por isso persuadiu as 
pobres creançíxs de que, dirigindo cada unia uma c^irta 
fecliada a S. Luiz Gonzaga, pedindo-lhe o que mais 
desejava e entregando a a elle Onorati, depois todas 
reunidas seriam queimadas perante o altar, e elles 
obteriam os favores que desejavam. As cartas foram 
escripttis e queimadas solemnemente diante do altar 
á hora da missa! (Jue perversa velhacaria! 

Tendo-se passado quasi um anno sem que se 
abrisse a escola primaria ptira os meninos pobres 
(como se havia promettido), fallei ao reitor que já 
era tempo de se cumprir aquella clausula. Respondeu- 
jne que ainda não podia porque tinha ainda muito 
poucos {)adres, e o faria quando tivesse numero suf- 
íiciente. Calei-me por achar razoável a desculpa; dei)ois 
fallei-lhe mais uma ou duas vezes, e sempre a mesma 
desculpa, (guando soube que tinha chegado uma turma 
de i)adres, fallei-lhe pela terceira ou quarta vez e fiz- 
Ihe ver que tinha padres sufficientes. 

Então, não podendo mais servir-se da mesma des- 
culpa, disse-níe com ar de muita gravidade: — ^ aSk. 
Fotí^scca, faUemos claro : eu não ahri essa eòcohi porque 
a julgo nào só inútil mas tamhem prejudicial. Fará que 
precim o poro saber lerí^ para ler jornaes e livms que 
não comprehende e fcar com a cabeça cheia de idêas 
falsnsy de erros e asneiras í^ Não. O povo não precisa 
saber ler.y> 

Repli(iuei-lhe : — Não creio isso porque os melhores 
observadores que têm visitado os Est^idos-l^jiidos do 
Norte affirmam (pie sua grande prosperidade é devida 
^ essa rede de instrucção primaria que se estende até 



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a ultima cUisse da sociedade, de sorte que faz surgir lá 
das mansardas ou de qualquer outro logar semelhante 
os meninos de talento, e os habilita a estudarem em 
sua residência e se fazerem cidadãos úteis ! 

Atalhou-me ijnmediatamente o audacioso jiadre 
com estas palavras : — « Xâo creia isífOy que não pasfía 
de phantasia de viajante.^; são modernismo a que vão 
perdendo a sociedade, são poesias: o povo não precisa 
saber ler!» 

Sahi immediatamente, porque não podia mais con- 
ter minha indignação e podia produzir um escândalo; 
affastei-me para sempre desse verdadeiro filho de 
Lovohi, (]ue com tal desfaçamento declarava <|ue não 
cumpriria o compromisso que tomara. E isto prova que 
o tomara de má ft\ já com a intenção de não cum- 
prir, depois íjue conseguisse o (jue queria. Logo depois 
soube que violara a outra clausula e usava de castigos 
phvsicos. 

Não podia mais duvidar (jue um collegio de jesuí- 
tas é um foco de i>erdivão i)ara a moral e intelligen- 
cia da mocidade. 

N*este temjK) tinha-se aberto em (\un[)inas o collegio 
do sr. Morton, para o (jual [)assei logo meus tilhos, em- 
bora com bastante sacrifício pecuniário. 

Referirei mais um facto, e só este será bastante |)ara 
provar o que pretendo, isto é, que o jesuita, como 
muito bem disse (^uinet, inculca-se propagador das 
sciencias, abrindo collegios para todo o mundo, mas que 
o verdadeiro Hm latente é, pelo contrario, estorvar a sua 
projuigação, apoderando-se dos meninos para (jue não vão 
ás outras escolas, onde poderiam aprender alguma 
cousa. 

Não tenho luna [)rova d(H*umental do (pie vou referir 
por ter ou\ndo do finado bispo I). António Joa^juim de 

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Mello e do Dr. Rabino de Oliveira, que infelizmente já 
não existem, e estou certo que si fossem vivos atte^ta- 
riam a verdade ; mas aflBrmo por minha honra e por 
tudo quanto tenho por mais sagrado — que não ha ura 
pensamento ou uma phrase do que vou referir que nâo 
seja a verdade do que ouvi de D. António e do Dr. 
Rubino. 

D. António era um bom amigo de meu pae, cuja casa 
elle frequentava com familiaridade; habituou-me á sua 
amável conversação. Quando elle desgostoso de S. 
Paulo, retirou-se para Yti^, eu frequentava sua e^isa, e 
elle, que em sua conversação particular eia tão sincero 
que ás vezes tocava á ingenuidade, muitas veze^ desa- 
bafava, queixando-se do modo porque seus adversá- 
rios o maltratavam e não podiam toleral-o, porque 
estavam habituados a praticar tudo quanto queriam, 
livremente, pela relaxação em que tinha cahido o governo